Profa. Dra. Mariana Gonçalves de Oliveira Taranto é a mais nova docente do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UNICAMP. Em seu projeto inovador, com financiamento já aprovado pela FAPESP (processo nº 2024/20136-9), investigará a bexiga hipoativa no diabetes. Trata-se de uma complicação ainda pouco compreendida do diabetes, mas com grandes impactos na vida do paciente.

A proposta da pesquisadora é investigar os processos celulares e moleculares que levam à disfunção da musculatura da bexiga ao longo da progressão da doença. Ao compreender melhor esses mecanismos, o trabalho poderá abrir caminho para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas no futuro.

Profa. Mariana busca novos alunos para trabalhar no projeto. O auxílio de pesquisa aprovado pela FAPESP conta com bolsas de iniciação científica e mestrado. Além disso, Profa. Mariana também está aceitando candidatos ao doutorado, para os quais poderá solicitar bolsa para as agências de fomento. Interessadosdevem entrar em contato pelo e-mail marigo@unicamp.br.

Construindo uma carreira voltada às disfunções urinárias

Profa. Mariana é farmacêutica pela Faculdade de Americana, mestra em Biologia Molecular e Funcional com ênfase em Fisiologia Humana pelo Instituto de Biologia da UNICAMP e doutora em Farmacologia pela Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da UNICAMP. Já realizou pós-doutorado no Departamento de Farmacologia da FCM/UNICAMP, com período de estágio no exterior no Departamento de Medicina do Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard Medical School) e no Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Dra. Mariana também já foi professora assistente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Saúde na Universidade São Francisco (USF). Atualmente é professora do Departamento de Farmacologia desde o início de 2026.

A Profa. Mariana já estuda a bexiga urinária desde 2013, quando iniciou seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Farmacologia. Mas, na época, seu projeto investigava um tratamento experimental de cistite intersticial, outra condição que afeta a bexiga. Apesar de esse ter sido seu projeto principal, ela já desenvolvia pesquisas paralelas com modelos de disfunção de bexiga no diabetes.

Profa. Mariana comenta a importância de desenvolver pesquisas na área de urologia benigna: “A pesquisa na área tem bem menos destaque que outras áreas da medicina. Embora tratemos de disfunções benignas que afetam milhões de pessoas e têm grande impacto na qualidade de vida, elas não são vistas como doenças graves ou fatais. Como resultado, acabam recebendo menos investimento e sendo menos exploradas cientificamente.”

O foco do trabalho da Profa. Mariana é a musculatura da bexiga. Ela explica a importância dessa abordagem: “No fundo, grande parte dos sintomas urinários se resume a um problema de contração de músculo liso. No geral, quando temos sintomas do trato urinário, há alguns cenários mais prováveis. A bexiga pode contrair demais, caracterizando a bexiga hiperativa; pode contrair de menos, no caso da bexiga hipoativa; ou pode haver uma restrição ao fluxo urinário, como quando a uretra ou a próstata se contraem excessivamente e dificultam a passagem da urina.

“Em todos esses cenários estamos lidando com o músculo liso, seja o músculo liso da bexiga, da uretra ou da próstata. Isso coloca o músculo liso no centro da regulação da função urinária. Por isso, eu decidi direcionar minha pesquisa para entender melhor esse tecido.”, Profa. Mariana complementa.

Disfunção da bexiga no diabetes: uma complicação comum, mas pouco discutida

mecanismo diabetes
Mecanismo de absorção normal do açúcar no sangue (cristais brancos) (esquerda) e da resistência à insulina no diabetes tipo 2 (direita) (Fonte: Wikipedia Commons).

Entre as condições que despertaram o interesse da pesquisadora está a disfunção da bexiga associada ao diabetes mellitus. Embora seja considerada uma complicação relativamente comum da doença, ela ainda recebe pouca atenção quando comparada a outras consequências do diabetes, como problemas cardiovasculares, renais ou oculares. Estima-se que uma parcela significativa dos pacientes diabéticos desenvolva algum grau de alteração urinária ao longo da evolução da doença, incluindo aumento da frequência urinária, urgência miccional ou dificuldade para esvaziar completamente a bexiga. Estudos indicam que mais de 50% dos pacientes com diabetes mellitus podem apresentar algum tipo de sintoma urinário.

Esses sintomas podem surgir lentamente e muitas vezes passam despercebidos. Em diversos casos, o paciente acredita que as mudanças fazem parte do envelhecimento ou de hábitos de vida, e não de uma complicação metabólica. No geral, os sintomas urinários e a incontinência urinária são frequentemente considerados um tabu, o que dificulta o diagnóstico, o tratamento e impacta significativamente a qualidade de vida das pessoas. Por exemplo, muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, evitam falar sobre o escape de urina por vergonha ou constrangimento.

Há também uma falsa ideia de que a incontinência é uma consequência inevitável do envelhecimento, o que leva ao conformismo e à falta de tratamento. O estigma pode levar à depressão, isolamento social e prejuízos à vida sexual.  O próprio gerenciamento do diabetes já é um processo contínuo e exaustivo que frequentemente gera estresse emocional e físico, o que gera complicações adicionais aos pacientes. Embora os estudos indiquem que o controle intensivo do diabetes reduz significativamente o risco de complicações, muitas vezes é insuficiente para prevenir ou reverter certos danos. Uma vez que a doença atinge uma fase descompensada (hipoativa), tipicamente é irreversível.

Do ponto de vista científico, compreender essa condição não é simples. O controle da micção depende de um sistema altamente integrado que envolve o cérebro, os nervos periféricos, a musculatura da bexiga e outras estruturas do trato urinário inferior. O diabetes pode afetar vários desses componentes ao mesmo tempo. Alterações metabólicas crônicas, processos inflamatórios e danos aos nervos periféricos podem modificar tanto a sensibilidade quanto a capacidade de contração da bexiga, alterando profundamente a estrutura da bexiga e a dinâmica da micção.

Embora a patogênese da disfunção na bexiga seja provavelmente multifatorial, é crucial compreender os principais fatores determinantes e como eles contribuem para o seu desenvolvimento. As primeiras teorias têm a hipótese que a neuropatia seria o principal fator causador, no entanto, evidências recentes apontam fortemente para a disfunção do músculo liso, o que traz importantes implicações terapêuticas.

Bexiga hipoativa: uma complicação silenciosa do diabetes

Em seu novo projeto, Profa. Mariana irá investigar a hipoatividade da bexiga, tema sobre o qual ainda se sabe muito pouco. A bexiga hipoativa muitas vezes é chamada de “bexiga preguiçosa”, pois ocorre dificuldade para urinar, com jato fraco e sem esvaziamento completo da bexiga. Em alguns casos, ocorre ainda perda da sensação de que a bexiga está cheia, o que pode até fazer com que a pessoa urine sem perceber.

No diabetes, a bexiga hipoativa pode ocorrer com o passar do tempo. Profa. Mariana explica a evolução da doença: “No indivíduo com diabetes, especialmente nas fases iniciais da doença, é comum observar o desenvolvimento de uma condição conhecida como síndrome da bexiga hiperativa.” Isso ocorre em parte em decorrência da produção excessiva de urina. Ela complementa: “Com o tempo, porém, se observa perda progressiva de função da bexiga, o que caracteriza a chamada bexiga hipoativa. Ainda não sabemos se isso representa uma evolução temporal obrigatória, ou seja, se todo paciente com diabetes que tem bexiga hiperativa irá evoluir para bexiga hipoativa. Até o momento, essa é uma das hipóteses mais aceitas.”

Profa. Mariana compara o quadro da bexiga hipoativa com a insuficiência cardíaca. “Quando o indivíduo desenvolve hipertensão, inicialmente o coração responde com hipertrofia para compensar o trabalho. Com o tempo, porém, esse esforço crônico pode levar a perda de função cardíaca, evoluindo para insuficiência cardíaca e, em casos mais graves, para falência cardíaca. A bexiga urinária apresenta semelhanças com o coração nesse aspecto. Ambos são órgãos ocos que precisam lidar continuamente com cargas de trabalho significativas. […] No entanto, enquanto o conhecimento da insuficiência cardíaca avançou muito nas últimas décadas, a bexiga hipoativa ainda permanece pouco compreendida”, ela explica.

Ao contrário da bexiga hiperativa observada nas fases inicias do diabetes, a hipoatividade vesical ocorre menos frequentemente. Porém, estudar o tema tem alta importância clínica, já que a medicina não avança no tratamento da doença. Profa. Mariana comenta o cenário atual: “Não é possível prever quando a bexiga hipoativa vai se desenvolver. Em indivíduos diabéticos, observamos diferentes perfis de alteração miccional, e pode levar muito tempo até que um paciente apresente esse quadro. Na prática, a principal alternativa terapêutica é o cateterismo intermitente. O paciente precisa fazer o esvaziamento manual da bexiga através de um cateter e uma bolsa coletora. Não há tratamentos farmacológicos eficazes disponíveis, o que reflete o quanto essa condição é pouco compreendida.”

Formando novos pesquisadores e ampliando fronteiras na pesquisa

Ao fim da entrevista, Profa. Mariana reflete um pouco sobre experiências anteriores e o papel do professor e orientador: “Depois que eu virei professora, eu tive um vislumbre muito grande de que minha função é formar o aluno. Formar um bom profissional. E é muito enriquecedor ver a pessoa se desenvolver e você poder contribuir com esse desenvolvimento. É muito satisfatório. Isso ajuda muito a gente a ver propósito e continuar.”

Ao iniciar essa nova etapa na UNICAMP, Profa. Mariana pretende ampliar as fronteiras do conhecimento sobre a bexiga hipoativa no diabetes, área ainda pouco explorada e de grande impacto na qualidade de vida dos pacientes. Seu projeto une investigação molecular de ponta, relevância clínica e formação de novos pesquisadores. Compreender os mecanismos da doença projeta um futuro no qual novas estratégias terapêuticas deixem de ser uma possibilidade distante e se tornem realidade.

Para saber mais:

Bexiga diabética (artigo 1) (DOI: 10.3390/antiox13101155)

Bexiga diabética (artigo 2) (DOI: 10.3390/biomedicines12050939)

Bexiga diabética (artigo 3) (DOI: 10.3390/metabo13060710)

Autoria:

Mia Schezaro Ramos

Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar.