Medir a pressão arterial é um procedimento tão comum que muitas vezes parece simples. Um aparelho, dois números e um diagnóstico: “sua pressão está alta”. Mas, por trás dessas palavras, existe uma rede complexa de mecanismos envolvendo coração, vasos sanguíneos, rins, hormônios, sistema nervoso e até processos inflamatórios. Utilizando conceitos da teoria do caos e ferramentas matemáticas pouco exploradas na medicina, o grupo liderado pelo professor Heitor Moreno Junior busca compreender por que alguns pacientes continuam com a pressão alta mesmo após o uso de múltiplos medicamentos.

Nesta reportagem, conversamos com a recém-doutora Tatiane de Azevedo Rubio, pesquisadora que investigou como a perda da capacidade de adaptação do organismo pode ajudar a explicar os casos mais desafiadores de hipertensão arterial.

Prof. Heitor Moreno Junior e Dra. Tatiane de Azevedo Rubio.

O interesse pela pesquisa científica acompanha a Dra. Tatiane de Azevedo Rubio desde os tempos de graduação. Dra. Tatiane é graduada em Educação Física pela UNIFEV (2008) e em Pedagogia pela FACON (2018). “Eu sempre tive interesse em pesquisa. Sempre gostei dessa área e sempre quis ser professora universitária”, relembra Dra. Tatiane.

Esse caminho, porém, não foi linear. Após atuar no ensino superior, Tatiane precisou se afastar da carreira acadêmica por cerca de quatro anos em razão da maternidade e de um quadro de depressão. Mesmo longe das atividades acadêmicas, a vontade de retornar permaneceu presente.

A oportunidade surgiu de forma inesperada durante uma palestra promovida pela Sociedade de Cardiologia. Foi nesse evento que ela conheceu o médico e pesquisador Juan Carlos Yugar Toledo, que mais tarde se tornaria seu orientador de mestrado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP, 2021).

Dra. Tatiane comenta: “Foi uma volta para a área e uma forma de conhecer tudo de novo. Eu estava muito tempo afastada e muita coisa era novidade para mim.”

O reencontro com a pesquisa também marcou seu primeiro contato mais aprofundado com um tema que viria a definir sua trajetória científica: a hipertensão arterial resistente. Embora já tivesse trabalhado com hipertensão durante a graduação, ela percebeu que existia um universo muito mais complexo por trás dos casos de hipertensão resistente.

“Eu não tinha dimensão do que era a hipertensão resistente e a hipertensão refratária“, relembra Dra. Tatiane.

A partir dessa experiência, Tatiane passou a integrar o grupo de pesquisa coordenado pelo Prof. Dr. Heitor Moreno Junior, na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, que foi coorientador de seu mestrado.

Posteriormente, o Prof. Heitor foi seu orientador de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Unicamp. Seu trabalho de doutorado buscou compreender como alterações do sistema nervoso autônomo, mecanismos inflamatórios e fatores hormonais interagem em pacientes com hipertensão resistente e refratária, condições que desafiam médicos e pesquisadores por sua complexidade e dificuldade de controle.

Hoje, recém-doutora, Tatiane representa uma nova geração de pesquisadores dedicados a desvendar os mecanismos por trás das formas mais graves da hipertensão arterial. Sua trajetória também ilustra como a ciência é construída por histórias de persistência, reinvenção e retorno àquilo que se acredita ser uma vocação.

A hipertensão arterial é uma das doenças crônicas mais comuns do mundo e um dos principais fatores de risco para infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal e outras doenças cardiovasculares. De forma simples, ela ocorre quando os níveis de pressão arterial permanecem elevados de maneira persistente.

A pressão arterial é a força que o sangue exerce contra as paredes das artérias enquanto circula pelo corpo. Ela é medida por dois números. O primeiro, conhecido como pressão sistólica, indica a pressão gerada quando o coração se contrai para bombear sangue. O segundo, chamado pressão diastólica, representa a pressão nas artérias quando o coração relaxa entre um batimento e outro, sendo, assim, mais baixa que a pressão sistólica.

Assim como medimos distância em metros (m) e peso em gramas (g), a pressão arterial é medida em uma unidade chamada milímetros de mercúrio (mmHg). Quando alguém diz que sua pressão está “12 por 8”, por exemplo, isso significa aproximadamente 120 mmHg de pressão sistólica e 80 mmHg de pressão diastólica.

Atualmente, a meta ideal de pressão arterial é inferior a 120 por 80 mmHg. Valores acima de 140 por 90 mmHg são considerados compatíveis com o diagnóstico de hipertensão.

Na maioria dos casos, a doença pode ser controlada com mudanças no estilo de vida e o uso de medicamentos anti-hipertensivos. Entretanto, existem dois grupos de pacientes para os quais o tratamento se torna um desafio muito maior: aqueles com hipertensão resistente ou hipertensão refratária.

A hipertensão resistente é caracterizada pela dificuldade de controlar a pressão arterial mesmo com tratamento adequado. Em geral, trata-se de pacientes que utilizam três ou mais medicamentos anti-hipertensivos, incluindo, preferencialmente, medicamentos da classe dos diuréticos tiazídicos, como a hidroclorotiazida.

Os hipertensos resistentes, mesmo utilizando os medicamentos em doses máximas ou nas maiores doses toleradas, continuam apresentando níveis elevados de pressão arterial após pelo menos seis meses de acompanhamento médico.

Já a hipertensão refratária é um estágio ainda mais grave. Nesses casos, o paciente utiliza cinco ou mais medicamentos anti-hipertensivos e, ainda assim, não consegue atingir as metas de controle da pressão.

Diversos sistemas dentro do nosso corpo participam do controle da pressão arterial, formando uma grande rede de mecanismos que interagem continuamente.

“Precisamos considerar o ser humano como um organismo complexo, cheio de variáveis que estão interagindo o tempo todo”, explica. “Se um sistema não está funcionando adequadamente, outro tenta compensar. Quando percebemos que o paciente está doente, muitas dessas alterações já estão acontecendo há anos.”

Essas interações entre diversos sistemas para coordenar a pressão arterial são essenciais para o funcionamento correto do organismo. Isso porque o normal é a pressão arterial variar em resposta a diferentes estímulos. Por exemplo, nossa pressão sobe quando passamos raiva, comemos muito sal, fazemos atividade física ou sentimos medo. Note que estamos falando de estímulos completamente diferentes interferindo na pressão: emocionais, alimentares e físicos.

Uma vez que temos diversos estímulos interferindo, precisamos de diversos sistemas para coordenar essa rede complexa de respostas. É como um cachorro que é responsabilidade de vários membros de uma família. Uma pessoa dá comida, outra leva para passear, outra dorme junto, etc. O trabalho de todos é essencial para esse cãozinho seguir feliz e saudável.

A pressão subir ou baixar frente aos diferentes estímulos é mais que normal, é importante para a sobrevivência. Um exemplo simples acontece quando uma pessoa se levanta da cadeira. Nesse momento, a pressão arterial precisa subir para que a circulação esteja forte o suficiente para levar o sangue ao cérebro. Se isso não ocorre, temos a chamada hipotensão postural: a visão escurece, temos tontura e, em casos graves, podemos até desmaiar.

Se isso já aconteceu com você, fique calmo. É comum ter uma leve tontura se o corpo demora um pouco para subir a pressão. Mas, em indivíduos normais, rapidamente a situação se estabiliza. Já em pessoas hipertensas, esse mecanismo pode estar comprometido. Nesses casos, a pressão sobe, mas pode continuar alta por muito mais tempo do que deveria.

“Às vezes a pessoa fala que a pressão está oscilando. Mas a questão é: oscilando quanto? Algumas oscilações são normais e necessárias. O problema acontece quando o organismo perde a capacidade de se readaptar adequadamente”, explica Tatiane.

Por décadas, pesquisadores acreditavam que uma das causas da hipertensão resistente é a chamada hiperatividade do sistema nervoso simpático, ou seja, o sistema nervoso simpático mais ativo que o normal.

Explicamos anteriormente o que é o sistema nervoso simpático na matéria “Novas catecolaminas: a descoberta que desafia os livros de fisiologia (parte 1)”. Você pode conferir essa matéria para mais detalhes. Em resumo, trata-se da parte do sistema nervoso responsável por preparar o organismo para situações de alerta e estresse.

Mas será que essa explicação é suficiente? Foi essa pergunta que guiou a pesquisa de doutorado da Dra. Tatiane.

Ao examinar dados de pacientes hipertensos, Dra. Tatiane percebeu que os resultados não correspondiam à teoria tradicional. Tanto os componentes associados ao sistema simpático quanto aqueles ligados ao sistema parassimpático estavam reduzidos.

Também explicamos o sistema nervoso parassimpático na matéria “Novas catecolaminas: a descoberta que desafia os livros de fisiologia (parte 1)”. Basicamente, ele é a parte do sistema nervoso responsável por promover o descanso e a recuperação do organismo, ajudando a reduzir a pressão arterial após situações de esforço ou estresse, sendo o “oposto” do simpático.

Em outras palavras, não parecia haver um aumento na atividade do sistema simpático. Na verdade, ela estava diminuída. O que acontecia é que a atividade do sistema parassimpático, que se opõe ao simpático, estava ainda mais reduzida, dando a impressão de que a atividade simpática havia aumentado.

Essa observação deu origem ao primeiro artigo científico do doutorado. A partir daí, a pesquisa avançou para a compreensão de que o problema não estava em um único sistema regulador da pressão arterial, mas na grande rede que conecta todos esses sistemas.

Voltando à metáfora do cachorro da família: imagine que uma pessoa parou de recolher as cocô do animal porque ficou doente e acamada. Outra pessoa começou a assumir a tarefa antes de ir trabalhar, mas, como esse hábito não fazia parte de sua rotina, muitas vezes perdia tempo e se atrasava.

Isso começou a afetar seu trabalho, gerando estresse e conflitos dentro da casa, com essa pessoa se negando a continuar como responsável pela tarefa. Com o tempo, o aumento do estresse e a falta de limpeza adequada deixou o cão estressado e doente, fazendo com que ele parasse de comer normalmente e não quisesse mais sair para passear.

Não é possível apontar claramente um único culpado pelo adoecimento do cachorro. Seria a primeira pessoa que adoeceu? A segunda que não conseguiu reorganizar sua rotina? O restante da família que não se adaptou? O problema está na incapacidade do sistema como um todo de se reorganizar diante de uma nova realidade.

A metáfora é exagerada e até trágica, mas ajuda a ilustrar como mudanças nos hábitos de uma parte do sistema podem afetar a saúde do conjunto. O mesmo ocorre com a pressão arterial: quando um sistema não funciona adequadamente, os demais também são impactados de formas complexas.

A observação de que múltiplos sistemas do organismo pareciam estar alterados simultaneamente levou Dra. Tatiane e seus colaboradores a uma reflexão importante: talvez o controle da pressão arterial não seja apenas um fenômeno complicado, mas sim complexo.

Pode parecer apenas uma diferença de palavras, mas, para os pesquisadores, existe uma distinção essencial entre algo “complicado” e algo “complexo”.

“Complexo é aquilo que está entrelaçado. A gente não consegue estabelecer claramente onde é o começo, onde é o fim ou quem causou o quê”, explica a pesquisadora. “Já um sistema complicado é aquele difícil de entender, mas no qual ainda é possível estabelecer relações claras.”

Durante a entrevista, Dra. Tatiane usou uma metáfora para ilustrar essa diferença.

Fazer uma macarronada é um processo complexo. Se uma pessoa te passa uma receita de macarronada, provavelmente o resultado não será idêntico ao dela. Isso porque há muitas variáveis envolvidas: a marca do macarrão, o tempo de cozimento, a quantidade de sal, a potência do fogão, entre outras. Nenhuma macarronada será exatamente igual à outra.

Por outro lado, montar um castelo de LEGO é um processo complicado. Pode ser difícil, mas, se todos seguirem o mesmo manual e utilizarem as mesmas peças, o resultado será praticamente idêntico.

Entender que o controle da pressão é algo complexo e não apenas complicado é muito mais do que uma escolha de palavras.

Durante décadas, a hipertensão foi estudada principalmente por meio de modelos matemáticos lineares, que funcionam muito bem para sistemas considerados complicados.

Nessa abordagem, os pesquisadores analisavam separadamente fatores como atividade do sistema nervoso simpático, funcionamento dos rins, hormônios, inflamação ou rigidez das artérias, buscando relações diretas de causa e efeito, como se fosse possível encontrar um único “culpado” pela hipertensão.

Essa abordagem permitiu avanços fundamentais no entendimento da doença e levou ao desenvolvimento de diversos medicamentos que salvaram milhões de vidas. No entanto, também possui limitações. Ao tratar cada mecanismo de forma isolada, torna-se mais difícil compreender como esses sistemas interagem entre si ao longo do tempo.

A visão da pressão arterial como um sistema complexo busca justamente ampliar essa perspectiva, utilizando novas ferramentas matemáticas capazes de analisar as múltiplas interações que ocorrem simultaneamente no organismo e que podem influenciar a evolução da hipertenção arterial.

Se a pressão arterial é um sistema complexo, surge uma pergunta natural: como estudar algo tão cheio de interações e influências mútuas? Foi justamente para responder a essa questão que pesquisadores começaram a recorrer à chamada teoria do caos.

Apesar do nome assustador, a teoria do caos não estuda bagunça ou desordem. Na verdade, ela busca compreender sistemas extremamente organizados, mas tão complexos que pequenas mudanças podem produzir consequências difíceis de prever. O conceito ganhou destaque a partir dos trabalhos do meteorologista Edward Lorenz, na década de 1960.

A partir dessas observações, surgiu uma importante discussão científica: sistemas complexos não podem ser compreendidos adequadamente apenas por modelos matemáticos lineares. Modelos lineares são aqueles que estabelecem uma conexão direta (uma linha) entre uma causa e um efeito.

Ou seja, modelos lineares são ótimos para analisar sistemas complicados, mas inadequados para interpretar sistemas complexos. Era necessário desenvolver ferramentas capazes de analisar uma rede de interações que se adapta constantemente. Foi nesse contexto que a teoria do caos se consolidou.

No caso da hipertensão resistente, a necessidade do uso de modelos não lineares já foi apontada diversas vezes por outros pesquisadores ao longo dos anos. Dra. Tatiane comenta: “A gente tem muitos artigos falando que precisamos usar o cálculo não linear, mas nunca é usado. Porque é realmente uma grande dificuldade, e eu acho que a gente conseguiu.”

Dra. Tatiane também destaca um achado importante: “Observamos que, quanto mais complexo o sistema está, mais saudável ele se encontra. Quanto mais linear e previsível ele se torna, mais associado ele está à doença.”

Em outras palavras, um coração saudável apresenta uma grande riqueza de padrões e respostas. Já em pacientes hipertensos, especialmente nos casos mais graves, essa diversidade parece diminuir progressivamente.

Pode parecer contraditório, mas um organismo excessivamente previsível não é necessariamente um organismo saudável.

Imagine um motorista experiente dirigindo por uma estrada. Ele ajusta constantemente a velocidade, a direção e a distância dos outros veículos conforme as condições mudam. Agora imagine um carro que só consegue manter uma única velocidade e uma única trajetória. Embora seu comportamento seja mais previsível, ele tem muito mais chances de se envolver em um acidente.

Algo semelhante parece ocorrer na hipertensão. Conforme os sistemas que controlam a pressão perdem flexibilidade, o sistema cardiovascular se torna mais rígido e menos capaz de responder adequadamente aos desafios do ambiente.

Chegar a essas conclusões, porém, exigiu superar um obstáculo pouco comum na área da saúde: a matemática.

“No primeiro ano do doutorado eu encontrei um cálculo que dizia ser capaz de identificar se um sistema era caótico ou não. O problema é que eu não fazia ideia de como calcular aquilo”, relembra Dra. Tatiane.

A dificuldade não estava apenas na matemática em si. Muitos dos métodos utilizados em estudos de dinâmica não linear foram desenvolvidos originalmente para áreas como física, engenharia e meteorologia. Raramente esses cálculos são apresentados de forma acessível para profissionais da saúde.

Alguns dos primeiros cálculos realizados durante a pesquisa dependeram de um software desenvolvido décadas atrás por um pesquisador norte-americano. Para funcionar nos computadores atuais, o programa exigia até mesmo a simulação de um ambiente do Windows 95.

Por isso, além de investigar a hipertensão resistente, a tese também teve um objetivo prático: aproximar essas ferramentas matemáticas da realidade clínica. Afinal, não adianta um método ser capaz de revelar informações importantes sobre a saúde cardiovascular se apenas especialistas em matemática conseguem utilizá-lo.

O desafio agora é transformar esses cálculos complexos em ferramentas simples o suficiente para que médicos e pesquisadores possam incorporá-los à rotina. Se isso acontecer, a teoria do caos poderá deixar de ser apenas um conceito matemático fascinante e se tornar uma aliada no entendimento e no tratamento da hipertensão resistente.

Um dos conceitos mais conhecidos da teoria do caos é o chamado “efeito borboleta”. O meteorologista Edward Lorenz observou como pequenas diferenças nas condições iniciais de um sistema podem gerar resultados completamente distintos no futuro.

Foi dele a famosa metáfora de que o bater das asas de uma borboleta no Brasil poderia, em determinadas circunstâncias, contribuir para a formação de um furacão no Texas.

A frase não deve ser interpretada literalmente. O que Lorenz queria mostrar é que, em sistemas complexos, pequenas mudanças podem desencadear grandes consequências.

Segundo Dra. Tatiane, esse conceito ajuda a compreender por que alguns pacientes com hipertensão resistente apresentam melhoras surpreendentes após mudanças aparentemente simples.

Na prática clínica, isso significa que nem sempre a solução está em adicionar mais medicamentos. Às vezes, um detalhe que parece pequeno pode ser justamente a peça que faltava para reorganizar todo o sistema.

A pesquisadora se recorda de uma paciente cuja pressão arterial permanecia elevada apesar de sucessivos ajustes no tratamento. Quando os exames revelaram níveis extremamente altos de sódio, a equipe chegou a suspeitar de erro laboratorial.

Após uma conversa mais profunda com a paciente, Dra. Tatiane descobriu algo surpreendente. A paciente afirmava que sua alimentação era normal e que não consumia muito sal. Durante a consulta, porém, Tatiane decidiu fazer perguntas mais específicas: “Quando a senhora vai ao mercado, quantos pacotes de sal compra?”

A resposta surpreendeu: dois pacotes por mês. A partir desse momento, a paciente recebeu orientações mais detalhadas sobre o consumo de sódio. Um mês depois, sua pressão arterial estava controlada.

Esse caso ajuda a ilustrar uma ideia central da pesquisa: quando lidamos com sistemas complexos, compreender os detalhes pode ser tão importante quanto enxergar o quadro geral. Afinal, às vezes, uma pequena mudança no ponto certo pode produzir efeitos muito maiores do que imaginamos.

Ao longo de seu doutorado, Tatiane transitou entre duas áreas que raramente conversam com facilidade: a medicina e a matemática. De um lado, pacientes enfrentando dificuldades para controlar a pressão arterial. De outro, cálculos complexos capazes de revelar padrões invisíveis aos métodos tradicionais de análise.

Mas, para ela, a pesquisa só faz sentido quando consegue atravessar essa distância. “Não adianta a gente ficar lá na pesquisa fazendo um cálculo muito difícil e o nosso paciente não ser beneficiado desse conhecimento que a gente traz”, afirma.

Muito além de gerar novos conhecimentos, Dra. Tatiane acredita que a ciência deve funcionar como uma ferramenta de transformação social. “Eu amo teoria, mas vejo que a gente precisa ser agente modificador. Modificar o pensamento de grãozinho em grãozinho para levar informação.”

Essa visão resume a mensagem central de sua pesquisa. Entender a hipertensão resistente como um sistema complexo exige novas formas de pensar, novas ferramentas de análise e novas perguntas. Mas, acima de tudo, exige que o conhecimento produzido nos laboratórios e universidades chegue às pessoas que convivem diariamente com a doença.

 

Para saber mais:

Hipertensão arterial (DOI: 10.1590/1413-81232020256.26972018)

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial (DOI: 10.36660/abc.20201238)

Hipertensão resistente

Hipertensão refratária

Publicação do grupo que propõe nova forma de interpretar parâmetros da hipertensão arterial (DOI: 10.1038/s41371-025-01028-2).

Teoria do caos

Saúde e o paradigma da complexidade

Teoria do caos aplicada à medicina

Mia Schezaro Ramos
Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar.