{"id":66,"date":"2010-09-08T17:18:21","date_gmt":"2010-09-08T20:18:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2010\/09\/trovadores_caipiras_1\/"},"modified":"2010-09-08T17:18:21","modified_gmt":"2010-09-08T20:18:21","slug":"trovadores_caipiras_1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2010\/09\/08\/trovadores_caipiras_1\/","title":{"rendered":"Trovadores caipiras"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-center aligncenter\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/LC_20100710_CURURU_00221.jpg\" alt=\"LC_20100710_CURURU_0022.jpg\" width=\"542\" height=\"360\" \/><br \/>\nA Rua do Porto, no centro hist\u00f3rico de Piracicaba, est\u00e1 lotada quando a viola solta o primeiro acorde e o cantador come\u00e7a a entoar seus versos rimados. \u00c9 a largada do cururu, o repente caipira.<\/p>\n<p>Como \u00e9 de praxe, a &#8220;fun\u00e7\u00e3o&#8221; tem in\u00edcio com a louva\u00e7\u00e3o ao Divino Esp\u00edrito Santo, homenageado da festa que acontece h\u00e1 184 anos, sempre no in\u00edcio de julho, na cidade do interior paulista mais conhecida por suas pamonhas e seu inconfund\u00edvel sotaque.<\/p>\n<p>Pela import\u00e2ncia do evento e pelo gabarito dos quatro cantadores (ou cururueiros) presentes, esse promete ser dos &#8220;b\u00e3o&#8221;, como diria qualquer um deles.<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga Elis\u00e2ngela de Jesus Santos liga a filmadora para registrar mais uma vez essa tradi\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica que s\u00f3 existe na regi\u00e3o do M\u00e9dio Tiet\u00ea, um tri\u00e2ngulo geogr\u00e1fico delimitado pelas cidades de Piracicaba, Sorocaba e Botucatu.<\/p>\n<p>Desafio cantado de improviso e ao som da viola, o cururu \u00e9 o objeto de estudo da doutoranda da Faculdade de Ci\u00eancias e Letras da Unesp de Araraquara, cuja rotina tem sido perseguir os cururueiros de festa em festa. &#8220;Meu trabalho de campo \u00e9 imprevis\u00edvel. Quando fico sabendo que vai ter cururu em alguma cidade, eu vou atr\u00e1s&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 Festa do Divino de Piracicaba sem apresenta\u00e7\u00e3o de cururu, l\u00e1 est\u00e1 Elis\u00e2ngela no dia 10 de julho, acompanhada da reportagem da Unesp Ci\u00eancia. O palco \u00e9 simples e r\u00fastico, mas os quatro cantadores e dois violeiros &#8211; como \u00e9 o costume &#8211; compensam a pobreza cenogr\u00e1fica com uma postura altiva e vestes elegantes.<\/p>\n<p>Tanto Elis\u00e2ngela quanto a plateia sabem que os escalados da noite s\u00e3o da melhor estirpe. Jonata Neto e Jo\u00e3o Mazzero representam Piracicaba; Cido Garoto (<em>foto acima<\/em>) e Dito Carrara vieram de Sorocaba.<\/p>\n<p>O cururu \u00e9 sempre um desafio entre duas cidades, embora cada cururueiro cante separadamente. Apesar do clima de competi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 vencedor oficial. Quem faz o prest\u00edgio do artista \u00e9 o aplauso do povo, que valoriza a capacidade de improvisar e, principalmente, a criatividade para ca\u00e7oar do advers\u00e1rio e responder aos seus ataques. Nesse jogo verbal, o humor \u00e9 presen\u00e7a obrigat\u00f3ria e o limite das provoca\u00e7\u00f5es \u00e9 o respeito ao Divino.<\/p>\n<p>Profano e sagrado se misturam nessa que \u00e9 uma das manifesta\u00e7\u00f5es culturais de cunho religioso mais antigas do Brasil, explica Elis\u00e2ngela, que no mestrado investigou suas ra\u00edzes hist\u00f3ricas, t\u00e3o imprecisas como as da maioria das tradi\u00e7\u00f5es orais.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de consenso entre os especialistas em cultura caipira, por\u00e9m, \u00e9 que o cururu tem origem no processo de coloniza\u00e7\u00e3o do interior paulista. \u00c9 obra do encontro dos bandeirantes com os ind\u00edgenas que viviam \u00e0s margens do rio Tiet\u00ea no s\u00e9culo 17.<\/p>\n<div style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"mt-image-center \" style=\"text-align: center;margin: 0pt auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/LC_20100710_CURURU_0038.jpg\" alt=\"LC_20100710_CURURU_0038.jpg\" width=\"250\" height=\"375\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Festa do Divino: tradi\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios Estados, s\u00f3 em S\u00e3o Paulo \u00e9 acompanhada do cururu<\/p><\/div>\n<p>Com os bandeirantes vieram os jesu\u00edtas, h\u00e1beis em usar elementos da cultura alheia como ve\u00edculo de catequese. Assim, introduziram a viola e os versos rimados, legado do trovadorismo da Europa medieval, para disseminar a palavra de Deus entre os ind\u00edgenas. Esses, por sua vez, incorporaram ao novo ritual crist\u00e3o uma coreografia que lembrava os movimentos de um sapo &#8211; cururu na l\u00edngua tupi.<\/p>\n<p>O nome ficou, mas a coreografia est\u00e1 completamente extinta no desafio contempor\u00e2neo. O escritor M\u00e1rio de Andrade foi um dos poucos a registr\u00e1-la quando percorreu a regi\u00e3o com sua Miss\u00e3o de Pesquisas Folcl\u00f3ricas, projeto que mapeou diversas manifesta\u00e7\u00f5es culturais populares no Brasil no fim dos anos 1930.<\/p>\n<p>O desaparecimento da dan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sinal de enfraquecimento da tradi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m. &#8220;O cururu est\u00e1 vivo at\u00e9 hoje por conta dessa capacidade de se transformar no tempo&#8221;, afirma a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p>Quem abre a apresenta\u00e7\u00e3o da noite \u00e9 Cido Garoto, 68 anos de idade e 50 de cururu. Por ser o primeiro, \u00e9 ele quem puxa a carreira, isto \u00e9, determina a rima a ser seguida por todos os cantadores naquela rodada.<\/p>\n<p>Como esperado, por causa da festa, Cido come\u00e7a com a carreira do Divino, o que significa que os versos devem rimar em &#8220;ino&#8221;. Mas a regra s\u00f3 vale depois do baix\u00e3o, um tipo de aquecimento entre violeiro e cantador, no qual esse \u00faltimo pronuncia uma sequ\u00eancia personalizada de &#8220;la-ri-la-rai&#8221;. Em seguida vem a louva\u00e7\u00e3o ao Divino e a sauda\u00e7\u00e3o ao povo, &#8220;que \u00e9 dever do todo cantorino&#8221;, canta ele.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Hora de atacar<\/strong><br \/>\nLogo depois Cido aproveita para alfinetar os advers\u00e1rios piracicabanos, porque um \u00e9 &#8220;s\u00e3o-paulino&#8221; e o outro canta como um cachorro &#8220;latino&#8221; &#8211; &#8220;latindo&#8221; no dialeto caipira. Aplausos da plateia, que assiste ao espet\u00e1culo enquanto come pratos t\u00edpicos, j\u00e1 que o palco fica em frente a uma esp\u00e9cie de pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o ao ar livre. As barracas em volta vendem pastel, lingui\u00e7a, virado e at\u00e9 leitoa \u00e0 pururuca.<\/p>\n<p>Louva\u00e7\u00e3o, sauda\u00e7\u00e3o, ataque e resposta. Essa \u00e9 a sequ\u00eancia b\u00e1sica seguida por todo cururueiro e que dura entre 15 e 20 minutos em cada rodada. Jo\u00e3o Mazzero, que se apresentou depois de Cido Garoto, responde \u00e0 cr\u00edtica futebol\u00edstica exaltando o XV de Piracicaba, time da segunda divis\u00e3o do campeonato paulista, mas que logo &#8220;vai t\u00e1 subino&#8221;, segundo ele.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o canina \u00e9 retrucada por Jonata Neto, para quem Cido quando canta parece uma cadela &#8220;parino&#8221;. J\u00e1 Dito Carrara preferiu versos mais focados na religi\u00e3o, no trabalho e na fam\u00edlia, num ritmo mais lento que o dos colegas. &#8220;Ele \u00e9 o mais conservador&#8221;, contextualiza Elis\u00e2ngela, que j\u00e1 o conhece de outros cururus.<\/p>\n<div style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0pt auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/LC_20100710_CURURU_0046.jpg\" alt=\"LC_20100710_CURURU_0046.jpg\" width=\"400\" height=\"267\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Os cururueiros: aposentados, eles s\u00e3o convidados a se apresentar quase toda semana em alguma cidade do M\u00e9dio Tiet\u00ea, principalmente em Piracicaba, Sorocaba, Tatu\u00ed e Tiet\u00ea<\/p><\/div>\n<p><em><\/em>Apesar das provoca\u00e7\u00f5es, o cururu a que assistimos at\u00e9 que foi bastante moderado, segundo a antrop\u00f3loga. Em outras ocasi\u00f5es, como em apresenta\u00e7\u00f5es em clubes e festas menores, &#8220;a coisa pega fogo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Nh\u00e1 Bentinha, 62, uma ex-artista de circo, ex-radialista e atualmente apresentadora de cururu, explica a diferen\u00e7a \u00e0 reportagem: &#8220;Hoje t\u00e1 tranquilo por causa do Divino, tem que respeitar. Mas tem lugar a\u00ed que, Deus \u00f4 livre, \u00e9 baixo cal\u00e3o mesmo&#8221;, diz em tom de reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Nh\u00e1 Bentinha nesse universo \u00e9 representativa das transforma\u00e7\u00f5es pelas quais vem passando o cururu &#8211; pr\u00e1tica historicamente masculina -, e que interessam \u00e0 pesquisadora. &#8220;N\u00e3o gosto muito de cantar. N\u00e3o tem mulher que canta e pra debater com homem n\u00e3o fica b\u00e3o. Ent\u00e3o eu fa\u00e7o uma sauda\u00e7\u00e3o e prefiro s\u00f3 apresentar&#8221;, justifica ela, que comanda o cururu que acontece a cada 15 dias no Clube Atl\u00e9tico Barcelona, em Sorocaba.<\/p>\n<p>Ao observar apresenta\u00e7\u00f5es e entrevistar cantadores e outros personagens, a pesquisadora vai fazendo a etnografia do cururu, tema do doutorado, apoiado pela Fapesp, a ser defendido daqui a dois anos. O objetivo geral \u00e9 revelar a l\u00f3gica das din\u00e2micas sociais que est\u00e3o por tr\u00e1s desse combate simb\u00f3lico t\u00e3o arraigado \u00e0 cultura do M\u00e9dio Tiet\u00ea.<\/p>\n<p>&#8220;[Essa abordagem] \u00e9 bem diferente da vis\u00e3o purista do folclorista&#8221;, pontua Alberto Ikeda, professor do Instituto de Artes da Unesp em S\u00e3o Paulo que estudou o cururu nos anos 1980 e participou da banca de mestrado de Elis\u00e2ngela, em 2008.<\/p>\n<p>O olhar antropol\u00f3gico tamb\u00e9m \u00e9 importante para desfazer estere\u00f3tipos e preconceitos, acrescenta Ikeda. &#8220;Ao contr\u00e1rio daquela imagem do caipira pregui\u00e7oso e indolente, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, com o cururu vemos o quanto a sagacidade e a destreza mental s\u00e3o apreciadas e valorizadas nessa cultura&#8221;, compara.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios cantadores admitem que o cururu est\u00e1 cada vez menos religioso e mais profano. &#8220;Antigamente a gente cantava mais na Escritura, agora \u00e9 mais divers\u00e3o&#8221;, diz Jonata Neto, 79 anos, cururueiro h\u00e1 mais de 50.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m mais aguenta ficar ouvindo s\u00f3 louva\u00e7\u00e3o&#8221;, concorda Cido Garoto, que \u00e9 tamb\u00e9m um dos principais divulgadores dessa arte. Escreveu Cururu &#8211; Retratos de uma tradi\u00e7\u00e3o (2003) e \u00e9 respons\u00e1vel pelo site <a href=\"http:\/\/www.osreisdocururu.com.br\/\">www.osreisdocururu.com.br<\/a>.<\/p>\n<p>Segundo Elis\u00e2ngela, a profana\u00e7\u00e3o do ritual come\u00e7ou a ocorrer a partir da d\u00e9cada de 1940, com a intensifica\u00e7\u00e3o do processo de urbaniza\u00e7\u00e3o das cidades do interior paulista. Apesar de ainda manter o v\u00ednculo religioso, mas j\u00e1 sem a fun\u00e7\u00e3o original de catequese, o cururu contempor\u00e2neo \u00e9 cada vez mais uma pr\u00e1tica da sociabilidade caipira.<\/p>\n<p>&#8220;Os cantadores passaram a falar mais da vida cotidiana, sobre os acontecimentos da cidade, intensificou-se o desafio entre eles&#8221;, descreve.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Versos sensuais<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o fim do trabalho de campo, \u00e9 de se imaginar que a pesquisadora ter\u00e1 muitas surpresas, como aconteceu na Festa do Divino de Piracicaba. L\u00e1 pelas tantas, Cido Garoto come\u00e7ou a descrever uma cena de sexo, cantando na carreira do A (com versos terminando em palavras como &#8220;cant\u00e1&#8221; e &#8220;gost\u00e1&#8221;).&#8221;Vou beijando ela da cabe\u00e7a at\u00e9 os carcanh\u00e1&#8221;, rimou. E prosseguiu com versos sensuais que, se n\u00e3o chegam a ser impr\u00f3prios para menores, foram capazes de surpreender tanto a plateia quanto a antrop\u00f3loga. Cururu er\u00f3tico?, pergunto a Elis\u00e2ngela. &#8220;Nossa, isso eu ainda n\u00e3o tinha visto&#8221;, confessa ela, rindo.<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>Publicado na edi\u00e7\u00e3o de agosto de 2010 da Unesp Ci\u00eancia.<\/em><br \/>\n<em>Fotos: Luciana Cavalcanti<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Rua do Porto, no centro hist\u00f3rico de Piracicaba, est\u00e1 lotada quando a viola solta o primeiro acorde e o cantador come\u00e7a a entoar seus versos rimados. \u00c9 a largada do cururu, o repente caipira. 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