{"id":86,"date":"2011-03-18T18:43:29","date_gmt":"2011-03-18T21:43:29","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/sede_de_sal\/"},"modified":"2011-03-18T18:43:29","modified_gmt":"2011-03-18T21:43:29","slug":"sede_de_sal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/18\/sede_de_sal\/","title":{"rendered":"Sede de sal"},"content":{"rendered":"<p>(<em>publicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=2550\">UC de mar\u00e7o\/2011<\/a><\/em>)<\/p>\n<p>Pode acontecer com qualquer um. J\u00e1 aconteceu com cerca de 30% dos brasileiros adultos. Um belo dia, provavelmente depois dos 50 anos, com azar antes disso, o sujeito deixa o consult\u00f3rio m\u00e9dico com a receita de um anti-hipertensivo e a recomenda\u00e7\u00e3o expressa de fazer exerc\u00edcios e diminuir muito o sal de sua comida. Ele \u00e9 o mais novo membro do clube dos portadores de press\u00e3o alta, candidatos preferenciais ao infarto e ao derrame cerebral.<\/p>\n<p>Tomar o rem\u00e9dio ser\u00e1 a parte mais f\u00e1cil. E se conseguir vencer a pregui\u00e7a e a falta de tempo, o sujeito se dar\u00e1 conta de que a atividade f\u00edsica, nem que seja uma simples caminhada, pode ser prazerosa. A pior parte vai ser se acostumar \u00e0 &#8216;vida sem sal&#8217;. E ter de lutar contra instintos primitivos que provavelmente o paciente nunca imaginou que tivesse.<\/p>\n<p>O cloreto de s\u00f3dio \u00e9 t\u00e3o importante para a biologia e a cultura da humanidade que nossos ancestrais percorreram dist\u00e2ncias absurdas e at\u00e9 travaram guerras por um bom punhado do mineral. &#8220;Subst\u00e2ncia divina&#8221;, para o poeta Homero, e um mineral &#8220;particularmente caro aos deuses&#8221;, segundo o fil\u00f3sofo Plat\u00e3o, seu simbolismo fica evidente no nosso vocabul\u00e1rio. Do latim sale derivaram palavras como sal\u00e1rio, sa\u00fade e saud\u00e1vel (<em>veja quadro abaixo<\/em>).<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o talhou nosso c\u00e9rebro para gostar de sal, precisamente do s\u00f3dio. Fomos programados para busc\u00e1-lo. Em especial porque &#8211; e essa talvez seja a parte mais surpreendente dessa necessidade fisiol\u00f3gica &#8211; o apetite para este nutriente e a sede s\u00e3o irm\u00e3os g\u00eameos siameses.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A epidemia de hipertens\u00e3o \u00e9 resultado de uma esp\u00e9cie de emboscada evolutiva em que o ser humano moderno se meteu. A ironia \u00e9 que precisamos desse mineral justamente para manter o equil\u00edbrio dos l\u00edquidos corporais, o que inclui um n\u00edvel adequado de press\u00e3o arterial &#8211; que nos permita ficar em p\u00e9, mas sem for\u00e7ar muito a &#8216;tubula\u00e7\u00e3o&#8217; sangu\u00ednea. No entanto, acabamos consumindo-o al\u00e9m do necess\u00e1rio, porque o c\u00e9rebro trabalha como nos tempos em que era preciso viajar dias para encontr\u00e1-lo ou pagar caro para conseguir um pouco do ent\u00e3o chamado &#8216;ouro branco&#8217;.<\/p>\n<p>&#8220;Somos fortemente motivados a ir atr\u00e1s de nutrientes que um dia foram escassos no ambiente&#8221;, diz o fisiologista Laurival Antonio De Luca Jr., da Faculdade de Odontologia da Unesp em Araraquara. &#8220;Esses mecanismos ancestrais de apetite por s\u00f3dio est\u00e3o presentes em muitos mam\u00edferos e provavelmente dificultam o controle do consumo de sal por n\u00f3s hoje em dia.&#8221;<\/p>\n<p>Deve ser por isso que o consumo per capita de s\u00f3dio nos Estados Unidos n\u00e3o diminuiu nos \u00faltimos anos, apesar dos esfor\u00e7os do governo americano para tentar restringi-lo. E ainda se mant\u00e9m alto, por volta de 11 g\/dia, contra os 5 recomendados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, como mostra um estudo publicado no ano passado no <em>American Journal of Clinical Nutrition<\/em>.<\/p>\n<p>Os autores do artigo sugerem como poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para tal fracasso o fato de a ingest\u00e3o humana de s\u00f3dio ser &#8220;um par\u00e2metro que mesmo a pol\u00edtica p\u00fablica mais bem intencionada n\u00e3o pode modificar na maioria das pessoas&#8221;. Nos Estados Unidos, alimentos industrializados levam r\u00f3tulos para alertar os consumidores sobre o risco de hipertens\u00e3o e doen\u00e7as cardiovasculares, que s\u00e3o a primeira causa de morte no mundo, segundo a OMS.<\/p>\n<p>O governo brasileiro tamb\u00e9m est\u00e1 preocupado com o impacto disso sobre o sistema de sa\u00fade. Uma resolu\u00e7\u00e3o da Anvisa (RDC 24\/2010), em vigor desde dezembro passado, determina que a publicidade dos produtos aliment\u00edcios tenha alertas n\u00e3o s\u00f3 para excesso de sal, mas tamb\u00e9m de a\u00e7\u00facar e gordura saturada ou trans, os principais vil\u00f5es da obesidade.<\/p>\n<p>Mas a ag\u00eancia perdeu a primeira batalha na guerra contra os excessos alimentares. Cerca de 70% das empresas do setor est\u00e3o sob uma liminar que as desobriga da exig\u00eancia. A resist\u00eancia tem pelo menos dois motivos: al\u00e9m de tornar o alimento mais palat\u00e1vel, o s\u00f3dio \u00e9 um \u00f3timo conservante.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Vida salgada<\/strong><\/p>\n<p>Seres vivos precisam de v\u00e1rios minerais: c\u00e1lcio, magn\u00e9sio, f\u00f3sforo, iodo etc. Mas nenhum deles parece nos despertar um apetite t\u00e3o espec\u00edfico quanto o s\u00f3dio (evid\u00eancias sugerem apetite por c\u00e1lcio e f\u00f3sforo em algumas esp\u00e9cies, mas o assunto ainda \u00e9 controverso). O privil\u00e9gio concedido a este \u00edon pela evolu\u00e7\u00e3o provavelmente tem a ver com a intimidade dele com o l\u00edquido universal, que corresponde a mais de 90% do peso de nosso corpo. A primeira c\u00e9lula surgida na Terra, h\u00e1 3,5 bilh\u00f5es de anos, estava imersa nas \u00e1guas salgadas do oceano primitivo.<\/p>\n<p>Entre as raz\u00f5es para que essa forma primordial de vida tenha sobrevivido e evolu\u00eddo para organismos marinhos, e depois para os terrestres, est\u00e1 a formid\u00e1vel propriedade de sua membrana celular de ser imperme\u00e1vel ao s\u00f3dio, mas n\u00e3o \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n<p>Isso faz com que os fisiologistas pensem no corpo dividido em dois compartimentos l\u00edquidos: intra e extracelular. Ambos est\u00e3o preenchidos por \u00e1gua, mas o segundo tem mais s\u00f3dio que o primeiro. \u00c9 como se o l\u00edquido extracelular, sangue inclusive, fizesse o papel daquele oceano primitivo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, vivendo fora da \u00e1gua, estamos sob o risco de desidratar a qualquer momento. Isso representa uma amea\u00e7a t\u00e3o grande que os animais terrestres foram dotados de mecanismos para compensar a perda de \u00e1gua, de s\u00f3dio ou de ambos.<\/p>\n<p>Nessas ocasi\u00f5es adversas, rins, gl\u00e2ndulas adrenais, c\u00e9rebro e at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o mobilizados para a produ\u00e7\u00e3o de pelo menos cinco horm\u00f4nios (veja quadro ao lado). S\u00f3 nos damos conta de uma m\u00ednima parte do processo quando, como resultado dessa orquestra\u00e7\u00e3o hormonal, centros cerebrais deflagram ou inibem a sede e a vontade de comer alguma coisa salgada.<\/p>\n<p>Estamos acostumados a pensar que a ingest\u00e3o de sal gera sede, mas raramente percebemos que beber \u00e1gua, quando o corpo est\u00e1 desidratado, pode resultar em vontade de comer sal. S\u00e3o dois comportamentos intimamente relacionados, e para entend\u00ea-los \u00e9 preciso considerar que h\u00e1 tr\u00eas tipos de desidrata\u00e7\u00e3o, como explica De Luca Jr.<\/p>\n<p>O primeiro exemplo \u00e9 o da desidrata\u00e7\u00e3o extracelular, que resulta de uma hemorragia, de v\u00f4mito ou diarreia, do exerc\u00edcio f\u00edsico intenso ou da priva\u00e7\u00e3o de sal. Perde-se s\u00f3dio e \u00e1gua do meio extracelular, a press\u00e3o arterial cai e o c\u00e9rebro ativa tanto a sede quanto a fome por alimentos salgados.<\/p>\n<p>J\u00e1 a desidrata\u00e7\u00e3o intracelular decorre da ingest\u00e3o excessiva de s\u00f3dio, como quando comemos uma feijoada. Como a concentra\u00e7\u00e3o do \u00edon no l\u00edquido extracelular aumenta muito, parte da \u00e1gua que est\u00e1 dentro da c\u00e9lula migra para fora, por osmose. O c\u00e9rebro ent\u00e3o entra em a\u00e7\u00e3o para ativar a sede e inibir a vontade de sal.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Segredo do soro caseiro<\/strong><\/p>\n<p>O terceiro tipo de desidrata\u00e7\u00e3o, por fim, \u00e9 o da pessoa que fica privada de \u00e1gua e de s\u00f3dio. &#8220;Isso produz uma desidrata\u00e7\u00e3o dupla&#8221;, diz o pesquisador. Por mais que os horm\u00f4nios ordenem aos rins para reterem \u00e1gua e s\u00f3dio, a perda dos dois pelo suor e pela urina \u00e9 inexor\u00e1vel. &#8220;Ocorre uma redu\u00e7\u00e3o do volume dos fluidos tanto intra quanto extracelular&#8221;, explica. Nessa situa\u00e7\u00e3o, a ingest\u00e3o de apenas \u00e1gua ir\u00e1 corrigir a desidrata\u00e7\u00e3o intracelular, mas n\u00e3o a extra. O que ocorre em seguida \u00e9 a ativa\u00e7\u00e3o do apetite pelo s\u00f3dio, que antes estava inibido pela desidrata\u00e7\u00e3o intracelular.<\/p>\n<p>Para repor o l\u00edquido extracelular, numa emerg\u00eancia, nada melhor que a bem-sucedida f\u00f3rmula do soro caseiro: \u00e1gua, sal e (para tornar a solu\u00e7\u00e3o mais palat\u00e1vel) a\u00e7\u00facar. Bebendo somente \u00e1gua, a pessoa vai continuar desidratada.<\/p>\n<p>Pesquisando esses v\u00e1rios tipos de desidrata\u00e7\u00e3o em ratos, De Luca Jr. e seu colega de laborat\u00f3rio Jos\u00e9 Vanderlei Menani est\u00e3o testando as vias neurais envolvidas no apetite por sal, uma \u00e1rea ainda pouco explorada nas neuroci\u00eancias. Um dos interesses deles s\u00e3o neur\u00f4nios localizados junto aos ventr\u00edculos, que s\u00e3o cavidades do c\u00e9rebro, preenchidas por l\u00edquido. Esses neur\u00f4nios fazem parte de &#8216;\u00f3rg\u00e3os sensoriais&#8217; capazes de detectar o que acontece na qu\u00edmica do sangue, como mudan\u00e7as na concentra\u00e7\u00e3o de sal e de horm\u00f4nios.<\/p>\n<p>A dupla de cientistas integra o Laborat\u00f3rio de Fisiologia de Araraquara, no qual se estuda os mecanismos neurais envolvidos na ingest\u00e3o de s\u00f3dio e \u00e1gua em ratos com press\u00e3o arterial normal e nos geneticamente modificados para serem hipertensos. Embora tenham muita precau\u00e7\u00e3o na hora de extrapolar os dados para o comportamento humano, algumas observa\u00e7\u00f5es acumuladas ao longo de anos de experimentos ajudam a entender o drama dos pacientes. &#8220;Comer pouco sal pode ser muito estressante&#8221;, afirma Menani.<\/p>\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que alguns medicamentos anti-hipertensivos tendem a aumentar o apetite por s\u00f3dio&#8221;, diz. Isso pode ocorrer, por exemplo, com a furosemida e, dependendo da dose, com o captopril &#8211; os dois anti-hipertensivos mais prescritos pelos m\u00e9dicos. &#8220;J\u00e1 a moxonidina inibe a vontade de comer salgado&#8221;, prossegue ele. &#8220;Em compensa\u00e7\u00e3o, deixa a boca seca, porque tamb\u00e9m inibe a saliva\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Algumas pessoas s\u00e3o mais fissuradas em sal e sofrem mais quando t\u00eam de maneir\u00e1-lo. A explica\u00e7\u00e3o pode estar na inf\u00e2ncia. Os cientistas j\u00e1 sabem que crian\u00e7as e jovens que tiveram alimenta\u00e7\u00e3o mais salgada chegam \u00e0 idade adulta com maior intimidade com o saleiro. Isso pode acontecer tamb\u00e9m com quem passou por desidrata\u00e7\u00e3o quando pequeno.<\/p>\n<p>&#8220;Os grandes mist\u00e9rios est\u00e3o no c\u00e9rebro&#8221;, diz Jos\u00e9 Antunes Rodrigues, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeir\u00e3o Preto, sobre o desafio de entender os mecanismos que controlam a ingest\u00e3o de \u00e1gua e s\u00f3dio, o consumo excessivo do mineral e a pr\u00f3pria hipertens\u00e3o. Embora v\u00e1rios fatores de risco para a doen\u00e7a sejam conhecidos (e a ingest\u00e3o exagerada de s\u00f3dio \u00e9 apenas um deles), 95% dos pacientes recebem o diagn\u00f3stico de &#8216;hipertens\u00e3o essencial&#8217;, isto \u00e9, sem causa definida.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda faltam muitas respostas&#8221;, diz o pesquisador, que estuda o assunto desde 1955. &#8220;Uma pessoa pode comer mais de 5 g de s\u00f3dio por dia por muito tempo e seu organismo vai regular o balan\u00e7o hidros-salino. O problema \u00e9 que, com o avan\u00e7ar da idade, as coisas come\u00e7am a complicar. N\u00e3o sabemos bem por qu\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>O ser humano viveu ingerindo baix\u00edssimas quantidades de s\u00f3dio durante toda sua exist\u00eancia como n\u00f4made e ca\u00e7ador&#8211;coletor. Foi quando passou a domesticar animais, h\u00e1 cerca de 5 mil anos, que se deu conta de que o sal \u00e9 um excelente conservante dos alimentos. Por causa das carnes e peixes curados, j\u00e1 se abusou muito mais dele no passado. Estudos indicam que os antigos romanos consumiam pelo menos 25 g di\u00e1rios da subst\u00e2ncia. A dieta dos suecos do s\u00e9culo 16, com cerca de 100 g de s\u00f3dio por dia, seria intrag\u00e1vel para os paladares contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>No outro extremo est\u00e3o os \u00edndios ianom\u00e2mis, que ainda hoje vivem na Amaz\u00f4nia. Eles s\u00e3o sempre citados em estudos que associam o consumo excessivo de s\u00f3dio \u00e0 press\u00e3o alta. Estima-se que nesse grupo, em que a doen\u00e7a inexiste, o consumo m\u00e9dio per capita da subst\u00e2ncia seja de 11 mg por dia &#8211; cem vezes menor que o do brasileiro m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Para refor\u00e7ar o conte\u00fado salino de sua dieta, os ianom\u00e2mis mant\u00eam um ritual que alguns acreditam que ajude a contornar a falta do nutriente: o canibalismo funer\u00e1rio. Contendo s\u00f3dio (e outros minerais), as cinzas do morto s\u00e3o usadas como tempero. H\u00e1 quem diga que o canibalismo, em qualquer modalidade, pode ter sido uma sa\u00edda adotada por culturas que passaram pelo problema da escassez do \u00edon.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>V\u00edcio ou autoprote\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA neuroci\u00eancia do apetite por sal \u00e9 um campo f\u00e9rtil em hip\u00f3teses. Se hoje comemos muito mais sal do que precisamos, talvez seja porque, na verdade, estamos viciados. A hip\u00f3tese de depend\u00eancia qu\u00edmica causada pelo s\u00f3dio \u00e9 de autoria de Yalcin Tekol, um farmacologista da Universidade Ercyes, na Turquia. O Manual Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (DSM-IV) lista sete crit\u00e9rios associados \u00e0 depend\u00eancia e define que a confirma\u00e7\u00e3o de tr\u00eas j\u00e1 \u00e9 suficiente para o diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Tekol, em artigo publicado em 2006 na revista <em>Medical Hypothesis<\/em>, lista quatro deles: consumo cont\u00ednuo em grande quantidade por per\u00edodo prolongado; uso da subst\u00e2ncia apesar dos danos \u00e0 sa\u00fade; desejo persistente e dificuldade de diminuir a ingest\u00e3o; s\u00edndrome de abstin\u00eancia. Acerca do \u00faltimo, o autor relata a pr\u00f3pria experi\u00eancia: &#8220;Eu me abstenho de sal de mesa h\u00e1 mais de 20 anos. No in\u00edcio, achava a comida sem sabor, tive anorexia e leve n\u00e1usea&#8221;.<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia por s\u00f3dio poderia, inclusive, explicar a atual epidemia de obesidade, como sugerem James Cocores e Mark Gold, da Universidade da Fl\u00f3rida. Os cientistas baseiam-se em evid\u00eancias que mostram que o s\u00f3dio estimula \u00e1reas do c\u00e9rebro ligadas ao prazer, como o \u00e1lcool. Diferentemente dos roedores, que gostam de beber uma solu\u00e7\u00e3o salina, ou de ruminantes, que podem passar horas lambendo uma rocha salgada, n\u00f3s ingerimos o s\u00f3dio por meio dos alimentos, principalmente os industrializados, geralmente tamb\u00e9m abundantes em a\u00e7\u00facar e gorduras.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 quem sugira que a ingest\u00e3o excessiva de s\u00f3dio seja uma esp\u00e9cie de automedica\u00e7\u00e3o contra a depress\u00e3o. \u00c9 o que defende o fisiologista Alan Kim Johnson, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Ele se baseia em estudos que mostram como ficam desmotivados os ratos privados do nutriente. Evid\u00eancias em humanos associam a s\u00edndrome de fadiga cr\u00f4nica &#8211; um dist\u00farbio de causas pouco conhecidas e que traz altera\u00e7\u00f5es de humor &#8211; a uma dieta voluntariamente pobre em s\u00f3dio.<\/p>\n<p>Enquanto os cientistas procuram evid\u00eancias que confirmem ou rejeitem essas hip\u00f3teses e deixem mais claro como o s\u00f3dio atua no c\u00e9rebro, o melhor a fazer \u00e9 maneirar o sal, mesmo quem (ainda) n\u00e3o tem diagn\u00f3stico de hipertens\u00e3o. O pesquisador Jos\u00e9 Antunes Rodrigues, hipertenso desde os 60 anos (hoje ele tem 77) deixa a dica: &#8220;O segredo \u00e9 temperar bem a comida e, \u00e0s vezes, usar uma pimentinha.&#8221;<\/p>\n<p>BOX<br \/>\n<strong>Culto ao cloreto de s\u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que a V\u00eanus de Boticelli (ao lado) nasce no mar. O sal \u00e9 um s\u00edmbolo de fertilidade, sa\u00fade e imortalidade. O &#8216;salut&#8217; com que os franceses se cumprimentam e os &#8216;saludos&#8217; com que os hisp\u00e2nicos se despedem derivam do latim sale, salus, salubris. A palavra sal aparece mais de 50 vezes na B\u00edblia e, para S\u00e3o Jer\u00f4nimo, Cristo era o &#8220;verdadeiro sal&#8221;. Se hoje o sal\u00e1rio refere-se a uma quantia em dinheiro \u00e9 porque o Imp\u00e9rio Romano pagava seus soldados com o mineral. Os chineses antigos conheciam as virtudes do p\u00f3 branco, mas n\u00e3o ignoravam seus riscos. H\u00e1 3 mil anos, um imperador chin\u00eas escreveu que &#8220;se muito sal for usado na comida, o pulso engrossa, as l\u00e1grimas aparecem e a complei\u00e7\u00e3o muda&#8221;.<\/p>\n<p>BOX<br \/>\n<strong>Louco por um saleiro<\/strong><br \/>\nSal foi uma das primeiras palavras que o garoto aprendeu a falar, antes de completar 1 ano de idade.<\/p>\n<p>Quando conseguiu caminhar com as pr\u00f3prias pernas, passou a revirar os arm\u00e1rios da cozinha em busca de tudo que fosse salgado e, sempre que podia, atacava o saleiro. Seus pais obviamente estranharam o comportamento do filho, mas n\u00e3o colocaram obst\u00e1culos \u00e0 fissura cr\u00f4nica dele pelo mineral.<br \/>\nAos 3 anos e meio, por causa da suspeita de puberdade precoce, o menino foi internado num hospital.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de se deparar com uma dieta pobre em s\u00f3dio, ele foi privado dos meios que tinha para obter a subst\u00e2ncia. Seu desespero n\u00e3o comoveu os m\u00e9dicos, que pouco entenderam a situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita. O garoto acabou morrendo, vitimado por complica\u00e7\u00f5es resultantes do desequil\u00edbrio hidrossalino.<\/p>\n<p>Trata-se de um caso cl\u00e1ssico na hist\u00f3ria da fisiologia, descrito em 1940 pelo fisiologista americano Curt Richter (1894-1988), da Universidade Johns Hopkins (EUA). Richter foi o primeiro cientista a investigar o apetite por s\u00f3dio, alguns anos antes de relatar essa hist\u00f3ria. Ele constatou que a crian\u00e7a tinha uma defici\u00eancia nas gl\u00e2ndulas adrenais e, por isso, n\u00e3o produzia um horm\u00f4nio (aldosterona) essencial para a reten\u00e7\u00e3o de s\u00f3dio pelos rins.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado na UC de mar\u00e7o\/2011) Pode acontecer com qualquer um. J\u00e1 aconteceu com cerca de 30% dos brasileiros adultos. 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