Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre o LUTED Lab, liderado pela Profa. Dra. Fabiola Zakia Mónica. O laboratório desenvolve pesquisas voltadas aos sintomas do trato urinário inferior e à disfunção erétil. Atualmente, possui projetos visando ao reposicionamento de fármacos, estratégia que busca descobrir novas aplicações terapêuticas para medicamentos já comercializados e prescritos.
Para entender melhor esses projetos, conversamos com a Profa. Fabiola, a mestranda Mariana Burille Moretti e os pesquisadores de pós-doutorado, Dra. Gabriela Reolon Passos eDr. Guilherme Ruiz Leonardi.
A trajetória que deu origem ao LUTED Lab

A líder do LUTED Lab, Dra. Fabiola Mónica, é professora do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UNICAMP desde 2011. Ela é farmacêutica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e doutora em Farmacologia pela UNICAMP. Realizou pós-doutorado na George Washington University, sob supervisão do Prof. Dr. Ferid Murad, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1998. Entre 2019 e 2021, fez parte do comitê científico da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental.
A Profa. Fabíola realizou doutorado sob orientação do Prof. Dr. Edson Antunes, também do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia. Desde essa época, já investigava a farmacologia e a patofisiologia do trato urinário inferior. Essa linha de pesquisa a levou a criar o LUTED Lab.
A conexão entre sintomas urinários e disfunção erétil

O LUTED Lab foca tanto no trato urinário inferior quanto na disfunção erétil não é ao acaso. Complicações no trato urinário inferior podem levar aos sintomas urinários, como aqueles que afetam o armazenamento da urina (como a noctúria, quando se acorda durante a noite para urinar), a micção (como esforço para urinar) e o período pós-miccional (como gotejamento após urinar). A decisão do LUTED Lab em estudar tanto o trato urinário inferior quanto a disfunção erétil não é ao acaso. Estas complicações estão fortemente relacionadas. Cerca de 70% dos homens com sintomas do trato urinário inferior também apresentam disfunção erétil.
Essa relação entre sintomas urinários e disfunção erétil ocorre porque ambos os mecanismos são regulados pelas mesmas vias no nosso corpo. A Profa. Fabíola explica: “Quando pensamos em relaxamento da bexiga, estamos falando do Sistema Nervoso Simpático. Na contração da bexiga, do Sistema Nervoso Parassimpático. No caso do corpo cavernoso, temos o Sistema Nervoso Simpático, que causa relaxamento, mas também o óxido nítrico. Na próstata, estamos falando de óxido nítrico.”
Sistema Nervoso Simpático, Parassimpático e óxido nítrico são diferentes vias que coordenam atividades no nosso corpo. É como se fossem setores dentro de uma empresa responsáveis por diferentes funções. Às vezes, um mesmo setor coordena mais de uma função. Por exemplo, o RH pode ser responsável por contratações e pela emissão de folhas de pagamento.
Esse setor, como qualquer outro, pode enfrentar problemas, como ter poucos funcionários devido a afastamentos por doença. Quando isso ocorre, é provável que haja atraso não só nas contratações, mas também na emissão de folhas de pagamento. O mesmo ocorre em nosso corpo. Se o Sistema Nervoso Simpático está comprometido, isso pode afetar não apenas o relaxamento da bexiga, mas também o do corpo cavernoso, processo importante para o fim da ereção do pênis.
Impactos na qualidade de vida e principais fatores de risco
A presença de disfunção urinária associada à disfunção erétil prejudica muito a qualidade de vida dos pacientes. Os sintomas urinários impactam de forma mais concreta, como explica a Profa. Fabíola: “Conforme há o agravo, pode até chegar à perda involuntária de urina em público. A pessoa fica com vergonha de sair e bebe menos água. Dependendo do grau de incontinência urinária, pode até precisar usar fralda.”
Já os sintomas que prejudicam a performance sexual afetam principalmente os homens. A Profa. Fabíola comenta: “Para a mulher, como vamos ao ginecologista desde jovens, isso não é tanto tabu. Mas, para o homem, a questão da masculinidade e do machismo impacta muito.”
Os sintomas do trato urinário inferior são especialmente comuns após os 40 anos. A principal causa é o próprio envelhecimento. “No caso da mulher, é bem menos estudado. Mas sabemos que, por exemplo, a perimenopausa pode interferir no assoalho pélvico. Então, eu diria que as causas são principalmente fatores hormonais e o próprio envelhecimento. Já no caso do homem, é por causa da próstata. Sabemos que o envelhecimento e a hiperplasia da próstata são os principais fatores”, explica a Profa. Fabíola.
Ela ainda ressalta que o crescimento da próstata também é causado pelo envelhecimento: “A idade ainda é o principal fator, ainda mais associada a outras comorbidades, como obesidade e diabetes. São todos fatores que levam a um estado de inflamação crônica e persistente. Isso induz fatores de crescimento que, por sua vez, causam a hiperplasia da próstata.”
Novos usos para velhos medicamentos

Ao estudar o tratamento desses sintomas, o LUTED Lab adota uma abordagem estratégica: o reposicionamento de medicamentos. Nessa perspectiva, os pesquisadores não querem criar um medicamento do zero. Eles buscam investigar o potencial terapêutico de um fármaco já comercializado, mas agora para o tratamento de novas doenças.
A Profa. Fabíola explica que o reposicionamento tem várias vantagens: “É uma droga que já está na clínica e foi aprovada em estudos exigidos pelas agências regulatórias. Então, sua segurança e eficácia já foram demonstradas para uso em um tratamento. Isso torna o processo mais barato, pois economiza tempo de desenvolvimento.”
A Profa. Fabíola já trabalhava com reposicionamento de medicamentos antes mesmo de o termo ganhar popularidade. Ela conta que, desde o início de sua carreira, já desenvolvia pesquisas na área: “Basicamente, a gente pegava medicamentos já usados na clínica e testava.”
Hoje já existem diversos casos de sucesso de medicamentos reposicionados. Talvez alguns dos mais famosos sejam o Ozempic e o Mounjaro. Eles foram inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, mas hoje também são utilizados em casos de obesidade.
Investigando o reposicionamento da probenecida
Como o LUTED Lab foca nos sintomas do trato urinário inferior e na disfunção erétil, busca reposicionar medicamentos com potencial para esses tratamentos. Atualmente, a Profa. Fabíola desenvolve projeto financiado pela FAPESP (processo nº 24/03517-9) investigando o reposicionamento da probenecida. Nessa linha, atuam o pós-doutorando Dr. Guilherme Leonardi (processo nº 23/12406-3) e a mestranda Mariana Moretti.
Mariana explica seu projeto: “Resumidamente, eu estudo o reposicionamento farmacológico da probenecida. É um medicamento antigo, usado por muito tempo no tratamento da gota. Agora, estou investigando uma nova possível aplicação clínica para o tratamento da hiperplasia prostática benigna.”
O Dr. Guilherme também investiga o reposicionamento da probenecida, mas aplicado a outros tratamentos. Ele comenta: “O objetivo da pesquisa é avaliar o efeito da probenecida em órgãos do trato geniturinário inferior (bexiga, próstata e corpo cavernoso), visando um possível reposicionamento desse fármaco para o tratamento da bexiga hipoativa, bexiga hiperativa e disfunção erétil.”
Mas por que investir no reposicionamento justamente da probenecida? Sua principal indicação é para o tratamento da gota, já que aumenta a excreção de ácido úrico. No entanto, ela também pode interferir em diversas outras vias do nosso corpo.
Essa pluralidade de ações já garantiu seu reposicionamento em outros contextos. A Profa. Fabíola comenta: “Nos Estados Unidos, já temos uma forma farmacêutica dela para ser usada com alguns antibióticos. Isso porque ela diminui a excreção urinária desses fármacos. Também há estudos clínicos de fase 3 da probenecida para doenças cardíacas.”
Inibição de transportadores de efluxo como estratégia terapêutica
No LUTED Lab, a ideia de trabalhar com o reposicionamento da probenecida surgiu a partir de um projeto que estudava exatamente os transportadores de efluxo. Esses transportadores são mecanismos que expulsam fármacos para fora da célula, impedindo que exerçam suas ações terapêuticas. Estão muito abundantes em alguns tipos de câncer e, por isso, contribuem para a resistência aos quimioterápicos.
A probenecida é um inibidor relativamente pouco potente desses transportadores. Em testes realizados com tecidos do trato urinário inferior de suínos, roedores e humanos, os pesquisadores observaram que o fármaco foi capaz de interferir nessa via.
Trata-se de uma pesquisa pioneira na área, como destaca a Profa. Fabíola: “Até o momento, não temos nenhum estudo com a probenecida na área urológica. Há estudos sobre suas ações no sistema cardiovascular, na farmacocinética de antibióticos e no alcoolismo, onde pode atuar no Sistema Nervoso Central, reduzindo a vontade de beber.”
A pesquisa do Dr. Guilherme também investiga a associação da probenecida com a tadalafila, medicamento utilizado no tratamento da disfunção erétil e da hiperplasia prostática benigna. A probenecida já demonstrou efeitos benéficos quando utilizada em combinação com outros medicamentos, como no caso dos antibióticos.
A Profa. Fabíola explica a vantagem dessa abordagem: “Quando associamos a probenecida a outros medicamentos usados na clínica, observamos uma potencialização dos efeitos. Isso permite o uso de doses menores e, consequentemente, menos efeitos adversos.”
Jovem talento em evidência na farmacologia brasileira

A pesquisa do grupo já vem recebendo reconhecimento. O projeto da mestranda Mariana foi indicado ao Prêmio José Ribeiro do Valle, que valoriza jovens talentos da farmacologia brasileira. A premiação ocorreu durante o 57º Congresso da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBFTE), na cidade de São Paulo, em outubro de 2025. Mariana conquistou o terceiro lugar.
Ela conta como foi a experiência: “Fiquei extremamente feliz e realizada por ter sido indicada a um prêmio tão importante na minha área. Sempre quis trabalhar com algo que pudesse trazer benefícios para as pessoas. Mas, durante a pós-graduação, ficamos tão imersos na rotina de experimentos, análises e prazos que acabamos esquecendo por que estamos nesse caminho. Quando veio a indicação, foi quase um lembrete. Como se alguém estivesse dizendo: ‘ei, é por isso que você está aqui, fazendo algo incrível’. Foi um momento de muito orgulho para mim e para o nosso grupo de pesquisa.”
Novos alvos moleculares para entender o crescimento da próstata

Além do reposicionamento da probenecida, o laboratório continua investigando o papel dos transportadores de efluxo. Nessa linha, atua a pesquisadora de pós-doutorado Dra. Gabriela Reolon (bolsista FAPESP, processo nº 22/11621-5).
Ela explica: “Meu principal projeto tem como objetivo avaliar a função dos transportadores de efluxo dos tipos 4 e 5 na hiperplasia prostática benigna, conhecidos como MRP4 e MRP5. Mais especificamente, investigo a contribuição desses transportadores de nucleotídeos cíclicos (AMPc e GMPc) tanto para a hiperatividade da musculatura lisa quanto para os processos de proliferação celular, utilizando tecido prostático humano e linhagens celulares humanas.”
Em outras palavras, ela investiga dois tipos específicos desses transportadores, com foco no transporte de nucleotídeos cíclicos, moléculas essenciais para a comunicação celular. Se a célula expressa muitos transportadores de efluxo, consequentemente expulsará uma grande quantidade desses nucleotídeos, o que pode interferir na comunicação de diversos processos dentro e fora das células.
Para ilustrar, podemos usar uma metáfora: imagine um bar com seguranças responsáveis por expulsar pessoas que causam problemas. Nesse caso, o bar representa a célula, os seguranças são os transportadores de efluxo e as pessoas são os nucleotídeos cíclicos. Agora imagine que esse bar contrata seguranças em excesso e os treina para expulsar pessoas indiscriminadamente. Quais seriam as consequências para o funcionamento do estabelecimento?
É exatamente isso que a Dra. Gabriela investiga. Primeiro, se há aumento na expressão desses transportadores na hiperplasia prostática. E, em seguida, como o aumento do efluxo de nucleotídeos cíclicos contribui para a hiperatividade muscular e a proliferação celular, dois fatores-chave para o aumento da próstata.
Como editar o DNA ajuda a entender doenças
Durante seu pós-doutorado, a Dra. Gabriela realizou estágio na Universidade de Birmingham por meio do programa BEPE (Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior) da FAPESP (processo nº 24/00216-8). Sob supervisão do Prof. Dr. Davide Calebiro, trabalhou com técnicas inéditas em sua carreira, como transfecção de células e desenho de plasmídeos. Essas são técnicas de engenharia genética que permitem editar o DNA e inseri-lo em células de interesse.
Com essas abordagens, a Dra. Gabriela conseguiu induzir a expressão elevada dos transportadores de efluxo que estuda (MRP4 e MRP5), recriando em laboratório o cenário investigado na hiperplasia prostática.
Ela relata a experiência no Reino Unido: “Além da complexidade do projeto, tudo foi bastante desafiador: estar em um novo país, em um novo laboratório e trabalhar com técnicas diferentes das que eu utilizava no Brasil. Ainda assim, foi uma experiência muito positiva, que contribuiu significativamente para o meu desenvolvimento profissional e pessoal.”
Pesquisa translacional e o uso de tecidos humanos na pesquisa

O LUTED Lab trabalha tanto com modelos animais quanto com cultura de células e tecidos humanos. O uso de amostras humanas faz parte da chamada pesquisa translacional, que buscatransformar conhecimentos da ciência básica em aplicações práticas para beneficiar pacientes. Por isso, o grupo conta com a colaboração de médicos, como o patologista Prof. Dr. Guilherme Rossi Assis de Mendonça e os urologistas Dr. Adriano Fregonesi e Dr. Cristiano Mendes Gomes.
A Profa. Fabíola explica: “Os clínicos são fundamentais tanto para a translação quanto como fornecedores de tecido humano. Trabalhamos com corpo cavernoso de pacientes que passaram por redesignação sexual, próstata de pacientes submetidos à prostatectomia e bexiga de pacientes que necessitaram de procedimentos cirúrgicos, como no caso de diabéticos. Sem esses profissionais, não teríamos acesso a esses materiais.”
Apesar das vantagens, trabalhar com tecido humano apresenta desafios. O primeiro é a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, que pode levar de 60 a 90 dias. Além disso, há dificuldades logísticas no fornecimento dos tecidos. É necessário preparar soluções adequadas para manter o tecido no dia da cirurgia. Além do mais, os alunos precisam estar disponíveis, muitas vezes em horários não convencionais de trabalho. Em alguns casos, o uso de laser durante a cirurgia pode danificar os tecidos, inviabilizando seu uso.
Mesmo assim, a pesquisa translacional é uma das áreas mais motivadoras para o grupo. A Dra. Gabriela comenta: “O que mais me surpreende e empolga é ver a pesquisa translacional traduzindo os achados dos modelos animais para o humano. Isso mostra que estamos no caminho certo e que os achados podem ter impacto real.” Mariana complementa: “É aquele momento que a pesquisa fica um pouco mais real. Você começa a ver que aquilo que está acontecendo no laboratório pode mesmo ter uma relevância clínica.”
Ainda que o uso de tecidos humanos seja essencial, ainda não é possível dispensar modelos animais. A Profa. Fabíola explica: “Se tivéssemos acesso a amostras humanas todos os dias, não trabalharíamos com animais. Por exemplo, essa semana estavam previstas três cirurgias e as três foram desmarcadas. Além disso, frequentemente o material disponível é muito pequeno.”
Da formação de pesquisadores ao impacto na sociedade
A Dra. Gabriela trabalha com a Profa. Fabíola desde 2017 e é atualmente a pesquisadora mais antiga do LUTED Lab. Sobre sua trajetória, ela relata: “Estar no laboratório da Profa. Fabíola é muito positivo. Ela é aberta ao ensino, ao trabalho em equipe e ao apoio constante. Aqui, todos estão dispostos a ajudar. Ao longo desse tempo, me desenvolvi muito como pesquisadora e construí uma formação sólida, além de grandes amizades.”
O trabalho desenvolvido pelo LUTED Lab exemplifica como a pesquisa científica pode ir além do laboratório, conectando conhecimento básico a aplicações clínicas. O laboratório investiga de novas possibilidades para medicamentos já existentes e aprofunda a compreensão dos mecanismos envolvidos nas doenças urológicas. Assim, o grupo contribui o desenvolvimento de terapias mais acessíveis e eficazes. Entre descoberta e inovação, o LUTED Lab abre caminho para a ciência se transformar em benefício concreto para a sociedade.
A presente matéria foi realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo nº 25/17158-3. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Para saber mais:
Sintomas do trato urinário inferior e disfunção erétil (DOI: 10.1016/j.semerg.2015.07.005)
Reposicionamento de fármacos (DOI: 10.21577/1984-6835.20250006)
Probenecida como inibidor dos canais Panexina-1 (DOI: 10.1152/ajpcell.00227.2008)
Tadalafina no tratamento da hiperplasia prostática benigna (DOI: 10.1080/14656566.2019.1589452)
Transportadores MRP4 e MRP5 na hiperplasia prostática (DOI: 10.1007/s00345-025-05929-2)
Autoria:

Mia Schezaro Ramos
Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar.
Que trajetória maravilhosa a da Fabíola! Muito legal descobrir detalhes de sua jornada via este post! Adorei 🙂
Por aqui também admiramos muito a trajetória dela!! Obrigada pelo comentário, Luiz.
Que orgulho fazer parte desse lab tão incrível!
Mia, você arrasou muito, colocou em palavras exatamente o que o LUTED é'!
Esse lab é DEMAIS!!!
Que bom que gostou, Gabriela. Foi fácil traduzir em palavras um lab que amo.