A experiência de fazer pesquisa no exterior vai muito além de aprender novas técnicas. Durante seu doutorado sanduíche na University of Reading, no Reino Unido, a doutoranda Ma. Nathalia Margarida Cantuária investiga uma pergunta que pode ajudar a explicar complicações de doenças crônicas: o que acontece quando o colágeno sofre oxidação? Nesta matéria, explicamos um pouco da pesquisa e contamos com a colaboração da Ma. Nathalia, que compartilha como tem sido sua vivência internacional.
Esta é a primeira matéria do Farmaco em Foco que conta com a colaboração de uma das alunas do nosso Programa de Pós-Graduação em Farmacologia (FCM-Unicamp): Ma. Nathalia Margarida Cantuária.
Ma. Nathalia realizou mestrado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Sorocaba. Hoje, em seu doutorado pela Unicamp, ela é orientada pelo Prof. Dr. Renato Simões Gaspar, do Laboratório de Matriz Extracelular. Seus estudos investigam como a oxidação do colágeno pode alterar a resposta de plaquetas e células endoteliais.
Atualmente, Ma. Nathalia realiza parte de seu doutorado na University of Reading, no Reino Unido, sob supervisão do Prof. Dr. Jonathan M. Gibbins, referência internacional em biologia plaquetária. O período no exterior é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), proporcionando à Nathalia o aprendizado de técnicas e a troca de experiências com pesquisadores de diferentes países.
A convite do Farmaco em Foco, Nathalia compartilha, a seguir, um relato sobre sua experiência na Inglaterra e sobre como viver e fazer ciência em outro país têm contribuído para sua formação como pesquisadora.
A experiência do Doutorado Sanduíche na Inglaterra (por Ma. Nathalia)

Em algum momento da trajetória acadêmica, muitos pós-graduandos sonham em viver a experiência de realizar parte de seus projetos de pesquisa no exterior.
E esse sonho vai além da oportunidade de conhecer outro país: é a possibilidade de enriquecer o currículo, trocar conhecimentos com diferentes pesquisadores e ampliar os horizontes. Viver essa experiência influencia não apenas a formação científica, mas também o crescimento pessoal. Afinal, dizem que só crescemos fora da nossa zona de conforto.
Além disso, é a chance de representar o seu país e mostrar que o Brasil é muito mais do que a mídia mostra. Essa é uma oportunidade de criar redes de contatos, fazer networking com pesquisadores de diferentes nacionalidades, aprender novos métodos e compartilhar diferentes percepções sobre como, onde e por que fazer pesquisa.
No Brasil, existem diferentes formas de conseguir financiamento para um período no exterior. As principais, no meio acadêmico, são as bolsas sanduíche financiadas pela CAPES, pelo CNPq e pelas Fundações de Amparo à Pesquisa de diferentes estados, como a FAPESP (bolsas BEPE). As regras variam conforme a agência financiadora, então é sempre importante consultar os editais e demais informações nos sites oficiais.
Sob a perspectiva acadêmica, desenvolver atividades de pesquisa em outro país proporciona um aprendizado enorme e uma experiência transformadora. Durante o período no exterior, temos contato com diferentes abordagens científicas, novos métodos, diferentes análises, outra visão sobre como representar os dados e, principalmente, diferentes formas de encarar o trabalho de fazer ciência e de como a cultura de cada povo pode influenciar isso.
Fazer pesquisa no exterior tira você completamente da sua zona de conforto. Por incrível que pareça, a barreira linguística é apenas um dos desafios. Além dela, é preciso compreender que cada cultura tem um olhar e uma razão diferentes para fazer pesquisa. Isso interfere na forma como os pesquisadores trabalham e como a sociedade enxerga e valoriza esses profissionais.
Essa diferença cultural é o que mais me chama a atenção durante este período em que estou na Inglaterra. Observo que o ambiente é mais leve e tranquilo do que no Brasil. Porém, é claro que existem outros lugares aqui que seguem um padrão mais tradicional, onde muito provavelmente essa minha perspectiva não se aplica.
Além disso, chama muito a minha atenção como a maioria dos pesquisadores organiza sua rotina no laboratório, dividindo o dia entre a execução de experimentos, a análise dos dados e a leitura de artigos.
Também observei, pelo menos neste ambiente onde estou, que os pesquisadores procuram separar a vida acadêmica da vida pessoal. Eles buscam respeitar os horários dentro do laboratório, focando no que precisam cumprir e valorizando o tempo fora dele.
Porém, eles também enfrentam dificuldades semelhantes às encontradas no Brasil, como a incerteza de conseguir uma vaga após o pós-doutorado, dificuldades na obtenção de financiamento e os famosos prazos.
Além da experiência acadêmica, a vivência fora do nosso país também é capaz de nos mudar completamente e contribuir para nosso crescimento pessoal. Afinal, a vida pessoal e a vida acadêmica podem até ser separadas na agenda, mas dificilmente você será capaz de separá-las dentro de você.
O choque cultural é gritante, principalmente para quem nunca saiu do país antes, como eu. Quem já fez uma viagem internacional a turismo ou para algum congresso científico pode até subestimar essa experiência. Mas, convenhamos, isso é muito diferente de vivenciar a rotina diária, aprender a utilizar o transporte, fazer compras no mercado, trabalhar e interagir com os moradores locais.
É na rotina que você vai se dar conta de que existe uma barreira cultural. É algo que eu não saberia explicar, nem se tentasse. Mas ela está lá, ela existe, e só essa experiência vai fazer você entender.

Para completar essa história, ainda há uma experiência que une o profissional e o pessoal: a oportunidade de conhecer pessoas do mundo todo. Para mim, esse é o ponto mais importante de todos. Ter a chance de conhecer e conversar com pessoas do mundo inteiro, de diferentes culturas, religiões e formas de enxergar o mundo, sejam elas do ambiente acadêmico ou não.
Conhecer diferentes culturas e pessoas amplia seus horizontes. Isso mostra que o mundo é mais complexo e, ao mesmo tempo, mais simples do que você imagina. Você vê que a gentileza existe, que amizades não precisam de barreiras geográficas e que a língua nunca foi um impedimento.
A experiência de viver fora faz você enxergar que o mundo é muito mais do que fronteiras e países. O mundo é feito de pessoas. E é isso que torna essa experiência completa e tão transformadora.
Quando também fiz ciência no Reino Unido
Agora quem volta a assumir o texto sou eu, Mia, a jornalista científica à frente deste blog.
Durante meu doutorado, também tive a oportunidade de realizar um período sanduíche (como chamamos o tempo de pesquisa realizado em outro país). Curiosamente, não fiquei muito longe de onde Nathalia está. Estive na University of Strathclyde, em Glasgow, na Escócia (também parte do Reino Unido, assim como a Inglaterra).
Assino embaixo de todas as experiências relatadas por Nathalia. Ouso dizer que nunca me senti tão brasileira quanto durante o período em que estive fora do país. As diferenças culturais eram tão marcantes que me fizeram reconhecer características tipicamente brasileiras em mim que eu nunca havia percebido antes.
O período não foi um mar de rosas, como muitas pessoas podem imaginar. Eu já havia viajado anteriormente para outros países, tanto a turismo quanto para congressos científicos. Inclusive, já havia ido sozinha para a Inglaterra para participar de um congresso.
Mas nada se compara a morar, estudar e trabalhar em outro país. Mesmo sendo fluente em inglês, essa não é minha língua nativa. Falar (e pensar) o dia todo em inglês me trazia um cansaço mental enorme. Sem contar o sotaque local, que muitas vezes parecia uma língua completamente diferente.
Mas, como Nathalia comentou, o mais chocante são as diferenças culturais. Algumas situações são curiosas e divertidas, como encontrar algo inusitado no mercado. Muitas vezes, porém, essas diferenças tornam a rotina mais pesada e me faziam sentir deslocada daquela realidade. São burocracias inesperadas, interações que parecem estranhas, obrigações que eu não compreendia, entre tantas outras situações.
As dificuldades ganham uma nova dimensão quando lembramos que somos latino-americanos. Muitos europeus ainda têm uma visão estereotipada ou preconceituosa sobre nós. Em alguns momentos, isso gerou situações bastante desagradáveis, que eu nunca havia vivenciado como turista.
Apesar dos obstáculos, para mim a experiência foi incrível. Nenhum ponto negativo supera os positivos. Talvez as próprias dificuldades tenham contribuído para que a experiência fosse tão transformadora. Afinal, diamantes só se formam sob pressão. Tive um enorme crescimento profissional e pessoal, que provavelmente demoraria muito mais tempo para alcançar se tivesse permanecido no Brasil (ou talvez nunca acontecesse). Voltei uma pessoa muito mais madura, e isso foi percebido tanto por mim quanto pelas pessoas à minha volta.
O inimigo invisível do colágeno

Voltando ao período sanduíche de Ma. Nathalia, gostaríamos de comentar um pouco sobre sua linha de pesquisa.
Ma. Nathalia estuda a oxidação do colágeno. Inclusive, recentemente publicou um artigo revisando tudo o que se sabe sobre o assunto até o momento. O trabalho foi publicado na revista Redox Report, em coautoria com o doutorando Felipe Caliani Mathias-Netto e seu orientador, Prof. Dr. Renato Simões Gaspar.
Quando ouvimos falar em colágeno, é comum associá-lo à pele, às rugas ou aos produtos de beleza. No entanto, essa proteína desempenha funções muito mais importantes no organismo. Ela é a principal responsável por dar sustentação aos tecidos, formando uma espécie de estrutura que mantém órgãos, músculos, tendões, cartilagens e vasos sanguíneos organizados.
Já falamos um pouco sobre o colágeno anteriormente na matéria “Colágeno glicado: o que o diabetes deixa nos vasos mesmo após o tratamento“, na qual discutimos projetos do Laboratório de Matriz Extracelular, coordenado pelo Prof. Renato. Naquela matéria, o foco foi a glicação do colágeno. Já Ma. Nathalia investiga outra alteração que essa proteína pode sofrer: a oxidação.
Assim como o ferro pode oxidar (ou, nesse caso, enferrujar) quando exposto ao oxigênio por longos períodos, o colágeno do nosso corpo também pode sofrer alterações químicas ao longo da vida devido à interação com espécies reativas de oxigênio.
As chamadas espécies reativas de oxigênio são moléculas altamente reativas produzidas naturalmente pelo organismo. Em condições normais, elas desempenham funções importantes para seu funcionamento, como a comunicação entre células e a defesa contra microrganismos.
O organismo possui mecanismos para neutralizar essas moléculas, chamados de sistemas antioxidantes. Por meio desses sistemas, as espécies reativas de oxigênio são transformadas em moléculas menos reativas. Em condições normais, os antioxidantes controlam essas espécies para evitar que elas se acumulem no organismo.
O problema surge quando a produção de espécies reativas de oxigênio aumenta excessivamente, como ocorre em algumas doenças, entre elas o diabetes e diversos tipos de câncer. Nesses casos, a produção ultrapassa a capacidade de neutralização pelos antioxidantes. Esse desequilíbrio é conhecido como estresse oxidativo.
Como as espécies reativas de oxigênio são altamente reativas, elas podem interagir com proteínas, lipídios e DNA, causando danos. No estresse oxidativo, há muito mais dessas moléculas do que o normal e, portanto, muito mais dano. Esse mecanismo pode estar por trás de diversas complicações observadas em doenças crônicas, como os problemas urinários associados ao diabetes.
O colágeno é uma proteína e, portanto, também é alvo das espécies reativas de oxigênio. Isso é especialmente importante porque o colágeno é extremamente duradouro. Uma mesma fibra de colágeno pode permanecer no organismo por mais de dez anos antes de ser substituída por uma nova.
Assim, o colágeno acumula os danos da oxidação por muito tempo, da mesma forma que uma âncora de ferro esquecida no fundo do oceano acumula ferrugem ao longo dos anos. Por isso, a oxidação do colágeno pode desempenhar um papel importante nas complicações de doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares, câncer e até mesmo condições associadas ao envelhecimento.
Então surgem diversas perguntas: será que essas modificações acumuladas pela oxidação alteram a estrutura do colágeno a ponto de comprometer sua função? Será que interferem em processos importantes para o funcionamento do organismo, como a comunicação entre células e o funcionamento dos tecidos? E qual é a magnitude desse impacto?
É isso que Ma. Nathalia, o Prof. Renato, o doutorando Felipe Caliani Mathias-Netto e a aluna de iniciação científica Mayara Grazielly Brito Rocio estão buscando descobrir.
Uma das principais questões levantadas por essa linha de pesquisa é se a oxidação do colágeno altera a forma como as plaquetas respondem às lesões nos vasos sanguíneos.
Em condições normais, o colágeno fica escondido abaixo da camada que reveste o interior dos vasos sanguíneos (o endotélio). Quando ocorre uma lesão no vaso, o colágeno é exposto ao sangue. Isso é muito importante, pois sinaliza a ativação das plaquetas e o início da coagulação. Esse processo é essencial para interromper sangramentos. Sem ele, sangraríamos incontrolavelmente sempre que nos machucássemos.
Os pesquisadores do Laboratório de Matriz Extracelular investigam se o colágeno oxidado se torna ainda mais capaz de ativar plaquetas do que o colágeno normal. Isso poderia ser um dos motivos pelos quais pacientes com doenças crônicas, nas quais há estresse oxidativo, apresentam maior risco de formação de trombos.
Trombos são coágulos de sangue que se formam dentro dos vasos sanguíneos. Eles podem dificultar ou até impedir a passagem do sangue, aumentando o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Dados preliminares do laboratório já indicam que as plaquetas agregam mais quando entram em contato com colágeno oxidado do que com colágeno não oxidado.
Além disso, o grupo do Prof. Renato também busca compreender como essa alteração pode afetar o endotélio, a camada interna dos vasos sanguíneos. Essa estrutura é fundamental para impedir a formação de coágulos em condições normais. Portanto, alterações no endotélio também podem contribuir para o maior risco de formação de trombos nas doenças crônicas mencionadas.
Compreender o envolvimento do colágeno oxidado na formação de trombos pode revelar novos alvos terapêuticos para reduzir o risco de eventos cardiovasculares.
A experiência de Ma. Nathalia mostra que a ciência é construída tanto no laboratório quanto nas trocas entre pesquisadores de diferentes culturas e instituições. Pesquisas como a sua ajudam a responder perguntas fundamentais sobre o funcionamento do organismo e podem contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias para prevenir e tratar doenças que afetam a saúde de milhões de pessoas.
As pesquisas divulgadas nessa matéria contaram com financiamento FAPESP (processos nº 22/05750-7 e 24/16379-3), CAPES (código de financiamento 001) e CNPq.
A presente matéria foi realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo nº 25/17158-3. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Para saber mais:
Laboratório de Matriz Extracelular (ECM Lab)
Colágeno oxidado (DOI: 10.1080/13510002.2026.2682046)
Ativação plaquetária (DOI: 10.1155/2016/9060143)
Estresse oxidativo e doenças crônicas (DOI: 10.3389/fphys.2020.00694)
Ativação plaquetária e colágeno oxidado (DOI: 10.1089/ars.2013.5337)
Autoria:

Mia Schezaro Ramos
Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar

Nathalia Margarida Cantuária
Farmacêutica. Mestra em Ciências Farmacêuticas e doutoranda em Farmacologia
Dá para sentir a alegria no olhar dela em cada foto! Parabéns e muito sucesso!
Siiiim! Concordo demais! Ela está transbordando alegria pela conquista.
minha filha meu orgulho minha maior realização
Parabéns!!!
Muito legal! Adorei saber mais sobre essa experiência que parece ser fantástica! Muito bom 🙂
Muito obrigada pelo apoio, Luiz! Muito bom sempre ter você por aqui!