Você está em um blog sobre Farmacologia, mas, afinal de contas, o que é Farmacologia? E o que faz um farmacologista?

Para começo de conversa, vamos derrubar uma falsa impressão. É muito comum as pessoas pensarem que Farmacologia e Farmácia são a mesma coisa, já que os nomes são tão parecidos. Eu mesma, esta jornalista que escreve, já ouvi muitas vezes dizerem que eu “tenho doutorado em Farmácia”. E esse erro veio de todos os lados: desde familiares leigos no assunto até pesquisadores de outras áreas biomédicas.

Farmácia é uma graduação, ou seja, uma formação profissional ligada ao medicamento e a outros campos relacionados. O farmacêutico pode atuar em diversas áreas: desde o famoso profissional que você encontra atrás do balcão da drogaria até aqueles responsáveis pelo controle de qualidade de produtos em indústrias de alimentos e cosméticos.

Mas o nosso foco aqui é entender o que faz um farmacologista. A Farmacologia é uma ciência estudada por profissionais de diferentes áreas. Farmacêuticos, médicos, biólogos, biomédicos, enfermeiros, dentistas, entre muitos outros, podem se tornar farmacologistas.

A Farmacologia está mais ligada à pesquisa científica e ao desenvolvimento de novos medicamentos. Ela estuda como substâncias interagem quimicamente com organismos vivos. Isso inclui desde compreender como um analgésico reduz a dor nas costas até entender como um inseticida mata o pernilongo que tira o seu sono. Independentemente de a substância estudada ter efeito terapêutico ou tóxico, ela pode ser objeto de pesquisa dos farmacologistas. Quando o estudo envolve terapia, prevenção ou diagnóstico, a área é chamada de Farmacologia Médica. Já quando o foco são os efeitos tóxicos, chamamos de Toxicologia. Ambas são áreas da Farmacologia!

A curiosidade que mudou tudo

Gorila (Gorilla beringei beringei) comendo uma raíz (fonte: Wikipedia Commons).

Hoje, os farmacologistas utilizam tecnologia de ponta em suas pesquisas, mas o caminho até aqui foi longo. Ainda na Pré-História, os efeitos farmacológicos de compostos naturais já eram reconhecidos. Por exemplo, neandertais da caverna de El Sidrón, na Astúria, automedicavam seus abscessos dentários com uma planta chamada choupo e com os fungos que nela se desenvolviam. Essa combinação é uma fonte natural de ácido salicílico (um analgésico natural, princípio ativo da aspirina) e de penicilina (um antibiótico natural).

Comportamentos semelhantes já foram observados em outras espécies animais, como grandes primatas: chimpanzés, orangotangos e gorilas. Eles mastigam plantas com propriedades antibacterianas e depois aplicam o material sobre suas próprias feridas abertas ou em outros membros do grupo.

A espécie humana começou a se questionar por que aqueles efeitos terapêuticos ou tóxicos ocorriam. Assim nasceu a curiosidade farmacológica. Diversos eventos históricos e lendas revelam o surgimento desse tipo de pensamento, como a Lenda de Kaldi. Manuscritos do Iêmen, datados do ano de 575 d.C., contam que um pastor chamado Kaldi observava, curioso, o comportamento de suas cabras. Durante a noite, elas desapareciam e depois retornavam elétricas e saltitantes. Ao segui-las, Kaldi descobriu que as cabras fugiam para ingerir grãos de café diretamente dos arbustos da região. Após consumir os grãos, Kaldi também se sentiu eufórico. A lenda conta que assim começou o consumo de café pela humanidade e, consequentemente, a descoberta dos efeitos da cafeína.

Quando a ciência começou a testar e não só acreditar

Materia Medica (tradução para o árabe) (fonte: Wikipedia Commons).

Apesar de muitas observações sobre os efeitos das substâncias, ainda demorou muitos anos para que a Farmacologia evoluísse de forma científica. Por muito tempo, a ciência foi dominada por um pensamento que buscava explicar o universo sem a realização de experimentos. Dessa forma, doenças e tratamentos eram aceitos mesmo sem qualquer comprovação científica. Esse tipo de pensamento levava a crenças que hoje parecem absurdas para a Medicina, como a ideia de que certos ferimentos poderiam ser curados aplicando um bálsamo na arma que causou a lesão, sem tratar a pessoa ferida.

Somente no fim do século XVII a experimentação e a observação passaram a ser práticas importantes. Na Europa, médicos começaram a comprovar cientificamente a eficácia terapêutica de plantas e outros compostos e, assim, a utilizá-los na prática clínica. Dessa forma surgiu a Materia Medica, precursora da Farmacologia. Ela consistia em registros de informações sobre substâncias usadas no tratamento de doenças e suas propriedades terapêuticas.

No entanto, esse conhecimento ainda era muito superficial. Sabia-se que determinada substância produzia um efeito, mas não como esse efeito acontecia. Somente no fim do século XVIII e início do século XIX, François Magendie e seu aluno Claude Bernard (ambos médicos franceses) começaram a desenvolver a Farmacologia experimental. Avanços na Química, nos séculos seguintes, permitiram o isolamento de substâncias. Assim, tornou-se possível identificar exatamente qual componente de uma planta, por exemplo, era responsável por determinado efeito terapêutico. Esse componente é chamado de fármaco, como é o caso da cafeína, um fármaco presente no café.

Grandes revoluções farmacológicas

Ao fundo: esquema de receptores na membrana celular. A direita: Paul Ehrlich (fonte: Wikipedia Commons).

Nos últimos aproximadamente 150 anos, a Farmacologia passou por uma verdadeira revolução: a descoberta dos receptores. Receptores são locais específicos do organismo com os quais os fármacos interagem para produzir seus efeitos. Essa ideia começou com as observações de Paul Ehrlich nas indústrias de tinta. Ele levantou a possibilidade de existirem receptores químicos nos tecidos, onde os corantes “grudariam”. Ehrlich então sugeriu que também existiriam receptores nos organismos vivos, onde os fármacos poderiam agir.

Segundo essa lógica, parasitas que infectam uma pessoa teriam receptores diferentes dos receptores humanos. Esses receptores dos parasitas poderiam ser alvos de substâncias tóxicas que não afetariam os receptores humanos. Assim, seria possível matar os parasitas sem causar danos ao hospedeiro. Ehrlich chamou esse tipo de medicamento de “bala mágica”. Seus estudos levaram à criação da quimioterapia antimicrobiana, como antibióticos, antifúngicos, antivirais e antiparasitários. Esses medicamentos são hoje o principal tratamento para infecções.

 O que os farmacologistas pesquisam hoje?

Jady Silva Cardoso, aluna de iniciação científica da Profa. Dra. Fabiola Mónica, realizando experimento.

Com a descoberta dos receptores, tornou-se possível desvendar o mecanismo de ação dos fármacos. O mecanismo de ação explica como os fármacos atuam em nível molecular para produzir seus efeitos. Descobrir esses mecanismos é um dos pilares centrais da Farmacologia e é nisso que muitos farmacologistas dedicam anos de trabalho em laboratório.

Além disso, os farmacologistas estudam diversas outras interações entre fármacos, toxinas e organismos. Por exemplo: se um fármaco é eliminado pela urina após exercer seu efeito; se uma toxina pode se acumular no cérebro e causar danos irreversíveis; se um medicamento pode ser usado com segurança durante a gravidez sem afetar o feto; ou o que acontece quando uma serpente morde uma pessoa e injeta seu veneno.

As possibilidades de pesquisa dentro da Farmacologia são praticamente infinitas. É um campo amplo, dinâmico e em constante evolução. E quanto mais descobrimos, mais percebemos que ainda há muito a aprender e compartilhar com o mundo.

Agora que você já sabe um pouco mais sobre Farmacologia e o que faz um farmacologista, deixe nos comentários sugestões de temas farmacológicos sobre os quais gostaria que falássemos por aqui.

Para saber mais:

Automedicação da Pré-História

Neandertais e automedicação

Animais que se automedicam

Primatas e automedicação

Origem do café e a lenda de Kaldi

Paul Ehrlich

LOUIS SANDFORD GOODMAN et al. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. Porto Alegre, Brazil: Mcgraw-Hill Education, 2012.

KATZUNG, B. G. Basic & clinical pharmacology. 14. ed. New York: Mcgraw-Hill Education, 2018.

Autoria:

Mia Schezaro Ramos

Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar.