{"id":83,"date":"2011-03-18T18:32:52","date_gmt":"2011-03-18T21:32:52","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/papai_noel_na_berlinda\/"},"modified":"2011-03-18T18:32:52","modified_gmt":"2011-03-18T21:32:52","slug":"papai_noel_na_berlinda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/18\/papai_noel_na_berlinda\/","title":{"rendered":"Papai Noel na berlinda"},"content":{"rendered":"<p><em>(publicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=2406\">UC dezembro\/2010<\/a>)<\/em><br \/>\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/papai-noel11.jpg\" alt=\"papai-noel1.jpg\" width=\"500\" height=\"494\" \/><br \/>\nPapai Noel \u00e9 coisa s\u00e9ria. E n\u00e3o apenas para as criancinhas que o aguardam no Natal. Tamb\u00e9m na ci\u00eancia h\u00e1 quem acredite nele, pelo menos o suficiente para investig\u00e1-lo. Esses pesquisadores tentam entender o segredo de t\u00e3o duradouro sucesso, assim como os efeitos (nem sempre admir\u00e1veis) que essa presen\u00e7a vermelha e rotunda exerce na psicologia de crian\u00e7as e adultos, nas rela\u00e7\u00f5es sociais, na religi\u00e3o e at\u00e9 na sa\u00fade p\u00fablica. Afinal, o &#8220;bom&#8221; velhinho tem l\u00e1 suas idiossincrasias. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, uma s\u00e9rie de estudos tem revelado resultados surpreendentes e at\u00e9 perturbadores, que tendem a ser ofuscados por interesses comerciais.<\/p>\n<p>Um dos primeiros a dedicar uma an\u00e1lise aprofundada sobre o protagonista do Natal foi ningu\u00e9m menos que o antrop\u00f3logo franc\u00eas Claude L\u00e9vi-Strauss (1908-2009). Sua motiva\u00e7\u00e3o teve origem numa not\u00edcia publicada no jornal <em>France<\/em> Soir, em 24 de dezembro de 1951, com o t\u00edtulo: &#8220;Papai Noel \u00e9 queimado no \u00e1trio da Catedral de Dijon diante de crian\u00e7as de orfanatos&#8221;. Coordenada pelo clero cat\u00f3lico (com apoio de protestantes), a manifesta\u00e7\u00e3o do dia anterior apregoava o car\u00e1ter pag\u00e3o daquela figura, que estaria arruinando a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o p\u00fablica francesa se dividiu diante da inusitada situa\u00e7\u00e3o: de um lado, a Igreja demonstrando esp\u00edrito cr\u00edtico e, de outro, os racionalistas defendendo a supersti\u00e7\u00e3o. A contradi\u00e7\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o de L\u00e9vi-Strauss e resultou no livro <em>O supl\u00edcio do Papai Noel<\/em> (Cosac Naify, 2009, tradu\u00e7\u00e3o de Denise Bottmann). Nele, o antrop\u00f3logo classifica o Papai Noel do ponto de vista da tipologia religiosa:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 um ser m\u00edtico, pois n\u00e3o h\u00e1 um mito que d\u00ea conta de sua origem e de suas fun\u00e7\u00f5es; tampouco \u00e9 um personagem lend\u00e1rio, visto que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma narrativa semi-hist\u00f3rica ligada a ele. Na verdade, esse ser sobrenatural e imut\u00e1vel, fixado eternamente em sua forma e definido por uma fun\u00e7\u00e3o exclusiva e um retorno peri\u00f3dico, pertence mais \u00e0 fam\u00edlia das divindades; as crian\u00e7as prestam-lhe culto em certas \u00e9pocas do ano, sob a forma de cartas e pedidos; ele recompensa os bons e priva os maus. \u00c9 a divindade de uma categoria et\u00e1ria de nossa sociedade (&#8230;) e a \u00fanica diferen\u00e7a entre Papai Noel e a verdadeira divindade \u00e9 que os adultos n\u00e3o creem nele, embora incentivem as crian\u00e7as a acreditar e mantenham essa cren\u00e7a com in\u00fameras mistifica\u00e7\u00f5es&#8221;<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\n<strong>Divindade infantil<\/strong><br \/>\nQuem pensa no bom velhinho como uma inven\u00e7\u00e3o puramente capitalista talvez se surpreenda com sua semelhan\u00e7a com ritos mais primitivos, detectada pelo pai da antropologia estrutural: &#8220;Como n\u00e3o notar, por exemplo, a analogia entre Papai Noel e as katchina dos \u00edndios do sudoeste norte-americano? Esses personagens fantasiados e mascarados encarnam deuses e ancestrais; voltam periodicamente \u00e0 aldeia para dan\u00e7ar e para punir ou recompensar as crian\u00e7as, e d\u00e1-se um jeito para que elas n\u00e3o reconhe\u00e7am os pais ou parentes sob o disfarce tradicional&#8221;.<\/p>\n<p>A psicologia evolutiva explica por que o anci\u00e3o barbudo, rechonchudo e sempre vestido de vermelho e branco pouco mudou ao longo do s\u00e9culo 20, numa sociedade globalizada que vive sob o signo da novidade. \u00c9 nos aspectos n\u00e3o-verbais que reside toda a empatia que rendemos a ele, at\u00e9 porque seu repert\u00f3rio verbal \u00e9 bastante restrito, n\u00e3o indo muito al\u00e9m do &#8220;ho-ho-ho&#8221;. Segundo o psic\u00f3logo Sandro Caramaschi, professor da Faculdade de Ci\u00eancias da Unesp em Bauru, a ambiguidade de sua apar\u00eancia \u00e9 fundamental para entender sua vitalidade.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/papai-noel-4.jpg\" alt=\"papai-noel-4.JPG\" width=\"510\" height=\"437\" \/><br \/>\n&#8220;De um lado, o Papai Noel re\u00fane caracter\u00edsticas infantis, como a face arredondada, a testa grande e abobadada, nariz pequeno e pouco saliente, bochechas carnudas e queixo recuado. S\u00e3o sinais de infantiliza\u00e7\u00e3o que geram uma poderosa rea\u00e7\u00e3o de empatia&#8221;, diz. Por outro lado, &#8220;a barba e o cabelo brancos transmitem um ar de sabedoria, autoridade e credibilidade associado \u00e0 velhice&#8221;. Segundo ele, esses aspectos formam a combina\u00e7\u00e3o perfeita entre ingenuidade e sobriedade. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso considerar tamb\u00e9m a coragem, a intensidade e paix\u00e3o que o vermelho da roupa representa. &#8220;As botas e o cinto preto trazem um equil\u00edbrio nobre que alegra seu visual&#8221;, completa. A an\u00e1lise da apar\u00eancia do personagem est\u00e1 no livro <em>Corpo e cultura &#8211; M\u00faltiplos olhares<\/em> (Cultura Acad\u00eamica, 2009).<\/p>\n<p>Ainda segundo Caramaschi, a empatia que Papai Noel desperta nos seres humanos n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea, dependendo da idade e do sexo. Por raz\u00f5es culturais e biol\u00f3gicas, nos adultos, o apelo n\u00e3o verbal dessa figura natalina \u00e9 muito mais potente nas mulheres (ou seja, mam\u00e3es, vov\u00f3s, titias, madrinhas, etc.) que nos homens. J\u00e1 as crian\u00e7as abaixo de certa idade, diz ele, aproximadamente entre 5 e 6 anos, n\u00e3o est\u00e3o prontas para desfrutar da fantasia.<\/p>\n<p>H\u00e1 ind\u00edcios de que a exposi\u00e7\u00e3o ao Papai Noel nos primeiros anos de vida pode levar a rea\u00e7\u00f5es paradoxais: em vez de empatia, sorrisos e afagos, \u00e9 mais comum o pavor, acompanhado de caretas, l\u00e1grimas e berros. O fen\u00f4meno ainda n\u00e3o foi cientificamente estudado, mas a suspeita foi levantada pelas jornalistas americanas Denise Joyce e Nancy Watkins, editoras do jornal <em>Chicago Tribune<\/em>.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Terror natalino<\/strong><br \/>\nMotivadas pela pr\u00f3pria experi\u00eancia de inf\u00e2ncia e de maternidade, em 2007 a dupla teve a ideia de pedir aos leitores do jornal que enviassem fotos do encontro de suas crian\u00e7as com o Papai Noel, que passaram a ser publicadas no site do di\u00e1rio. A resposta da audi\u00eancia foi imediata e volumosa. No ano seguinte, as autoras reuniram as 250 &#8220;melhores&#8221; imagens no livro <em>Scared of Santa &#8211; Scenes of terror in toyland<\/em> (Harper Collins, 2008, in\u00e9dito no Brasil) &#8211; em tradu\u00e7\u00e3o livre, &#8220;Assustados com Papai Noel &#8211; Cenas de terror na terra dos brinquedos&#8221;. Coincidentemente, a maioria das crian\u00e7as que aparecem apavoradas no livro aparenta ter menos de 6 anos (confira as fotos no site <a href=\"www.chicagotribune.com\/scaredofsanta\">www.chicagotribune.com\/scaredofsanta<\/a>).<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que, com exce\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as que se assombram com o velho Noel, as demais realmente se encantam por ele? Ou ser\u00e1 que, na verdade, os pais se entusiasmam mais que os filhos? Estudos do americano John Trinkaus, da Zicklin School of Business da Universidade da Cidade de Nova York, revelam que, de fato, a maioria da garotada &#8211; entre 60% e 90% &#8211; se mostra indiferente na visita ao Papai Noel de shopping centers.<\/p>\n<p>Entre 2003 e 2008, Trinkaus publicou cinco artigos nos quais analisou a express\u00e3o facial de mais de mil crian\u00e7as (de at\u00e9 10 anos). Segundo ele, grande parte n\u00e3o conseguiu sequer esbo\u00e7ar um sorriso no momento da cl\u00e1ssica foto natalina. Em compensa\u00e7\u00e3o, quase 90% dos pais que acompanhavam os filhos &#8220;pareciam estar felizes&#8221;, afirma o pesquisador num dos trabalhos, publicado na revista <em>Psychology Reports<\/em>, em 2008. Outro dado relevante, observado em mais de um shopping center, \u00e9 que a taxa de indiferen\u00e7a dos pequenos diminuiu com a proximidade do dia de Natal. O autor n\u00e3o explica por que nem arrisca alguma hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Sempre muito sucinto em seus inusitados relatos, John Trinkaus limita-se a contabilizar as coisas que o perturbam, h\u00e1bito que lhe trouxe notoriedade mundial em 2003, quando foi agraciado com o pr\u00eamio Ig Nobel, destinado &#8220;a feitos cient\u00edficos que primeiro fazem as pessoas rir e, depois, pensar&#8221;. Al\u00e9m da rea\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as ao velho barbudo, nos \u00faltimos 30 anos ele j\u00e1 pesquisou a prefer\u00eancia de adultos por sapatos brancos e por couve-de-bruxelas, bem como o n\u00famero de pessoas que usam bon\u00e9s com a aba voltada para tr\u00e1s.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>P\u00e9ssimo exemplo<\/strong><br \/>\nO bom velhinho est\u00e1 sofrendo ataques at\u00e9 da \u00e1rea da sa\u00fade p\u00fablica. N\u00e3o \u00e9 preciso calculadora nem fita m\u00e9trica para constatar que seu \u00edndice de massa corp\u00f3rea e sua circunfer\u00eancia abdominal est\u00e3o muito al\u00e9m do que recomendam os m\u00e9dicos. E o efeito dessa imagem obesa nos h\u00e1bitos de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o aparentemente est\u00e1 preocupando alguns especialistas. &#8220;H\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses que mais veneram o Papai Noel e altos \u00edndices de obesidade infantil&#8221;, alerta o epidemiologista Nathan Grills, da Universidade Monash, em Melbourne (Austr\u00e1lia), em artigo publicado em 2009 no renomado <em>British Medical Journal<\/em> (dispon\u00edvel no endere\u00e7o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/dq8Rs7\">http:\/\/bit.ly\/dq8Rs7<\/a>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/papai-noel-2.jpg\" alt=\"papai-noel-2.JPG\" width=\"522\" height=\"445\" \/><br \/>\nGrills ainda exagera no poder de influ\u00eancia deste senhor de roupas vermelhas ao alegar que sua figura incentiva comportamentos de risco, como viajar em seu tren\u00f3 em alta velocidade e praticar esportes radicais como surfe no teto e mergulho em chamin\u00e9s. &#8220;Apesar dos riscos dessas atividades, Papai Noel nunca \u00e9 representado usando cinto de seguran\u00e7a ou capacete&#8221;, diverte-se o pesquisador.<\/p>\n<p>Evidentemente, tais suspeitas s\u00f3 poderiam ser confirmadas ou rejeitadas depois de um estudo epidemiol\u00f3gico que comparasse um lugar exposto a influ\u00eancia do velho gorducho com outro em que ele esteja ausente, como manda o m\u00e9todo cient\u00edfico. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, esse lugar existe. A cidade alem\u00e3 de Fluorn-Wilzen, com cerca de 3 mil habitantes, \u00e9 considerada &#8220;zona livre de Papai Noel&#8221; desde 2008.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/papai-noel-3.jpg\" alt=\"papai-noel-3.JPG\" width=\"269\" height=\"330\" \/><br \/>\nA iniciativa \u00e9 de uma organiza\u00e7\u00e3o assistencial cat\u00f3lica que pretende substituir o personagem fict\u00edcio, considerado s\u00edmbolo da sociedade consumista, pela imagem do generoso S\u00e3o Nicolau, de quem a lenda de Papai Noel de fato deriva. Mais popular na Igreja Cat\u00f3lica Ortodoxa, S\u00e3o Nicolau \u00e9 descrito no site da entidade como o padroeiro das crian\u00e7as, &#8220;algu\u00e9m que vem nos socorrer em momentos de necessidade e nos lembra da import\u00e2ncia da bondade, de pensar no pr\u00f3ximo e de distribuir a d\u00e1diva da felicidade&#8221;.<\/p>\n<p>Papai Noel que se cuide, pois o cerco come\u00e7a a se fechar. Mas ainda deve demorar muito para ele perder o lugar especial que conquistou no cora\u00e7\u00e3o das pessoas. E olha que isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma figura de linguagem. Devido aos avan\u00e7os da medicina, Santa foi flagrado no ecocardiograma de um paciente su\u00ed\u00e7o de 79 anos que estava sendo preparado para uma cirurgia card\u00edaca. A inesperada apari\u00e7\u00e3o surpreendeu os m\u00e9dicos da Universidade de Zurique, que a registraram (<em>veja foto no alto<\/em>) em artigo na revista <em>Circulation<\/em>, em 2003, uma das mais importantes da \u00e1rea de cardiologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado na UC dezembro\/2010) Papai Noel \u00e9 coisa s\u00e9ria. E n\u00e3o apenas para as criancinhas que o aguardam no Natal. Tamb\u00e9m na ci\u00eancia h\u00e1 quem acredite nele, pelo menos o suficiente para investig\u00e1-lo. 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