É possível o estudo científico do pensamento e da criatividade? – Parte II

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Por Ana Arantes, dO Divã de Einstein

Bem… Continuemos o assunto do post anterior…

3. O pensamento e o “ver encoberto”

     A questão do pensamento é um tema complexo na obra skinneriana, podendo ser considerado como um comportamento precorrente para resposta consumatória no processo de resolução de problemas. Comportamentos precorrentes podem ser descritos como aqueles que “não recebem conseqüências reforçadoras imediatas, mas são indispensáveis para a emissão de uma resposta subseqüente que tem conseqüência reforçadora (Lopes & Abib, 2002). Partindo desse ponto de vista, pensar pode ser: intencionar, atentar, perceber, memorizar, criar e qualquer outro comportamento (ou processo comportamental) que seja capaz de tornar possível a solução de um problema. Portanto, o pensamento na obra de Skinner é um conceito que deve ser analisado em termos de seus mais variados usos (Lopes & Abib, 2002). Nesse sentido, boa parte do que é descrito como pensamento na resolução de problemas refere-se a comportamento perceptivo encoberto, ou o que se chama de “ver na ausência da coisa vista”.    Skinner analisa o ver a partir da história de vida (ambiental) e das contingências presentes, ou seja, analisa esse comportamento da mesma forma que faria com qualquer outro: “a expressão ‘ver algo’ refere-se a uma grande amplitude de comportamentos, gerados por uma grande amplitude de contingências tendo em comum um estímulo em particular” (Skinner, 1989). O comportamento perceptual encoberto analisa-se, ainda, da mesma forma como se faria com o comportamento público, pois “tanto quanto sabemos, nada jamais é aprendido de forma encoberta que não tenha sido aprendido abertamente. O ver encoberto pode, por isso, ser ensinado como o ver abertamente” (Skinner, 1968).

     Parece ter importância, nesse ponto, esclarecer o motivo de os comportamentos regredirem a um nível privado, já que a sua emissão original acontece no nível público. Existem algumas explicações para esse fenômeno: quando o controle de estímulos é fraco ou envolve punição, quando um comportamento é reforçado automaticamente, quando se trata de um precorrente etc. Esse último caso pode explicar por que o ver privado pode ocorrer caso o comportamento subseqüente seja reforçado, “assim, podemos ver Veneza com a finalidade de ensinar um amigo a encontrar o caminho que o levará a determinada parte da cidade…” (Skinner, 1974). Skinner afirma que “o comportamento se torna encoberto quando, em primeiro lugar, sua força cai abaixo do nível necessário para uma emissão aberta, tal emissão pode ser fraca por que as variáveis de controle são deficientes (…) ou podem ser fortes, como se vê pelo fato de que, sob outras circunstâncias ele pode surgir em nível aberto. A resposta encoberta é simplesmente a mais fácil, ou por alguma razão, a mais própria no momento” (Skinner, 1957).

     Uma vez que o comportamento regride a um nível encoberto, ele torna-se diretamente inacessível para outras pessoas, o que na maior parte das vezes é a razão pela qual o nomeamos de “pensar”. Entre as vantagens do comportamento de “ver privado” está o fato de que esse comportamento não exigiria um comportamento precorrente que gerasse um estímulo externo e também porque o ver privado estaria isento de qualquer punição se o mesmo tornar-se público. Há também o caso em que o comportamento de ver encoberto produz estímulos discriminativos que podem ser úteis para o comportamento subseqüente (público ou privado), o que nos leva à conclusão de sua importância para o comportamento de resolução de problemas.

      Por exemplo, uma pessoa pode descrever a forma com que chegou a solução de determinado problema descrevendo a produção de estímulos discriminativos visuais. Dado o problema: “pense em um cubo, com todas as superfícies pintadas de vermelho, divida o cubo em 27 cubos iguais fazendo cortes, dois cortes verticais e dois conjuntos de cortes horizontais. Quantos cubos terão três faces pintadas de vermelho, quantos terão duas, quantos terão uma e quantos não terão nenhuma?” (Skinner, 1953). O sujeito que o resolveu pode relatar que “viu o cubo, pintou-o de vermelho…” e assim por diante até chegar à resposta final. Para tal, a capacidade de emitir a resposta visual encoberta foi necessária. Nesse caso, o ver, em si, não seria reforçado, mas sim a solução do problema, que acaba por reforçar toda a cadeia de comportamento que tornou a solução possível, inclusive o comportamento de “ver na ausência da coisa vista”.

     Resumindo, o que se identifica como “pensamento” no comportamento de ver privado é sempre um comportamento do organismo como um todo (e não apenas do cérebro), e o fato de ser emitido na ausência da coisa vista significa apenas que, uma vez aprendido de forma aberta, pode ser emitido de forma encoberta, sem o suporte dos estímulos que estavam presentes durante o processo de aquisição da resposta (Tourinho & cols., 2000).

4. Comportamento criativo

        A discussão skinneriana sobre o surgimento de comportamentos novos, chamados “originais” ou “criativos” é um dos pontos de sua obra onde mais claramente pode-se observar a idéia de interação entre as contingências de seleção ambientais (ontogenéticas) e a seleção filogenética (ou contingências de sobrevivência). “O conceito de seleção é mais uma vez a chave. As mutações, na teoria genética e evolutiva, são casuais e as topografias respostas selecionadas pelo reforço são, se não aleatórias, pelo menos não necessariamente relacionadas com as contingências em que serão selecionadas. E o pensamento criador preocupa-se grandemente com a produção de ‘mutações’. Escritores, artistas, compositores, matemáticos, cientistas e inventores estão familiarizados com formas explícitas de tornar mais provável a ocorrência de comportamento original” (Skinner, 1974).

      Segundo Skinner, comportamentos nunca antes emitidos e que não estavam presentes anteriormente no repertório de um indivíduo podem ser explicados como função de variações aleatórias na emissão de resposta, que são então selecionadas por contingências de reforço. Esse mecanismo segue a mesma lógica do mecanismo de variação e seleção postulado pela Teoria Evolucionista. Para ele, “o termo chave no titulo de Darwin é ‘a Origem’. A novidade pode ser explicada sem apelar-se a um desígnio inicial se mudanças aleatórias nas estruturas forem selecionadas por suas conseqüências. Estas são as contingências de sobrevivências que criaram novas formas” (Skinner, 1971a). Da mesa forma, “não é algum propósito inicial, alguma intenção ou ato de vontade que responde por novo comportamento; são as contingências de reforçamento” (Skinner, 1971a).

      A questão da criatividade, para Skinner, é tomada sob o mesmo prisma da questão do pensamento – no sentido de que pode (e deve) ser explicada através de seus determinantes da história de contingências e da história genética do organismo. Novamente pode-se verificar a crítica ao mentalismo e à noção de causalidade interna: “uma ‘mente criativa’ não explica nada. É apenas um apelo ao miraculoso. A mente é considerada como fazendo aquilo que o corpo não é capaz. (…) novidade e originalidade podem ocorrer em um sistema determinístico” (Skinner, 1970).

     Assim, ao analisar as contingências das quais a criatividade é função pode-se chegar a uma explicação causal e, por fim, manipulando-se tais contingências deve-se ser capaz de aumentar a probabilidade de que tais comportamentos criativos ocorram. A “mente criativa” é evo
cada porque algumas vezes não é possível ter acesso a todas as contingências, principalmente às contingências de sobrevivência que dizem respeito à história filogenética. “Contingências de reforçamento que modelam o comportamento ontogênico podem ser arranjadas e estudas no laboratório. Mas a maioria das contingências de sobrevivência responsáveis pelo comportamento filogenético observado nesse campo é meramente inferida” (Skinner, 1978).

      Provavelmente a mais importante implicação da causalidade ambiental para a determinação da originalidade e criatividade está na proposta skinneriana de uma tecnologia de ensino capaz de produzir comportamentos novos nos campos artísticos e científicos. Desse modo, “o papel do acaso pode ser assumido e ampliado pela planificação deliberada. (…) Novas formas de comportamentos podem ser geradas por contingências ambientais, que dificilmente surgiriam por acidente. Por definição, não se pode ensinar comportamento original, pois não seria original se ensinado, mas podemos ensinar ao estudante a arranjar ambientes que maximizem a probabilidade de que ocorram respostas originais” (Skinner, 1978).

      Tal formulação acabou por gerar resistência, pois retira do sujeito o caráter iniciador, ou, nas palavras do próprio Skinner: “uma formulação do pensamento criativo dentro do esquema de referência de uma ciência natural pode ser ofensivo àqueles que fundamentam sua concepção do indivíduo no controle do mundo ao seu redor, mas a formulação pode ter vantagens compensadoras. Na medida em que a originalidade se identifica com a espontaneidade ou com a ausência de regras no comportamento, parece ser uma tarefa inglória ensinar um homem a ser original ou a influenciar seu processo de pensar de qualquer maneira importante. A presente análise levaria a um aperfeiçoamento nos procedimentos educacionais” (Skinner, 1953). A mesma crítica foi formulada também no que diz respeito à formulação comportamental do pensamento, como já visto.

     O modelo proposto para o ensino e a geração de comportamento criativo é o da produção de variação. Com o aumento (através do reforçamento) da emissão de comportamentos diferentes, seria possível selecionar daquelas respostas que poderiam ter valor tanto para a cultura quanto para o indivíduo. Uma das maneiras de gerar tal variabilidade seria, então, incrementar o número de “mutações” nas respostas (uma analogia às mutações que geram variabilidade, posterior seleção pelo ambiente e, por fim, a evolução da espécie). Ao analisar o comportamento do artista, Skinner coloca que “nós devemos procurar por mutações. (…)   podemos gerar mutações mudando as condições de trabalho do artista, fazendo-o trabalhar quando está cansado, com frio, desencorajado ou bêbado. O artista pode gerar outros tipos de mutação fazendo deliberadamente aquilo que lhe foi dito para não fazer; ele pode violar os modelos, as convenções e os tabus, como um matemático que renega axiomas evidentes ou como o compositor que usa harmonias proibidas” (Skinner, 1970).

      Dessa maneira, a ação iniciadora é, de certa forma, externa ao sujeito, ela “vem de sua história passada, verbal ou outra qualquer (…), causas genéticas e ambientais que postas juntas têm um efeito em comum” (Skinner, 1970a), ou seja, geram novas respostas. Por outras palavras o controle de estímulos ambientais é responsável por gerar respostas de qualquer tipo, até mesmo as originais e criativas.

Conclusão

      Em “Beyond Freedom and Dignity”, Skinner afirmou que o mentalismo não somente interfere na busca de explicações científicas do comportamento, como também não é prático, no sentido de que nos impede de solucionar problemas sociais como a guerra, o crime e a pobreza. A idéia de que uma pessoa possa ser responsável por uma ação, no sentido de causar essa ação, é baseada na noção de livre arbítrio. Porém na possibilidade de uma ciência do comportamento está implícito que o comportamento, como qualquer objeto de estudo científico, é ordenado, pode ser explicado, previsto e controlado, desde que se tenham os dados e os meios necessário. Ou seja, não é livre, mas determinado.

       Em certo sentido, a questão da crítica ao mentalismo se liga ao estudo e análise do pensamento e da criatividade por que a grande razão para se supor que as pessoas “têm uma mente” é que todos sabem que têm pensamentos, que pensam, e que produzem pensamentos originais e criativos. Pensamentos, sentimentos, sensações e sonhos são eventos privados, naturais e freqüentemente observáveis por aqueles que os experimentam. Há dois pontos importantes com relação à distinção entre público e privado: o primeiro é que para o behaviorismo radical, a distinção tem pouco significado (pois ambos são eventos naturais) e o segundo é que a única diferença entre tais eventos é o número de pessoas que podem relatá-lo, ou seja, a distinção tem relação com o acesso ao evento e não com sua natureza. Ao aceitar essa afirmação, Skinner admite a subjetividade como objeto de estudo da ciência, como natural e compartilhando todas as propriedades dos demais comportamentos; suas origens encontram-se na história do indivíduo e na filogênese de sua espécie.

       Ao afirmar, ainda, que os comportamentos de pensar e criar podem ser explicados, previstos e controlados e, acima disso, ensinados e aprendidos, Skinner confirma a influência do pragmatismo em sua ciência. Segundo Baum (1994), “a noção fundamental do pragmatismo é de que a força da investigação científica reside não tanto na descoberta da verdade sobre a maneira como o universo objetivo funciona, mas no que ela nos permite fazer”. Disso se segue que a ênfase skinneriana no desenvolvimento comportamental é parte integrante de seu projeto de ciência e como tal derivação natural deste projeto.

       Por fim, cabe ressaltar que a análise dos comportamentos operantes identificados como pensar e criar tem uma extensão e uma complexidade muito maior do que as apresentadas aqui, sendo este estudo apenas uma tentativa de reconstruir, através de alguns momentos da obra de Skinner, algumas noções consideradas relevantes para o entendimento do tema.

Referências:

Baum, W. (1994). Compreender o behaviorismo. Porto Alegre: Artmed.

Lopes, C. E. & Abib, J. A. D. (2002). Teoria da percepção no Behaviorismo Radical. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 18, 2. 129-137.

Skinner, B. F. (1953). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1963). Contingences of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1968). The technology of teaching. New York: Appleton-Century- Crofts.

Skinner, B. F. (1970). Creating the creative artist. Em B. F. Skinner (Org.). Cumulative records: A selection of papers – Third edition (1972). New Yark: Appleton- Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1971a). A lecture on “Having” a poem. Em B. F. Skinner (Org.). Cumulative records: A selection of papers – Third edition (1972) . New Yark: Appleton- Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1971b). Beyond freedom and dignity. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Applenton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1978). The shaping of phylogenic behavior. Em B. F. Skinner. Reflections on behaviorism and society. Englewood Cliffs: Prentice Hall.

Skinner, B. F. (1986). Upon Further Reflection. Englewood Cliffs: Prentice Hal
l.

Skinner, B. F. (1989). Questões recentes na análise comportamental. Campinas: Papirus.

Tourinho, E. Z.; Teixeira, E. R. e Maciel, J. M. (2000). Fronteiras entre análise do comportamento e fisiologia: Skinner e a temática dos eventos privados. Psicologia: Reflexão e Crítica. 13, 3. 425-434.

Discussão - 11 comentários

  1. Francisco Boni Neto disse:

    Skinner foi burro e desatualizado ao implicar que mentalismo implica em indeterminismo (livre-arbítrio). Primeiro, ninguém sabe o que acontece à nível biofísico no sistema nervoso. A postura mais cautelosa é de um compatibilismo alá Dennett e David Chalmers.

  2. Ana Arantes disse:

    Acho que “burro” não é um adjetivo que caberia ao homem que foi considerado pela American Psychological Association (APA) como o “psicólogo mais importante do século XX”.
    Nem desatualizado, já que a maioria dessas idéias começaram a se formar na década de 1930, quando a Psicologia Experimental ainda lidava com o problema do método introspectivo, e Skinner já usava tanto o paradigma evolucionista quanto as bases epistemológicas da ciência que usamos no século XXI…
    Isto posto… Hoje sabemos (eu não, os caras das neurociências…) MUITA coisa sobre o funcionamento do sistema nervoso. Como descrito no meu texto *E* no texto skinneriano, o conhecimento fisiológico é imprescindível para a completa compreensão do comportamento, mas a ciência que ele propõe limita sua unidade de análise ao fenômeno psicológico.
    Outra: mesmo com as mais modernas descobertas das neurociências, ainda não foi descoberta nenhuma matéria insubstancial e de natureza não-física que poderia ser identificada com a “mente” cartesiana que o autor critica em seus artigos. Partindo do pressuposto monista (oposto ao dualismo psico-físico, ou ao dualismo “moderno” cérebro-corpo) não há “compatibilismo” possível.

  3. Bessa disse:

    *Hoje sabemos MUITA coisa sobre o funcionamento do sistema nervoso* É incrível ver o grau de complexidade a que se pode chegar e, ainda assim, haver bases físicas bem concretas para explicar tudo. Já leram “O erro de Descartes”?

  4. “Skinner admite a subjetividade como objeto de estudo da ciência”
    Um behaviorista faz distinção entre objetividade e intersubjetividade?
    []s,
    Roberto Takata

  5. Ana Arantes disse:

    Takatinha:
    Eu acho que o reconhecimento de si mesmo (por exemplo no espelho) é um passo anterior à formação da consciência. É algo necessário, mas não suficiente para dizer que um organismo seja capaz de consciência. Já te dou uma referência bacana sobre isso, não consigo me lembrar o nome do cara… (Tanta cerveja pra esquecer o fiasco da seleção…)
    Sobre sua outra pergunta, não sei responder. Você pode operacionalizar o que chama de “intersubjetividade”?
    Um texto bacana sobre consciência no behaviorismo radical, cujo autor, por um mero acaso, é o meu orientador: http://www.terapiaporcontingencias.com.br/pdf/outros/Consciencia_e_Proposito_BehaviorismoRadical_JulioC.pdf

  6. Érico disse:

    Admiro e entendo a tentativa de Skinner utilizar a metodologia pra entender o comportamento humano. O problema é que o paradigma cartesiano-newtoniano se mostrou claramente inadequado como metodologia para os fenômenos psicológicos e nesse sentido os resultados dele parecem tão hipotéticos como muitas outras teorias psicológicas criticadas por aí. O suposto cientificismo da análise do comportamento é mais uma isca do que uma realidade.
    “O Erro de Descartes” é bibliografia básica sobre o assunto, que é bem extensa e inclui também Morin, Capra, Najmanovich, Boaventura de Sousa Santos, entre muitos outros autores.
    A verdade é que a elucidação dos processos psicológicos só vai acontecer quando se estabelecer as bases moleculares do comportamento, ou seja, a nível de proteínas, sinalizações, interações moleculares. Então, se é possível o estudo científico do pensamento e da criatividade? Sim, através da biologia molecular. É através de reações químicas que essas coisas acontecem e é assim que elas podem ser verdadeiramente entendidas. Saiu um artigo nesta edição da Nature dizendo que está cada vez mais difícil estabelecer regras gerais sobre comportamento humano, que sempre foi a obsessão das teorias psicológicas e que a tendência é cada vez mais a interdisciplinaridade dessas ciências com técnicas de ressonância cerebral e utilização de biomarcadores. Os resultados baseados em observação empírica e em laboratório (característica do behaviorismo), são insuficientes e limitadas.

  7. Sobre a intersubjetividade, assim: o cientista vai estudar algum objeto, mas o que ele terá são os dados q ele irá perceber – isso estará dentro do domínio da subjetividade (o que ele viu, o que ele sentiu com o experimento). Como ele comunica isso? Ele terá que passar para outro indivíduo. Vai ser uma relação entre duas (ou mais) subjetividades.
    Algumas teorias tratam isso em termos de formação de consenso ou de acordo.
    Sobre consciência. Qual a definição behaviorista?
    []s,
    Roberto Takata

  8. Ana Arantes disse:

    Takatita!
    Eu não entendo o exemplo que você deu como inter*SUBJETIVIDADE*: pra mim é um belo exemplo da objetividade da ciência. Se eu e você observamos o mesmo fenômeno (ok, “percebemos”, no sentido psicológico de “percepção”, ou “sentimos”, no sentido de “ter sensação, ou o termo em inglês pra isso que é mais bacana: sensing), logo essa observação é objetiva, embora as interpretações que dois cientistas possam fazer do mesmo fenômeno observado possam ser diferentes.
    Sim, é a objetividade por consenso, como você disse. Acho – tenho quase certeza – de que o Behaviorismo Radical não trabalha como conceito de intersubjetividade.
    Sobre consciência, a definição operacional é: analisar o comportamento autodescritivo. Ou seja, toda vez que descrevemos nosso próprio comportamento (principalmente as variáveis das quais ele é função) dizemos que “temos consciência”, ou temos “auto-consciência” (tem hífem isso???) ou ainda, temos “autoconhecimento”. Skinner usa o termo “auto-tato”, ou seja, um operante verbal sob controle de estímulos provenientes do próprio falante. Independentemente de quanto esse conhecimento é acurado – a boa e velha amiga que se acha sem se procurar, coitada, não tem acurácia na discriminações do seu próprio comportamento, por exemplo. A idéia é que quanto mais acurados nos tornamos em relatar nosso próprio comportamento – quanto melhor nossa autoconsciência – em melhor condições estaremos de poder “controlar” nosso próprio comportamento. Ou seja, a primeiro resultado prático da consciência é gerar autocontrole.
    Vou dar um colão em umas passagens do Skinner que eu tirei dessa apostila aqui –> http://www.pucsp.br/pos/experimental/graduacao/Downloads/consciencia_analise_comportamento_2009.pdf
    A comunidade verbal gera comportamento autodescritivo por meio de perguntas tais como “o que você está fazendo?” ou “por que você está fazendo isto?” e reforçando nossas respostas apropriadamente. O comportamento com o qual nós respondemos não deve ser confundido com o comportamento gerado pelas contingências originais. Este não é necessariamente “lingüístico”, mas ele é verbal no sentido de que nós não teríamos razão para nos engajarmos nele se não fosse pelas contingências arranjadas pela comunidade verbal. Tais contingências podem destacar distintos aspectos de nosso comportamento – por exemplo, elas podem ser responsáveis pelo fato de sabermos “o que fizemos”, no sentido de sermos capazes de descrever nossas respostas, mas não sabermos “porque fizemos isto”, no sentido de sermos capazes de identificar variáveis relevantes. (Skinner, 1969, p. 244)
    Todas as espécies, exceto o homem, comportam-se sem saber que o fazem e, presumivelmente, isto também era verdadeiro no caso do Homem, até surgir uma comunidade verbal que fizesse perguntas acerca do comportamento, gerando assim o comportamento autodescritivo. O conhecimento de si próprio tem origem social e é inicialmente útil para a comunidade que faz as perguntas. Mais tarde, torna-se importante para a própria pessoa – por exemplo, para haver-se consigo mesma ou para controlar-se… (Skinner, 1974, p.169)
    Sob quais contingências de reforçamento… observamos nosso eu [self] e relatamos o que estamos fazendo? Um organismo raramente se comporta efetivamente sem responder ao seu próprio corpo. As contingências responsáveis pelo comportamento explicam esse tipo de auto-estimulação. Contingências muito diferentes explicam a auto-observação. A primeira a evoluir pode ter estado associada à modelação. Comportar-se como modelo é comportar-se de maneiras que são facilmente observadas e imitadas, primeiro por outros, mas possivelmente também pelos próprios modelos. Modelação operante, e a auto-observação que ela facilita, parece ser exclusivamente humana***; reforçamento pelo comportamento de um imitador é aparentemente muito atrasado para reforçar modelação em outras espécies. (Consequências atrasadas não colocam problemas para a modelação devido à seleção natural, porque a sobrevivência das espécies é necessariamente uma conseqüência atrasada). As contingências que promovem a auto-observação devem ter se multiplicado rapidamente com o advento do comportamento verbal vocal. (Modelação é verbal, apesar de não necessariamente vocal, no sentido de que o reforçamento é mediado por outras pessoas: nós não podemos imitar a menos que haja um modelo, e nós não nos comportamos como modelo, a não ser que nosso comportamento tenha sido imitado). Quando a musculatura vocal da espécie humana ficou sob controle operante, as pessoas podiam dizer aos outros o que fazer, assim como mostrar-lhes e, então, deve ter sido muito mais fácil ver e falar sobre o que elas próprias estavam fazendo. (Naturalmente, fazer inclui reagir sensorialmente [sensing]. Nós não apenas observamos que fazemos coisas, observamos que vemos coisas). Muitas contingências verbais que promovem auto-observação são mais explícitas. Pessoas são solicitadas a relatar o que elas estão fazendo ou porque estão fazendo e, quando elas respondem, elas podem falar para elas mesmas, assim como para outros. Psicoterapia é, frequentemente, um esforço para aumentar a auto-observação, para trazer “à consciência” mais daquilo que é feito e do porquê é feito. (Skinner, 1989, pp. 29-30)
    *** Só pra constar, há experimentos sobre modelação operante com chimpanzés e parece que eles imitam marromeno como os bebês humanos. Outros experimentos bacanas sobre imitação são do cara que eu fiquei devendo na resposta passada, o nome é Tomasello e eu mesma já escrevi sobre ele nO Divã.
    Diferentes comunidades geram tipos e quantidades diferentes de autoconhecimento e diferentes maneiras de uma pessoa explicar-se a si mesma e aos outros. Algumas comunidades produzem a pessoa profundamente introspectiva, introvertida ou voltada para dentro; outras produzem o extrovertido sociável. Umas produzem as pessoas que só agem após cuidadosa consideração das possíveis conseqüências; outras, os tipos imprudentes e impulsivos. Certas comunidades produzem pessoas particularmente cônscias de suas reações à arte, música ou literatura; outras, de suas relações com aqueles que as cercam. As perguntas feitas pelos psicólogos mentalistas e as feitas pelos behavioristas naturalmente produzem diferentes espécies de autoconhecimento. As perguntas feitas pelos primeiros acentuam como uma pessoa se sente acerca das coisas. (Skinner, 1974, p.169)
    Um homem pode não saber que ele fez algo. Ele pode ter se comportado de uma dada maneira… e, entretanto, ser incapaz de descrever o que ele fez. Os exemplos abrangem desde lapsos verbais não notados até amnésias prolongadas nas quais amplas áreas do comportamento anterior não podem ser descritas pelo próprio indivíduo…. Um homem pode não saber que ele está fazendo algo. Conduta distraída, maneirismos inconscientes e comportamento mecânico habitual são exemplos comuns…. Um homem pode não saber que ele tende a ou está para fazer alguma coisa. Ele pode não estar ciente de tendências agressivas de predileções incomuns ou da alta probabilidade de que ele seguirá um dado curso de ação. Um homem pode não reconhecer as variáveis das quais seu comportamento é uma função… Frequentemente esses fenômenos são vistos com surpresa. Como pode o indivíduo não observar eventos que são tão claros e tão importantes? Mas, talvez, devêssemos nos surpreender com o fato de que tais eventos sejam observados tão frequentemente. Nós não temos razão para esperar comportamento discriminativo desse tipo a menos que tenha sido gerado por reforçamento apropriado.Autoconhecimento é um repertório especial. O aspecto crucial não é se o comportamento que um homem não relata é realmente observável por ele, mas se ele teve, em algum dado momento, razão para observá-lo. (Skinner, 1953, pp. 288-289)
    Só pra tentar concluir a definição de consciência na Análise do Comportamento e no Behaviorismo Radical, a consciência é essencialmente produto de uma determinada configuração social à que a espécie humana foi submetida ao longo da evolução – com o agravante de que esse ambiente social foi produzido pela própria espécie, ou seja um troço *meta*-complexo. Ao fim, “ser consciente, como uma forma de reagir a seu próprio
    comportamento, é um produto social” (Skinner, 1999, p.425).
    Se tiver interesse, naquela apostila que eu linkei ali em cima, o último texto traz alguns tratamentos experimentais do tema.

  9. Hmmm, tá. Mas a consciência se *identifica* com a autodescrição? Por exemplo, imagino que bebês não sejam capazes de uma autodescrição – não podem relatá-lo – o behaviorismo considera:
    a) agnosticismo em relação à consciência do bebê;
    b) bebês não têm consciência (meio que por definição);
    c) bebês têm consciência, mas não poderá ser manifesta com os instrumentos usados no behaviorismo?
    []s,
    Roberto Takata

  10. Ana Arantes disse:

    São deliciosas perguntas de pesquisa, essas…
    Desde muito cedo, bebês são capazes de “comunicar” à mãe seus estados privados, que nós adultos descreveríamos como dor, sono, desconforte, fome, satisfação… Essa relação estabelecida entre “mãe-bebê” já é uma pequena comunidade verbal, e o bebê está, operacionalmente, RELATANDO seus estados privados para a mãe. Isso já é comportamento verbal, de alguma forma bem maluca, mas cabe na definição. Então, seguindo o raciocínio, bebês têm sim consciência, ela é de natureza social e continua sendo o mesmo que auto-relato.
    Tenho certeza de que alguém já deve ter feito isso experimentalmente, é questão de procurar. E se não fez, dá um puta experimento!!!
    Voltando à primeira questão, operacionalmente auto relato/autodescrição é o mesmo que consciência.

  11. A forma de aceitação pessoal dos bebes é o que me impressiona…
    Que explicação se dá ao fato de um bebe “estranhar” pessoas até pelo olhar?
    Visão aguçada,audição sensível… não sei, sinceramente.

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