
No último mês, venho escrevendo sobre fungos filamentosos e biomanufatura, buscando apresentar a potência desses microrganismos para a ciência e os avanços que têm acontecido nesse campo de pesquisa voltados à produção industrial. Até o momento, um dos maiores argumentos que utilizei foi que o uso de fungos filamentosos na biomanufatura tem a capacidade de tornar muito mais barata a produção industrial de diversos bioprodutos. Contudo, uma pergunta que pouco vi ser discutida (e que eu mesmo pouco comentei aqui no EMRC) é: para quem ficará mais barato?
Por que procuramos microrganismos cada vez mais eficientes para a produção?
Um estudo recente da revista Nature – uma das revistas científicas mais consagradas do mundo – mostrou que os oceanos possuem uma diversidade genética gigantesca, mas apenas uma pequena parcela deles ainda foi explorada. Em outras palavras, existe uma infinitude de microrganismos nos mares, mas conhecemos somente uma minúscula parte deles. O artigo comenta que, ao integrar técnicas avançadas de genética e biotecnologia, seria possível acelerar a descoberta de soluções para problemas de saúde, sustentabilidade e bioeconomia. Assim, os autores colocam os oceanos como um importante recurso para a biotecnologia.
Um leitor mais avesso a discussões sociais poderia se questionar, “mas qual o problema nisso tudo?”. A resposta para isso é: ao olharmos para os oceanos apenas como um vasto catálogo de ingredientes e recursos para a indústria, corremos o risco de reduzir ecossistemas complexos a meras “fábricas” de soluções para problemas que nós mesmos causamos, como a poluição e as mudanças climáticas.
Outros leitores poderiam comentar: “Mas onde está o problema nisso? Sustentabilidade é só uma das aplicações, a saúde e a economia também podem ser beneficiadas, e isso é ótimo!”. O grande problema aqui não é as aplicações em si, ou os problemas a serem remediados — como a descoberta de cura de doenças —, mas sim toda a ideia “mercadológica” aplicada não só a microrganismos, mas a um ecossistema inteiro. Essa ideia “mercadológica” tem nome e se chama neoliberalismo.
O que é o neoliberalismo?
O neoliberalismo foi uma doutrina econômica que começou por volta de 1950 nos Estados Unidos, mas que só ganhou força de verdade na década de 1970, com a crise do petróleo. O neoliberalismo defende que o Estado deve intervir o mínimo possível na economia, já que esta iria acabar se autoregulando sozinha. O ponto todo foi que o neoliberalismo se espalhou tanto pela vida que saiu da economia e atingiu campos políticos, sociais, científicos, culturais e diversos outros.
De forma bastante simplista e resumida (perdão aos sociólogos que possam ler isso), o neoliberalismo prega que as próprias pessoas sejam responsáveis por si mesmas, tendo liberdade para trabalhar como quiserem. Por outro lado, essa doutrina econômica também preza a privatização de empresas estatais e, obviamente, a liberdade para empresas privadas atuarem como quiserem na economia.
Tudo isso pode parecer confuso. Por que estamos falando de economia e não de ciência, como era a proposta?
Porque o neoliberalismo também afeta a ciência, que não é neutra, como alguns podem dizer.
Quando passamos a tratar tudo ao nosso redor como um produto, inclusive na natureza e dentro do laboratório, estamos sim fazendo ciência a partir de pressupostos neoliberais. Quando dizemos que os oceanos e os microrganismos que vivem neles são importantes recursos para a biotecnologia, estamos partindo da premissa de que estes podem ser transformados em produtos, comercializados e, em última instância, gerar lucro.
Lucro para a população?
Não. Lucro para empresas privadas, afinal, para o neoliberalismo são essas as entidades que importam. Pois são essas que movem a economia.
Onde a ciência entra nisso? Por que ela não é neutra?
Mesmo que muitas vezes nós, cientistas, possamos dizer que a ciência e o conhecimento científico são neutros e imparciais, isso não é verdade. O conhecimento científico, assim como qualquer outro, possui a perspectiva de quem está falando, isto é, quem fala (ou seja, o cientista) tem uma história, tem uma carreira, tem uma trajetória e sim, tem uma ideologia política. Por mais que, muitas vezes, as ciências modernas – e aqui cito principalmente a biologia, química, física e matemática – possam se chamar de neutras e apolíticas, elas estão em relações estratégicas de poder, que tentam se apoderar e controlar outros conhecimentos a partir de relações de força.
A ideia de que o conhecimento (e a ciência como um todo) acontece em uma bolha, neutro e isolado da sociedade é um mito. Conhecimento e relações de poder estão intrinsecamente ligados, e ambos são utilizados de forma política e econômica. Como Michel Foucault, um importante filósofo do século XX, já alertava não existe relação de poder sem que haja conhecimento envolvido, e não existe constituição de conhecimentos sem supor e também constituir relações de poder. Conhecimento não gera poder e vice-versa. Ambos se criam juntos.
Em suma, essa ideia de que a ciência produzida é livre, apolítica, neutra, não existe. Todo o conhecimento, toda a ciência, toda pesquisa científica está imersa e ligada intimamente com relações de poder, algo chamado de poder-saber. Novamente, muitos leitores podem se perguntar por que estou falando isso.
Quando ouvimos que uma pesquisa será revolucionária, que um processo ficará muito mais barato, que um ambiente é um recurso importante para a pesquisa, temos que nos questionar: Por que é revolucionário? Barato para quem? Por que é tratado como um recurso? Não quer dizer que as respostas para essas perguntas serão fáceis de se pensar e discutir, mas fazer isso já será um importante passo, pois muitas vezes discussões como essas nem são cogitadas.
Por que é importante se questionar sobre essas pesquisas?
O ponto onde quero chegar (e que acredito ser importante discutir antes de entrarmos fundo em discussões técnicas sobre biomanufatura nas próximas semanas) é que é necessário que a microbiologia, engenharia genética, biologia sintética e todos os diversos campos tangentes à biomanufatura discutam mais sobre o impacto das pesquisas realizadas.
O que tento mostrar aqui não é um juízo de valor, mas sim a necessidade de entender as premissas que levam à realização de uma pesquisa científica e os impactos que ela pode causar. A ciência não é neutra e, quanto mais demorarmos para entender isso, mais demorada também será a discussão real que precisa ser feita: quem é verdadeiramente beneficiado por esta pesquisa?
E com todas essas discussões em mente, terminamos nosso primeiro bloco dessa série sobre biomanufatura no EMRC. A partir da próxima postagem, vamos começar a entender melhor as ferramentas e tecnologias utilizadas nesse campo, começando com os biorreatores: as fábricas onde microrganismos trabalham.
| O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo nº 2025/23381-7. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP. |
Para saber mais:
- CHEN, Jianwei et al. (2024). Global marine microbial diversity and its potential in bioprospecting. Nature, v. 633, n. 8029, p. 371-379.
- DE CERQUEIRA, Jackson B. A. (2008). Uma visão do neoliberalismo: surgimento, atuação e perspectivas. Sitientibus, n. 39.
- FOUCAULT, Michel. (1987). Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 288p.
- FOUCAULT, Michel. (2008) O Nascimento da Biopolítica: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes.
- FOUCAULT, Michel. (2013). Conferência 1. In: _____ A verdade e as formas jurídicas. Tradução: Eduardo Jardim e Roberto Machado. 4. ed. Rio de Janeiro: NAU.
- O’BROLCHÁIN, Fiachra et al. (2021). Ethical aspects of the biologicalisation of manufacturing. CIRP Journal of Manufacturing Science and Technology, v. 34, p. 178-185.
- ZHANG, Yi-Heng Percival; SUN, Jibin; MA, Yanhe. (2017). Biomanufacturing: history and perspective. Journal of Industrial Microbiology and Biotechnology, v. 44, n. 4-5, p. 773-784.
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