{"id":1404,"date":"2018-03-16T10:55:24","date_gmt":"2018-03-16T13:55:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/energiaeambiente\/?p=1404"},"modified":"2022-06-21T16:41:15","modified_gmt":"2022-06-21T19:41:15","slug":"energia-para-as-mulheres-e-mulheres-para-a-energia-as-contribuicoes-de-amulya-reddy-e-srilatha-batliwala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/energiaeambiente\/2018\/03\/16\/energia-para-as-mulheres-e-mulheres-para-a-energia-as-contribuicoes-de-amulya-reddy-e-srilatha-batliwala\/","title":{"rendered":"Energia para as mulheres e mulheres para a energia: as contribui\u00e7\u00f5es de Amulya Reddy e Srilatha Batliwala"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Gabrielle Adabo<\/em><\/p>\n<p>As aproxima\u00e7\u00f5es entre os estudos de g\u00eanero, que tomam por base as constru\u00e7\u00f5es sociais que dividem a sociedade em masculino e feminino, e as mais diversas \u00e1reas do conhecimento t\u00eam permitido a produ\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises sobre os pap\u00e9is desempenhados e as dificuldades e desigualdades enfrentadas pelas mulheres. Com o uso da energia e com a escolha das tecnologias utilizadas n\u00e3o \u00e9 diferente, embora pouco reconhecido por esses lados daqui. Voc\u00ea j\u00e1 chegou a pensar nessa conex\u00e3o?<\/p>\n<p>Pois bem, o acesso \u00e0 energia e \u00e0s tecnologias dela decorrentes \u00e9 fundamental para alcan\u00e7ar a justi\u00e7a e erradicar as desigualdades baseadas em g\u00eanero ou em outros marcadores como classe e etnia. \u00c9 o que afirmam Srilatha Batliwala e Amulya Reddy em artigo publicado em 1996, d\u00e9cada na qual ocorreram discuss\u00f5es importantes nos estudos de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Neste post, mostramos algumas das contribui\u00e7\u00f5es trazidas pela escritora, ativista social e advogada dos direitos das mulheres Srilatha Batliwala e por Amulya Reddy, um dos fundadores da ONG <a href=\"http:\/\/iei-brasil.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">International Energy Initiative \u2013 IEI Brasil<\/a>, ambos da \u00cdndia. No artigo chamado \u201cEnergy for Women &amp; Women for Energy (Engendering Energy and Empowering Women)\u201d \u2013 Energia para as mulheres e Mulheres para a Energia (Engendrando Energia e Empoderando Mulheres), em tradu\u00e7\u00e3o livre \u2013 os autores consideram aspectos dos usos da energia a partir de uma perspectiva de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Batliwala e Reddy chamam a aten\u00e7\u00e3o para as caracter\u00edsticas das an\u00e1lises tradicionais sobre energia, mais voltadas para os ciclos dos combust\u00edveis do que para o consumo. Os autores apontam uma mudan\u00e7a nesse cen\u00e1rio a partir das d\u00e9cadas de 60\/70. No entanto, ressaltam que at\u00e9 ent\u00e3o (d\u00e9cada de 90) poucas an\u00e1lises haviam sido tecidas sobre a distribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero no consumo de energia.<\/p>\n<p>A partir de um estudo realizado na d\u00e9cada de 70 no vilarejo de Pura, no sul da \u00cdndia, que analisou os padr\u00f5es de consumo de energia da popula\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea rural, os autores fizeram algumas observa\u00e7\u00f5es com base no g\u00eanero. As mulheres de Pura gastam mais energia humana do que os homens do vilarejo \u2013 53% do total de horas de trabalho humano, sendo 42% para coleta de combust\u00edvel, 80% para a busca de \u00e1gua, 15% para o pastoreio de gado e 44% para o trabalho agr\u00edcola. Segundo os autores, trata-se de um trabalho que \u00e9 vital para a sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 o que os autores chamam de uma \u201cprefer\u00eancia de g\u00eanero\u201d nas atividades agr\u00edcolas. Enquanto os homens aram e preparam a terra com o aux\u00edlio de animais, \u00e0s mulheres cabem atividades como o plantio e a colheita, que implicam posturas de assento e curvatura e o trabalho manual. No entanto, quando \u00e9 implementada a mecaniza\u00e7\u00e3o destas atividades, com o uso de colheitadeiras mec\u00e2nicas, por exemplo, tal trabalho passa a ser apropriado pelos homens e as mulheres perdem os empregos.<\/p>\n<p>Apesar de trabalharem mais do que os homens e executarem tarefas sem o aux\u00edlio de animais ou m\u00e1quinas, as mulheres ingerem menos energia alimentar. Segundo os autores: \u201cA universal, mas triste, verdade nos pa\u00edses em desenvolvimento \u00e9 que as mulheres tradicionalmente comem por \u00faltimo e menos em uma fam\u00edlia &#8211; isso \u00e9 resultado do valor cultural dominante atribu\u00eddo aos adultos do sexo masculino e aos meninos\u201d (p. 4). O acesso aos alimentos dentro da fam\u00edlia, portanto, tamb\u00e9m \u00e9 marcado pelo vi\u00e9s de g\u00eanero. O excesso de trabalho e a nutri\u00e7\u00e3o deficiente causam efeitos negativos na sa\u00fade das mulheres.<\/p>\n<p>Outros impactos \u00e0 sa\u00fade das mulheres pobres, \u00e0 n\u00edvel mundial, foram associados ao uso da biomassa como forma de combust\u00edvel, principalmente na cozinha. Combust\u00edveis como a lenha e os bolos de estrume liberam altos n\u00edveis de componentes t\u00f3xicos nocivos em concentra\u00e7\u00f5es que podem ser centenas de vezes maiores do que os limites recomendados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Em muitas partes do mundo, as mulheres s\u00e3o expostas desde cedo a tais poluentes no ambiente dom\u00e9stico, o que pode causar desde infec\u00e7\u00f5es a c\u00e2nceres. Os autores ressaltam que a inexist\u00eancia de fontes alternativas de energia para o desempenho das atividades di\u00e1rias dom\u00e9sticas impacta sobretudo as mulheres e as garotas pobres, pois tais tarefas s\u00e3o tradicionalmente desempenhadas por elas ao longo do que chamam de \u201clinhas de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>As tecnologias que utilizam energia influem, inclusive, em processos como o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o da quantidade e a altera\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es do trabalho dom\u00e9stico desempenhado tradicionalmente pelas mulheres. Um exemplo de mudan\u00e7a proporcionado \u00e0s mulheres por meio de interven\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas \u00e9 citado pelos autores ainda com base na realidade do vilarejo de Pura. A instala\u00e7\u00e3o de um sistema comunit\u00e1rio de plantas de biog\u00e1s para o abastecimento de energia e \u00e1gua causou impactos como a melhoria da qualidade da \u00e1gua e a redu\u00e7\u00e3o do tempo para obt\u00ea-la, pois as mulheres precisam andar longas dist\u00e2ncias para colet\u00e1-la e voltar, o que tamb\u00e9m serve para a lenha. O acesso \u00e0 \u00e1gua de melhor qualidade, por sua vez, reduziu a quantidade de doen\u00e7as. Outro efeito da implanta\u00e7\u00e3o do sistema foi a melhoria da ilumina\u00e7\u00e3o que permitiu ampliar o tempo para executar as tarefas dom\u00e9sticas e reduzir a press\u00e3o sobre as mulheres durante o dia.<\/p>\n<p>As mulheres, portanto, desempenham um papel crucial na gest\u00e3o dos recursos energ\u00e9ticos, tanto em termos de economia dom\u00e9stica, como, no caso da biomassa, na coleta e no uso. Elas, portanto, est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o na qual disp\u00f5em de um conhecimento privilegiado desses mecanismos, embora n\u00e3o seja esta uma posi\u00e7\u00e3o de poder tomar as decis\u00f5es. Al\u00e9m disso, muitos implementadores de pol\u00edticas p\u00fablicas ou centros de pesquisa acad\u00eamica desconhecem ou n\u00e3o reconhecem esses saberes. A sugest\u00e3o dos autores, com base nesse fato, \u00e9 que as mulheres assumam esse lugar de gestoras como empreendedoras, na produ\u00e7\u00e3o de energia. S\u00e3o necess\u00e1rios, portanto, projetos que as capacitem e que promovam o acesso a esse lugar de ger\u00eancia dentro das empresas de energia, para que elas possam assumir essa posi\u00e7\u00e3o de poder e decidir sobre prioridades que as afetam (e \u00e0 vida de suas fam\u00edlias) de forma mais urgente. Dessa forma, nas palavras dos autores: \u201cda energia para as mulheres, o processo levar\u00e1 ao empoderamento das mulheres\u201d.<\/p>\n<p>O artigo Energy for Women &amp; Women for Energy (Engendering Energy and Empowering Women) pode ser lido (em ingl\u00eas) em: <a href=\"http:\/\/amulya-reddy.org.in\/Publication\/1996_05_dtaft_WENERGY961.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/amulya-reddy.org.in\/Publication\/1996_05_dtaft_WENERGY961.pdf<\/a>.<\/p>\n<p>Para saber mais sobre a vida e a obra de Amulya Reddy acesse o site criado em sua mem\u00f3ria: <a href=\"http:\/\/amulya-reddy.org.in\/Publ_421_E_EP.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/amulya-reddy.org.in\/Publ_421_E_EP.htm<\/a>.<\/p>\n<p>Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a International Energy Initiative \u2013 IEI Brasil acesse: <a href=\"http:\/\/iei-brasil.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">iei-brasil.org<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.who.int\/mediacentre\/factsheets\/fs292\/en\/\">http:\/\/www.who.int\/mediacentre\/factsheets\/fs292\/en\/<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As aproxima\u00e7\u00f5es entre os estudos de g\u00eanero, que tomam por base as constru\u00e7\u00f5es sociais que dividem a sociedade em masculino e feminino, e as mais diversas \u00e1reas do conhecimento t\u00eam permitido a produ\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises sobre os pap\u00e9is desempenhados e as dificuldades e desigualdades enfrentadas pelas mulheres. 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