{"id":224,"date":"2015-06-19T09:31:48","date_gmt":"2015-06-19T12:31:48","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/ensaios\/?p=224"},"modified":"2015-06-19T09:31:48","modified_gmt":"2015-06-19T12:31:48","slug":"a-morada-inquieta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ensaios\/2015\/06\/19\/a-morada-inquieta\/","title":{"rendered":"A morada inquieta"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_188\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-188\" class=\"size-full wp-image-188\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ensaios\/wp-content\/uploads\/sites\/245\/2015\/06\/virus_vivo.png\" alt=\"\u00a9Rodrigo Barreiro\" width=\"650\" height=\"474\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ensaios\/wp-content\/uploads\/sites\/245\/2015\/06\/virus_vivo.png 650w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ensaios\/wp-content\/uploads\/sites\/245\/2015\/06\/virus_vivo-300x219.png 300w\" sizes=\"(max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><p id=\"caption-attachment-188\" class=\"wp-caption-text\">\u00a9Rodrigo Barreiro<\/p><\/div>\n<p><em>Este post \u00e9 o resultado de uma prova aplicada \u00e0 turma da disciplina de Virologia, da gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas do <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/icb.usp\">ICB\/USP<\/a>. A prova foi uma reda\u00e7\u00e3o sobre o tema &#8220;V\u00edrus \u00e9 vivo?&#8221; e as respostas seguem abaixo:<\/em><\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o do que realmente \u00e9 um v\u00edrus al\u00e9m de seus aspectos estruturais ou bioqu\u00edmicos foi e ainda \u00e9 uma quest\u00e3o nebulosa nos estudos biol\u00f3gicos, est\u00e3o eles vivos ou s\u00e3o apenas objetos inanimados capazes de interagir intimamente com os seus hospedeiros? Boa parte da dificuldade em descobrir a resposta a essa pergunta est\u00e1 na discrep\u00e2ncia dos v\u00edrus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas dos seres que comumente consideramos como vivos: v\u00edrus n\u00e3o tem c\u00e9lulas, metabolismo e dependem totalmente do seu hospedeiro para as suas atividades. Mas, em contrapartida, eles t\u00eam o seu pr\u00f3prio material gen\u00e9tico, que \u00e9 a mol\u00e9cula mais elementar que caracteriza a vida, al\u00e9m disso, est\u00e3o sujeitos \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o e se reproduzem. \u00c9 devido a esse contraste entre esses conjuntos de propriedades que v\u00edrus s\u00e3o considerados por estarem na fronteira do que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 vida.<\/p>\n<p>Estruturalmente, a part\u00edcula viral (tamb\u00e9m chamada de v\u00edrion) \u00e9 composta por uma fita de \u00e1cido nucleico (DNA ou RNA \u2014 com o RNA podendo ser negativo ou positivo, fita simples ou dupla, linear ou circular) envolta por uma c\u00e1psula proteica (caps\u00eddeo) codificada pelo seu genoma, algumas part\u00edculas virais tamb\u00e9m disp\u00f5em de um envelope lipoproteico obtido do hospedeiro que infectaram. Sendo que considerarei essa part\u00edcula viral distinta da sua forma ativa (o v\u00edrus), essa \u00faltima sendo a fase somente na qual a c\u00e9lula \u00e9 \u201csequestrada\u201d, seja no ciclo lisog\u00eanico ou l\u00edtico; portanto, a fase de v\u00edrion seria ent\u00e3o o per\u00edodo inativo, no qual n\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de metabolismo.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da infec\u00e7\u00e3o, e com isso o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o do v\u00edrus propriamente dito, come\u00e7a a partir do momento no qual o v\u00edrion reconhece por meio de receptores em sua superf\u00edcie a c\u00e9lula alvo a qual deve infectar, ocorrendo a internaliza\u00e7\u00e3o da part\u00edcula viral pela c\u00e9lula ou ent\u00e3o somente do material gen\u00e9tico presente em seu interior, nesse est\u00e1gio o v\u00edrus direciona os processos celulares para a produ\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios novos v\u00edrions, lisando a c\u00e9lula no final do ciclo. Esse seria o ciclo l\u00edtico, sendo que o ciclo lisog\u00eanico necessariamente resultar\u00e1 nele em algum per\u00edodo, caso contr\u00e1rio o material gen\u00e9tico viral ficar\u00e1 para sempre incorporado ao DNA do hospedeiro, mas n\u00e3o que isso n\u00e3o seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Os primeiros problemas em considerar os v\u00edrus como seres vivos est\u00e3o demonstrados nos par\u00e1grafos acima, primeiramente, ao contr\u00e1rio de todos os seres celulares, os v\u00edrus podem ter RNA como material gen\u00e9tico, dependem totalmente do aparato celular do hospedeiro para se multiplicarem, al\u00e9m de que, as part\u00edculas virais s\u00e3o inertes fora de seus hospedeiros.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas questionaria: \u201cora, ent\u00e3o por que considerar que v\u00edrus est\u00e3o vivos se eles n\u00e3o se reproduzem por si s\u00f3s e geram part\u00edculas inertes que carregam o seu material gen\u00e9tico por a\u00ed?\u201d. O fato \u00e9 que a resposta \u00e9 mais complexa do que aparentar ser, dependendo essencialmente da defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 vida e estar vivo. Se essa defini\u00e7\u00e3o se basear em uma c\u00e9lula com material gen\u00e9tico em seu interior que vai controlar as suas fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas (o \u201csequestro\u201d da maquinaria celular) e ser passado de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o (mediado pelo v\u00edrion), ent\u00e3o sim, v\u00edrus estariam vivos, posto que, pelo diagrama de Baltimore, independentemente de qual tipo de material gen\u00e9tico for composto o v\u00edrus, ir\u00e1 ter o RNAm como ponto de converg\u00eancia durante o processamento desse material at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da prote\u00edna (explicitado no dogma central da biologia molecular), assim como no material gen\u00e9tico de todos os outros organismos da Terra. N\u00e3o importaria se o RNAm veio de uma bact\u00e9ria, de uma ameba, do neur\u00f4nio de um peixe ou de um v\u00edrus, para a c\u00e9lula n\u00e3o importaria a origem, todas elas iriam causar um efeito na c\u00e9lula, mesmo que esse efeito seja m\u00ednimo, mesmo que seja a cataboliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria fita ela causaria um efeito. Com isso, percebe-se que para a vida ser poss\u00edvel seria necess\u00e1ria uma estrutura celular, no caso do v\u00edrus essa estrutura seria \u201cemprestada\u201d, mas n\u00e3o deixaria de ser um tipo de vida sob certas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, essa vis\u00e3o, apesar de l\u00f3gica, acaba confluindo para a hip\u00f3tese de que, por exemplo, mitoc\u00f4ndrias e plasm\u00eddeos tamb\u00e9m t\u00eam vida pr\u00f3pria, uma vez que s\u00e3o ou possuem material gen\u00e9tico, causam efeitos de n\u00edvel celular, se replicam independentemente (pelo menos as mitoc\u00f4ndrias e alguns tipos de plasm\u00eddeos) e em at\u00e9 certo n\u00edvel evoluem (por exemplo, um plasm\u00eddeo que tenha uma origem de replica\u00e7\u00e3o ou transfer\u00eancia n\u00e3o efetiva pode n\u00e3o se manter em uma popula\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias). E a menos que se considerem mitoc\u00f4ndrias e plasm\u00eddeos como seres vivos, a ideia de que v\u00edrus s\u00e3o vivos por terem um material gen\u00e9tico que comanda processos celulares acaba n\u00e3o fazendo muito sentido. Apesar disso, v\u00edrus continuariam a ser algo a mais do que mitoc\u00f4ndrias ou plasm\u00eddeos. Se v\u00edrus est\u00e3o entre o que \u00e9 a vida e o que n\u00e3o \u00e9, seria presum\u00edvel dizer que eles t\u00eam a potencialidade da vida (por serem mais do que um conjunto de mol\u00e9culas biol\u00f3gicas), mas, que por diversos fatores, n\u00e3o a desenvolvem em sua completude. Assim como a intera\u00e7\u00e3o complexa e interdependente de uma cole\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas, lip\u00eddeos, rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, carboidratos, material gen\u00e9tico e outros tijolos biol\u00f3gicos n\u00e3o vivos comp\u00f5em a vida, mas n\u00e3o as partes separadas ou conjuntos dessas partes (uma prote\u00edna n\u00e3o tem vida, por exemplo). Com isso a vida seria mais do que um estado, e sim um processo cont\u00ednuo dessas intera\u00e7\u00f5es entre mol\u00e9culas n\u00e3o vivas. Da mesma maneira que a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 formada por um neur\u00f4nio e sim por um n\u00edvel cr\u00edtico de complexidade entre diversos deles, os v\u00edrus n\u00e3o conseguiriam atingir essa complexidade cr\u00edtica para a vida, apesar de serem feito dos mesmos tijolos que a constr\u00f3i. Parafraseando um artigo de opini\u00e3o: os v\u00edrus, apesar de n\u00e3o totalmente vivos, seriam mais do que mat\u00e9ria inerte, eles tenderiam \u00e0 vida.<\/p>\n<p>As duas vis\u00f5es relativamente opostas apresentadas ao logo do texto \u2014 a primeira de que v\u00edrus s\u00e3o vivos por apresentarem material gen\u00e9tico que causa efeitos de n\u00edvel celular e a segunda de que v\u00edrus tenderiam \u00e0 vida por n\u00e3o atingirem a complexidade cr\u00edtica necess\u00e1ria para estarem vivos \u2014 s\u00e3o na sua maior parte derivadas de um processo do pensamento humano: a tend\u00eancia de enxergamos o mundo de uma forma polarizada. Ao longo da evolu\u00e7\u00e3o organizar o mundo entre pares de opostos nos foi muito \u00fatil para criarmos uma vis\u00e3o do ambiente a nossa volta, distinguindo-se entre o que \u00e9 quente ou frio, r\u00e1pido ou lento, noite ou dia, comida ou n\u00e3o comida a esp\u00e9cie humana conseguiu sobreviver \u00e0s intemp\u00e9ries, de forma que esse modo de pensamento se expandiu muito al\u00e9m dos quesitos da sobreviv\u00eancia; de fato, se a nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade n\u00e3o fosse vista como pares de opostos o mundo n\u00e3o funcionaria do mesmo modo como conhecemos hoje, isso se funcionasse.<\/p>\n<p>Entretanto, questionados sobre se um p\u00e1ssaro est\u00e1 vivo ou n\u00e3o n\u00f3s conseguimos responder com consenso que sim, mas com os v\u00edrus isso \u00e9 diferente, posto que se situam na fronteira do que se define como vida, sendo que a defini\u00e7\u00e3o de vida em si n\u00e3o obedece a pares de opostos, e \u00e9 por isso que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de defini-la, e talvez essa tarefa seja semelhante a se perguntar o porqu\u00ea de o universo existir, a ci\u00eancia n\u00e3o tem a resposta para a exist\u00eancia do universo e nem para a defini\u00e7\u00e3o da vida, e talvez nunca tenha (e objetivo da ci\u00eancia nem \u00e9 encontrar respostas para tudo). A defini\u00e7\u00e3o de vida ideal seria aquela n\u00e3o somente v\u00e1lida para a vida terrestre, mas tamb\u00e9m para qualquer outra forma de vida que possa existir no universo, seria uma defini\u00e7\u00e3o muito semelhante ao mundo das ideias de Plat\u00e3o. O que acontece ent\u00e3o \u00e9 a tentativa de descrever as caracter\u00edsticas comuns de todos os seres vivos ao inv\u00e9s de definir a vida propriamente dita: presen\u00e7a de c\u00e9lula, capacidade de se reproduzir, estar sujeito \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o, ter metabolismo, entre outras caracter\u00edsticas. Mas essa caracteriza\u00e7\u00e3o volta ao problema da polariza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sendo aplic\u00e1vel na determina\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reduzi-los a pares de opostos (por estarem na fronteira da vida). Em suma, a pergunta inicial se v\u00edrus est\u00e3o vivos se enquadra em duas diferentes situa\u00e7\u00f5es, na primeira delas n\u00f3s encontrar\u00edamos uma defini\u00e7\u00e3o universal de vida (o que o autor desse texto acha muito pouco prov\u00e1vel), e com isso saber\u00edamos se os v\u00edrus se encaixam ou n\u00e3o a ela; ou ent\u00e3o, na segunda situa\u00e7\u00e3o, a partir de estudos cient\u00edficos descobrir\u00edamos caracter\u00edsticas dos v\u00edrus que os aproximem ou os afastem dos seres que hoje consideramos vivos, ou seja, distanciar os v\u00edrus da fronteira da vida, j\u00e1 que n\u00e3o conseguimos defini-la, sendo que isso \u00e9 o que vem acontecendo gradualmente a partir dos \u00faltimos anos com o desenvolvimento e aprimoramento de diversas t\u00e9cnicas e m\u00e9todos de pesquisa, que est\u00e3o direcionando os v\u00edrus no sentido de aproxim\u00e1-los cada vez mais \u00e0 \u00e1rea das coisas vivas do que o sentido contr\u00e1rio, mas que ainda n\u00e3o conseguiu atingir um est\u00e1gio de singularidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quem sou<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-225\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ensaios\/wp-content\/uploads\/sites\/245\/2015\/06\/Matheus.jpg\" alt=\"Matheus Conforte\" width=\"100\" height=\"133\" \/>Matheus Conforte \u00e9 estudante universit\u00e1rio, entusiasta da ci\u00eancia desde a inf\u00e2ncia e aficionado por m\u00fasica, filmes e games (e pelo meu cachorro e gato). Pretende um dia seguir carreira cient\u00edfica na \u00e1rea biom\u00e9dica em fisiologia, biologia celular ou microbiologia. N\u00e3o gosta de ervilhas e tem avers\u00e3o a calor ou frio extremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este post \u00e9 o resultado de uma prova aplicada \u00e0 turma da disciplina de Virologia, da gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas do ICB\/USP. 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