Hoje, pesquisadores, sistemas de saúde e a segurança pública global enfrentam um enorme desafio: o crescimento acelerado das chamadas novas substâncias psicoativas (NSP). As NSP são novas drogas com modificações em suas estruturas químicas que surgem quase semanalmente. Estruturas químicas novas significam efeitos tóxicos desconhecidos e dificuldade de identificação e controle legal dessas substâncias. Como a ciência pode acompanhar o ritmo desenfreado com que essas drogas surgem? Um projeto liderado pelo Prof. Dr. José Luiz da Costa, da Unicamp, em parceria com a Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) do estado de São Paulo, busca propor uma solução.
Nesta matéria, entrevistamos a Dra. Maria Paula de Oliveira Valadares, perita criminal da SPTC e gestora pública responsável pela coordenação do projeto junto à SPTC e à Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo.
Entre o laboratório e a investigação

O Dr. José Luiz da Costa é professor associado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp e orientador pelo Programa de Pós-Graduação em Farmacologia. Sua trajetória acadêmica inclui graduação em Farmácia Bioquímica pela Universidade Federal de Alfenas, mestrado em Toxicologia e Análises Toxicológicas pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorado em Química Analítica, também pela USP. Além disso, realizou pós-doutorado na Unicamp e no National Institute on Drug Abuse (NIH, EUA).
O Prof. José Luiz também é coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas (CIATox-Campinas). Este é um serviço especializado da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, que integra atendimento à população, ensino e pesquisa. O CIATox-Campinas foi criado em 1982, vinculado ao Hospital de Clínicas, onde presta assistência a casos de intoxicação por medicamentos, drogas, produtos químicos ou animais peçonhentos.
O CIATox-Campinas oferece suporte presencial, laboratorial e telefônico. Assim, se você é profissional de saúde ou integrante do público em geral, pode entrar em contato pelo telefone +55 (19) 3521-7555, onde receberá assistência 24 horas para casos de intoxicação.
Hoje, o Prof. José Luiz é uma das principais referências nacionais em toxicologia analítica e forense. Essa é a área da ciência que estuda como identificar e medir a presença de substâncias tóxicas (como drogas e venenos) no corpo humano ou em materiais apreendidos. Essa área ajuda a entender quadros de intoxicação, causas de morte e pode ser usada em investigações criminais.
E não é à toa que Prof. José Luiz conecta ciência com aplicação forense. Antes mesmo de ser professor da Unicamp, ele já atuava como perito criminal da Superintendência da Polícia Técnico-Científica de São Paulo por mais de uma década.
O Prof. José Luiz lidera pesquisas voltadas à análise de drogas de abuso, com forte atuação em métodos analíticos avançados e monitoramento de substâncias emergentes. Ou seja, investiga o surgimento de novas drogas de abuso e como identificá-las. É exatamente nessa área que se desenvolve o projeto que exploraremos nesta matéria.
O que são drogas de abuso
Drogas de abuso são substâncias psicoativas que as pessoas usam para sentir prazer ou alterar o estado mental. Chamamos essas substâncias de psicoativas porque atuam no cérebro, alterando seu funcionamento e a forma como a pessoa pensa, sente ou percebe o mundo. Cada droga produz diferentes efeitos: relaxamento, euforia, sonolência ou até alucinações.
As drogas de abuso podem ser ilegais, como a cocaína, ou até legais, como o álcool e alguns medicamentos quando usados de forma inadequada. Elas podem levar à dependência e trazer problemas na vida pessoal, social ou profissional. Também podem causar prejuízos à saúde, levando a diversas doenças e injúrias, como problemas neuropsiquiátricos e overdose.
Segundo o III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira (2017), as substâncias psicoativas ilegais mais usadas pela população brasileira são: maconha (7,7%), cocaína (3,1%), solventes (2,8%), crack e similares (0,9%), LSD (0,8%) e MDMA (0,7%).
O MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina), também chamado de ecstasy, foi a primeira nova substância psicoativa (NSP) identificada no Brasil, em 1990. O MDMA é uma droga sintética, isto é, criada artificialmente em laboratório por reações químicas, ao contrário, por exemplo, da maconha (um vegetal) e da cocaína (de origem vegetal). Atualmente, o MDMA é a principal droga de abuso sintética consumida no Brasil.
Após o MDMA, outras NSP surgiram na década de 2000, como a 2,5-dimetoxi-4-bromoanfetamina (DOB) e a meta-clorofenilpiperazina (mCPP). Mais recentemente, cada vez mais NSP têm surgido, como as “drogas K” (canabinoides sintéticos).
Para se ter uma ideia, a Polícia Federal identificou pela primeira vez 10 NSP em 2017 e 16 em 2018. Isso representa um aumento de 60% em apenas um ano! Se considerarmos o cenário global, a situação é ainda mais preocupante: de 2009 a 2021, foram identificadas 1.124 NSP, o que representa o surgimento de mais de uma nova substância por semana.
Mas afinal, o que são as novas substâncias psicoativas (NSP)?
Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (United Nations Office on Drugs and Crime), as NSP são substâncias de abuso que não são controladas pela Convenção Única sobre Entorpecentes de 1961 ou pela Convenção de Substâncias Psicotrópicas de 1971. Ambas as convenções são acordos internacionais que estabelecem regras para controlar a produção, o uso e a circulação de drogas no mundo, visando proteger a saúde pública e combater o tráfico.
O objetivo de criar as NSP é exatamente driblar essas convenções, além da legislação vigente em cada país. Como são substâncias novas, muitas vezes ainda não existem leis específicas para regulamentar seu uso e tráfico. Assim, elas podem parecer legalizadas e, em alguns casos, ser vendidas livremente pela internet. Além disso, frequentemente apresentam custo menor do que as drogas clássicas.
As NSP geralmente são produzidas por meio de pequenas modificações na estrutura química de drogas já conhecidas. Por exemplo, as “drogas K”, citadas anteriormente, são canabinoides sintéticos criados em laboratório para imitar os efeitos da maconha no cérebro. Eles podem ser desenvolvidos a partir de modificações na estrutura do THC (tetrahidrocanabinol), o principal composto psicoativo da maconha.

Como as NSP são substâncias modificadas, pouco se sabe sobre seus efeitos no corpo. Muitas vezes, elas apresentam potência muito maior que as drogas clássicas ou até efeitos completamente imprevisíveis. Isso resulta em quadros de intoxicação que confundem profissionais de saúde e representam sérios riscos à saúde pública.
Os casos de intoxicação por NSP podem evoluir rapidamente para quadros graves. Complicações comuns incluem crises neurológicas, problemas cardiovasculares, distúrbios psiquiátricos e até morte. Como há pouca informação sobre essas substâncias, o diagnóstico e o tratamento tornam-se extremamente difíceis nos serviços de emergência, o que sobrecarrega o sistema de saúde.
O próprio CIATox-Campinas detectou um aumento nos casos de intoxicação por canabinoides sintéticos. Se, de 2016 até o fim de 2022, apenas dois casos foram identificados, somente nos cinco primeiros meses de 2023 já foram observados 10 casos.
Uma corrida contra o tempo
As novas estruturas químicas das NSP não dificultam apenas o diagnóstico e o tratamento dos casos de intoxicação, mas também a identificação química dessas substâncias. Como muitas vezes não conhecemos suas estruturas, a detecção das NSP por métodos analíticos é especialmente desafiadora.
Pequenas modificações na estrutura química já são suficientes para criar uma substância “nova”. A diversidade dessas estruturas e o surgimento desenfreado de novas NSP são difíceis de acompanhar. Muitas vezes, não há registros dessas moléculas em bancos de dados. Sem padrões de referência disponíveis, os laboratórios não possuem métodos analíticos adequados para detectá-las.
É como se alguém pedisse para você identificar quais ingredientes foram usados em uma comida, mas entre eles houvesse um tempero que você nunca provou na vida. Por exemplo, o belacan, uma pasta de camarão fermentada típica da culinária da Malásia, Singapura e Indonésia. Provavelmente você (como eu) não faz ideia de qual é o sabor do belacan e jamais provaria algo e diria: “Ah, com certeza colocaram belacan nesse peixinho”.
Assim como precisamos conhecer o sabor de um tempero para identificá-lo, os métodos analíticos precisam de conhecimento prévio sobre uma molécula para reconhecê-la.
A toxicologia analítica forense precisa detectar as NSP tanto em materiais apreendidos quanto no corpo humano. Os canabinoides sintéticos, por exemplo, muitas vezes são dissolvidos em solventes e aplicados (geralmente borrifados) sobre materiais vegetais secos, como ervas, papel ou até tabaco. Se esses materiais são apreendidos, é necessário identificar se há uma NSP presente.
Para piorar o cenário, a detecção das NSP no corpo humano é ainda mais difícil. Elas costumam estar presentes em concentrações muito baixas em amostras biológicas, como sangue e urina. Isso exige o uso de técnicas altamente sensíveis e sofisticadas, muitas vezes caras, pouco acessíveis e que dependem de profissionais altamente qualificados.
Esse cenário revela uma deficiência importante nos sistemas de saúde e segurança pública: falta um mecanismo estruturado e contínuo que permita acompanhar o surgimento das NSP em tempo real.
Do laboratório às políticas públicas: a proposta do NSP-Monitor

É justamente essa lacuna que o projeto NSP-Monitor pretende preencher. O projeto é liderado pelo Prof. José Luiz e ocorre em parceria com a Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) do estado de São Paulo, onde a perita criminal Dra. Maria Paula de Oliveira Valadares atua como gestora pública responsável.
O projeto é intitulado “Monitoramento de Novas Substâncias Psicoativas no estado de São Paulo: ações integradas para políticas públicas em segurança e saúde pública sobre drogas sintéticas (Projeto NSP-Monitor)”. Ele teve financiamento recentemente concedido pela FAPESP na modalidade “Auxílio à Pesquisa – Pesquisa em Políticas Públicas” (processo nº 24/15262-5).
A proposta é integrar diferentes fontes de informação em um único sistema. Assim, serão reunidos laudos periciais da Polícia Técnico-Científica, dados clínicos do CIATox e registros de apreensões para a criação de um banco de dados sobre as NSP. Esse banco permitirá cruzar informações sobre substâncias identificadas, locais de ocorrência, períodos de maior incidência e perfis de intoxicação.
Além disso, será desenvolvido um painel interativo (dashboard). Esse sistema permitirá o acesso livre a dados não sensíveis de processos criminais, ampliando a transparência e o uso das informações por gestores e pela sociedade. Assim, será possível cruzar dados e compará-los por região, período e outros parâmetros.
No início, o projeto NSP-Monitor será concentrado nas regiões da Grande São Paulo, Campinas e Americana. Essas áreas são estratégicas pela alta densidade populacional e pela disponibilidade de dados provenientes dos serviços de saúde e da polícia científica. Uma vez que o sistema esteja estruturado e validado, o conhecimento gerado poderá ser replicado futuramente para outras regiões do Brasil.
Ciência a serviço da segurança pública
A instituição parceira SPTC do estado de São Paulo conta, neste projeto, com a participação da Dra. Maria Paula de Oliveira Valadares como gestora pública responsável. Bacharel em Química e em Direito, doutora em Biotecnologia e especialista em Direito Digital e Inovação Tecnológica, Dra. Maria Paula atua como perita criminal desde 2006.
Atualmente, Dra. Maria Paula ocupa uma das coordenações da Coordenadoria de Análise e Planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, setor responsável pela produção de estatísticas e pelo planejamento de políticas públicas na área de segurança. Sua atuação envolve a análise de dados e o desenvolvimento de estratégias baseadas em evidências para apoiar a tomada de decisões governamentais.
Com experiência que integra ciência, inovação tecnológica, perícia criminal e gestão pública, Dra. Maria Paula desempenha papel fundamental na articulação entre os resultados científicos do NSP-Monitor e sua aplicação prática na formulação de políticas públicas voltadas à saúde e à segurança da população.
Dra. Maria Paula conta um pouco mais da sua atuação no projeto NSP-Monitor: “Minha função é garantir o alinhamento estratégico entre a pesquisa científica da Unicamp e as demandas reais da segurança, atuando como facilitadora institucional. Utilizo minha experiência na Diretoria de formulação e implementação de políticas públicas para guiar a formulação de políticas baseadas nas evidências que o sistema vai gerar.”
Dra. Maria Paula fala sobre a importância da parceria com a SPTC nesse projeto: “A SPTC é a maior polícia científica da América Latina. É o coração operacional dos dados. O Núcleo de Exames de Entorpecentes e o Núcleo de Toxicologia Forense, junto aos Núcleos de Perícias Criminalísticas regionais, fornecerão os exames de substâncias entorpecentes e exames toxicológicos, tanto antemortem quanto post mortem, que alimentarão continuamente o banco de dados do projeto.”
“Antemortem” e “post mortem” são expressões em latim muito usadas na medicina e perícia forense. Exames antemortem são aqueles utilizando amostras coletadas antes da morte de uma pessoa, como sangue, urina ou outros materiais obtidos durante o atendimento médico. Já as amostras post mortem são coletadas após a morte, geralmente pelos médicos-legista.
Dra. Maria Paula explica também a participação da Secretaria de Segurança Pública (SSP): “A SSP atua no nível macro e estratégico, apoiando a coordenação institucional. Ela é representada também pelo pesquisador associado Rodrigo Garcia Vilardi e será a principal beneficiária das ferramentas de Business Intelligence criadas, utilizando os indicadores geográficos e temporais para o planejamento de ações de inteligência policial e policiamento preventivo.”
Na prática, isso significa que os dados gerados pelo projeto serão transformados em ferramentas que ajudam a identificar onde e quando determinadas drogas estão circulando. Com essas informações, os órgãos de segurança poderão detectar tendências, antecipar riscos e planejar ações de investigação e prevenção de forma mais eficiente.
Dra. Maria Paula ainda destacou que o NSP-Monitor irá integrar o Programa Muralha Paulista. Ele é uma iniciativa do Governo de São Paulo que utiliza câmeras, leitores de placas e sistemas de inteligência para integrar dados de segurança pública. Assim, o Programa busca auxiliar na prevenção e investigação de crimes por meio do monitoramento e da análise de informações em tempo real.
Para Dra. Maria Paula, a principal relevância do NSP-Monitor é permitir a tomada de decisão baseada em evidências: “Esse projeto quebra o isolamento dos laboratórios. Isso dá ao gestor público o poder de prever cenários e direcionar recursos policiais e de saúde exatamente para as regiões mais afetadas.”
Dra. Maria Paula complementa: “o projeto irá gerar alertas rápidos sobre o surgimento de novas substâncias tóxicas perigosas, como as “drogas K” ou novos opioides sintéticos. Desta forma ele mune simultaneamente as forças de segurança (para repressão e investigação) e as equipes de saúde hospitalar de emergência (para aprimorar diagnósticos e salvar vidas).”
A tecnologia por trás da identificação das NSP
Um dos principais desafios do projeto NSP-Monitor é desenvolver formas de identificar as NSP. A técnica analítica mais utilizada atualmente para detectá-las é a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas. Eu sei que o nome dessa técnica é complicado, mas a ideia é mais simples do que parece.
Imagine que você tem uma mistura com vários “ingredientes invisíveis”, como um xampu. Se você olhar o rótulo, verá uma lista imensa de ingredientes com nomes complexos que, muitas vezes, nem sabemos que existem ou para que servem. Uma amostra com suspeita de conter NSP é bem parecida, seja um material apreendido ou o sangue de um paciente.
A cromatografia líquida funciona como uma peneira muito sofisticada. Ela consegue separar todas essas substâncias, organizando-as como se estivessem em uma fila. Em seguida, cada uma delas é analisada pela espectrometria de massas, que funciona como um detector extremamente preciso, capaz de “pesar” e identificar cada molécula. É quase como se fosse gerado um “RG químico”. Assim como pessoas, cada molécula tem seu RG específico e para ser reconhecida com precisão.
Os métodos analíticos usados para detectar as NSP podem ser divididos em direcionados (ou target) e não direcionados (ou untarget). Os métodos direcionados são apropriados para casos em que as substâncias a serem pesquisadas já são conhecidas. Já para NSP desconhecidas, o ideal são os métodos não direcionados, que permitem uma varredura mais ampla, sem a necessidade de informações prévias.
Assim, os pesquisadores irão focar no desenvolvimento e na validação de métodos não direcionados para a detecção de NSP. Esses métodos são mais caros, complexos e exigem maior expertise técnica. No entanto, uma vez que uma NSP é detectada, informações químicas sobre ela são depositadas em bancos de dados. Com isso, futuramente, essas substâncias poderão ser identificadas por métodos direcionados, que são mais baratos, rápidos e simples.
Outro ponto importante é o desenvolvimento de métodos mais sustentáveis do ponto de vista ambiental, alinhados ao conceito de análise toxicológica verde (green analytical toxicology). Dessa forma, os novos métodos buscarão utilizar menos amostras e reagentes químicos, além de gerar menos resíduos. Essa abordagem pretende criar referências metodológicas para laboratórios públicos, que poderão adotar técnicas mais baratas, sustentáveis e eficazes, sem comprometer a confiabilidade dos resultados.
Os estudos do grupo
Esse não é o primeiro esforço do Prof. José Luiz na área. Desde 2016, sua equipe de pesquisa investiga o fenômeno das NSP no Brasil, analisando amostras biológicas, materiais apreendidos e até fluidos coletados em eventos. Esses estudos já demonstraram, por exemplo, a enorme variabilidade na composição das drogas sintéticas vendidas no país.

Um exemplo recente é um estudo publicado na revista Drug Testing and Analysis. A publicação teve como primeiro autor o doutorando M.Sc. Alexandre Barcia de Godoi. O estudo identificou pela primeira vez um novo canabinoide sintético chamado MDMB-5′Br-PINACA em materiais vegetais apreendidos no interior de São Paulo. Na publicação, os pesquisadores apresentam os esforços e a metodologia intrincada necessários para decifrar a estrutura química de uma NSP.
Os resultados também revelaram um cenário ainda mais complexo e alarmante: as amostras continham misturas de diferentes drogas sintéticas, incluindo canabinoides, benzodiazepínicos e até opioides.
Outro trabalho recente, que demonstra como o grupo contribui tanto para investigações forenses quanto para o monitoramento em saúde pública, foi publicado na revista Journal of Analytical Toxicology. A publicação tem como primeira autora a doutoranda M.Sc. Karla Aparecida de Oliveira Souza e apresenta o desenvolvimento e a validação de um método para detectar benzodiazepínicos em amostras de sangue post mortem (após a morte).
O método desenvolvido apresentou alta precisão, sendo capaz de detectar essas substâncias em concentrações muito baixas. Um aspecto importante é que essa abordagem também é mais sustentável que outras técnicas. O doutorado de M.Sc. Karla também envolve o desenvolvimento de métodos para detecção de NSP em amostras post mortem.
Como comentado anteriormente, a detecção das NSP não é o único desafio. Compreender seus efeitos tóxicos no organismo é igualmente fundamental. Por isso, o grupo também investe em estudos experimentais que buscam entender como essas substâncias atuam no corpo e quais danos podem causar. Exemplos disso são os projetos de iniciação científica da aluna Laura de Souza Borbi e de doutorado do aluno Leonardo Costalonga Rodrigues, ambos financiados pela FAPESP.
Um dos principais modelos utilizados nesses estudos é o peixe-zebra (zebrafish; Danio rerio). Esse organismo é amplamente empregado na pesquisa científica por permitir a observação rápida e controlada de efeitos tóxicos, alterações comportamentais e processos de metabolização de substâncias.
Nesses experimentos, os pesquisadores avaliam desde a toxicidade em embriões e larvas até mudanças comportamentais, como alterações na movimentação, ansiedade e interação social após a exposição às NSP. Além disso, investigam como o organismo transforma essas substâncias (biotransformação) e identificam as substâncias geradas (metabólitos), que podem servir como marcadores importantes em exames toxicológicos.
Uma publicação recente na revista Discover Toxicology, com o doutorando Leonardo como primeiro autor, investigou os efeitos dos canabinoides sintéticos ADB-INACA e CHO-4′Me-5′Br-FUBOXPYRA em peixes-zebra. Um ponto especialmente interessante desse estudo foi a avaliação do comportamento de auto-administração, uma forma de medir o potencial de dependência de uma substância.
Em termos simples, esse tipo de experimento observa se o próprio animal “busca” a droga ativamente, ou seja, se realiza uma ação para recebê-la. No caso das NSP analisadas, os resultados mostraram que elas não induziram comportamento de busca em peixes adultos, diferentemente do que ocorre com substâncias conhecidas por causar dependência.
Além dos artigos, o livro “Novas Substâncias Psicoativas” foi publicado recentemente, organizado pelos professores José Luiz e Mauricio Yonamine (USP). A obra reúne especialistas para discutir os desafios relacionados à identificação, toxicidade, monitoramento e impacto dessas substâncias na saúde e na segurança pública, constituindo uma importante referência sobre o tema.
Em um cenário em que as drogas mudam constantemente, a resposta precisa ser igualmente dinâmica e baseada em evidências. Por isso, o NSP-Monitor pretende ir além da produção científica, atuando de forma integrada com os setores de saúde e segurança pública. No futuro, o projeto pode se tornar um modelo para todo o país, mostrando como a integração entre ciência, tecnologia e gestão pública pode transformar dados em ação.
As pesquisas divulgadas nessa matéria contaram com financiamento FAPESP (processos nº 21/04768-7, 22/00037-0, 23/07323-1, 24/08365-2, 24/02868-2 e 24/10492-2, 24/15262-5 e 25/00898-4), CNPq (processos nº 315640/2021-9, 309124/2025-5, 403396/2024-7 e INCT-SP 406958/2022-0) e pela CAPES (projeto INSPEQT 2.0, processo nº 2/2024).
A presente matéria foi realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo nº 25/17158-3. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Para saber mais:
Laboratório de Toxicologia Analítica da Unicamp no Instagram
III Levantamento Nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira
Canabinóides sintéticos no Brasil
Métodos direcionados e não direcionados para detecção de drogas (DOI: 10.1002/dta.2744)
Identificação da MDMB-5’Br-PINACA (DOI: 10.1002/dta.70012)
Matéria jornalística do G1 sobre identificação de novos canabinoides sintéticos
Detecção de benzodiazepínicos em amostras após a morte (DOI: 10.1093/jat/bkag008)
NSP em larvas e embriões de peixe-zebra (DOI: 10.1016/j.toxrep.2025.102018)
Canabinoides sintéticos em peixe-zebra (DOI: doi.org/10.1007/s44339-026-00049-x)
Autoria:

Mia Schezaro Ramos
Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar.