Pesquisa oferece evidências de eficácia e segurança de tratamento para psoríase ungueal (quando as unhas são afetadas pela doença). Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e da área de Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Unicamp investigaram o uso de metotrexato em baixa dose por meio de uma única injeção ao redor das unhas. Os resultados apontam melhora da doença por meses, com possível redução da toxicidade associada ao medicamento.
Psoríase: muito além da estética

Estima-se que a psoríase afete de 2% a 5% da população mundial. Ela pode causar diferentes sintomas, como: lesões em forma de placas na pele; dores e rigidez nas articulações; ou até crescimento e descoloração anormais das unhas. Apesar de não ser uma doença contagiosa, a desinformação ainda causa muito estigma social, levando ao isolamento das pessoas com psoríase. Isso afeta profundamente a autoestima e a qualidade de vida dos pacientes, podendo levar a quadros de depressão e ansiedade.
A psoríase é uma doença autoimune, isto é, o corpo aprende a atacar a si mesmo. Células saudáveis são reconhecidas como agressoras e passam a ser atacadas pelo sistema imunológico. É como um exército que, ao invés de atacar o inimigo, fica confuso e se volta contra a própria população que deveria defender. As células atacadas são as da pele, das articulações e das unhas. O ataque ocorre por meio da produção de inflamação para destruir o falso inimigo, causando dor, inchaço, vermelhidão, queimação, coceira e lesões.
A inflamação causada na psoríase não se limita às células atacadas, ela afeta o corpo todo. Como é crônica (dura muito tempo), acaba evoluindo para um quadro sistêmico (que atinge todo o organismo). Consequentemente, os pacientes podem apresentar complicações, como: doenças cardiovasculares; doenças metabólicas (diabetes, obesidade, colesterol alto etc.); e até mesmo aumento no risco de desenvolver alguns tipos de câncer.
A doença é multifatorial, ou seja, vários fatores contribuem para seu desenvolvimento. Entre eles estão: predisposição genética; estresse; álcool; fumo; e alguns medicamentos, como cloroquina e lítio. Geralmente, manifesta-se em pessoas entre 18 e 39 anos, afetando igualmente homens e mulheres. A psoríase não tem cura, mas pode ser controlada com medicamentos. Além disso, a terapia cognitivo-comportamental é recomendada para melhorar a forma como o paciente lida com os impactos psicológicos da doença.
Psoríase ungueal: quando a doença afeta as unhas

A psoríase ungueal é a forma da doença que atinge as unhas. Ela ocorre associada a outros tipos de psoríase, afetando mais de 50% dos pacientes com psoríase em placa (a forma mais comum) e mais de 80% daqueles com artrite psoriásica (quando as articulações são atingidas).
A psoríase ungueal pode se manifestar de diversas formas. As unhas podem apresentar pequenos buracos afundados, pontos brancos, manchas vermelhas, depressões horizontais (linhas de Beau), esfarelamento, descoloração e descolamento. Também podem ocorrer hemorragias abaixo das unhas e inflamações na pele ao redor (paroníquia psoriásica). Os pacientes costumam se queixar de dor, diminuição do tato e dificuldade em atividades cotidianas, como segurar objetos e amarrar os cadarços.
Por que tratar a psoríase ungueal é tão desafiador?

Atualmente, o tratamento da psoríase ungueal enfrenta diversas barreiras. Muitos tratamentos só apresentam resultados evidentes após um ano. Um medicamento muito utilizado é o metotrexato, empregado no tratamento de diversas outras doenças autoimunes. Ele é um imunossupressor, ou seja, reduz a atividade do sistema imunológico que, no caso das doenças autoimunes, está desregulado e atacando o próprio corpo. Retomando a metáfora do exército: o metotrexato funciona como um calmante para esse exército que, mais tranquilo, deixa de ser tão agressivo contra a própria população.
O problema é que o tratamento com metotrexato pode causar diversos efeitos colaterais. Entre eles estão: alta toxicidade para o fígado (hepatotoxicidade), úlceras na boca (estomatite ulcerativa), náuseas e diminuição da imunidade.
Em casos graves de psoríase ungueal, normalmente associados à artrite psoriásica, recomenda-se o tratamento por via oral com metotrexato. Nesses casos, os efeitos tóxicos citados são mais frequentes, já que o medicamento consumido por via oral é absorvido e distribuído por todo o corpo. No entanto, como o metotrexato também é muito eficiente no tratamento da artrite psoriásica. Vale lembrar que a artrite psoriásica afeta as articulações, podendo levar a complicações debilitantes, como deformidades físicas e perda de mobilidade. Assim, no tratamento com metotrexato, os benefícios podem superar os efeitos colaterais.
Já nos casos mais leves de psoríase ungueal, quando não há artrite psoriásica, recomenda-se tratamento local ou injeções intralesionais (abaixo ou ao redor das unhas). As injeções não costumam causar dor, pois são feitas sob anestesia. Esse tipo de tratamento tende a ser menos efetivo, mas também apresenta menor toxicidade. Ainda existem poucas pesquisas sobre essas abordagens para definir melhor sua eficácia e segurança.
A pesquisa

Por isso, o Prof. Dr. Gilberto De Nucci, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, e a Profa. Dra. Renata Ferreira Magalhães, da Dermatologia do Departamento de Clínica Médica, decidiram investigar o tratamento com injeções periungueais (ao redor da unha) de metotrexato em baixa dose. O estudo foi publicado na revista Journal of the American Academy of Dermatology e está disponível na versão online. O projeto contou com a participação de outros pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Unicamp: além do Prof. Gilberto, o Dr. Luiz Fernando Ribeiro e a egressa M.Sc. Tainah Babadopulos Magalhães. A pesquisa foi financiada pela FAPESP (Processos nº 23/15165-7 e 23/01267-2).
O objetivo do trabalho foi traçar a farmacocinética do tratamento, isto é, a rota que o metotrexato percorre no corpo, desde a injeção e chegada na corrente sanguínea, até sua excreção (principalmente pela urina). Para isso, cinco pacientes receberam injeções periungueais de 20 mg de metotrexato (divididos entre as dez unhas das mãos). Em diferentes momentos, foi dosada a concentração do medicamento no plasma (parte líquida do sangue, excluindo células como glóbulos vermelhos e brancos).
Resultados promissores
Os achados reforçam a eficácia do tratamento. Houve redução de aproximadamente 60% da psoríase ungueal após um a quatro meses. Acredita-se que o sucesso dessa abordagem se deva ao fato de a injeção periungueal possibilitar que o metotrexato permaneça no leito ungueal (parte mole abaixo da unha) por muito mais tempo do que em outras vias de administração, como a oral e a intravenosa. Assim, a unha cresce sob contato permanente com o medicamento.
A segurança também parece ser maior na injeção periungueal do que nas vias oral e intravenosa. Após 24 horas da aplicação, a concentração de metotrexato no plasma era tão baixa que foi impossível detectá-la. A concentração plasmática considerada crítica para toxicidade é de 10 µg/mL após 24 horas. Os resultados mostraram valores bem abaixo disso, mesmo no pico de concentração: cerca de 4,33 µg/mL aproximadamente uma hora após a injeção.
Acredita-se que o leito ungueal atue como um reservatório de liberação lenta do medicamento. Assim, grande parte do fármaco permanece em contato com as unhas por muito tempo, enquanto apenas pequenas quantidades alcançam lentamente a corrente sanguínea. É como um balde cheio de água com um pequeno furo no fundo: vai vazar, mas lentamente; e o balde permanecerá cheio por bastante tempo.
Um avanço rumo a tratamentos mais personalizados
A relevância do estudo foi destacada pelo editor da Journal of the American Academy of Dermatology, Prof. Dr. Dirk Michael Elston. Em editorial, ele ressaltou que, como dermatologista, já utiliza esse tratamento em pacientes sem artrite psoriásica. Comentou que costuma associar as injeções periungueais de metotrexato à triancinolona acetonida (um anti-inflamatório corticosteroide), além de tratamento tópico. Destacou ainda que se trata de uma abordagem custo-efetiva, isto é, econômica e com bons resultados.
Porém, o Prof. Dirk ressalta que ainda são necessários mais estudos para confirmar a segurança do tratamento. Na publicação, os próprios autores afirmam que o estudo possui limitações, como o número reduzido de pacientes e a comparação com relatos de caso anteriores, e não com um grupo controle. Apesar disso, é inegável a importância da publicação para avançar na consolidação da segurança desse tipo de abordagem, como comenta o Prof. Dirk.
A psoríase ungueal ainda impõe limitações físicas e emocionais a muitos pacientes. Os resultados obtidos trazem uma perspectiva animadora. O estudo abre caminho para uma abordagem mais direcionada, eficaz e potencialmente mais segura. Embora estudos maiores ainda sejam necessários, a pesquisa representa um passo importante rumo a tratamentos mais personalizados, capazes de aliviar tanto os sintomas visíveis da doença quanto o peso invisível que ela carrega na qualidade de vida.
A presente matéria foi realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo nº 25/17158-3. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Para saber mais:
Sociedade Brasileira de Dermatologia – Psoríase
Psoríase: aspectos epidemiológicos e fisiopatológicos uma revisão de literatura (DOI: 10.51891/rease.v8i9.7055)
Associação Brasileira de Psoríase, Artrite Psoriásica e de outras Doenças Crônicas de Pele
Psoríase ungueal: uma revisão das opções de tratamento (DOI: 10.1007/s40265-016-0564-5)
Brief report: A pharmacokinetic study of single-dose periungual methotrexate injections that induced multimonth remission of nail psoriasis in 5 patients (DOI: 10.1016/j.jaad.2026.01.067)
Letter from the editor: Topical and intralesional therapy for nail psoriasis (DOI: 10.1016/j.jaad.2026.02.004)
Autoria:

Mia Schezaro Ramos
Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar.