{"id":68,"date":"2010-09-21T16:12:54","date_gmt":"2010-09-21T19:12:54","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2010\/09\/marvada_mesmo\/"},"modified":"2010-09-21T16:12:54","modified_gmt":"2010-09-21T19:12:54","slug":"marvada_mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2010\/09\/21\/marvada_mesmo\/","title":{"rendered":"Marvada mesmo"},"content":{"rendered":"<p>Pinga, cacha\u00e7a, branquinha, marvada ou, como dizem os ga\u00fachos, canha. A segunda bebida alco\u00f3lica mais consumida no pa\u00eds depois da cerveja tem muitos apelidos carinhosos. J\u00e1 a pedra no sapato de quem a produz atende por um nome comum apenas nos livros de toxicologia e qu\u00edmica anal\u00edtica: carbamato de etila.<\/p>\n<p>Subproduto indesej\u00e1vel do processo de fabrica\u00e7\u00e3o da aguardente de cana, e de alguns outros destilados, o carbamato de etila causa c\u00e2ncer em animais e provavelmente tem o mesmo efeito em pessoas, segundo classifica\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Internacional de Pesquisa em C\u00e2ncer, ligada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>A not\u00edcia n\u00e3o deve alarmar quem aprecia cacha\u00e7a com modera\u00e7\u00e3o, mas medidas para manter esse contaminante em n\u00edveis seguros certamente far\u00e3o bem a todos os consumidores. Como o c\u00e2ncer \u00e9 uma doen\u00e7a multifatorial, a preven\u00e7\u00e3o depende da redu\u00e7\u00e3o dos fatores que contribuam, ainda que pouco, para seu surgimento.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com o carbamato de etila em bebidas destiladas surgiu no Canad\u00e1 em meados dos anos 1980, e hoje boa parte dos pa\u00edses com legisla\u00e7\u00e3o sobre o assunto adotam o n\u00edvel proposto pelos canadenses, de at\u00e9 0,15 miligrama por litro (mg\/l). Na aguardente brasileira, por\u00e9m, esse limite quase sempre \u00e9 excedido, como mostra artigo publicado em junho deste ano na revista BMC Cancer por pesquisadores brasileiros, canadenses e alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Com base em 19 artigos publicados nos \u00faltimos anos, que avaliaram o teor do contaminante na pinga nacional, os autores calcularam um valor m\u00e9dio de 0,38 mg\/l. O principal objetivo da pesquisa foi calcular o risco de c\u00e2ncer entre os consumidores expostos a produtos com esse n\u00edvel de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado mostra que, se o limite de at\u00e9 0,15 mg\/l fosse respeitado, o potencial cancer\u00edgeno do carbamato de etila na cacha\u00e7a se reduziria em 1\/6 a 1\/3, explica Maria Cristina Pereira Lima, da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu e uma das autoras do artigo. Pode parecer pouco, mas \u00e9 algo que se soma ao potencial carcinog\u00eanico do pr\u00f3prio etanol, associado a tumores do trato digestivo. &#8220;\u00c9 um risco desnecess\u00e1rio e que podemos evitar&#8221;, diz a m\u00e9dica. &#8220;O etanol n\u00e3o d\u00e1 para tirar, porque a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais cacha\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>O carbamato de etila \u00e9 hoje uma das principais barreiras para a exporta\u00e7\u00e3o da cacha\u00e7a, porque os principais compradores &#8211; Alemanha, Estados Unidos, Portugal e Fran\u00e7a &#8211; cada vez mais rejeitam produtos fora da especifica\u00e7\u00e3o. Em 2009 o Brasil exportou 10,8 milh\u00f5es de litros de aguardente, mas isso \u00e9 menos de 1% do que produz anualmente, de acordo com o Instituto Brasileiro da Cacha\u00e7a, representante das empresas do setor.<\/p>\n<p>Instru\u00e7\u00e3o normativa do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, publicada em 2005, estabelecia que destilarias e alambiques nacionais tinham at\u00e9 30 de junho deste ano para adequar seus produtos ao padr\u00e3o internacional. Mas a regra valeu por menos de um m\u00eas, pois no dia 19 de julho o minist\u00e9rio prorrogou o prazo por mais dois anos. &#8220;H\u00e1 muita resist\u00eancia entre os grandes produtores&#8221;, afirma Douglas Wagner Franco, do Instituto de Qu\u00edmica de S\u00e3o carlos, da USP, e refer\u00eancia nacional em qu\u00edmica da cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Os grandes produtores s\u00e3o geralmente aqueles que produzem aguardente em colunas de destila\u00e7\u00e3o &#8211; torres em que o \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias vol\u00e1teis (que d\u00e3o aroma \u00e0 bebida) s\u00e3o separadas do caldo de fermenta\u00e7\u00e3o da cana-de-a\u00e7\u00facar. \u00c9 justamente nesse tipo de pinga que a concentra\u00e7\u00e3o de carbamato de etila tende a ser maior, segundo Franco. &#8220;A contamina\u00e7\u00e3o geralmente \u00e9 menor na aguardente artesanal, que \u00e9 feita em alambique&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O pesquisador explica que os alambiques levam vantagem porque neles o processo de destila\u00e7\u00e3o \u00e9 mais lento e feito em bateladas, de modo que as fra\u00e7\u00f5es inicial e final do destilado, conhecidas como cabe\u00e7a e cauda, s\u00e3o desprezadas. Aproveita-se apenas a por\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, ou corpo. Na destila\u00e7\u00e3o por coluna, o processo \u00e9 cont\u00ednuo, n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a, corpo e cauda; logo, tudo \u00e9 aproveitado.<\/p>\n<p>Cuidar dos detalhes da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para evitar a forma\u00e7\u00e3o de precursores qu\u00edmicos do carbamato de etila, j\u00e1 que a maior parte dele se forma ap\u00f3s a destila\u00e7\u00e3o, como mostraram os estudos do pesquisador de S\u00e3o Carlos. O problema \u00e9 que n\u00e3o se sabe quais s\u00e3o esses precursores na cana, explica Ian N\u00f3brega, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, coautor do artigo publicado na BMC Cancer.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Cana venenosa<\/strong><br \/>\n&#8220;A cana-de-a\u00e7\u00facar \u00e9 uma planta cianog\u00eanica&#8221;, diz N\u00f3brega. Isso quer dizer que ela, assim como a mandioca e a cevada, tem compostos conhecidos genericamente como glicos\u00eddeos cianog\u00eanicos, que uma vez degradados ou processados, liberam cianeto, um veneno bastante vol\u00e1til. &#8220;Faz parte do sistema natural de defesa da planta contra herb\u00edvoros&#8221;, acrescenta. \u00c9 da rea\u00e7\u00e3o entre esse cianeto e o etanol que surge o carbamato de etila.<\/p>\n<p>O mesmo inconveniente ocorria com o u\u00edsque at\u00e9 os anos 1990, mas foi resolvido quando pesquisadores descobriram a identidade qu\u00edmica do glicos\u00eddeo cianog\u00eanico presente na cevada. Com a revela\u00e7\u00e3o, os produtores passaram a usar variedades da planta que liberam pouco cianeto e a destilar mais lentamente, descartando (ou reprocessando) cabe\u00e7a e cauda, fra\u00e7\u00f5es nas quais a concentra\u00e7\u00e3o do tal precursor era maior.<\/p>\n<p>&#8220;No caso da cana-de-a\u00e7\u00facar, a identidade do glicos\u00eddeo cianog\u00eanico ainda \u00e9 desconhecida&#8221;, afirma N\u00f3brega. Logo, \u00e9 invi\u00e1vel controlar o precursor do carbamato de etila ainda na planta. Restam, segundo ele, apenas os cuidados com a destila\u00e7\u00e3o. Para Franco, a aguardente brasileira poderia se adequar aos padr\u00f5es internacionais se houvesse uma padroniza\u00e7\u00e3o nos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o, algo que ele v\u00ea com certo pessimismo.<\/p>\n<p>Apesar disso, a situa\u00e7\u00e3o vem melhorando, diz. H\u00e1 seis anos, apenas 20% das marcas de cacha\u00e7a passavam no teste do carbamato de etila, segundo o especialista de S\u00e3o Carlos. &#8220;Hoje, cerca de 20% s\u00e3o reprovadas&#8221;, compara. O problema \u00e9 que justamente entre essas est\u00e3o as que os brasileiros mais consomem.<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>Foto: Andr\u00e9 Mantelli<\/em><br \/>\n<em>Texto publicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/\">Unesp Ci\u00eancia<\/a>, edi\u00e7\u00e3o de setembro de 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pinga, cacha\u00e7a, branquinha, marvada ou, como dizem os ga\u00fachos, canha. A segunda bebida alco\u00f3lica mais consumida no pa\u00eds depois da cerveja tem muitos apelidos carinhosos. J\u00e1 a pedra no sapato de quem a produz atende por um nome comum apenas nos livros de toxicologia e qu\u00edmica anal\u00edtica: carbamato de etila. Subproduto indesej\u00e1vel do processo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":472,"featured_media":69,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-68","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-unesp-ciencia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/cachaC3A7a.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/users\/472"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}