{"id":94,"date":"2011-05-20T18:18:25","date_gmt":"2011-05-20T21:18:25","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/05\/quem_vai_querer_plantar_banana\/"},"modified":"2011-05-20T18:18:25","modified_gmt":"2011-05-20T21:18:25","slug":"quem_vai_querer_plantar_banana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/05\/20\/quem_vai_querer_plantar_banana\/","title":{"rendered":"Quem vai querer plantar banana?"},"content":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Unesp Ci\u00eancia<\/a> de maio de 2011.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/19\/quem-vai-querer-plantar-banana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-461\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/05\/banana-1-620x406.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"406\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/19\/quem-vai-querer-plantar-banana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-463\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/05\/banana-3-620x406.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"406\" \/><\/a> <em><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/19\/quem-vai-querer-plantar-banana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-464\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/05\/banana-4-620x407.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"407\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/19\/quem-vai-querer-plantar-banana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-465\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/05\/banana-5-620x406.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"406\" \/><\/a> <strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Fungos agressivos colocam o cultivo da fruta mais popular do pa\u00eds em alto risco; novas t\u00e9cnicas de manejo e de melhoramento s\u00e3o promissoras, mas amea\u00e7as podem levar a uma reinven\u00e7\u00e3o da cultura no futuro<\/strong><br \/>\n<big><\/big><\/p>\n<p>Yes, n\u00f3s temos&#8230; problemas. \u00c9 o que provavelmente diriam muitos produtores de banana do Vale do Ribeira, no sul do Estado de S\u00e3o Paulo, se parafraseassem o imortal verso da marchinha de Braguinha e Alberto Ribeiro, lan\u00e7ada no carnaval de 1938.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o, uma das maiores concentra\u00e7\u00f5es de plantio da fruta do pa\u00eds, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo sofre com a Sigatoka negra &#8211; doen\u00e7a que atinge as folhas da bananeira, tingindo-as de manchas escuras. Sem poder capturar energia solar, esse arbusto gigante (n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rvore) fica incapaz de fazer corretamente a fotoss\u00edntese e, portanto, n\u00e3o consegue nutrir seu cacho.<\/p>\n<p>Quem passa por uma estrada de terra que corta v\u00e1rios bananais comerciais nos arredores de Registro, a maior cidade do Vale do Ribeira (70 mil habitantes), v\u00ea de vez em quando bananeiras com cachos atrofiados que, se n\u00e3o forem cortados, v\u00e3o cair e apodrecer antes de amadurecer. A imagem mais frequente, por\u00e9m, s\u00e3o folhas estragadas, que um leigo pode pensar serem apenas velhas, mas nas quais qualquer agr\u00f4nomo do lugar bate o olho e diagnostica facilmente a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Os bananicultores que me perdoem, mas a doen\u00e7a aqui est\u00e1 um espet\u00e1culo. Para mostrar para os alunos&#8221;, ironiza o engenheiro agr\u00f4nomo amapaense Wilson da Silva Moraes, enquanto dirige seu carro e mostra \u00e0 reportagem de Unesp Ci\u00eancia algumas \u00e1reas afetadas.<\/p>\n<p>Pesquisador da Ag\u00eancia Paulista de Tecnologia de Agroneg\u00f3cios (Apta), no polo do Vale do Ribeira, Moraes faz suas pesquisas em conjunto com a Unesp em Registro, onde \u00e9 professor em tempo parcial no curso de Agronomia. Ele chegou \u00e0 cidade em 2004, praticamente junto com a praga.<\/p>\n<p>A Sigatoka negra \u00e9 uma doen\u00e7a incur\u00e1vel causada pelo fungo <em>Mycosphaerella fijiensis<\/em>, cujos esporos podem viajar no vento por dist\u00e2ncias de at\u00e9 50 km. Surgida no Caribe no fim dos anos 1970, ela desceu o continente por Col\u00f4mbia e Equador, grandes centros exportadores de banana. Em 1998, o fungo foi encontrado em Manaus. De l\u00e1 se alastrou pela Regi\u00e3o Norte, atravessou Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e conquistou finalmente o Sudeste e o Sul. Por enquanto, apenas o Nordeste est\u00e1 livre do problema, exceto o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nFoi grande o alvoro\u00e7o quando a doen\u00e7a chegou ao Vale do Ribeira h\u00e1 seis anos, lembra o pesquisador. &#8220;Houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o geral dos produtores e do governo local. Houve at\u00e9 certo terrorismo em torno do assunto, porque todos j\u00e1 tinham ouvido falar do estrago que ela havia causado em outros estados e pa\u00edses. Alguns agr\u00f4nomos viajaram para fora, pois n\u00e3o sabiam lidar com a doen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>O que todos j\u00e1 conheciam muito bem, em compensa\u00e7\u00e3o, era a Sigatoka amarela, uma forma mais branda da praga, causada por um fungo aparentado, o <em>Mycosphaerella musicola<\/em>, que j\u00e1 estava na regi\u00e3o havia muito tempo, mas sem causar tantos problemas. Muito menos severa que a negra, a forma amarela tamb\u00e9m n\u00e3o tem cura, mas \u00e9 poss\u00edvel trat\u00e1-la com fungicidas. No tempo em que o Vale do Ribeira s\u00f3 era afetado por essa variedade, os produtores faziam de quatro a cinco aplica\u00e7\u00f5es destes produtos por ano. Agora, com a negra, esse n\u00famero varia entre nove e dez.<\/p>\n<p>&#8220;Houve um aumento de 50% no custo de produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 com os fungicidas&#8221;, constata Moraes. Ainda assim, a situa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo \u00e9 bem menos problem\u00e1tica que a da Costa Rica e do Panam\u00e1. L\u00e1, os extensos bananais recebem anualmente cerca de 50 pulveriza\u00e7\u00f5es de produtos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>A primeira epidemia de Sigatoka amarela registrada no mundo ocorreu em 1912, nas Ilhas Fiji, hoje um para\u00edso tur\u00edstico do Pac\u00edfico Sul. Precisamente nos plantios de banana do vale do rio Sigatoka. Com a precariedade sanit\u00e1ria das fronteiras comerciais da \u00e9poca, o mal n\u00e3o tardou a atravessar continentes: da \u00c1sia para a \u00c1frica e por \u00faltimo, Am\u00e9rica. Dela se originou a temida variante negra.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Fungo evolu\u00eddo<\/strong><br \/>\nA bananicultura de larga escala em regi\u00f5es equatoriais, com o uso intensivo de fungicidas, teria contribu\u00eddo muito, acreditam os especialistas, para a sele\u00e7\u00e3o de um organismo geneticamente mais resistente aos produtos qu\u00edmicos e mais bem adaptado ao calor. Na competi\u00e7\u00e3o entre as duas variantes, ganhou a mais maligna, a negra, de modo que a amarela hoje \u00e9 rara no Vale do Ribeira. Com o aumento do custo dos bananais, alguns produtores da regi\u00e3o, geralmente os menores, v\u00eam desistindo do neg\u00f3cio, que em muitos casos \u00e9 passado de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de 50 anos.<\/p>\n<p>Alguns t\u00eam migrado para a cultura da pupunha, ou para o gado. Outros simplesmente abandonaram o bananal, o que s\u00f3 piora a situa\u00e7\u00e3o, segundo Moraes. &#8220;Essas bananeiras ficam a\u00ed cheias da doen\u00e7a, como focos de infec\u00e7\u00e3o, emitindo esporos para os vizinhos.&#8221; O ideal, diz, \u00e9 botar a planta\u00e7\u00e3o abaixo e tratar o solo.<\/p>\n<p>A banana \u00e9 a principal atividade econ\u00f4mica do Vale do Ribeira. A regi\u00e3o compreende 31 munic\u00edpios &#8211; 22 paulistas e nove paranaenses, mais de 400 mil habitantes e 2,8 milh\u00f5es de hectares. Na por\u00e7\u00e3o paulista, onde se registra o menor \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado, o cultivo ocupa 40 mil hectares. As propriedades s\u00e3o geralmente de pequeno porte (de 20 a 30 hectares), com alguns m\u00e9dios e grandes produtores.<\/p>\n<p>Apesar das condi\u00e7\u00f5es adversas, \u00e9 dessas montanhas e v\u00e1rzeas quentes e chuvosas, muito pr\u00f3ximas ao litoral, que sai a maior parte da produ\u00e7\u00e3o de banana do Estado de S\u00e3o Paulo, o segundo maior produtor nacional. O primeiro \u00e9 a Bahia (onde a Sigatoka negra ainda n\u00e3o chegou), mas por pequena diferen\u00e7a. Cada um produziu cerca de 1,3 milh\u00e3o de toneladas em 2009, segundo o IBGE. Neste ano, o Brasil colheu ao todo cerca de 7 milh\u00f5es de toneladas, cultivadas em todos os Estados.<\/p>\n<p>Ao lado de cultivos minorit\u00e1rios como ch\u00e1 e pupunha, a banana ocupa apenas 3% da \u00e1rea do vale, que abriga a Bacia Hidrogr\u00e1fica do Rio Ribeira de Iguape. Outros 5% destinam-se ao gado, inclusive b\u00fafalos. O resto \u00e9 \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ambiental e Patrim\u00f4nio Natural da Humanidade, segundo a Unesco. \u00c9 o maior fragmento remanescente de Mata Atl\u00e2ntica do pa\u00eds &#8211; 61% do que restou do bioma original.<\/p>\n<p>Nem todas as bananas do mundo est\u00e3o correndo risco, por\u00e9m. H\u00e1 quase mil variedades delas, e a Sigatoka negra, assim como a amarela, afeta apenas a nanica, que o pessoal do ramo chama de Cavendish.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser a banana mais consumida no Sudeste e no Sul do pa\u00eds (seguida pela prata, que custa o dobro), a nanica \u00e9 tamb\u00e9m o fruto padr\u00e3o de exporta\u00e7\u00e3o, chegando aos supermercados do hemisf\u00e9rio norte desde o Equador e Am\u00e9rica Central, principalmente, onde se concentram quatro grandes empresas multinacionais.<\/p>\n<p>No Vale do Ribeira, 80% do cultivo \u00e9 de nanica e o restante, de prata. Muito pouco \u00e9 exportado. No resto do pa\u00eds, a situa\u00e7\u00e3o se repete: 80% da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 consumida internamente. A regi\u00e3o de Joinvile (SC), onde a Sigatoka negra est\u00e1 presente, \u00e9 um dos poucos polos exportadores e abastece principalmente o Cone Sul.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o de Wilson da Costa Moraes \u00e9 descobrir maneiras de controlar a doen\u00e7a e melhorar a produtividade dos bananais, para que os produtores colham cachos gra\u00fados usando o m\u00ednimo de fungicida. Al\u00e9m de diminuir os riscos de contamina\u00e7\u00e3o da bacia hidrogr\u00e1fica e os custos de produ\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 importante tamb\u00e9m para n\u00e3o favorecer o surgimento de fungos cada vez mais resistentes.<\/p>\n<p>&#8220;Uma coisa que nunca se deve fazer, por exemplo, \u00e9 aplicar o mesmo produto mais de tr\u00eas vezes seguidas&#8221;, diz. A recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 dos pr\u00f3prios fabricantes, que tamb\u00e9m temem que seus produtos fiquem obsoletos com o mau uso, explica ele. Mas nem todo mundo a segue.<\/p>\n<p>Nesses seis anos, o engenheiro agr\u00f4nomo vem estudando formas de prevenir a doen\u00e7a. &#8220;A bananeira \u00e9 igual a n\u00f3s&#8221;, compara. &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o cuida dela, n\u00e3o aduba direito, deixa os vermes do solo tomarem conta da raiz, abrem-se as portas para o agente infeccioso que estava ali, mas antes n\u00e3o conseguia entrar porque a planta estava forte.&#8221;<\/p>\n<p>Os experimentos do pesquisador s\u00e3o feitos num amplo terreno da Apta em Registro (\u00e1rea semelhante est\u00e1 sendo preparada no c\u00e2mpus da Unesp na cidade). L\u00e1 ele testa o rod\u00edzio e a combina\u00e7\u00e3o mais eficiente dos fungicidas; o uso deles direto na planta em vez da dispers\u00e3o a\u00e9rea; a correta aduba\u00e7\u00e3o do solo; o efeito da temperatura e umidade na gravidade dos sintomas etc.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que s\u00e3o conclu\u00eddos, esses estudos geram resultados que ficam dispon\u00edveis aos produtores da regi\u00e3o, por meio da Apta e de outros \u00f3rg\u00e3os estaduais e municipais de fomento \u00e0 agricultura. Mas nem sempre o conhecimento chega \u00e0s m\u00e3os de quem mais precisa dele. Um dos problemas da regi\u00e3o, explica Moraes, \u00e9 que os produtores n\u00e3o est\u00e3o muito acostumados a consumir esse tipo de informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. De forma geral, a bananicultura no Vale do Ribeira ainda \u00e9 uma atividade bastante familiar e amadora.<\/p>\n<p>&#8220;Tem bananais aqui de 40 anos, quando o recomendado pela Embrapa \u00e9 renov\u00e1-los a cada dez anos&#8221;, diz Moraes. Dos mais de 3 mil produtores, poucos se re\u00fanem em associa\u00e7\u00f5es, o que dificulta sua articula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o conhecimento de formas de se proteger. Al\u00e9m disso, muitos deles n\u00e3o contam com a assist\u00eancia de um agr\u00f4nomo. E, em casos excepcionais, chegam at\u00e9 a imaginar que a Sigatoka negra \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o dos fabricantes de fungicida para aterroriz\u00e1-los.<\/p>\n<p>O curso de Agronomia da Unesp em Registro tende a mudar esse quadro, ainda que lentamente, avalia Moraes. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro que filhos de produtores se formem agr\u00f4nomos. Um deles, recorda o professor, tal como o pai, n\u00e3o acreditava na doen\u00e7a. Felizmente mudou de ideia at\u00e9 o fim do curso.<\/p>\n<p>Em breve, a empresa j\u00fanior do curso tamb\u00e9m poder\u00e1 dar consultoria aos produtores no controle da Sigatoka negra. Moraes est\u00e1 capacitando os alunos num m\u00e9todo relativamente simples que trouxe da Fran\u00e7a e adaptou para o Vale do Ribeira. A ideia \u00e9 analisar as folhas da bananeira para prever o momento ideal de aplicar o fungicida. &#8220;N\u00e3o existe mais isso de calend\u00e1rio fixo de aplica\u00e7\u00f5es&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Resumidamente, um estudante vai ao campo e seleciona 10 plantas num raio de 50 km. Em cada uma delas, observa (com uma lente de aumento) tr\u00eas folhas espec\u00edficas da bananeira e d\u00e1 pontua\u00e7\u00f5es que variam conforme a gravidade do estrago causado pelo fungo. Os n\u00fameros alimentam uma planilha Excel, que leva em conta dados de temperatura, chuva e umidade do ar. No fim, um gr\u00e1fico indica se est\u00e1 na hora de dar rem\u00e9dio ao bananal ou n\u00e3o. O trabalho j\u00e1 mostrou que no inverno o n\u00famero de aplica\u00e7\u00f5es pode ser menor que no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo de Moraes \u00e9 simples e bastante pr\u00e1tico, mas pode pecar pela imprecis\u00e3o. Um outro trabalho desenvolvido por S\u00edlvia Helena Modenese Gorla da Silva, tamb\u00e9m professora da Unesp em Registro, promete resolver isso. Em projeto rec\u00e9m-conclu\u00eddo, ela usou t\u00e9cnicas de intelig\u00eancia artificial para automatizar a tarefa.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que, em vez de a pessoa julgar com os pr\u00f3prios olhos o n\u00edvel de gravidade da doen\u00e7a na folha da bananeira (o que sempre pode embutir erros de interpreta\u00e7\u00e3o), ela tire uma foto com um telefone celular, no qual um software faz todos os c\u00e1lculos hoje feitos na planilha Excel. O dispositivo pode ser implantado com baixo custo e ser acess\u00edvel a pequenos e m\u00e9dios produtores, segundo Moraes. Os pesquisadores est\u00e3o buscando parcerias com empresas para viabilizar a tecnologia em escala comercial.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Grandes pandemias<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 de hoje que os bananicultores do Vale do Ribeira e do mundo vivem atormentados por pragas, em particular os fungos. Registros arqueol\u00f3gicos na \u00c1sia e \u00c1frica indicam que o ser humano come banana h\u00e1 pelo menos 5 mil anos, mas foi na virada para o s\u00e9culo 20, com o surgimento do mercado de exporta\u00e7\u00e3o, que grandes pandemias da bananeira come\u00e7aram a surgir.<\/p>\n<p>A primeira foi da Sigatoka amarela na \u00c1sia, que mais tarde daria origem \u00e0 sua irm\u00e3 negra. A segunda, ainda mais grave, foi a do mal do Panam\u00e1, que surgiu no Suriname e tomou conta de Am\u00e9rica Central e Caribe a partir dos anos 1920. A praga \u00e9 causada pelo fungo <em>Fusarium oxysporum<\/em> e imune aos fungicidas.<\/p>\n<p>Nessas regi\u00f5es se produzia uma variedade de banana praticamente extinta e que os brasileiros nunca conheceram, a chamada Gros Michel, que abastecia Am\u00e9rica do Norte e Europa. Hoje ela s\u00f3 existe em bancos de variedades mantidos para pesquisa.<\/p>\n<p>A banana nanica foi criada justamente para atender o mercado de exporta\u00e7\u00e3o desabastecido de Gros Michel. Ela foi selecionada por ser resistente ao mal do Panam\u00e1 e, ao mesmo tempo, n\u00e3o ter gosto muito diferente da banana \u00e0 qual americanos e europeus j\u00e1 estavam acostumados.<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o da nanica foi o \u00fanico jeito de contornar a doen\u00e7a. Por causa deste fungo, todo o mercado exportador de banana teve de ser reestruturado, entre os anos 1920 e 1950, para o cultivo da nova variedade. Evidentemente, muitos preju\u00edzos foram inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>O mal do Panam\u00e1 chegou a S\u00e3o Paulo em 1930, mas aqui n\u00e3o havia a Gros Michel. Em compensa\u00e7\u00e3o, ele atacou a banana ma\u00e7\u00e3, cultivada no Vale do Ribeira e a variedade mais consumida na \u00e9poca. A praga mobilizou as autoridades paulistas.<\/p>\n<p>Em 28 de janeiro de 1931, a extinta <em>Folha da Manh\u00e3<\/em> publicava em sua manchete central: &#8220;As medidas tomadas pelo governo para combater uma praga dos bananais&#8221;. Em entrevista ao jornal, o diretor de Inspe\u00e7\u00e3o e Fomento Agr\u00edcolas do Estado explicava que a doen\u00e7a fora identificada um ano antes em Piracicaba (SP) e que o governo ia distribuir gratuitamente aos bananicultores paulistas mudas de uma nova variedade do fruto, resistente \u00e0 praga. Eram mudas de Cavendish, que aqui foi chamada de nanica por causa da baixa estatura da bananeira.<\/p>\n<p>Mas a mudan\u00e7a foi gradual. S\u00f3 a partir da d\u00e9cada de 1960 a nanica virou a banana padr\u00e3o consumida no Sul e Sudeste (em outras regi\u00f5es do pa\u00eds, h\u00e1 mais alternativas, com forte presen\u00e7a de bananas de coc\u00e7\u00e3o, como a banana da terra).<\/p>\n<p>A banana ma\u00e7\u00e3 desapareceu do Vale do Ribeira e s\u00f3 escapou da extin\u00e7\u00e3o porque seu cultivo acabou migrando, a partir dos anos 1960, para o norte de Minas, mas l\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o \u00e9 boa e at\u00e9 hoje a fruta sofre com o mal do Panam\u00e1. Por isso tem ficado mais escassa e cara nos supermercados ao longo dos anos.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Cultura n\u00f4made<\/strong><br \/>\nOs produtores de banana ma\u00e7\u00e3 est\u00e3o sempre buscando terras livres da doen\u00e7a, explica o agr\u00f4nomo ga\u00facho Edson Perito Amorim, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas (BA). &#8220;Na melhor das hip\u00f3teses, o produtor tem tr\u00eas colheitas (ao longo de cerca de dois anos), depois o Fusarium inviabiliza o plantio. \u00c9 uma cultura n\u00f4made&#8221;, define. O fungo permanece no solo por pelo menos 50 anos.<\/p>\n<p>Diferentemente do fungo da Sigatoka, que ataca a folha da bananeira e emite esporos voadores, o do mal do Panam\u00e1 vive na terra, invade o pseudocaule da planta e tem muito menos mobilidade. Para lev\u00e1-lo a uma regi\u00e3o, s\u00f3 carregando uma muda ou a pr\u00f3pria terra contaminada. Tratores, arados e outras ferramentas agr\u00edcolas infectadas s\u00e3o, desse modo, um risco alto.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o piorou h\u00e1 alguns anos, quando uma variedade muito mais agressiva do mal do Panam\u00e1 surgiu na \u00c1sia. E seu alvo \u00e9 justamente a banana nanica. A chamada ra\u00e7a 4 do mal do Panam\u00e1 tem causado grandes preju\u00edzos em especial a \u00cdndia, Filipinas e China, os tr\u00eas maiores produtores mundiais segundo a FAO (o Equador \u00e9 o quarto, e o Brasil, o quinto).<\/p>\n<p>J\u00e1 presente na Austr\u00e1lia e na \u00c1frica do Sul, a nova doen\u00e7a ainda n\u00e3o apareceu na Am\u00e9rica, o que para muitos do ramo \u00e9 quest\u00e3o de tempo, apesar das barreiras sanit\u00e1rias impostas pelo Minist\u00e9rio da Agricultura nas fronteiras. &#8220;Assim como a ra\u00e7a 1 (a primeira vers\u00e3o da praga), a 4 n\u00e3o \u00e9 control\u00e1vel por nenhum fungicida conhecido e pode arrasar um bananal em semanas&#8221;, afirma Amorim.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da bananicultura no mundo \u00e9 t\u00e3o dram\u00e1tica que cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses unem esfor\u00e7os para encontrar solu\u00e7\u00f5es e evitar que a nanica desapare\u00e7a do mapa, tal como ocorreu com a Gros Michel, ou fique acuada como a banana ma\u00e7\u00e3. O desafio \u00e9 criar variedades resistentes tanto ao mal do Panam\u00e1 quanto \u00e0 Sigatoka negra. Para isso, h\u00e1 basicamente dois caminhos, segundo Amorim, que coordena o programa de melhoramento de bananeira da Embrapa.<\/p>\n<p>Uma sa\u00edda \u00e9 promover cruzamentos em laborat\u00f3rio at\u00e9 chegar a uma planta produtiva e com fruto aceit\u00e1vel pelo consumidor. A outra \u00e9 usar a biologia molecular para produzir uma banana transg\u00eanica.<\/p>\n<p>O cruzamento em laborat\u00f3rio \u00e9 complicado, porque, de forma geral, todas as bananas comerciais s\u00e3o um fruto est\u00e9ril. Ele n\u00e3o produz sementes, ao contr\u00e1rio das esp\u00e9cies primitivas que surgiram no Sudeste Asi\u00e1tico (<em>Musa acuminata<\/em> e <em>Musa balbisiana<\/em>). E se reproduz no campo de forma assexuada. Por meio de um broto, ou clone de si mesma, que a planta emite durante seu \u00fanico ciclo de vida. Depois que a &#8220;m\u00e3e&#8221; d\u00e1 seu cacho, ela j\u00e1 n\u00e3o serve mais, e os produtores conduzem a &#8220;filha&#8221;. E assim sucessivamente. O resultado \u00e9 uma baix\u00edssima diversidade gen\u00e9tica, o que explica por que os bananais s\u00e3o t\u00e3o suscet\u00edveis a doen\u00e7as.<\/p>\n<p>As sementes das bananas ancestrais s\u00e3o parecidas com as de mam\u00e3o, s\u00f3 que bem mais duras, o suficiente para um desavisado quebrar os dentes. As variedades que conhecemos resultaram de sucessivos e complicados cruzamentos dessas esp\u00e9cies originais e seus descendentes, que culminaram na banana sem caro\u00e7o.<\/p>\n<p>O melhoramento convencional de bananeiras come\u00e7ou a ser feito na Jamaica e em Honduras entre os anos 1920 e 1930. O objetivo sempre foi conseguir mudas resistentes a pragas que j\u00e1 castigavam a regi\u00e3o e que originassem plantas de f\u00e1cil manejo, cujos frutos agradassem os consumidores. O problema \u00e9 que agora, para tentar modificar esse fruto, \u00e9 preciso voltar \u00e0s sementes como ponto de partida.<br \/>\n<strong><br \/>\nCaro\u00e7o da nanica<\/strong><br \/>\nBananas primitivas est\u00e3o dispon\u00edveis em bancos de germoplasmas &#8211; \u00e1reas de cultivo existentes na Apta, na Embrapa, em breve na Unesp de Registro e em muitos lugares do mundo. Neles \u00e9 preservado o material gen\u00e9tico para futuras gera\u00e7\u00f5es de bananeiras.<\/p>\n<p>O caro\u00e7o da banana nanica sempre foi um sonho dos pesquisadores que fazem melhoramento convencional. Nos \u00faltimos anos, eles tiveram uma \u00f3tima surpresa. Em condi\u00e7\u00f5es mais frias, a nanica, sim, pode ter semente. Ainda que poucas, imperfeitas, quase invi\u00e1veis, mas suficientes para a fertiliza\u00e7\u00e3o <em>in vitro<\/em>.<\/p>\n<p>Um experimento da Embrapa na regi\u00e3o da Chapada Diamantina (BA) est\u00e1 testando essa possibilidade, j\u00e1 relatada por produtores, conta Amorim. &#8220;O que acreditamos que aconte\u00e7a, grosso modo, \u00e9 que em condi\u00e7\u00f5es de estresse (frio), a planta &#8216;pense&#8217; que vai morrer e por isso fa\u00e7a um esfor\u00e7o maior para perpetuar a esp\u00e9cie.&#8221;<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 conseguiu extrair o caro\u00e7o da nanica \u00e9 o agr\u00f4nomo guatemalteco Juan Fernando Aguilar Moran, da Funda\u00e7\u00e3o Hondurenha de Investiga\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola (FHIA). &#8220;N\u00e3o \u00e9 que ela seja est\u00e9ril, mas tem baix\u00edssima fertilidade&#8221;, diz, em bom portugu\u00eas, por telefone \u00e0 Unesp Ci\u00eancia. Mestre e doutor pela Esalq-USP, em Piracicaba, Moran coordena, em La Lima (Honduras), o Programa de Melhoramento de Banana e Pl\u00e1tano da FHIA, o mais antigo centro de pesquisa em atividade na \u00e1rea (pl\u00e1tano, em espanhol, \u00e9 a banana de coc\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Desde 1959, a FHIA criou uma enorme variedade de bananas e distribuiu suas mudas em diversos pa\u00edses, inclusive Brasil. Entre as \u00faltimas novidades do programa, explica Moran, est\u00e1 uma variedade de banana ma\u00e7\u00e3 resistente ao mal do Panam\u00e1 ra\u00e7a 1. &#8220;Pode ser uma op\u00e7\u00e3o para o Brasil&#8221;, sugere ele. A Embrapa Amaz\u00f4nia Ocidental tem produto semelhante, a chamada BRS Conquista, variedade que est\u00e1 sendo cultivada por pequenos produtores assentados no Par\u00e1.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Genoma da bananeira<\/strong><br \/>\nEm outra frente, o programa que Amorim toca na Embrapa em Cruz das Almas usa a biologia molecular para chegar a bananas resistentes a pragas. A empresa faz parte de uma rede internacional de pesquisa, o ProMusa (<a href=\"http:\/\/www.promusa.org\">www.promusa.org<\/a>), que h\u00e1 5 anos come\u00e7ou a sequenciar o genoma da banana. Falta pouco para o projeto ser conclu\u00eddo. Os resultados devem ser divulgados em Salvador num congresso, de 10 a 14 de outubro, que reunir\u00e1 os principais pesquisadores da rede, representantes dos produtores, de empresas e de governo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do sequenciamento do genoma da banana, os cientistas do ProMusa alimentam outros projetos com os dados gen\u00e9ticos dispon\u00edveis na base de uso comum \u00e0 rede. Isso permitiu \u00e0 Embrapa desenvolver uma nanica transg\u00eanica resistente \u00e0 Sigatoka negra, adianta o pesquisador. J\u00e1 autorizados pela CTNBio (Comiss\u00e3o T\u00e9cnica Nacional de Biosseguran\u00e7a, do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia), os testes em campo devem come\u00e7ar neste ano.<\/p>\n<p>Mas a banana transg\u00eanica da Embrapa &#8211; se vier &#8211; n\u00e3o h\u00e1 de ser t\u00e3o transg\u00eanica assim, comenta Amorim. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o estamos trabalhando com genes de outra esp\u00e9cie, como foi o caso da soja e do trigo geneticamente modificados&#8221;, compara. &#8220;N\u00f3s estamos pegando um gene de outra variedade de banana.&#8221;<\/p>\n<p>Por precau\u00e7\u00e3o, os pesquisadores brasileiros n\u00e3o est\u00e3o trabalhando diretamente com o mal do Panam\u00e1 ra\u00e7a 4. Seria temer\u00e1rio traz\u00ea-lo ao pa\u00eds, por causa do risco de contamina\u00e7\u00e3o. Eles est\u00e3o enviando algumas variedades desenvolvidas pela Embrapa para testes em parceiros da Europa, como Fran\u00e7a e B\u00e9lgica (onde as mudas s\u00e3o cultivadas em estufas). &#8220;Isso s\u00f3 pode ser feito em lugares em que n\u00e3o h\u00e1 cultivo comercial do fruto&#8221;, justifica Amorim.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Tem jeito?<\/strong><br \/>\nDiante desse quadro, acuados pela Sigatoka negra e angustiados na espera do mal do Panam\u00e1 ra\u00e7a 4, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que alguns produtores comecem a abandonar seus bananais. Nem que os cientistas e ag\u00eancias de fomento agr\u00edcola estejam correndo para encontrar solu\u00e7\u00f5es antes que seja tarde. Ningu\u00e9m quer que se repita o que ocorreu com a Gros Michel h\u00e1 80 anos.<\/p>\n<p>Mas o quadro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o apocal\u00edptico quanto parece. Houve certo alarmismo, argumentam os pesquisadores ouvidos na reportagem, quando no in\u00edcio dos anos 2000 come\u00e7aram a ser levantadas suspeitas de que a nanica poderia desaparecer na d\u00e9cada seguinte. A banana n\u00e3o deve acabar, afirmam.<\/p>\n<p>Ela ainda pode ser um \u00f3timo neg\u00f3cio. Mas \u00e9 preciso agir nesse sentido.<br \/>\nWilson Moraes nos levou \u00e0 Fazenda Univale, de um grande produtor do Vale do Ribeira que estreou na bananicultura em 2009 e agora est\u00e1 literalmente colhendo \u00f3timos frutos. Com 800 hectares, a propriedade pertence ao munic\u00edpio de Jacupiranga (17 mil habitantes). Depois de uma hora de estrada (metade por terra) a partir de Registro, conhecemos Silvio Guatura Rom\u00e3o, um m\u00e9dico radiologista aposentado que se divide entre S\u00e3o Paulo e a fazenda, que adquiriu h\u00e1 24 anos.<\/p>\n<p>Rom\u00e3o veio de uma fam\u00edlia rural da regi\u00e3o de Bebedouro (SP). Formou-se m\u00e9dico em 1974, pela Faculdade de Medicina de Botucatu, que se incorporaria \u00e0 Unesp dois anos mais tarde. Na capital trabalhou como radiologista em grandes hospitais, como o A.C. Camargo. Nos anos 1990, com os filhos crescidos, foi diminuindo a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 medicina para se voltar mais \u00e0 fazenda. Come\u00e7ou a investir em gado, em dois segmentos bem espec\u00edficos e incomuns \u00e0 regi\u00e3o: a engorda de f\u00eameas para abate e, mais rent\u00e1vel ainda, a cria\u00e7\u00e3o de reprodutoras, que por insemina\u00e7\u00e3o artificial v\u00e3o gestar matrizes bovinas.<\/p>\n<p>Em 2009, ele e um de seus filhos, Augusto, decidiram diversificar o neg\u00f3cio e, seguindo o exemplo dos vizinhos, optaram pela banana, mesmo sabendo das pragas. Um ano e meio depois, eles afirmam que a banana \u00e9 mais lucrativa que o gado, por incr\u00edvel que pare\u00e7a. Por isso, a \u00e1rea de 50 hectares reservada para o fruto come\u00e7ou a ser expandida. Numa v\u00e1rzea f\u00e9rtil, antes usada para o gado e cujo solo foi &#8220;descansado&#8221;, eles est\u00e3o formando num novo bananal.<\/p>\n<p>Como m\u00e9dicos rurais aplicados, Silvio e Augusto estudaram muito o mercado antes de entrar nele e hoje est\u00e3o fazendo uma esp\u00e9cie de agricultura baseada em evid\u00eancias. &#8220;N\u00f3s fizemos tudo que \u00e9 curso, semin\u00e1rio, palestras que voc\u00ea pode imaginar&#8221;, diz o filho. Na mesa da sala da sede da propriedade, empilham-se livros, apostilas, artigos cient\u00edficos e muitas pastas. Eles tamb\u00e9m contam com a assist\u00eancia de um bom agr\u00f4nomo, que os acompanha desde os primeiros passos.<\/p>\n<p>Os amigos da vizinhan\u00e7a deram aux\u00edlio inicial, explica o pai, mas foi preciso muito tato para recusar alguns favores, como a oferta de mudas. &#8220;Esse \u00e9 o costume aqui, pegar a muda do vizinho. Mas a\u00ed voc\u00ea j\u00e1 come\u00e7a com um material contaminado pela Sigatoka negra.&#8221; Gastaram um pouco mais para comprar mudas propagadas em laborat\u00f3rio (virgens) fornecidas por empresas especializadas. Al\u00e9m disso, n\u00e3o compraram todas de um \u00fanico fornecedor. &#8220;Para ter um m\u00ednimo de diversidade gen\u00e9tica&#8221;, justifica Silvio. A maior parte do plantio \u00e9 de nanica e o resto, prata.<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Alta produtividade<\/strong><br \/>\nPara usar os fungicidas de forma racional, eles est\u00e3o usando aquela planilha Excel criada pelo professor da Unesp. Esse e v\u00e1rios cuidados resultaram num bananal que visivelmente se destaca dos vizinhos. Com a colheita do primeiro cacho, que sempre se espera menor que os pr\u00f3ximos, a fazenda est\u00e1 fazendo 40 toneladas de fruto por hectare. A produtividade m\u00e9dia da cultura no Vale do Ribeira \u00e9 quase a metade disso. Grandes produtores estrangeiros conseguem produzir at\u00e9 100 toneladas do fruto por hectare.<\/p>\n<p>A dupla afirma conseguir, assim, colocar no mercado uma banana premium. &#8220;Um fruto de qualidade, que chega \u00e0 venda bonito, sem marcas, agrega at\u00e9 40% no pre\u00e7o&#8221;, conta Augusto. O produto tem como destino supermercados refinados da capital paulista.<\/p>\n<p>&#8220;Isso mostra que podemos controlar a Sigatoka negra e ainda aumentar a produtividade do cultivo no Vale do Ribeira&#8221;, diz Moraes. &#8220;E sem aumentar a \u00e1rea de plantio, algo que \u00e9 complicado por aqui, porque quase tudo \u00e9 reserva.&#8221;<\/p>\n<p>Outro ponto positivo, comenta, \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de empregos, pois a bananicultura usa m\u00e3o-de-obra intensiva. Diferentemente da cana-de-a\u00e7\u00facar e dos gr\u00e3os, a colheita n\u00e3o pode ser mecanizada. Cada bananeira &#8211; cada cacho &#8211; tem de receber cuidados individuais.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao mal do Panam\u00e1 ra\u00e7a 4, o temor persiste, na avalia\u00e7\u00e3o dos especialistas. Por ora, o melhor \u00e9 confiar nas regras de quarentena do Minist\u00e9rio da Agricultura para as fronteiras estaduais e internacionais, que segundo eles endureceram bastante nos \u00faltimos anos. A torcida \u00e9 para que quando o novo fungo chegar, j\u00e1 se tenha encontrado uma variedade resistente de nanica.<br \/>\nSe isso n\u00e3o ocorrer, muito provavelmente a bananicultura no Vale do Ribeira, no Brasil e no mundo ter\u00e1 de se reinventar uma vez mais. A\u00ed, sim, a nanica pode sumir de nossas fruteiras. Que banana ocupar\u00e1 seu lugar, s\u00f3 nossos filhos ou netos ir\u00e3o saber.<\/p>\n<div style=\"text-align: center\">***<\/div>\n<p><strong>QUADRO: RISCOS PARA A SEGURAN\u00c7A ALIMENTAR<\/strong><\/p>\n<p>Nativas do Sudeste Asi\u00e1tico, as esp\u00e9cies ancestrais de banana ainda podem ser vistas em florestas das Filipinas, da Indon\u00e9sia e da Papua Nova Guin\u00e9. Tribos primitivas a teriam levado, h\u00e1 milhares de anos, para \u00cdndia, ilhas do Pac\u00edfico e \u00c1frica Oriental, onde se acredita que a planta tenha sido domesticada. Alexandre, o Grande, imperador da Maced\u00f4nia, parece ter sido o respons\u00e1vel por disseminar a banana da P\u00e9rsia ao Egito, da Gr\u00e9cia ao norte da \u00c1frica. O nome do fruto vem do \u00e1rabe: banana significa dedo. Na Am\u00e9rica, a planta chegou pelas m\u00e3os dos europeus no s\u00e9culo 16.<\/p>\n<p>As bananas primitivas tinham (e ainda t\u00eam) sementes. No processo de domestica\u00e7\u00e3o pelo homem, deu-se prefer\u00eancia aos frutos de mais f\u00e1cil mastiga\u00e7\u00e3o. Depois, na virada para o s\u00e9culo 20, com o in\u00edcio do melhoramento das bananeiras, por cruzamentos induzidos em laborat\u00f3rio, as variedades desenvolvidas para o com\u00e9rcio em grande escala deixaram de ter qualquer caro\u00e7o.<\/p>\n<p>Existem cerca de mil tipos de banana, subdivididos em 50 grupos de variedades. O fruto padr\u00e3o de exporta\u00e7\u00e3o (para Europa e EUA) \u00e9 a Cavendish, nanica no Brasil, que tamb\u00e9m \u00e9 a mais consumida nas Regi\u00f5es Sul e Sudeste. No resto do pa\u00eds, bem como nos pa\u00edses da \u00c1frica e da \u00c1sia, a oferta do fruto \u00e9 muito mais variada, com forte presen\u00e7a das bananas de coc\u00e7\u00e3o (ou da terra), que s\u00e3o cozidas, assadas ou fritas, ainda verdes.<\/p>\n<p>A banana \u00e9 o quarto mais importante produto agr\u00edcola para as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento, segundo a FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o), atr\u00e1s de arroz, trigo e milho. S\u00e3o cerca de 100 milh\u00f5es de toneladas do fruto por ano, produzidas em mais de 130 pa\u00edses. Entre os maiores produtores est\u00e3o \u00cdndia, Filipinas, China, Equador e Brasil. Por sua import\u00e2ncia para a seguran\u00e7a alimentar em pa\u00edses pobres, a bananicultura no mundo, h\u00e1 d\u00e9cadas amea\u00e7ada por pragas, \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o da FAO, que tem financiado pesquisas que visem o desenvolvimento de variedades resistentes.<\/p>\n<p>Apenas 20% da produ\u00e7\u00e3o mundial de banana \u00e9 exportada, seguindo principalmente para Uni\u00e3o Europeia, Estados Unidos, R\u00fassia e Jap\u00e3o. Estimado em US$ 6 bilh\u00f5es, esse mercado \u00e9 abastecido por Equador, Costa Rica, Filipinas e Col\u00f4mbia, todos pa\u00edses em desenvolvimento. Uma crise no setor, estima a FAO, traria grandes preju\u00edzos econ\u00f4micos e sociais a essas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">*** <strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>QUADRO: BANANAS, PROPINAS E SANGUE<\/strong><\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Carmen Miranda, a banana \u00e9, para os brasileiros, um \u00edcone divertido de nossa tropicalidade. Para muitos hispanoamericanos, por\u00e9m, o fruto evoca hist\u00f3rias de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio mais sangrento, conhecido como &#8220;Massacre das bananeiras&#8221;, ocorreu na Col\u00f4mbia no dia 6 de dezembro de 1928, na cidade de Ci\u00e9naga, onde 25 mil empregados da empresa americana United Fruit Company estavam em greve. Pressionado pela companhia e pelos Estados Unidos, o governo colombiano ordenou, e o ex\u00e9rcito abriu fogo contra a multid\u00e3o desarmada, que protestava numa pra\u00e7a por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo o n\u00famero de v\u00edtimas &#8211; estimativas de testemunhas variam de 800 a 3 mil -, porque os corpos teriam sido jogados ao mar. O escritor Gabriel Garcia M\u00e1rquez recriou o incidente no livro <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, cuja hist\u00f3ria se passa na cidade fict\u00edcia de Macondo, que significa banana na l\u00edngua africana Bantu.<\/p>\n<p>Para abastecer os Estados Unidos e a Europa, a United Fruit Company mantinha vastos campos de cultivo no Equador, no Panam\u00e1, na Costa Rica, em Honduras, entre outros pa\u00edses centro-americanos e caribenhos, pejorativamente identificados como &#8220;rep\u00fablicas das bananas&#8221;. Mantinha, al\u00e9m disso, a m\u00e1-fama de manter seus empregados em regime de semiescravid\u00e3o e de obter o apoio dos governantes locais em troca de generosas propinas.<\/p>\n<p>Ao longo das d\u00e9cadas seguintes, a empresa sofreu tantos processos nos tribunais (inclusive americanos) que, para reposicionar sua imagem, em 1985 ela passou a se chamar Chiquita Brands. Ainda \u00e9 uma das principais exportadoras de banana do mundo.<\/p>\n<p>A Chiquita continua presente em alguns pa\u00edses latino-americanos, mas deixou outros, como Honduras. A empresa manteve nesse pa\u00eds um de seus centros de melhoramento de banana, criado em 1959, cujo principal objetivo era criar uma variedade de banana Gros Michel que fosse resistente ao mal do Panam\u00e1 (ra\u00e7a 1). Quando deixou Honduras, nos anos 1980, a empresa doou suas instala\u00e7\u00f5es, na cidade de La Lima, ao governo, que criou a Funda\u00e7\u00e3o Hondurenha de Investiga\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola (FHIA), onde se mant\u00e9m o mais antigo programa de pesquisa de melhoramento gen\u00e9tico de banana (<a href=\"http:\/\/www.fhia.org.hn\">www.fhia.org.hn<\/a>).<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>*** <\/strong><\/p>\n<p><strong>QUADRO: ELES N\u00c3O T\u00caM? N\u00d3S TEMOS!<\/strong><\/p>\n<p>A falta de banana nos Estados Unidos provocada pela contamina\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es pelo mal do Panam\u00e1, no in\u00edcio dos anos 1920, foi retratada na can\u00e7\u00e3o &#8220;Yes, we have no bananas&#8221;, de Frank Silver e Irving Cohn. Ela apareceu num musical da Broadway em 1923 e foi gravada por v\u00e1rios int\u00e9rpretes nas d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Em resposta, o carioca Braguinha (1907-2006) comp\u00f4s com Alberto Ribeiro a marchinha &#8220;Yes, n\u00f3s temos bananas&#8221;, que estourou no carnaval de 1938. Foi uma cr\u00edtica bem-humorada ao h\u00e1bito americano de se referir pejorativamente aos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina como &#8220;rep\u00fablicas das bananas&#8221;. Ao contr\u00e1rio do que muitos imaginam, n\u00e3o h\u00e1 registros de que a can\u00e7\u00e3o tenha sido gravada por Carmen Miranda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de maio de 2011. Fungos agressivos colocam o cultivo da fruta mais popular do pa\u00eds em alto risco; novas t\u00e9cnicas de manejo e de melhoramento s\u00e3o promissoras, mas amea\u00e7as podem levar a uma reinven\u00e7\u00e3o da cultura no futuro Yes, n\u00f3s temos&#8230; problemas. \u00c9 o que provavelmente diriam muitos produtores de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":472,"featured_media":95,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2,3,4,23],"tags":[],"class_list":["post-94","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agricultura","category-alimentos","category-ambiente","category-unesp-ciencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/users\/472"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}