{"id":77,"date":"2010-10-07T12:58:21","date_gmt":"2010-10-07T15:58:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2010\/10\/suicidio\/"},"modified":"2010-10-07T12:58:21","modified_gmt":"2010-10-07T15:58:21","slug":"suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2010\/10\/07\/suicidio\/","title":{"rendered":"Escalada do suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p>A primeira causa de morte por atos de viol\u00eancia no mundo n\u00e3o s\u00e3o os acidentes de tr\u00e2nsito, os homic\u00eddios nem os conflitos armados, mas o suic\u00eddio. Esse dado desconcertante foi revelado em outubro de 2002, em Bruxelas, numa reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) para divulgar as conclus\u00f5es do Relat\u00f3rio Mundial sobre Viol\u00eancia e Sa\u00fade. Ao l\u00ea-las (aparentemente pela primeira vez) para os convidados da cerim\u00f4nia, o ent\u00e3o primeiro-ministro da B\u00e9lgica, Guy Verhofstadt, n\u00e3o conteve o susto e, quebrando o protocolo, indagou incr\u00e9dulo: &#8220;\u00c9 isso mesmo?&#8221;.<\/p>\n<p>A cena est\u00e1 na mem\u00f3ria do psiquiatra brasileiro Jos\u00e9 Manoel Bertolote, que estava presente ao evento e, ao contr\u00e1rio do premi\u00ea belga, n\u00e3o tinha raz\u00e3o para se espantar. Havia sido ele, na \u00e9poca funcion\u00e1rio do Departamento de Sa\u00fade Mental da OMS, um dos principais respons\u00e1veis pela primeira compila\u00e7\u00e3o dos dados mundiais sobre suic\u00eddio, que chamaram a aten\u00e7\u00e3o da entidade para um dos mais complexos problemas de sa\u00fade p\u00fablica da atualidade.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s quase duas d\u00e9cadas na OMS, Bertolote deixou a Su\u00ed\u00e7a h\u00e1 dois anos e se instalou em Botucatu, no interior de S\u00e3o Paulo, onde \u00e9 professor da Faculdade de Medicina da Unesp. Tamb\u00e9m assessora a Secretaria de Sa\u00fade do munic\u00edpio na cria\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o de preven\u00e7\u00e3o de suic\u00eddios, que uma pesquisa anterior coordenada por ele comprovou ser altamente eficaz em v\u00e1rias cidades do mundo, entre elas Campinas (SP).<\/p>\n<p>Hoje Bertolote \u00e9 a pessoa certa no local certo, por assim dizer. No ano passado houve uma &#8220;miniepidemia&#8221; de suic\u00eddios em Botucatu. Entre 2000 e 2008, a m\u00e9dia anual de mortes por les\u00e3o autoinfligida na cidade havia sido sete. Em 2009 foram registrados 21 casos. At\u00e9 agora ningu\u00e9m consegue explicar o aumento t\u00e3o abrupto, mas o fato \u00e9 que no mundo todo, at\u00e9 mesmo em pa\u00edses em que as taxas de suic\u00eddio s\u00e3o tradicionalmente baixas &#8211; como o Brasil -, vem crescendo o n\u00famero de pessoas que precisam de ajuda para n\u00e3o sucumbir.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nAs mortes por suic\u00eddio aumentaram 60% nos \u00faltimos 45 anos, segundo a OMS. Quase um milh\u00e3o de pessoas se mata todos os anos &#8211; em um universo at\u00e9 20 vezes superior de tentativas. Na maioria dos pa\u00edses desenvolvidos, a viol\u00eancia autoinfligida \u00e9 a primeira causa de morte n\u00e3o natural. No Brasil, ela ocupa a terceira posi\u00e7\u00e3o &#8211; aqui as taxas de mortalidade por acidentes de tr\u00e2nsito e homic\u00eddios est\u00e3o entre as maiores do mundo.<\/p>\n<p>Outra mudan\u00e7a que vem sendo observada \u00e9 a faixa et\u00e1ria de quem comete suic\u00eddio. Historicamente mais comum entre os idosos, o ato vem crescendo entre pessoas de 15 a 44 anos. Um estudo de Bertolote e colaboradores, publicado em 2005 na <em>Revista Brasileira de Psiquiatria<\/em>, confirma essa tend\u00eancia no Brasil. E traz um dado surpreendente: um aumento de dez vezes na mortalidade por suic\u00eddio em jovens de 15 a 24 anos entre 1980 e 2000. Considerando apenas os homens da mesma faixa et\u00e1ria, esse \u00edndice aumentou 20 vezes.<\/p>\n<p>Em qualquer idade, o suic\u00eddio \u00e9 muito mais frequente no sexo masculino. Al\u00e9m de tentarem menos, as mulheres geralmente usam m\u00e9todos menos violentos e, portanto, menos letais, explica o psiquiatra. Uma exce\u00e7\u00e3o ocorre na zona rural da China, onde o autoenvenenamento por agrot\u00f3xicos \u00e9 a primeira causa de morte n\u00e3o natural entre mulheres de 15 a 35 anos. &#8220;O acesso ao m\u00e9todo faz muita diferen\u00e7a&#8221;, explica Bertolote. &#8220;Nesses lugares, \u00e9 muito comum guardar os pesticidas na cozinha da casa.&#8221;<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Doen\u00e7a psicossocial<\/strong><br \/>\nMas o que leva algu\u00e9m a tirar a pr\u00f3pria vida? At\u00e9 o s\u00e9culo 16 o suic\u00eddio era uma quest\u00e3o religiosa ou filos\u00f3fica, condenado ou glorificado dependendo de circunst\u00e2ncias e conveni\u00eancias. Quem primeiro afirmou que a tentativa de se matar era produto de doen\u00e7a mental foi o psiquiatra franc\u00eas Jean-\u00c9tienne Dominique Esquirol, em meados do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Anos depois, o tamb\u00e9m franc\u00eas \u00c9mile Durkheim, considerado um dos pais da sociologia moderna, defendeu no livro <em>O suic\u00eddio<\/em>, de 1897, que o ato \u00e9 resultado de uma sociedade que perdeu seus valores tradicionais, seus objetivos, sua identidade. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Karl Marx tamb\u00e9m se dedicou ao tema, descrevendo tr\u00eas casos de pessoas que sacrificaram a pr\u00f3pria vida, segundo ele, v\u00edtimas da opress\u00e3o e da luta de classes. De acordo com Bertolote, todas essas teorias apresentam alguma raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 visto atualmente como um transtorno psicossocial de causas m\u00faltiplas, em que fatores biol\u00f3gicos, ps\u00edquicos, sociais e culturais interagem de forma complexa, aproximando ou afastando as pessoas do abismo ps\u00edquico. A doen\u00e7a mental n\u00e3o tratada est\u00e1 presente na maioria dos casos, principalmente na forma de depress\u00e3o e de transtorno bipolar. O abuso de drogas, principalmente do \u00e1lcool, \u00e9 um ingrediente bastante comum.<\/p>\n<p>&#8220;Essas pessoas est\u00e3o t\u00e3o deprimidas que perdem a capacidade de se enxergar no futuro&#8221;, descreve o psiquiatra Neury Botega, da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Unicamp. Sua experi\u00eancia no atendimento a sobreviventes de tentativas mostra que a maioria n\u00e3o queria de fato morrer. Geralmente \u00e9 um ato de desespero depois de uma grande perda, fracasso ou trai\u00e7\u00e3o. Segundo ele, o fato de mulheres se matarem menos provavelmente se deve a aspectos culturais que fazem com que elas tenham mais facilidade para expressar e dividir suas ang\u00fastias. &#8220;O homem tende a manifestar sua frustra\u00e7\u00e3o se afogando na bebida&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Uma das formas de entender o que passava na cabe\u00e7a de um suicida \u00e9 por meio de aut\u00f3psia psicol\u00f3gica. Depois de alguns meses da morte, pesquisadores entrevistam pessoas da fam\u00edlia, amigos e colegas de trabalho. No Brasil, o \u00fanico trabalho deste tipo foi feito pela psic\u00f3loga Blanca Guevara Werlang, da PUC do Rio Grande do Sul, durante seu doutorado orientado por Botega e defendido em 2001 na Unicamp.<\/p>\n<p>&#8220;O comportamento suicida \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de uma dor psicol\u00f3gica insuport\u00e1vel&#8221;, define Blanca. Mas em sua avalia\u00e7\u00e3o ela descobriu que h\u00e1 fatores que podem proteger contra a tenta\u00e7\u00e3o de abreviar a vida, como os v\u00ednculos afetivos bem cultivados, o bom relacionamento com a fam\u00edlia, ter filhos, ter uma cren\u00e7a espiritual, uma condi\u00e7\u00e3o financeira est\u00e1vel e realiza\u00e7\u00e3o profissional, por mais simples que seja a ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender, portanto, como as press\u00f5es da vida contempor\u00e2nea tendem a aumentar as taxas de suic\u00eddio. &#8220;Hoje tudo \u00e9 mais imediato&#8221;, diz Blanca. &#8220;\u00c9 preciso definir rapidamente a vida profissional e ser bem-sucedido. O imediatismo aumenta a frustra\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a fam\u00edlia est\u00e1 mais pulverizada e os relacionamentos amorosos duram menos. Tudo isso abala a estabilidade emocional.&#8221;<\/p>\n<p>Se as press\u00f5es psicol\u00f3gicas que alavancam as estat\u00edsticas de suic\u00eddio n\u00e3o chegam a ser novidade, ficam por conta da gen\u00e9tica as evid\u00eancias mais recentes e intrigantes que ajudam a entender por que apenas alguns tentam se matar, quando as adversidades da vida atingem um n\u00famero bem maior de pessoas. \u00c9 ela que explica tamb\u00e9m por que os casos de suic\u00eddio s\u00e3o mais comuns em certas fam\u00edlias.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Gen\u00e9tica da impulsividade<\/strong><br \/>\nAs primeiras pesquisas sobre a gen\u00e9tica do suic\u00eddio surgiram em meados do s\u00e9culo 20 e se baseavam principalmente no rastreamento de casos em fam\u00edlias e na compara\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os g\u00eameos e adotivos. Como a depress\u00e3o tamb\u00e9m tem um forte componente heredit\u00e1rio, prevalecia a suspeita de que a mesma carga gen\u00e9tica que predispunha ao humor deprimido estivesse associada ao comportamento suicida. Mas viu-se que em muitas fam\u00edlias com casos de depress\u00e3o ao longo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es h\u00e1 rar\u00edssimos ou nenhum registro de algu\u00e9m que tenha se matado. Hoje se sabe que apenas 15% dos deprimidos tentam se suicidar.<\/p>\n<p>A chave para o mist\u00e9rio est\u00e1 no que os especialistas chamam de bin\u00f4mio impulsividade\/agressividade, um tra\u00e7o de personalidade que tamb\u00e9m tem forte car\u00e1ter heredit\u00e1rio, mas cuja carga gen\u00e9tica \u00e9 independente daquela associada \u00e0 depress\u00e3o. Como resume Bertolote, &#8220;junte na mesma pessoa depress\u00e3o, impulsividade\/agressividade e adversidades da vida e voc\u00ea tem um suicida em potencial&#8221;.<\/p>\n<p>O comportamento impulsivo e agressivo \u00e9 ainda mais importante para explicar o suic\u00eddio entre jovens, bem como em pessoas que o fazem com m\u00e9todos violentos, como queda livre ou arma de fogo, explica o psiquiatra Gustavo Turecki, da Universidade McGill em Montreal (Canad\u00e1), um dos maiores especialistas em gen\u00e9tica do suic\u00eddio. &#8220;Os altos \u00edndices observados na \u00c1sia tamb\u00e9m est\u00e3o claramente associados a maior preval\u00eancia de impulsividade\/agressividade nesse povo&#8221;, acrescenta ele.<\/p>\n<p>Nascido na Argentina, criado no Brasil e formado m\u00e9dico pela antiga Escola Paulista de Medicina (atual Unifesp), Turecki est\u00e1 radicado no Canad\u00e1 h\u00e1 16 anos, onde coordena o Centro de Estudos de Suic\u00eddio da McGill, criado por ele em 2003. &#8220;O suic\u00eddio \u00e9 um problema bem grande aqui. Quebec (prov\u00edncia franc\u00f3fona cuja capital \u00e9 Montreal) tem as mais altas taxas do pa\u00eds&#8221;, diz. Em junho de 2009, o pesquisador foi convidado (junto com Bertolote) a apresentar suas pesquisas em confer\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Nobel, na capital sueca, evento que aponta os assuntos mais cotados para o pr\u00eamio Nobel de Medicina nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 genes que fazem as pessoas se suicidarem&#8221;, esclarece Turecki. &#8220;O que existe \u00e9 uma carga gen\u00e9tica que aumenta ou diminui certos comportamentos de risco associados ao suic\u00eddio.&#8221; O bin\u00f4mio impulsividade\/agressividade \u00e9 um dos mais estudados at\u00e9 agora. Apesar disso, nenhum cientista encontrou genes respons\u00e1veis pelo fen\u00f4meno &#8211; um sinal de que ele \u00e9 bem mais complexo. As pesquisas t\u00eam avan\u00e7ado pelos caminhos da epigen\u00e9tica, ou seja, pela compreens\u00e3o das intera\u00e7\u00f5es entre DNA e fatores ambientais que incidem sobre o organismo durante a inf\u00e2ncia, alterando a express\u00e3o de alguns genes por toda a vida.<\/p>\n<p>Turecki descobriu, por exemplo, que pelo menos 30% dos suicidas foi v\u00edtima de abuso f\u00edsico ou sexual ou de algum tipo de neglig\u00eancia por parte da fam\u00edlia. O dado vem de um banco com cerca de 300 c\u00e9rebros que ele mant\u00e9m em laborat\u00f3rio. Mais da metade \u00e9 de suicidas e o restante, de pessoas que tiveram morte natural e s\u00fabita e s\u00e3o usadas como controle. Cada indiv\u00edduo teve sua hist\u00f3ria resgatada por meio de entrevistas com parentes e amigos, e amostras do tecido cerebral est\u00e3o permitindo an\u00e1lises reveladoras.<\/p>\n<p>A descoberta mais importante at\u00e9 agora indica que o sofrimento infantil altera o funcionamento de certos genes de modo a exacerbar a rea\u00e7\u00e3o da pessoa ao estresse, algo diretamente ligado ao comportamento impulsivo e agressivo.<\/p>\n<p>Em artigo publicado em mar\u00e7o de 2009 na revista <em>Nature Neuroscience<\/em>, o grupo do pesquisador demonstrou que o abuso sexual e f\u00edsico nos primeiros anos de vida aumenta a quantidade de um tipo de receptor no c\u00e9rebro de suicidas que se localiza numa importante via neuroend\u00f3crina do organismo. A principal fun\u00e7\u00e3o dessa via \u00e9 regular a resposta (comportamental e fisiol\u00f3gica) ao estresse. Com mais receptores, a resposta \u00e9 amplificada.<\/p>\n<p>O estudo causou impacto na comunidade cient\u00edfica por ser o primeiro a mostrar esse mecanismo epigen\u00e9tico em humanos. &#8220;Por ser um fen\u00f4meno multifatorial e complexo, que pode ser &#8216;desmontado&#8217; em v\u00e1rios fatores, o suic\u00eddio acaba refinando os estudos gen\u00e9ticos&#8221;, comenta Bertolote.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Prevenir \u00e9 poss\u00edvel<\/strong><br \/>\nSe de um lado neurocientistas e geneticistas procuram entender a complexa teia de fatores que d\u00e3o origem ao ato suicida, de outro, m\u00e9dicos e epidemiologistas unem esfor\u00e7os para por em pr\u00e1tica programas de preven\u00e7\u00e3o. Algo que j\u00e1 se comprovou simples, barato e eficaz.<\/p>\n<p>Em 2002, a OMS deu in\u00edcio ao primeiro estudo multic\u00eantrico do g\u00eanero, sob o comando de Bertolote. Nove cidades de diferentes pa\u00edses participaram, entre elas Campinas, onde o trabalho foi coordenado por Botega. Um dos principais objetivos do projeto, conhecido como Supre-Miss (Estudo de Interven\u00e7\u00e3o sobre o Comportamento Suicida em M\u00faltiplos Locais, na sigla em ingl\u00eas), foi avaliar a efic\u00e1cia da chamada interven\u00e7\u00e3o breve na redu\u00e7\u00e3o de novas tentativas de suic\u00eddio. A estrat\u00e9gia consiste numa sess\u00e3o de aconselhamento a pessoas que chegaram ao hospital ap\u00f3s terem tentado se matar, seguida de telefonemas a intervalos de algumas semanas durante um ano e meio.<\/p>\n<p>Participaram 1.867 pacientes. Ao final do per\u00edodo de interven\u00e7\u00e3o, a mortalidade por novas tentativas de suic\u00eddio naqueles que foram acompanhados foi dez vezes menor que no grupo-controle. &#8220;Um resultado excelente&#8221;, segundo o psiquiatra da Unicamp. &#8220;O que se percebe \u00e9 que essas pessoas precisam muito desabafar e conversar com algu\u00e9m sem serem julgadas, o que geralmente \u00e9 dif\u00edcil dentro da fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a participa\u00e7\u00e3o no Supre-Miss, Campinas implementou um programa de preven\u00e7\u00e3o de suic\u00eddio baseado na interven\u00e7\u00e3o breve. E a coleta de dados continua. &#8220;O objetivo agora \u00e9 analisar os custos (da interven\u00e7\u00e3o) para convencer os gestores de sa\u00fade de que vale a pena investir em preven\u00e7\u00e3o, que \u00e9 mais barato que pagar as interna\u00e7\u00f5es hospitalares, quase sempre necess\u00e1rias a quem acabou de tentar o suic\u00eddio&#8221;, explica Botega.<\/p>\n<p>Esse mesmo modelo de preven\u00e7\u00e3o ser\u00e1 implementado em Botucatu at\u00e9 o fim deste ano, segundo M\u00e1rcio Pinheiro Machado, coordenador de Sa\u00fade Mental do N\u00facleo de Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica do munic\u00edpio. &#8220;Em 2009 fizemos um grande esfor\u00e7o para lidar com a epidemia de gripe H1N1 e, como resultado, n\u00e3o tivemos nenhuma morte. Em compensa\u00e7\u00e3o, 21 pessoas se mataram. Est\u00e1vamos despreparados para essa situa\u00e7\u00e3o&#8221;, compara.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Efeito Werther<\/strong><br \/>\nSegundo Bertolote, a miniepidemia de suic\u00eddios em Botucatu pode ter sido agravada pela m\u00e1 conduta da imprensa, pela forma como os jornais locais noticiaram algumas das mortes. &#8220;Andaram publicando alguns casos na primeira p\u00e1gina, com detalhada descri\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo. \u00c9 a receita.&#8221;<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de cont\u00e1gio \u00e9 bem conhecida desde a publica\u00e7\u00e3o, em 1774, do livro <em>Sofrimentos do jovem Werther<\/em>, de Goethe, em que o autor alem\u00e3o descreveu minuciosamente o suic\u00eddio do protagonista. Nos anos seguintes, diversas pessoas se mataram de forma semelhante na Alemanha e, em v\u00e1rios casos, um exemplar do livro era encontrado ao lado do corpo.<\/p>\n<p>Eliminar o suic\u00eddio dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o tampouco \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o adequada, acredita Botega. &#8220;Alguns manuais de reda\u00e7\u00e3o recomendam simplesmente n\u00e3o noticiar, mas isso acaba refor\u00e7ando o tabu em torno do assunto, coloca-se o problema debaixo do tapete. E as pessoas pensam que suic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um problema&#8221;, adverte o psiquiatra.<\/p>\n<p>Para ajudar a imprensa a lidar com o tema de forma mais equilibrada, focada na preven\u00e7\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria publicou em outubro de 2009 um manual dirigido a ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, dispon\u00edvel no site da entidade (<a href=\"http:\/\/www.abpbrasil.org.br\">www.abpbrasil.org.br<\/a>).<\/p>\n<p>Botega aproveita para destacar outros dois equ\u00edvocos em rela\u00e7\u00e3o ao tema. O primeiro \u00e9 a no\u00e7\u00e3o difundida de que as pessoas se matam mais no inverno, quando na verdade, em todo o mundo, os suic\u00eddios s\u00e3o mais frequentes na primavera e no ver\u00e3o. O segundo se refere aos sinais e avisos que uma pessoa d\u00e1 antes de se matar e que em geral a fam\u00edlia desconsidera. &#8220;Existe aquela ideia de que &#8216;c\u00e3o que ladra n\u00e3o morde&#8217; ou de que a pessoa est\u00e1 querendo apenas chamar aten\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma. &#8220;\u00c9 preciso lev\u00e1-la a s\u00e9rio&#8221;, frisa. E estender-lhe a m\u00e3o. Antes que seja tarde.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br \/>\n<strong>Comunidades ind\u00edgenas s\u00e3o as mais afetadas<\/strong><br \/>\nUm relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a situa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas no mundo, divulgado em janeiro passado, aponta os \u00edndios Kaiow\u00e1, do Mato Grosso do Sul, como o grupo \u00e9tnico que nos \u00faltimos anos registrou o maior n\u00famero de mortes por viol\u00eancia autoinfligida. Coletados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de 2000 a 2005, os dados mostram que a taxa de mortalidade por suic\u00eddio nesta popula\u00e7\u00e3o foi 19 vezes maior que a m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>A mesma tend\u00eancia \u00e9 observada em grupos abor\u00edgines de diversas partes do mundo. No Canad\u00e1, o suic\u00eddio entre o povo Inuit (tamb\u00e9m conhecido como esquim\u00f3s) \u00e9 11 vezes maior que a m\u00e9dia daquele pa\u00eds. &#8220;O rompimento das tradi\u00e7\u00f5es, a perda da identidade cultural, o isolamento social, o alcoolismo, tudo isso contribui&#8221;, afirma o psiquiatra Neury Botega, da Unicamp.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio entre os Kaiow\u00e1 se relaciona diretamente com os embates com fazendeiros nos \u00faltimos 20 anos, cujo resultado tem sido o avan\u00e7o das fronteiras agropecu\u00e1rias. &#8220;Esses problemas s\u00e3o mais pronunciados em \u00e1reas urbanas, onde os ind\u00edgenas est\u00e3o separados de sua comunidade e cultura e nunca s\u00e3o completamente absorvidos como membros iguais da sociedade dominante&#8221;, detalha o documento da ONU.<\/p>\n<p>O v\u00ednculo com a terra tamb\u00e9m \u00e9 fundamental para entender o que se passa com as comunidades inuit do Canad\u00e1, originalmente n\u00f4mades. &#8220;Em disputas com os Estados Unidos pelas regi\u00f5es \u00e1rticas, o governo canadense for\u00e7ou os Inuit a se fixarem na terra. Foi uma mudan\u00e7a radical no modo de vida deles&#8221;, comenta o psiquiatra Gustavo Turecki, da Universidade McGill, em Montreal. Como consequ\u00eancia, alcoolismo e depress\u00e3o tornaram-se comuns nesse povo.<\/p>\n<p>Assim como a taxa de suic\u00eddio dos Inuit \u00e9 a maior do Canad\u00e1, a dos \u00edndios Kaiow\u00e1 e de outras etnias do Centro-Oeste faz com que essa regi\u00e3o tenha o segundo maior \u00edndice de morte autoinfligida (5,8 \u00f3bitos por 100 mil habitantes) do Brasil, atr\u00e1s da Regi\u00e3o Sul (7,8 por 100 mil).<\/p>\n<p>Com escassa presen\u00e7a ind\u00edgena no Rio Grande do Sul, \u00e9 uma inc\u00f3gnita por que esse Estado ostenta os maiores \u00edndices de suic\u00eddio do pa\u00eds. Especialistas cogitam a imigra\u00e7\u00e3o europeia, principalmente alem\u00e3, com seus exigentes padr\u00f5es de conduta social, como um dos poss\u00edveis fatores. Mas \u00e9 uma vaga hip\u00f3tese, segundo a psic\u00f3loga Blanca Guevara Werlang, da PUC-RS. &#8220;Essa quest\u00e3o nunca foi devidamente investigada.&#8221;<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em><br \/>\nPublicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=1850\">edi\u00e7\u00e3o de outubro da Unesp Ci\u00eancia<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira causa de morte por atos de viol\u00eancia no mundo n\u00e3o s\u00e3o os acidentes de tr\u00e2nsito, os homic\u00eddios nem os conflitos armados, mas o suic\u00eddio. Esse dado desconcertante foi revelado em outubro de 2002, em Bruxelas, numa reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) para divulgar as conclus\u00f5es do Relat\u00f3rio Mundial sobre Viol\u00eancia e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":472,"featured_media":78,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[85],"class_list":["post-77","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-unesp-ciencia","tag-suicidio"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/com20saida.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/users\/472"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}