{"id":641,"date":"2014-12-14T23:04:41","date_gmt":"2014-12-15T02:04:41","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=641"},"modified":"2014-12-14T23:04:41","modified_gmt":"2014-12-15T02:04:41","slug":"uma-reportagem-desleixada-sobre-publishers-predatorios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2014\/12\/14\/uma-reportagem-desleixada-sobre-publishers-predatorios\/","title":{"rendered":"Uma reportagem desleixada sobre publishers predat\u00f3rios"},"content":{"rendered":"<p>A reportagem \u201c<a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/ciencia\/uma-praga-da-ciencia-brasileira-os-artigos-de-segunda\">Uma praga na ci\u00eancia brasileira: os artigos de segunda<\/a>\u201d, publicada na revista Veja no domingo retrasado (6\/12), causou espanto (para dizer o m\u00ednino) entre pesquisadores, alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e outros profissionais ligados ao mundo acad\u00eamico brasileiro. Eu fiquei perplexa com tantas informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o refletem a realidade. E pela repercuss\u00e3o no boca a boca e nas redes sociais, percebo que n\u00e3o fui a \u00fanica. O texto traz um problema real, por\u00e9m sob uma \u00f3tica distorcida e com tom incriminat\u00f3rio que desinforma leitores acad\u00eamicos e n\u00e3o-acad\u00eamicos. Para quem n\u00e3o leu, fa\u00e7o uma sinopse.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria aborda a pr\u00e1tica de pesquisadores brasileiros de publicar artigos cient\u00edficos em peri\u00f3dicos de reputa\u00e7\u00e3o duvidosa que, mediante a cobran\u00e7a de uma taxa de publica\u00e7\u00e3o, aceitam quaisquer trabalhos sem que esses passem pela revis\u00e3o por pares. Eles fariam isso porque, como a qualidade dos artigos \u00e9 supostamente baixa, teriam poucas chances de serem aceitos por um peri\u00f3dico de maior impacto.<\/p>\n<p>Por meio deste subterf\u00fagio, os cientistas driblariam um mecanismo cl\u00e1ssico, secular da ci\u00eancia para avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do resultados gerados por uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. E ao mesmo tempo se beneficiariam ilegitimamente da pontua\u00e7\u00e3o que a publica\u00e7\u00e3o de tais \u00a0artigos lhe confere ao curr\u00edculo, de acordo com os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de ag\u00eancias como Capes e CNPq. Avalia\u00e7\u00e3o essa que \u00e9 importante tanto para a obten\u00e7\u00e3o de recursos para novos projetos de pesquisa quanto para a progress\u00e3o na carreira acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: como s\u00e3o cada vez mais pressionados para publicar, os pesquisadores estariam se valendo cada vez mais deste tipo de publica\u00e7\u00e3o \u2013 que a reportagem chama (sistematicamente ao longo do texto) de \u201cperi\u00f3dicos desleixados\u201d -, o que seria atentado contra \u00e0s boas pr\u00e1ticas de publica\u00e7\u00e3o e \u00e0 pr\u00f3pria \u00e9tica do fazer cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Do ponto de vista jornal\u00edstico, este \u00e9 um daqueles casos em que uma boa ideia de pauta terminou numa reportagem lastim\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pauta \u00e9 oportuna porque, de fato, estas publica\u00e7\u00f5es existem e seu n\u00famero cresce em ritmo assustador. \u00c9 uma praga mesmo, no mundo inteiro. E \u00e9 uma pena que a reportagem n\u00e3o tenha usado o termo apropriado para se referir a estes peri\u00f3dicos, bem como \u00e0s editoras (algumas delas de fachada) que os publicam. Nos meios acad\u00eamico e editorial, tais empresas s\u00e3o conhecidas como publishers predat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Atentar aqui para o uso do termo t\u00e9cnico n\u00e3o \u00e9 preciosismo, por duas raz\u00f5es. Primeiro, porque d\u00e1 uma refer\u00eancia para quem quiser saber mais fazendo buscas no Google. Ainda que n\u00e3o haja muita coisa em portugu\u00eas, a pesquisa com \u201cpredatory publisher\u201d ou \u201cpredatory journal\u201d vai trazer algumas dezenas de milhares de fontes para o leitor se informar melhor sobre este fen\u00f4meno (h\u00e1 <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Predatory_open_access_publishing\">verbete na Wikipedia<\/a>). Segundo: ao saber como funciona esta pr\u00e1tica predat\u00f3ria, compreende-se que o papel dedicado ao pesquisador \u00e9 o de presa.<\/p>\n<p>Como em todo ramo h\u00e1 picaretas, deve haver entre os pesquisadores quem se vale deste tipo de peri\u00f3dico como uma via f\u00e1cil e r\u00e1pida para publica\u00e7\u00e3o de artigos. Mas, sendo bastante pragm\u00e1tica, vejo pelo menos dois motivos que me levam a crer que a pr\u00e1tica n\u00e3o seja disseminada nem esteja se disseminando no Brasil.<\/p>\n<p>A principal raz\u00e3o \u00e9 que a imensa maioria dos peri\u00f3dicos tidos como predat\u00f3rios n\u00e3o tem fator de impacto ou n\u00e3o est\u00e1 indexada nas bases de dados mais respeitadas, como Web of Science, Scopus, PubMed e outras espec\u00edficas de cada \u00e1rea. Esses s\u00e3o os principais requisitos, para a maioria das \u00e1reas, para que um t\u00edtulo seja inclu\u00eddo no Qualis (o sistema indexador da Capes). Fora dele, o peri\u00f3dico \u00e9 muito pouco atrativo para os autores.<\/p>\n<p>Ainda que a reportagem tenha citado alguns peri\u00f3dicos que figuram no Qualis, e que s\u00e3o surpreendemente bem avaliados, acho mais prov\u00e1vel que isto seja um acidente de percurso do que um ato de m\u00e1 f\u00e9. A classifica\u00e7\u00e3o das revistas no Qualis n\u00e3o \u00e9 feita na canetada por um burocrata da Capes, mas faz parte de um trabalho maior e complexo realizado por comit\u00eas de \u00e1reas que se re\u00fanem a cada 3 anos e s\u00e3o formados por pesquisadores. Pesquisadores que, na minha vis\u00e3o, ainda n\u00e3o est\u00e3o suficientemente informados sobre esta praga digital que afeta o mundo da comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil reconhecer um peri\u00f3dico predat\u00f3rio. Muitas vezes as evid\u00eancias s\u00f3 ficam claras depois de ele estar operando h\u00e1 alguns anos. Com alguma frequ\u00eancia pesquisadores me perguntam coisas do tipo: \u201crecebi este email me convidando para publicar\/fazer parte do conselho do editorial, voc\u00ea conhece esta revista ou publisher?\u201d Geralmente eles n\u00e3o sabem da <a href=\"http:\/\/scholarlyoa.com\/publishers\/\">lista de Jeffrey Beall<\/a>, um bibliotec\u00e1rio americano dedicado a desmascarar os impostores. Quase sempre o suspeito est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Mas a lista de Beall n\u00e3o \u00e9 consensual, ainda que seja umas das refer\u00eancias mais importantes nesta \u00e1rea \u2013 algumas vezes ele j\u00e1 se viu obrigado a remover peri\u00f3dicos e publishers dela. De qualquer forma, se a reportagem tem algum m\u00e9rito, \u00e9 o de chamar a aten\u00e7\u00e3o da Capes e dos pesquisadores para este problema, e incentivar a discuss\u00e3o pelos comit\u00eas de \u00e1rea sobre a necessidade de uma avalia\u00e7\u00e3o mais rigorosa das revistas inclu\u00eddas no Qualis. Esta seria uma medida eficaz para desestimular autores que, por ignor\u00e2ncia ou m\u00e1 f\u00e9, consideram a publica\u00e7\u00e3o de seus artigos em algum destes peri\u00f3dicos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, h\u00e1 raz\u00f5es econ\u00f4micas para que a pr\u00e1tica n\u00e3o seja t\u00e3o disseminada no Brasil como a reportagem faz parecer. Da forma como as linhas de financiamento \u00e0 pesquisa est\u00e3o estabelecidas aqui, n\u00e3o \u00e9 nada simples para o pesquisador obter o recurso para pagar a taxa de publica\u00e7\u00e3o de artigo \u2013 mesmo quando ele quer publicar em peri\u00f3dicos de acesso aberto bem conceituados ou que simplesmente fazem seu trabalho corretamente (sim, eles existem e j\u00e1 vou falar deles).<\/p>\n<p>O principal desservi\u00e7o prestado pela mat\u00e9ria foi ter jogado um caminh\u00e3o de areia sobre a j\u00e1 confusa compreens\u00e3o que a comunidade acad\u00eamica brasileira tem sobre os peri\u00f3dicos de acesso aberto. Ela refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o equivocada de muitos pesquisadores de que todo acesso aberto \u00e9 predat\u00f3rio. Ou a de que os \u00fanicos peri\u00f3dicos de acesso aberto confi\u00e1veis s\u00e3o aqueles que n\u00e3o cobram taxa de publica\u00e7\u00e3o de artigo. Ou ainda a de que apenas as revistas de assinatura s\u00e3o dignas de respeito.<\/p>\n<p>A reportagem ignora a exist\u00eancia de peri\u00f3dicos de acesso aberto que cobram taxa de publica\u00e7\u00e3o e s\u00e3o altamente conceituados em suas \u00e1reas. Assim como os predat\u00f3rios que n\u00e3o cobram taxa de publica\u00e7\u00e3o (no in\u00edcio, at\u00e9 ter um certo n\u00famero de artigos publicados e com isso persuadir suas presas). E ao afirmar que \u201ctodo peri\u00f3dico desleixado \u00e9 de acesso aberto\u201d, omite a exist\u00eancia de t\u00edtulos de assinatura com baixa reputa\u00e7\u00e3o e impacto que igualmente aceitam qualquer artigo.<\/p>\n<p>Mas a confus\u00e3o n\u00e3o para a\u00ed. Trabalho para um publisher de acesso aberto h\u00e1 um ano e meio, tempo suficiente para colecionar alguns casos bem ilustrativos. Como o de um pesquisador para quem eu e um colega est\u00e1vamos tentando explicar os benef\u00edcios do acesso aberto em rela\u00e7\u00e3o aos peri\u00f3dicos de assinatura. Ele parecia intrigado e, a certa altura, nos questionou: \u201cMas hoje em dia tudo \u00e9 acesso aberto, n\u00e3o? Do meu computador [na universidade] eu entro na Web of Science e baixo qualquer artigo!\u201d. Faltava-lhe a informa\u00e7\u00e3o que a Capes gasta quantias consider\u00e1veis para dar acesso aos cientistas brasileiros n\u00e3o s\u00f3 a milhares de peri\u00f3dicos de assinatura mas tamb\u00e9m\u00a0\u00e0 pr\u00f3pria Web of Science. Isto n\u00e3o \u00e9 acesso aberto.<\/p>\n<p>A literatura em acesso aberto \u00e9 aquela que \u00e9 digital, online e que pode ser lida, reproduzida, distribu\u00edda e adaptada sem custo e livre da maioria das restri\u00e7\u00f5es impostas por direitos autorais e licenciamento. Esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Peter_Suber\">Peter Suber<\/a>, diretor do Harvard Open Access Project, reconhecido como um l\u00edder mundial do movimento de acesso aberto. Para quem quiser saber mais recomendo fortemente seu livro<i> Open Access <\/i>(MIT Press, 2012; que obviamente est\u00e1 em acesso aberto e pode ser visto <a href=\"http:\/\/cyber.law.harvard.edu\/hoap\/Open_Access_(the_book)\">aqui<\/a> \u2013 em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, publicar um artigo em uma revista de acesso aberto significa n\u00e3o apenas que os leitores em qualquer parte do mundo poder\u00e3o l\u00ea-lo e baixar o arquivo sem custo, mas tamb\u00e9m que os direitos autorais s\u00e3o exclusivamente dos autores. Al\u00e9m disso, seu conte\u00fado deve ter uma licen\u00e7a Creative Commons do tipo CC-BY, o que permite a livre reprodu\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o (para outros formatos e plataformas, por exemplo) por qualquer pessoa, sendo que a \u00fanica exig\u00eancia \u00e9 citar a fonte.<\/p>\n<p>Citando mais uma vez Suber (em tradu\u00e7\u00e3o livre), \u201co acesso aberto beneficia literalmente a todos, pelas mesmas raz\u00f5es que a pesquisa cient\u00edfica beneficia literalmente a todos. O acesso aberto desempenha este servi\u00e7o por facilitar a pesquisa e tornar seus resultados amplamente dispon\u00edveis e utiliz\u00e1veis. Beneficia os pesquisadores enquanto leitores por ajud\u00e1-los a encontrar e reter a informa\u00e7\u00e3o de que eles precisam, e tamb\u00e9m beneficia os pesquisadores enquanto autores ao ajud\u00e1-los a alcan\u00e7ar leitores que podem aplicar e citar seu trabalho e gerar novos conhecimentos com base nele. O acesso aberto beneficia quem n\u00e3o \u00e9 pesquisador porque acelera a pesquisa cient\u00edfica e todas as coisas que dependem dela, como novos medicamentos e tecnologias, a resolu\u00e7\u00e3o de problemas, a tomada de decis\u00f5es, o aperfei\u00e7oamento de pol\u00edticas p\u00fablicas e a aprecia\u00e7\u00e3o da beleza da ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>O acesso aberto s\u00f3 se tornou poss\u00edvel no in\u00edcio dos anos 2000, gra\u00e7as \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o que a internet promoveu nos meios de comunica\u00e7\u00e3o em geral e na comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em particular. As facilidades tecnol\u00f3gicas para acessar, reproduzir e distribuir o conhecimento se chocaram com o modelo tradicional de peri\u00f3dicos, at\u00e9 ent\u00e3o baseado em ve\u00edculos impressos e em vigor h\u00e1 pelo menos 300 anos. Sob este modelo o acesso aos artigos tem custo, os autores t\u00eam de transferir os direitos autorais de seu trabalho para o publisher e muito pouco se pode fazer com este conhecimento, em termos de dissemina\u00e7\u00e3o, sem autoriza\u00e7\u00e3o dele. Na mesma \u00e9poca, o valor das assinaturas dos peri\u00f3dicos cresceu muito acima da infla\u00e7\u00e3o e universidades mundo afora come\u00e7aram a ter dificuldade em renov\u00e1-las. Como consequ\u00eancia, o modelo passou a ser questionado pela comunidade acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Tr\u00eas confer\u00eancias internacionais realizadas neste per\u00edodo produziram documentos que assentaram as bases do movimento de acesso aberto: <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Budapest_Open_Access_Initiative\">Budapest Open Access Initiative<\/a>(2002), <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Bethesda_Statement_on_Open_Access_Publishing\">Bethesda Statement on Open Access Publishing<\/a> \u00a0(2003) e <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Berlin_Declaration_on_Open_Access_to_Knowledge_in_the_Sciences_and_Humanities\">Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the Sciences and Humanities<\/a> (2003). A premissa comum entre os tr\u00eas \u00e9 a seguinte: na era digital, n\u00e3o faz sentido que os resultados de pesquisa cient\u00edfica financiada com recursos p\u00fablicos tenham barreiras de acesso e dissemina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por esta \u00e9poca surgiram os primeiros publishers de acesso aberto, tendo como pioneiros PLOS, em S\u00e3o Francisco (EUA), e BioMed Central, em Londres (Reino Unido). (Eu trabalho para o segundo.) Estabeleceu-se um novo modelo de neg\u00f3cio para a publica\u00e7\u00e3o de peri\u00f3dicos. Nele, os custos dos servi\u00e7os editoriais, em vez de serem cobertos pela cobran\u00e7a do acesso, como ocorre nas revistas de assinatura, agora s\u00e3o pagos por meio da taxa de publica\u00e7\u00e3o de artigo (APC, na sigla em ingl\u00eas). \u00c9 importante ressaltar que esta mudan\u00e7a n\u00e3o altera em nada o compromisso dos publishers e dos editores com as boas pr\u00e1ticas de publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, especialmente no que diz respeito \u00e0 revis\u00e3o por pares. E vale a pena esclarecer tamb\u00e9m que a cobran\u00e7a da APC deve ser feita depois desta revis\u00e3o e apenas se o artigo for aceito pelo editor-chefe, que toma sua decis\u00e3o baseado na avalia\u00e7\u00e3o dos revisores.<\/p>\n<p>Muitos outros publishers de acesso aberto surgiram desde ent\u00e3o. Paralelamente, diversos publishers tradicionais come\u00e7aram a migrar, pelo menos parte de seu portf\u00f3lio, para o novo modelo. Mas n\u00e3o demorou muito para que os impostores come\u00e7assem a aparecer.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 por tr\u00e1s dos peri\u00f3dicos predat\u00f3rios conhece muito bem o mundo acad\u00eamico e enxergou oportunidades. Percebeu que na \u00faltima d\u00e9cada a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica cresceu muito no mundo todo, mas especialmente nos pa\u00edses emergentes. J\u00e1 os recursos para pesquisa n\u00e3o aumentaram na mesma propor\u00e7\u00e3o, o que tornou o ambiente mais competitivo. A produ\u00e7\u00e3o de artigos passou a ser a principal m\u00e9trica usada na avalia\u00e7\u00e3o do desempenho acad\u00eamico, o que gerou uma press\u00e3o enorme, por parte das ag\u00eancias de fomento e dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, por este tipo de publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que hoje quase qualquer peri\u00f3dico, de assinatura ou acesso aberto, bem ou mais ou menos conceituado, tem de lidar com uma longa fila submiss\u00f5es, principalmente dos pa\u00edses emergentes. Nos t\u00edtulos mais estabelecidos, as taxas de rejei\u00e7\u00e3o subiram para conter a demanda. Em outros, os autores podem esperar mais de um ano para ter seu artigo publicado. Ou seja, \u00e9 muito artigo para pouca revista.<\/p>\n<p>Pressionados para publicar e\/ou frustrados com a demora de muitos peri\u00f3dicos ou rejei\u00e7\u00f5es sucessivas, muitos pesquisadores se tornam presas f\u00e1ceis dos publishers predat\u00f3rios, que infestam a caixa postal de suas potenciais v\u00edtimas. \u00c0s vezes o t\u00edtulo da revista e o website s\u00e3o muito parecidos com o de outra, tradicional, na qual aquele autor j\u00e1 publicou anteriormente. \u00a0O conselho editorial quase sempre \u00e9 fabricado e as indexa\u00e7\u00f5es, principalmente quando s\u00e3o muito vistosas, geralmente s\u00e3o falsas. Alguns usam fatores de impacto \u201calternativos\u201d que levam os autores a crer que se trata do (venerado) indicador da Thomson Reuters.<\/p>\n<p>Tem gente que se d\u00e1 conta da farsa a tempo, como quando recebe o aviso de aceite e o boleto para pagar a APC poucos dias depois da submiss\u00e3o \u2013 uma revis\u00e3o por pares decente raramente leva menos de dois meses. Outros, infelizmente, s\u00f3 percebem a armadilha depois que o artigo foi publicado, o que \u00e9 uma pena, pois jamais conseguir\u00e3o retir\u00e1-lo de l\u00e1.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poderia argumentar que bastaria apagar tais e-mails para n\u00e3o cair em cilada. Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Faz parte da rotina do pesquisador receber mensagens, nem sempre indesejadas, enviadas por publishers. Ele pode ter se registrado para receber alertas das novas edi\u00e7\u00f5es dos peri\u00f3dicos que acompanha, ser convidado para revisar artigos de revistas de sua \u00e1rea ou para submeter artigos para uma edi\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica de um t\u00edtulo no qual j\u00e1 publicou. E pode tamb\u00e9m receber convites para publicar em novas revistas de acesso aberto n\u00e3o predat\u00f3rias para as quais, sobretudo nos seus primeiros anos de exist\u00eancia, este tipo de promo\u00e7\u00e3o \u00e9 importante (e h\u00e1 formas de se fazer isso sem recorrer ao spam). Afinal, publishers s\u00e9rios tamb\u00e9m sabem que existe uma demanda reprimida e investem em novos t\u00edtulos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de atazanar a vida dos pesquisadores, os publishers predat\u00f3rios amea\u00e7am a expans\u00e3o do modelo de acesso aberto, que apesar do belo caminho trilhado nesses \u00faltimos 15 anos ainda \u00e9 minorit\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao modelo de assinatura. Para mim, a conclus\u00e3o que fica \u00e9 que precisamos urgentemente falar mais sobre as virtudes do acesso aberto. E esquecer aquela mat\u00e9ria desleixada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reportagem \u201cUma praga na ci\u00eancia brasileira: os artigos de segunda\u201d, publicada na revista Veja no domingo retrasado (6\/12), causou espanto (para dizer o m\u00ednino) entre pesquisadores, alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e outros profissionais ligados ao mundo acad\u00eamico brasileiro. Eu fiquei perplexa com tantas informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o refletem a realidade. 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