{"id":62,"date":"2010-08-08T15:12:48","date_gmt":"2010-08-08T18:12:48","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2010\/08\/diario_do_doutor_da_selva_1\/"},"modified":"2010-08-08T15:12:48","modified_gmt":"2010-08-08T18:12:48","slug":"diario_do_doutor_da_selva_1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2010\/08\/08\/diario_do_doutor_da_selva_1\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio do doutor da selva"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/albert1.jpg\" alt=\"albert.jpg\" width=\"337\" height=\"336\" \/><br \/>\nEm 1905, Albert Schweitzer era um pastor luterano de 30 anos, professorde Teologia da Universidade de Estrasburgo (Fran\u00e7a), escritor e m\u00fasico respeitado como um dos grandes int\u00e9rpretes de Bach. N\u00e3o satisfeito com o status que j\u00e1 desfrutava, come\u00e7ou a estudar Medicina com o prop\u00f3sito de se embrenhar nos t\u00f3rridos e miser\u00e1veis rinc\u00f5es da \u00c1frica Equatorial para tratar seus enfermos. Oito anos depois estava no Gab\u00e3o, ent\u00e3o col\u00f4nia francesa. Em 1952 entrou para a lista de ganhadores do pr\u00eamio Nobel da Paz.<\/p>\n<p>Em <em>Entre a \u00e1gua e a selva<\/em>, Schweitzer narra essa experi\u00eancia pioneira que inspiraria a cria\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria M\u00e9dicos Sem Fronteiras, em 1971, tamb\u00e9m na Fran\u00e7a e igualmente premiada com o Nobel da Paz, em 1999. Lan\u00e7ada pela primeira vez no Brasil nos anos 1950 pela Editora Melhoramentos, a obra agora \u00e9 reeditada pela Editora Unesp, com tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Geraldo Vieira. O livro ser\u00e1 lan\u00e7ado na Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo, que acontece entre os dias 12 e 22 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Schweitzer narra com muita objetividade as li\u00e7\u00f5es que aprendeu como &#8220;doutor da selva&#8221;, como ele se autodenominou, numa esp\u00e9cie de etnografia permeada de observa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, sociol\u00f3gicas, filos\u00f3ficas ou simplesmente prosaicas, num texto ligeiro que entret\u00e9m o leitor que aprecia a literatura de viagem e os di\u00e1rios de exploradores que desbravaram novos continentes.<\/p>\n<p>A aventura come\u00e7a em 1913, quando o m\u00e9dico embarca no navio que, antes de chegar ao Gab\u00e3o, passa pelo Senegal e o Congo. &#8220;N\u00e3o tive boa impress\u00e3o de Dakar&#8221;, escreve. &#8220;N\u00e3o posso me esquecer da brutalidade com que s\u00e3o tratados os animais naquele lugar.&#8221; Em Lambar\u00e9n\u00e9, destino final da viagem, ele j\u00e1 na chegada se surpreendeu com o prec\u00e1rio estado de sa\u00fade e a hostilidade dos gaboneses que ele teria de enfrentar.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico mission\u00e1rio tratou tudo, de diarreia a transtornos mentais, sempre com parcos recursos. Seu primeiro consult\u00f3rio foi montado num antigo galinheiro. Mas as dificuldades nem sempre vinham da falta de dinheiro. &#8220;N\u00e3o sei como poderei continuar a alimentar meus doentes. Aqui passou a dominar quase a carestia total&#8230;por causa dos elefantes&#8221;, relata o m\u00e9dico no Natal de 1914.<\/p>\n<p>Qualquer iniciativa agr\u00edcola era aniquilada pela abund\u00e2ncia dos animais, cuja origem ele explica. &#8220;Se a popula\u00e7\u00e3o nativa diminui, como \u00e9 o caso em muitas \u00e1reas, h\u00e1 bem menos ca\u00e7adas. Al\u00e9m disso, os nativos esqueceram a arte primitiva da ca\u00e7a (primitiva e todavia t\u00e3o sagaz) com que seus antepassados colhiam em armadilhas os bichos.&#8221;<\/p>\n<p>Negando os estere\u00f3tipos da \u00e9poca, Schweitzer se esfor\u00e7ou em mostrar que o nativo africano n\u00e3o era um pregui\u00e7oso, &#8220;mas sim um homem livre&#8221;. Defendia que &#8220;o essencial \u00e9 que exista um esp\u00edrito de fraternidade&#8221; entre os povos, ainda que a forma pela qual ele colocava esse princ\u00edpio em pr\u00e1tica se revele hoje preconceituosa, paradoxo que n\u00e3o invalida o m\u00e9rito de sua miss\u00e3o, por\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8220;O negro \u00e9 como uma crian\u00e7a&#8221;, escreveu. &#8220;Sem autoridade n\u00e3o se obt\u00e9m nada de uma crian\u00e7a. Por consequ\u00eancia, preciso estabelecer f\u00f3rmulas entre nossas rela\u00e7\u00f5es de maneira que a minha autoridade natural se manifeste. Defino da seguinte forma a minha atitude para com o primitivo: &#8216;Sou teu irm\u00e3o, mas teu irm\u00e3o mais velho&#8217;.&#8221;<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>Resenha publicada na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=1511\">edi\u00e7\u00e3o de agosto<\/a> da Unesp Ci\u00eancia.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1905, Albert Schweitzer era um pastor luterano de 30 anos, professorde Teologia da Universidade de Estrasburgo (Fran\u00e7a), escritor e m\u00fasico respeitado como um dos grandes int\u00e9rpretes de Bach. 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