{"id":85,"date":"2011-03-18T18:37:57","date_gmt":"2011-03-18T21:37:57","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/uma_ciencia_em_transformacao\/"},"modified":"2011-03-18T18:37:57","modified_gmt":"2011-03-18T21:37:57","slug":"uma_ciencia_em_transformacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/18\/uma_ciencia_em_transformacao\/","title":{"rendered":"Uma ci\u00eancia em transforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>(publicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=2406\">UC fevereiro\/2011<\/a>)<br \/>\nEm uma de suas can\u00e7\u00f5es menos lembradas hoje em dia, Renato Russo dizia que n\u00e3o sabia nada de F\u00edsica, Literatura ou Gram\u00e1tica. &#8220;S\u00f3 gosto de Educa\u00e7\u00e3o Sexual&#8221;, afirmava ele no refr\u00e3o, para em seguida frisar: &#8220;E eu odeio Qu\u00edmica, Qu\u00edmica, Qu\u00edmica!&#8221;.<\/p>\n<p>Os qu\u00edmicos que me perdoem, assim como eles devem ter perdoado o l\u00edder da Legi\u00e3o Urbana por seus versos juvenis e insensatos. Mas o que nem eles ignoram \u00e9 que as pessoas em geral t\u00eam um p\u00e9 atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que \u00e9 qu\u00edmico.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 jeito de uma ci\u00eancia que trata fundamentalmente de mudan\u00e7a ser encarada de modo inteiramente positivo por seres humanos, que s\u00e3o, no fundo, ambivalentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as&#8221;, escreveu Roald Hoffmann, Nobel de Qu\u00edmica em 1981, em <em>O mesmo e o n\u00e3o-mesmo<\/em> (Editora Unesp, 2000), um elogio cr\u00edtico \u00e0 ci\u00eancia das mol\u00e9culas.<\/p>\n<p>Poluidora e t\u00f3xica s\u00e3o alguns dos r\u00f3tulos negativos que nas \u00faltimas d\u00e9cadas se colaram \u00e0 atividade industrial amparada no conhecimento desta ci\u00eancia dura, cheia de f\u00f3rmulas e nomes antip\u00e1ticos, mas que seus defensores definem como central, como a ci\u00eancia da transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Ano Internacional da Qu\u00edmica, as Na\u00e7\u00f5es Unidas e qu\u00edmicos do mundo todo unem esfor\u00e7os para limpar sua reputa\u00e7\u00e3o. &#8220;A ideia \u00e9 mudar sua imagem na sociedade, porque ela est\u00e1 associada apenas a coisas ruins&#8221;, afirma Vanderlan Bolzani, do Instituto de Qu\u00edmica da Unesp em Araraquara e membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\n&#8220;Mas n\u00e3o s\u00f3 a Qu\u00edmica est\u00e1 presente em cada minuto do nosso dia a dia, como os desafios globais que temos pela frente, na \u00e1rea ambiental, energ\u00e9tica e de sa\u00fade, dependem fundamentalmente do avan\u00e7o dessa \u00e1rea do conhecimento&#8221;, defende a pesquisadora, que faz parte do comit\u00ea organizador das celebra\u00e7\u00f5es no Brasil (veja mais em <a href=\"http:\/\/quimica2011.org.br\">http:\/\/quimica2011.org.br<\/a>).<\/p>\n<p>Festejar o Ano Internacional da Qu\u00edmica, por\u00e9m, n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o simples como foi em 2005, quando a F\u00edsica foi homenageada, ou em 2009, quando foi a vez da Astronomia. Afinal, \u00e9 bem mais f\u00e1cil admirar o espa\u00e7o-tempo (mesmo sem entend\u00ea-lo muito bem) concebido pela figura ic\u00f4nica de Albert Einstein ou contemplar o c\u00e9u e os astros revelados pela luneta de Galileu.<\/p>\n<p>Qu\u00edmica \u00e9 o oposto da abstra\u00e7\u00e3o e da dist\u00e2ncia. \u00c9 t\u00e3o material e est\u00e1 t\u00e3o absorvida em nosso cotidiano que quase sempre n\u00e3o a enxergamos. Al\u00e9m disso, perto da fama de Einstein e Galileu, a cientista homenageada neste ano, a polonesa Marie Curie (1867-1934), \u00e9 quase desconhecida entre os menos familiarizados com ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Este ano foi escolhido para a comemora\u00e7\u00e3o por marcar o centen\u00e1rio da conquista do Nobel de Qu\u00edmica por Curie pela identifica\u00e7\u00e3o dos elementos r\u00e1dio e pol\u00f4nio. Ela foi a primeira mulher agraciada com um Nobel e tamb\u00e9m a primeira pessoa laureada duas vezes em categorias distintas &#8211; j\u00e1 havia recebido o de F\u00edsica, em 1903, com o marido Pierre Curie, por descobertas no campo da radioatividade. Por tudo isso sua imagem acabou ficando mais associada \u00e0 F\u00edsica e \u00e0 hist\u00f3ria das mulheres na ci\u00eancia do que propriamente \u00e0 Qu\u00edmica.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia amb\u00edgua<\/strong><br \/>\nPara apreciar essa ci\u00eancia, h\u00e1 que se encarar seus dilemas e dualidades. &#8220;Dano e proveito s\u00e3o apenas uma das polaridades que tornam a Qu\u00edmica interessante&#8221;, escreveu Roald Hoffmann. &#8220;Suspensa centralmente entre os universos f\u00edsico e biol\u00f3gico, a Qu\u00edmica n\u00e3o trata do infinitamente pequeno ou grande; preocupa-se apenas indiretamente com a vida. Por isso \u00e0s vezes \u00e9 rotulada de enfadonha, como muitas vezes s\u00e3o consideradas as coisas no plano intermedi\u00e1rio&#8221;, continua.<\/p>\n<p>&#8220;Das ci\u00eancias puras, ela \u00e9 a mais aplicada&#8221;, lembra Vanderlan. &#8220;Por isso \u00e9 a que est\u00e1 mais envolvida com inova\u00e7\u00e3o, desde sua origem.&#8221; Diferentemente de outras \u00e1reas b\u00e1sicas, sua hist\u00f3ria tem um p\u00e9 na academia e outro no ch\u00e3o de f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que a pauta de ci\u00eancia &amp; tecnologia est\u00e1 t\u00e3o dominada pela palavra inova\u00e7\u00e3o e se fala tanto que a pesquisa e o desenvolvimento precisam se enraizar na ind\u00fastria para turbinar o PIB, \u00e9 mais que justo render tributo, nesse sentido, ao pioneirismo da ci\u00eancia das mol\u00e9culas. Foram os qu\u00edmicos que levaram o pensamento cient\u00edfico para os meios de produ\u00e7\u00e3o, em meados do s\u00e9culo 19, durante a segunda fase da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>&#8220;A Qu\u00edmica trouxe essa nova forma de pensar, por um lado, a produ\u00e7\u00e3o industrial com base no conhecimento cient\u00edfico e, por outro, a atividade cient\u00edfica com base nas necessidades da ind\u00fastria. Isso n\u00e3o existia&#8221;, analisa Renato Rocha Lieber, da Faculdade de Engenharia da Unesp em Guaratinguet\u00e1 e especialista em hist\u00f3ria da ci\u00eancia. &#8220;Foi uma grande transforma\u00e7\u00e3o, do ponto de vista das ideias, que resultou em in\u00fameras realiza\u00e7\u00f5es&#8221;, diz. Por esse ineditismo, o setor ostenta o t\u00edtulo de primeira ind\u00fastria baseada em ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Evidentemente, a hist\u00f3ria da Qu\u00edmica tem muito mais de 200 anos. A pr\u00e1tica de combinar materiais para criar outros, de destilar l\u00edquidos, de cozinhar reagentes come\u00e7ou com a alquimia, muito em voga na Europa Medieval, mas que tem suas origens no Egito Antigo e na Mesopot\u00e2mia. Quem rompeu pela primeira vez com essa tradi\u00e7\u00e3o de aura esot\u00e9rica e obscurantista foi o irland\u00eas Robert Boyle (1627-1691), um alquimista que se cansou do hermetismo das publica\u00e7\u00f5es de seus colegas. Seu livro <em>The sceptical chymist<\/em> (&#8220;O qu\u00edmico c\u00e9tico&#8221;), de 1661, \u00e9 considerado o marco fundador dessa ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois de Boyle, que tamb\u00e9m fez descobertas importantes sobre gases, a hist\u00f3ria registra colabora\u00e7\u00f5es pontuais, que n\u00e3o causaram grande estardalha\u00e7o nem quebras de paradigma. De forma geral, os qu\u00edmicos n\u00e3o tinham muito espa\u00e7o nas universidades europeias em virtude da imagem ainda muito ligada \u00e0 alquimia.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o nessa rarefeita linha do tempo foi Antoine Lavoisier (1743-1794), considerado o pai da Qu\u00edmica moderna. Publicada em 1789, a Lei da Conserva\u00e7\u00e3o das Massas, segundo a qual &#8220;na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma&#8221;, talvez seja um dos enunciados cient\u00edficos mais populares de todos os tempos.<\/p>\n<p>Outro momento emblem\u00e1tico foi o da s\u00edntese da ureia, em 1828, pelo alem\u00e3o Friedrich W\u00f6hler (1800-1882). At\u00e9 ent\u00e3o os qu\u00edmicos lidavam basicamente com gases e metais, limitados pela cren\u00e7a de que subst\u00e2ncias encontradas em organismos vivos s\u00f3 podiam ser produzidas por eles pr\u00f3prios. Grande equ\u00edvoco que, uma vez derrubado, inaugurou a Qu\u00edmica Org\u00e2nica, hoje entendida como o ramo que trata dos compostos de carbono. Com ela, o mundo literalmente ganhou novas cores.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Apetite por cores<\/strong><br \/>\nSe a necessidade de novos sabores moveu portugueses e espanh\u00f3is pelos oceanos em busca de uma rota alternativa que os levasse \u00e0s cobi\u00e7adas especiarias do Oriente no s\u00e9culos 16, pode-se dizer que foi tamb\u00e9m uma quest\u00e3o sensorial que promoveu o boom da Qu\u00edmica: as pessoas queriam roupas coloridas.<br \/>\nImpulsionada pela m\u00e1quina a vapor, a ind\u00fastria t\u00eaxtil inglesa j\u00e1 era forte em meados do s\u00e9culo 19. Vestir roupas tingidas, no entanto, era privil\u00e9gio dos abastados, pois os corantes eram todos vegetais, vinham de longe (vide o pau-brasil) e custavam muito. Al\u00e9m disso, depois de algumas lavagens o tecido desbotava.<\/p>\n<p>Quem inventasse corantes que se fixassem por mais tempo \u00e0s fibras e pudessem ser produzidos em grande escala resolveria uma demanda da ind\u00fastria e, l\u00f3gico, ficaria rico.<\/p>\n<p>O primeiro a realizar a fa\u00e7anha foi William Henry Perkin (1838-1907), ent\u00e3o com 18 anos, que desde os 15 trabalhava no Royal College of Chemistry de Londres. Usando como mat\u00e9ria-prima o carv\u00e3o mineral, em 1856 ele conseguiu sintetizar uma subst\u00e2ncia p\u00farpura que passou a se chamar mauve\u00edna e logo foi patenteada e vendida para a ind\u00fastria t\u00eaxtil.<\/p>\n<p>Se tivesse estimulado esse tipo de inova\u00e7\u00e3o entre seus pesquisadores, a Inglaterra poderia hoje se orgulhar de ser o ber\u00e7o da ind\u00fastria qu\u00edmica. Mas o meio acad\u00eamico ingl\u00eas n\u00e3o era muito arrojado, como explica Lieber. &#8220;As universidades inglesas estavam mais voltadas para a ci\u00eancia b\u00e1sica, que seria mais nobre. N\u00e3o queriam se envolver com essas quest\u00f5es de mercado.&#8221;<\/p>\n<p>O chefe de Perkin, o alem\u00e3o August Wilhelm von Hofmann, n\u00e3o pensava assim. Quando voltou a trabalhar em seu pa\u00eds, em 1864, ele j\u00e1 sabia que os corantes sint\u00e9ticos deveriam ser estimulados em outras perspectivas, que a ind\u00fastria devia trazer seus problemas para a universidade. &#8220;A\u00ed veio o salto&#8221;, destaca Lieber.<\/p>\n<p>Suas ideias ca\u00edram como uma luva numa Alemanha em processo de unifica\u00e7\u00e3o sob o comando do primeiro-ministro prussiano Otto Von Bismarck, conhecido como o Chanceler de Ferro, que estimulava a educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a atividade industrial. Contratos entre pesquisadores e empresas eram incentivados, e nos anos seguintes a Alemanha deu origem a uma ind\u00fastria qu\u00edmica vicejante, que passou a fornecer ao mundo uma grande variedade de corantes t\u00eaxteis e aliment\u00edcios, tintas e resinas, al\u00e9m de fertilizantes e medicamentos.<\/p>\n<p>Esse momento de destaque alem\u00e3o \u00e9 o que os especialistas chamam de primeira onda, de um total de tr\u00eas que marcam a hist\u00f3ria moderna da Qu\u00edmica. O que diferencia cada uma \u00e9 a mat\u00e9ria-prima usada na s\u00edntese de novas mol\u00e9culas org\u00e2nicas, explica Cl\u00e1udio Mota, pesquisador do Instituto de Qu\u00edmica da UFRJ. &#8220;No s\u00e9culo 19, a ind\u00fastria qu\u00edmica est\u00e1 muito ligada ao carv\u00e3o. No come\u00e7o do s\u00e9culo 20 o petr\u00f3leo entra firme nessa hist\u00f3ria. A\u00ed nascem muitas inova\u00e7\u00f5es e processos que a gente usa at\u00e9 hoje. \u00c9 a petroqu\u00edmica&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Essa \u00e1rea surgiu nos Estados Unidos, nos anos 1920, turbinada pelo uso crescente do petr\u00f3leo, que passou a substituir o carv\u00e3o como fonte de energia. Os qu\u00edmicos deram-se conta de que, com certas fra\u00e7\u00f5es do \u00f3leo cru, principalmente a nafta, era poss\u00edvel fazer, al\u00e9m de corantes, tintas e vernizes, tamb\u00e9m pl\u00e1sticos, espumas, detergentes, adesivos, herbicidas, insumos para fertilizantes, solventes, fibras, rem\u00e9dios. Hoje cerca de 10% da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo alimenta a ind\u00fastria petroqu\u00edmica.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1980, uma campanha publicit\u00e1ria brasileira lembrava os cidad\u00e3os da import\u00e2ncia da petroqu\u00edmica no seu dia a dia. O filme come\u00e7ava com um homem ao telefone, numa sala repleta de m\u00f3veis e objetos. Aos poucos, tudo que tinha origem nesse setor ia sendo retirado do ambiente. No final, a sala estava vazia e o homem, s\u00f3 de cuecas.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Onda verde<\/strong><br \/>\nFoi essa enorme depend\u00eancia do petr\u00f3leo que acabou levando a Qu\u00edmica do c\u00e9u ao inferno junto \u00e0 sociedade. Se os novos materiais revolucionaram o mundo, algumas d\u00e9cadas depois acabaram lhe rendendo a m\u00e1-fama t\u00e3o fortemente combatida hoje.<\/p>\n<p>A terceira onda da hist\u00f3ria da Qu\u00edmica moderna vem, nesse sentido, tentar mudar sua imagem com a chamada Qu\u00edmica Verde ou Qu\u00edmica Sustent\u00e1vel. Se a \u00e1rea por duas vezes provocou mudan\u00e7as significativas no planeta, agora \u00e9 hora de mud\u00e1-lo de novo &#8211; e, na pr\u00e1tica, resolver problemas que ela mesma criou.<\/p>\n<p>O termo &#8220;Qu\u00edmica Verde&#8221; foi criado em 1991 por Paul Anastas, um jovem qu\u00edmico da EPA (Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental) dos Estados Unidos, atualmente na Universidade de Yale. Era um momento delicado para a ind\u00fastria qu\u00edmica americana, quando ainda estavam frescas as lembran\u00e7as de algumas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>Em 1984, em Bopal (\u00cdndia), morreram pelo menos 3.500 pessoas v\u00edtimas de uma imensa nuvem de g\u00e1s t\u00f3xico que escapou de uma f\u00e1brica de pesticidas da americana Union Carbide. Alguns anos antes, um bairro inteiro de Niagara Falls, no estado de Nova York, teve de ser evacuado depois de descobrirem que ele se assentava sobre um imenso aterro de lixo t\u00f3xico. Anos depois, todos os moradores da cidade de Times Beach, no Missouri, foram removidos de suas casas porque o solo do lugar estava contaminado com dioxina, composto t\u00f3xico e persistente, de origem industrial.<\/p>\n<p>Incidentes como esses ocorreram em v\u00e1rias partes do mundo onde as grandes ind\u00fastrias qu\u00edmicas estavam presentes. A diferen\u00e7a \u00e9 que nos Estados Unidos eles foram contabilizados. S\u00f3 em 1991, segundo estudo da EPA, foram produzidos 278 milh\u00f5es de toneladas de lixo t\u00f3xico em mais 24 mil locais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o ambiental americana come\u00e7ou a ficar mais severa e outros pa\u00edses seguiram o modelo. A ind\u00fastria, que a princ\u00edpio adotou uma postura reativa, aos poucos passou a ser mais pr\u00f3-ativa, avalia Eduardo Bernini, presidente executivo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Qu\u00edmica (Abiquim).<\/p>\n<p>Ele se refere ao programa <em>Responsible Care<\/em>, surgido no Canad\u00e1 em 1985 e hoje presente em 53 pa\u00edses, inclusive no Brasil, sob a gest\u00e3o do Conselho Internacional da Ind\u00fastria Qu\u00edmica (ICCA, na sigla em ingl\u00eas). \u00c9 um compromisso volunt\u00e1rio, mas que uma vez assumido estabelece padr\u00f5es de seguran\u00e7a e responsabilidade ambiental. Para Bernini, por conta disso n\u00e3o seria &#8220;condizente com a realidade a imagem da ind\u00fastria qu\u00edmica como poluidora e irrespons\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Muitos pesquisadores reconhecem que a situa\u00e7\u00e3o mudou bastante. &#8220;As empresas em geral, principalmente as multinacionais, j\u00e1 se tocaram&#8221;, diz Vanderlan. &#8220;\u00c9 uma imposi\u00e7\u00e3o da sociedade, sen\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 futuro. \u00c9 a sustentabilidade do planeta que est\u00e1 em jogo&#8221;, continua a pesquisadora de Araraquara.<br \/>\nPara Fernando Galembeck, do Instituto de Qu\u00edmica da Unicamp, \u00e9 importante lembrar que a legisla\u00e7\u00e3o, inclusive a brasileira, avan\u00e7ou muito. &#8220;Hoje a polui\u00e7\u00e3o industrial \u00e9 bem menor que a contribui\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, tanto no caso do esgoto como do ar&#8221;, compara.<\/p>\n<p>Mas algumas imagens se cristalizaram na mente das pessoas. &#8220;Algu\u00e9m v\u00ea uma chamin\u00e9 e j\u00e1 acha que \u00e9 coisa do mal, mesmo que dali esteja saindo vapor de \u00e1gua purinho&#8221;, avalia Eder Jo\u00e3o Lenard\u00e3o, do Instituto de Qu\u00edmica e Geoci\u00eancias da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Pl\u00e1stico de \u00e1lcool<\/strong><br \/>\nPara mover a terceira onda, o combust\u00edvel que ganha destaque s\u00e3o cada vez mais as biomassas em substitui\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo. Especificamente no Brasil, \u00e9 a vez do etanol. A t\u00f4nica \u00e9 usar mat\u00e9rias-primas renov\u00e1veis para a produ\u00e7\u00e3o de pol\u00edmeros, principalmente pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>&#8220;Essa \u00e9 uma das discuss\u00f5es mais importantes hoje em dia na ind\u00fastria qu\u00edmica&#8221;, diz Mota, que mant\u00e9m projetos em parceria com empresas do setor, como Braskem, Quattor e Oxiteno. &#8220;O objetivo \u00e9 construir gradativamente uma matriz de produtos qu\u00edmicos que venham de fontes renov\u00e1veis. \u00c9 um projeto de m\u00e9dio e longo prazo.&#8221;<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 mundial, e o Brasil leva vantagem nesse cen\u00e1rio pela experi\u00eancia com o etanol da cana-de-a\u00e7\u00facar. O primeiro &#8220;pl\u00e1stico verde&#8221; do mundo come\u00e7ou a ser vendido pela Braskem em 2009. Seu principal cliente \u00e9 a Natura, conta Paulo Coutinho, diretor de inova\u00e7\u00e3o da maior petroqu\u00edmica brasileira. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o estamos abandonando o petr\u00f3leo. Veja que o pr\u00e9-sal est\u00e1 a\u00ed. Mas queremos aproveitar a competitividade que o Brasil tem na \u00e1rea de renov\u00e1veis&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O produto inovador da Braskem \u00e9 o eteno, feito a partir de etanol de cana. \u00c9 a base para a produ\u00e7\u00e3o de polietileno, o pol\u00edmero usado na confec\u00e7\u00e3o de sacolas pl\u00e1sticas e frascos de xampu, por exemplo. Quimicamente falando, o polietileno verde e o feito \u00e0 base de nafta s\u00e3o id\u00eanticos. Recicl\u00e1veis, mas n\u00e3o biodegrad\u00e1veis. A grande vantagem \u00e9 que a mat\u00e9ria-prima do primeiro, al\u00e9m de renov\u00e1vel, retira g\u00e1s carb\u00f4nico da atmosfera, enquanto a do \u00faltimo contribui para o efeito estufa, entre outras formas de polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma corrida mundial pela produ\u00e7\u00e3o de pol\u00edmeros verdes, e o que ajudou a empresa brasileira a sair na frente foi o fato de a tecnologia do processo n\u00e3o ser nova. Foi desenvolvida no final dos anos 1970 na Petrobras (que det\u00e9m 49% da Braskem), mas ficou guardada. &#8220;O eteno verde que eles fizeram era adequado para fazer PVC e n\u00f3s o adaptamos para produzir polietileno&#8221;, conta Coutinho.<\/p>\n<p>O projeto foi desengavetado agora n\u00e3o apenas pelas press\u00f5es ambientais, como se poderia supor, mas por quest\u00f5es econ\u00f4micas. &#8220;Em 2005 ouvi uma pessoa da ind\u00fastria dizer: &#8216;Com o barril de petr\u00f3leo a US$ 50 \u00e9 neg\u00f3cio usarmos etanol em vez de nafta'&#8221;, recorda Galembeck. Hoje o barril custa por volta de US$ 90.<\/p>\n<p>Fazer Qu\u00edmica Verde n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 substituir nafta por etanol, por\u00e9m. Existem 12 princ\u00edpios aplic\u00e1veis \u00e0 ind\u00fastria e a institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa que estimulam a busca de processos e produtos mais seguros, que gerem menos res\u00edduos e consumam menos energia (veja quadro \u00e0 direita), como explica Lenard\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Em vez de usar um solvente org\u00e2nico derivado do petr\u00f3leo, que \u00e9 vol\u00e1til, inflam\u00e1vel e t\u00f3xico, tentamos fazer a rea\u00e7\u00e3o sem solventes. Em alguns processos \u00e9 poss\u00edvel, em outros n\u00e3o. Tamb\u00e9m tentamos usar solventes n\u00e3o vol\u00e1teis, ou que sejam de fonte renov\u00e1vel, como a glicerina&#8221;, explica. Outras medidas incluem usar microondas para acelerar rea\u00e7\u00f5es e gastar menos energia e motorzinho de aqu\u00e1rio para reutilizar a \u00e1gua dos condensadores. \u00c9 preciso ser criativo.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es pontuais, mas que l\u00e1 na frente podem gerar um rol de procedimentos alternativos que podem ser usados em plantas industriais&#8221;, diz o pesquisador, que no ano passado conseguiu inserir no curr\u00edculo de gradua\u00e7\u00e3o em qu\u00edmica da UFPel uma disciplina obrigat\u00f3ria de Qu\u00edmica Verde. &#8220;Precisamos preparar os alunos para essa nova realidade.&#8221; Entre os colegas, por\u00e9m, ele admite que h\u00e1 resist\u00eancias. &#8220;\u00c9 dif\u00edcil mudar mentalidades.&#8221;<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Problemas verdes<\/strong><br \/>\nApesar dos avan\u00e7os na legisla\u00e7\u00e3o e nas iniciativas industriais, mesmo nas universidades ainda n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil fazer Qu\u00edmica Verde. &#8220;O que eu fa\u00e7o no meu laborat\u00f3rio ainda n\u00e3o \u00e9 verde, \u00e9 bege&#8221;, admite Lenard\u00e3o. Sem contar que novas solu\u00e7\u00f5es sempre podem gerar novos problemas. Um exemplo s\u00e3o os chamados l\u00edquidos i\u00f4nicos &#8211; sais que s\u00e3o l\u00edquidos \u00e0 temperatura ambiente e v\u00eam sendo estudados como alternativa aos solventes vol\u00e1teis. &#8220;Mas ainda n\u00e3o conhecemos sua toxicidade. Podemos concluir que n\u00e3o d\u00e1 para usar&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 a glicerina resultante da fabrica\u00e7\u00e3o do biodiesel. Embora bastante usada em cosm\u00e9ticos e sab\u00f5es, a quantidade consumida n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande, explica Mota. &#8220;Como a produ\u00e7\u00e3o de biodiesel tende a aumentar muito, ningu\u00e9m sabe o que fazer com tanta glicerina.&#8221; Num projeto em parceria com a Quattor, o pesquisador estuda seu uso na s\u00edntese de propeno, que \u00e9 a mat\u00e9ria-prima do polipropileno, pl\u00e1stico muito usado em brinquedos, utens\u00edlios de cozinha e eletrodom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>Problemas demandam solu\u00e7\u00f5es, que podem gerar novos problemas, que por sua vez precisam de novas solu\u00e7\u00f5es. Eis o motor da ci\u00eancia das mol\u00e9culas. Por isso ela \u00e9 t\u00e3o inovadora e se reinventa de tempos em tempos. Nessa tens\u00e3o prec\u00e1ria entre benef\u00edcio e risco, a Qu\u00edmica certamente \u00e9, entre as ci\u00eancias duras, a mais humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado na UC fevereiro\/2011) Em uma de suas can\u00e7\u00f5es menos lembradas hoje em dia, Renato Russo dizia que n\u00e3o sabia nada de F\u00edsica, Literatura ou Gram\u00e1tica. &#8220;S\u00f3 gosto de Educa\u00e7\u00e3o Sexual&#8221;, afirmava ele no refr\u00e3o, para em seguida frisar: &#8220;E eu odeio Qu\u00edmica, Qu\u00edmica, Qu\u00edmica!&#8221;. 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