{"id":87,"date":"2011-03-27T20:05:46","date_gmt":"2011-03-27T23:05:46","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/danubio_vermelho\/"},"modified":"2011-03-27T20:05:46","modified_gmt":"2011-03-27T23:05:46","slug":"danubio_vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/03\/27\/danubio_vermelho\/","title":{"rendered":"Dan\u00fabio vermelho"},"content":{"rendered":"<p><em>(publicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=2284\">UC dezembro\/2010<\/a>)<\/em><\/p>\n<p>Mais acostumados a divulgar vazamentos de petr\u00f3leo que acidentes da ind\u00fastria de alum\u00ednio, jornais de todo mundo espantaram seus leitores ao divulgarem no come\u00e7o de outubro imagens da pequena cidade h\u00fangara de Ajka (a 160 km de Budapeste), inundada por um l\u00edquido espesso, vermelho e altamente c\u00e1ustico. A destrui\u00e7\u00e3o, causada pelo rompimento de um reservat\u00f3rio de &#8220;lama t\u00f3xica&#8221; &#8211; como ficou conhecido o material, que chegou a alcan\u00e7ar o rio Dan\u00fabio -, trouxe \u00e0 tona as s\u00e9rias quest\u00f5es ambientais que envolvem a fabrica\u00e7\u00e3o do metal.<\/p>\n<p>Para alguns pesquisadores, a cat\u00e1strofe refor\u00e7a a necessidade urgente de encontrar uma utilidade para esse res\u00edduo corrosivo, que se acumula em gigantescas lagoas artificiais constru\u00eddas em diversos pa\u00edses onde h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o de bauxita &#8211; entre eles, o Brasil. Da bauxita se extrai a alumina (\u00f3xido de alum\u00ednio), que depois \u00e9 convertida em alum\u00ednio, o metal leve e male\u00e1vel com o qual s\u00e3o feitas latas de bebidas, embalagens de alimentos e esquadrias de portas e janelas, para citar apenas alguns exemplos dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>Para produzir uma tonelada de alum\u00ednio s\u00e3o necess\u00e1rias quatro toneladas de bauxita e, no processo de beneficiamento, s\u00e3o geradas duas toneladas de lama vermelha, explica Maria L\u00facia Pereira Antunes, pesquisadora do N\u00facleo de Automa\u00e7\u00e3o e Tecnologias Limpas da Unesp em Sorocaba. &#8220;Ningu\u00e9m sabe o que fazer com esse res\u00edduo. \u00c9 um enorme passivo ambiental.&#8221;<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nMuitos ve\u00edculos de imprensa chegaram a noticiar que o res\u00edduo vazado em Ajka tinha alto teor de metais pesados, que s\u00e3o t\u00f3xicos (da\u00ed o apelido que a lama recebeu), mas a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi confirmada pelo governo h\u00fangaro &#8211; e esses elementos n\u00e3o costumam estar presentes no processo de beneficiamento ou na bauxita.<\/p>\n<p>Os principais componentes minerais da lama vermelha s\u00e3o \u00f3xido de ferro (de onde vem sua cor) e \u00f3xido de s\u00edlicio (na forma de areia e quartzo), al\u00e9m de uma pequena quantidade de \u00f3xido de tit\u00e2nio. Teoricamente, a ind\u00fastria poderia reaproveitar o \u00f3xido de ferro, mas a tarefa \u00e9 economicamente invi\u00e1vel. &#8220;\u00c9 mais barato extra\u00ed-lo da natureza&#8221;, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>Do ponto de vista ambiental, o maior problema da lama vermelha \u00e9 sua caracter\u00edstica alcalina, que faz com que ela queime e corroa quase tudo que toca. O m\u00e9todo qu\u00edmico usado na extra\u00e7\u00e3o de alumina a partir da bauxita usa como solvente o hidr\u00f3xido de s\u00f3dio, mais conhecido como soda c\u00e1ustica, que permanece no res\u00edduo. Na escala de pH, em que 1 \u00e9 o m\u00e1ximo da acidez e 14, o m\u00e1ximo da alcalinidade, a lama que vazou na Hungria atingia o valor de 13.<\/p>\n<p>No Estado de S\u00e3o Paulo, onde a legisla\u00e7\u00e3o ambiental obriga que as empresas diminuam a alcalinidade do res\u00edduo, o pH da lama vermelha fica entre nove e dez. Mesmo assim, \u00e9 algo agressivo o bastante para alterar o equil\u00edbrio biol\u00f3gico de uma regi\u00e3o caso ela seja afetada por um vazamento, principalmente se o l\u00edquido atingir os cursos d&#8217;\u00e1gua, como ocorreu em Ajka.<\/p>\n<p>Segundo Maria L\u00facia, \u00e9 dif\u00edcil imaginar o impacto do acidente no rio Dan\u00fabio, dada a quantidade gigantesca de res\u00edduo lan\u00e7ada no ambiente. As estimativas giram em torno de 700 milh\u00f5es de litros de lama vermelha &#8211; mais que o volume calculado para o vazamento de petr\u00f3leo no Golfo do M\u00e9xico entre abril e agosto deste ano (cerca de 600 milh\u00f5es de litros), o maior desastre ambiental da hist\u00f3ria dos Estados Unidos<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Res\u00edduo que limpa res\u00edduo<\/strong><br \/>\nA pesquisadora de Sorocaba \u00e9 uma f\u00edsica que se tornou especialista na forma\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o da alumina e, de tanto visitar com seus alunos o reservat\u00f3rio mantido por uma refinaria da CBA (Companhia Brasileira de Alum\u00ednio) em Alum\u00ednio, perto de Sorocaba, decidiu levar a lama vermelha para o laborat\u00f3rio e procurar uma utilidade para o res\u00edduo. Com um projeto financiado pela Fapesp, ela quer saber se esse material pode ser usado no tratamento dos efluentes da ind\u00fastria t\u00eaxtil.<\/p>\n<p>&#8220;Por mais que a ind\u00fastria trate os efluentes t\u00eaxteis como manda a legisla\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil remover completamente os corantes (que tingem os tecidos)&#8221;, diz. &#8220;O resultado \u00e9 uma \u00e1gua que sempre tem um pouco de cor.&#8221; Sua ideia \u00e9 usar a lama vermelha da mesma forma como \u00e9 usado o carv\u00e3o ativado, para adsorver os corantes e deixar o efluente mais limpo. A adsor\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno f\u00edsico no qual as mol\u00e9culas de um fluido (o adsorvido) aderem, por atra\u00e7\u00e3o de cargas el\u00e9tricas, a uma superf\u00edcie s\u00f3lida (o adsorvente). Maria L\u00facia tem secado a lama at\u00e9 transform\u00e1-la num p\u00f3 e imobiliz\u00e1-lo numa placa, pela qual o efluente polu\u00eddo passar\u00e1 e do qual, espera-se, poder\u00e1 sair mais limpo. &#8220;Ainda estamos na fase de bancada, estudando as propriedades da lama e testando diferentes fra\u00e7\u00f5es dela para ver que tipo de corante ela adsorve melhor&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Enquanto isso, seu colega Fabiano Tomazini da Concei\u00e7\u00e3o, ge\u00f3logo da Unesp em Rio Claro, faz algo parecido, mas com finalidade um pouco diferente. Ele quer saber se a lama t\u00f3xica \u00e9 capaz de remover metais pesados da \u00e1gua contaminada.<\/p>\n<p>Os resultados, tamb\u00e9m neste caso, s\u00e3o preliminares. Trabalhando com metais como chumbo, cobre, c\u00e1dmio e n\u00edquel, ele tem feito testes para saber quanto o material \u00e9 capaz de adsorv\u00ea-los. &#8220;Usamos a lama in natura ou ativada, isto \u00e9, que passa por um tratamento t\u00e9rmico, com o objetivo de aumentar a adsor\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<p>O projeto conta com apoio do CNPq. Expertise australiana Especializado no manejo de bacias hidrogr\u00e1ficas, Tomazini come\u00e7ou a se interessar pela lama vermelha durante o p\u00f3s-doc na Universidade de Brisbane, na Austr\u00e1lia, de onde voltou no ano passado com o contato de alguns pesquisadores. Ele j\u00e1 conhecia Maria L\u00facia do c\u00e2mpus de Sorocaba, onde trabalhou at\u00e9 2008, antes de se transferir para Rio Claro. Os interesses dos dois convergiram e agora \u00e9 ela que est\u00e1 de malas prontas para Brisbane, para um est\u00e1gio de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Maior produtor mundial de bauxita, a Austr\u00e1lia \u00e9 tamb\u00e9m o pa\u00eds que mais investe em pesquisas para transformar o res\u00edduo da fabrica\u00e7\u00e3o do alum\u00ednio em algo \u00fatil. Uma das linhas de pesquisa dos cientistas australianos, conta Tomazini, \u00e9 o uso da lama vermelha para a adsor\u00e7\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico. Se mostrar capacidade e efici\u00eancia para sequestrar um dos principais respons\u00e1veis pelo efeito estufa, o res\u00edduo poderia ser usado em filtros de escapamentos e chamin\u00e9s.<\/p>\n<p>Adsorver corantes, metais pesados ou g\u00e1s carb\u00f4nico \u00e9 um jeito de dar utilidade para a lama vermelha, mas isso n\u00e3o elimina o problema de ela continuar ocupando espa\u00e7o no planeta, sempre correndo o risco de contaminar o ambiente, alertam os pesquisadores. Por isso, a segunda etapa das pesquisas envolve o uso do res\u00edduo (com qualquer coisa que estiver adsorvida nele) na fabrica\u00e7\u00e3o de concreto e tijolos.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 assim a gente resolve um problema de escala, j\u00e1 que a quantidade de lama produzida \u00e9 muito grande&#8221;, diz Maria L\u00facia. No caso do concreto, a ideia \u00e9 substituir uma fra\u00e7\u00e3o da areia por lama vermelha. Para os tijolos, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais delicada. &#8220;Como \u00e9 um material cer\u00e2mico, envolve queima. N\u00f3s precisamos saber que tipo de res\u00edduo vai sair pela chamin\u00e9, sen\u00e3o o que poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o ambiental, vira um problema&#8221;, pondera a pesquisadora.<\/p>\n<p>A pesquisa est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando. &#8220;Temos de entender como os gr\u00e2nulos da lama e os minerais contidos nela v\u00e3o compor a estrutura do tijolo&#8221;, afirma Tomazini. Uma das preocupa\u00e7\u00f5es, no caso da lama usada previamente como filtro de metais pesados, por exemplo, \u00e9 que esses elementos se despreguem do material que venha a ser usado na constru\u00e7\u00e3o civil e contaminem o ambiente. Com essas quest\u00f5es em mente, o ge\u00f3logo de Rio Claro deve ir ainda este ano ao Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron, em Campinas, para analisar suas amostras sob poderosos microsc\u00f3pios eletr\u00f4nicos (de forma semelhante ao explicado no &#8220;Como se faz&#8221; desta edi\u00e7\u00e3o, a partir da p\u00e1g. 12).<\/p>\n<p>As empresas produtoras de alum\u00ednio demonstram interesse nas pesquisas com a lama vermelha, segundo Maria L\u00facia. &#8220;Isso ocorre no mundo inteiro, porque o custo de manter uma lagoa (reservat\u00f3rio) \u00e9 alt\u00edssimo. Tem que haver monitoramento cont\u00ednuo&#8221;, comenta. A lagoa mantida pela CBA em Alum\u00ednio, de onde vem o res\u00edduo que est\u00e1 sendo testado pelos pesquisadores da Unesp, ocupa uma \u00e1rea de 1 hectare e tem capacidade para 870 mil metros c\u00fabicos. Em 2024, ela deve ser desativada. &#8220;Depois disso, v\u00e3o ter que procurar outro lugar [para armazenar o res\u00edduo]. \u00c9 um passivo para a vida inteira.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>BOX<br \/>\nO peso do metal leve na economia<\/strong><br \/>\nO alum\u00ednio \u00e9 o segundo metal mais consumido no mundo, atr\u00e1s do ferro. \u00c9 obtido a partir da alumina (\u00f3xido de alum\u00ednio), que por sua vez \u00e9 extra\u00edda da bauxita. As grandes jazidas do min\u00e9rio localizam-se em regi\u00f5es tropicais e subtropicais do planeta.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 o terceiro maior produtor mundial de bauxita,com reservas estimadas em 3,4 bilh\u00f5es de toneladas e produ\u00e7\u00e3o anual de 26 milh\u00f5es de toneladas, segundo dados do Minist\u00e9rio de Minas e Energia (MME). As principais reservas brasileiras ficam no Par\u00e1 e em Minas Gerais. At\u00e9 meados dos anos 1990, metade do min\u00e9rio extra\u00eddo aqui era exportada. Atualmente opa\u00eds consome mais de 80% do que produz.<\/p>\n<p>Em 2008, a ind\u00fastria de alum\u00ednio e derivados foi respons\u00e1vel por 4,5% do PIB industrial brasileiro e 3% das exporta\u00e7\u00f5es. No mesmo ano, ainda segundo o MME, o pa \u00eds produziu 7,1 milh\u00f5es de toneladas de alumina (12% a produ\u00e7\u00e3o mundial). O faturamento do setor, que emprega cerca de 65 mil pessoas, foi US $ 14,3 bilh\u00f5es. O alum\u00ednio \u00e9 amplamente empregado na ind\u00fastria de transporte (de avi\u00f5es a bicicletas), de embalagens (na forma de papel, chapas, latas e diversos outros formatos), de objetos dom\u00e9sticos (utens\u00edlios de cozinha, ferramentas, suportes), na constru\u00e7\u00e3o civil (janelas, portas, grades, divis\u00f3rias) e na transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica (em muitos casos, ele \u00e9 mais vantajoso que o cobre).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado na UC dezembro\/2010) Mais acostumados a divulgar vazamentos de petr\u00f3leo que acidentes da ind\u00fastria de alum\u00ednio, jornais de todo mundo espantaram seus leitores ao divulgarem no come\u00e7o de outubro imagens da pequena cidade h\u00fangara de Ajka (a 160 km de Budapeste), inundada por um l\u00edquido espesso, vermelho e altamente c\u00e1ustico. 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