{"id":90,"date":"2011-05-04T14:07:37","date_gmt":"2011-05-04T17:07:37","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/05\/cartas_de_um_heroi_ressentido\/"},"modified":"2011-05-04T14:07:37","modified_gmt":"2011-05-04T17:07:37","slug":"cartas_de_um_heroi_ressentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/05\/04\/cartas_de_um_heroi_ressentido\/","title":{"rendered":"Cartas de um her\u00f3i ressentido"},"content":{"rendered":"<p>Resenha publicada na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Unesp Ci\u00eancia<\/a> de abril de 2011.<\/p>\n<p><a><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-474\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/05\/heroi-620x407.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"407\" \/><\/a><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>An\u00e1lise das missivas de Sim\u00f3n Bol\u00edvar, um dos maiores \u00edcones da independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina, revela o esfor\u00e7o de um homem frustrado para salvar sua honra e ser idolatrado pelas gera\u00e7\u00f5es futuras<\/strong><\/p>\n<p>Alheia \u00e0 hist\u00f3ria da independ\u00eancia da Am\u00e9rica hisp\u00e2nica, a maioria dos brasileiros talvez deva a Hugo Ch\u00e1vez o pouco que sabe sobre o general Sim\u00f3n Bol\u00edvar (1783-1830).<\/p>\n<p>O presidente da Rep\u00fablica Bolivariana da Venezuela (assim renomeada por Ch\u00e1vez) comporta-se como a reencarna\u00e7\u00e3o do her\u00f3i que derrotou o dom\u00ednio europeu no s\u00e9culo 19 e at\u00e9 hoje \u00e9 cultuado com tintas vibrantes tamb\u00e9m na Col\u00f4mbia, no Peru e na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Em julho passado, Ch\u00e1vez ordenou a exuma\u00e7\u00e3o dos restos de Bol\u00edvar, para investigar a &#8220;verdadeira&#8221; causa mortis. Os registros oficiais d\u00e3o conta de que a tuberculose matou lentamente o general, mas o l\u00edder venezuelano desconfia que ele foi envenenado &#8211; afinal, her\u00f3i que se preze morre assassinado, n\u00e3o de infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a historiadora Fabiana de Souza Fredrigo tivesse problemas se quisesse publicar seu Guerras e escritas (Editora Unesp) no pa\u00eds de Hugo Ch\u00e1vez, pois o Sim\u00f3n Bol\u00edvar que ela revela, por meio da an\u00e1lise de suas cartas, \u00e9 um ser humano vaidoso, ambicioso e, mais tarde, frustrado e amargurado. E, acima de tudo, um homem preocupado com a forma como seria lembrado na posteridade.<\/p>\n<p>Por meio das 2.815 missivas que escreveu ao longo da vida, analisadas em seu doutorado na Unesp em Franca, a autora descortina um projeto de mem\u00f3ria que Bol\u00edvar assumia como parte importante de sua vida.<\/p>\n<p>&#8220;Ao oferecer aos seus interlocutores, cuidadosamente escolhidos, suas missivas, o general constru\u00eda um c\u00f3digo de valor entre seus homens (&#8230;). Bol\u00edvar pretendia que sua mem\u00f3ria atingisse e mobilizasse gera\u00e7\u00f5es futuras. Pleitear a possibilidade de a posteridade anuir a seu projeto era uma aposta audaciosa, reveladora do fato de que, embora Bol\u00edvar n\u00e3o pudesse ter o dom\u00ednio do futuro, o projetava. As cartas e os documentos que deixara para comprovar sua hist\u00f3ria eram a armadura protetora de sua honra&#8221;, escreve a autora.<\/p>\n<p>Em nome dessa honra, o general costumava exagerar nos relatos de sucesso de suas estrat\u00e9gias militares e no n\u00famero de soldados de que dispunha. Numa carta de 1822, Bol\u00edvar pede a outro militar: &#8220;[escreva] mil exageros de paz, guerra e coisas de Europa para que eu possa mostrar estas cartas a todos, principalmente aos inimigos, mas [escreva] exageros que sejam cr\u00edveis&#8221;. Em 1825, quando come\u00e7a sua decad\u00eancia f\u00edsica, ele dissimuladamente registra: &#8220;N\u00e3o mande publicar minhas cartas, nem vivo nem morto, porque elas est\u00e3o escritas com muita liberdade e desordem&#8221;.<\/p>\n<p>Libertar as col\u00f4nias sul-americanas do dom\u00ednio espanhol at\u00e9 que foi f\u00e1cil se comparado ao trabalho que foi lidar com as guerras internas que se sucederam \u00e0 independ\u00eancia e fragmentaram parte do continente, para profundo desgosto do general. &#8220;A vida de gl\u00f3rias terminaria com a incompreens\u00e3o do povo que ele havia lutado para libertar&#8221;, afirma Fabiana. &#8220;Se, ao final da vida, algo paralisava Bol\u00edvar, n\u00e3o era exatamente a doen\u00e7a, mas o ressentimento.&#8221;<\/p>\n<p>E se hoje nada disso transparece no culto ao mito \u00e9 porque seu projeto de mem\u00f3ria foi de fato bem-sucedido. Influenciou gera\u00e7\u00f5es de historiadores latino-americanos, principalmente venezuelanos, que abriram m\u00e3o do olhar cr\u00edtico e ignoraram as contradi\u00e7\u00f5es do personagem &#8211; um cen\u00e1rio que felizmente come\u00e7a a mudar, como mostra este livro.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Guerras e escritas &#8211; A correspond\u00eancia de Sim\u00f3n Bol\u00edvar (1799-1830)<\/strong><br \/>\nFabiana de Souza Fredrigo; Editora Unesp; 290 p\u00e1gs. R$ 59<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha publicada na Unesp Ci\u00eancia de abril de 2011. 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