Três estudantes do Ensino Médio passarão um ano conhecendo de perto como a ciência é feita dentro da universidade. A partir de setembro de 2026, eles irão circular por laboratórios do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Os alunos participarão de atividades experimentais supervisionadas, aprenderão a interpretar dados científicos e produzirão conteúdos de divulgação científica.

A proposta faz parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM) e busca aproximar os jovens dos conhecimentos da Farmacologia e das diferentes etapas envolvidas na produção, avaliação e comunicação da ciência.

O que acontece quando estudantes do Ensino Médio deixam de apenas aprender ciência nas aulas e nos livros e passam a vivenciar, na prática, como o conhecimento científico é produzido e divulgado?

É a partir dessa pergunta que o Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Unicamp desenvolverá um projeto de iniciação científica que receberá três estudantes do Ensino Médio da rede pública ao longo de 12 meses, entre setembro de 2026 e agosto de 2027.

O projeto é intitulado “Letramento científico em Farmacologia: da vivência em pesquisa experimental até a divulgação científica”. Ele integra o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM), financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenado pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Unicamp.

Os estudantes serão selecionados pela Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp (as inscrições já estão encerradas).

A proposta é coordenada pela Profa. Dra. Fabíola Zakia Mónica e conta com a colaboração de outros dez docentes: Dr. André Almeida Schenka, Dr. Cháriston André Dal Belo, Dr. Gabriel Forato Anhê, Dr. José Luiz da Costa, Dr. Luís Gustavo Romani Fernandes, Dra. Mariana Gonçalves de Oliveira, Dra. Natália Ferreira Mendes, Dra. Natalícia De Jesus Antunes, Dr. Renato Simões Gaspar e Dr. Stephen Hyslop.

A iniciativa também conta comigo, Dra. Mia Schezaro Ramos (jornalista científica e pesquisadora de pós-doutorado à frente deste blog). Sou a responsável pela idealização da proposta inicial, redação do projeto e sua coordenação, ao lado da Profa. Fabiola.

Da esquerda para direita. Primeira linha: as coordenadoras do projeto Profa. Dra. Fabíola Zakia Mónica e Dra. Mia Schezaro Ramos. Segunda linha: os colaboradores Prof. Dr. André Almeida Schenka, Prof. Dr. Cháriston André Dal Belo, Prof. Dr. Gabriel Forato Anhê, Prof. Dr. José Luiz da Costa e Prof. Dr. Luís Gustavo Romani Fernandes. Terceira linha: os colaboradores Profa. Dra. Mariana Gonçalves de Oliveira, Profa. Dra. Natália Ferreira Mendes, Profa. Dra. Natalícia De Jesus Antunes, Prof. Dr. Renato Simões Gaspar e Prof. Dr. Stephen Hyslop.

Como o próprio título do projeto sugere, seu principal objetivo é promover o letramento científico em Farmacologia. Para isso, os estudantes serão colocados em contato com diferentes etapas da construção do conhecimento científico, desde o entendimento de conceitos básicos até a participação em atividades experimentais supervisionadas, a interpretação de dados e conteúdos científicos e a divulgação científica.

Para que essa experiência seja possível, os estudantes contarão também com uma estrutura de apoio durante os 12 meses de participação. Isso inclui bolsa de R$ 300 mensais, acesso ao Restaurante Universitário para uma refeição por dia e transporte fretado da Unicamp (quando houver disponibilidade de linha).

Os bolsistas também poderão utilizar as bibliotecas da Universidade e terão acesso, em situações de emergência, aos serviços médico e odontológico do Centro de Saúde da Comunidade (CECOM). O programa prevê ainda seguro contra acidentes pessoais durante a participação no projeto.

Em uma época em que informações sobre saúde, medicamentos e alimentação circulam rapidamente pelas redes sociais, compreender ciência tornou-se uma habilidade cada vez mais importante.

Mas compreender ciência vai muito além de conhecer conceitos. Para se apropriar do conhecimento científico e aplicá-lo em seu cotidiano, faz-se necessário o letramento científico.

O letramento científico permite ao indivíduo compreender, interpretar e utilizar a ciência em diferentes contextos. Ele envolve entender como o conhecimento é produzido, validado e comunicado pela comunidade científica.

Em outras palavras, letramento científico não é simplesmente “saber ciência”. Memorizar conceitos ou fórmulas é importante, mas é apenas uma parte desse processo.

O letramento científico envolve uma compreensão mais ampla da atividade científica, o que permite que as pessoas interpretem informações, avaliem evidências e reflitam criticamente sobre questões relacionadas à ciência e à tecnologia. Trata-se de se apropriar do conhecimento científico para utilizá-lo na vida cotidiana e formar opiniões.

Para que o letramento científico seja promovido, ao longo do projeto, os estudantes serão incentivados a desenvolver algumas competências: a compreensão de conceitos científicos, o entendimento de como a pesquisa é realizada, a interpretação crítica de informações científicas e a capacidade de comunicar conhecimentos para diferentes públicos.

O projeto busca mostrar que a ciência não é um conjunto de verdades prontas e imutáveis. Pelo contrário, a ciência é um processo contínuo de investigação, análise e validação de evidências.

Entender como hipóteses são formuladas, como experimentos são conduzidos e como resultados são avaliados permitirá que os alunos não sejam somente figuras passivas, que recebem informações e as aceitam cegamente.

Essas habilidades permitem que as pessoas reflitam criticamente sobre as informações que recebem. Isso permite que elas detectem informações falsas (fake news) sem embasamento científico real. Além disso, também possibilita reconhecer os impactos sociais, tecnológicos e ambientais de assuntos de cunho científico.

Ao compreender como a ciência funciona e como o conhecimento científico é construído, as pessoas tornam-se mais preparadas para avaliar informações, posicionar-se diante de temas complexos e participar de discussões relevantes para a sociedade.

Dessa forma, promover o letramento científico significa criar oportunidades para que os estudantes aprendam a questionar, investigar, interpretar evidências e comunicar conhecimento, desenvolvendo competências que poderão ser aplicadas em diferentes aspectos de suas vidas, dentro e fora da escola.

A ciência pode até nascer em um laboratório, mas seus efeitos ultrapassam as paredes da universidade. Ela está presente em decisões aparentemente simples do cotidiano: na escolha de um medicamento, na compreensão de uma informação sobre alimentação, nas discussões sobre meio ambiente etc.

Especialmente nos tempos de hoje, nunca foi tão fácil encontrar informações. Uma busca na internet pode trazer, em poucos segundos, resultados de pesquisas, notícias, vídeos e publicações sobre praticamente qualquer assunto.

O acesso à informação aumentou significativamente, mas isso não quer dizer que também tenha aumentado a capacidade de avaliar criticamente aquilo que é encontrado. No caso de temas relacionados à Farmacologia, essa habilidade é especialmente importante, já que informações incorretas podem influenciar escolhas e comportamentos que afetam diretamente a saúde do indivíduo.

letramento científico / science literacy

Com o letramento científico adequado, começamos a nos perguntar: “Quem produziu essa informação?”, “Em que evidências ela se baseia?”, “Como aquele resultado foi obtido?” e “O que os dados realmente permitem concluir?”.

Com essas perguntas, podemos diferenciar uma informação científica real de uma informação falsa, “vendida” como científica. Afinal, compreender ciência também significa saber perguntar, desconfiar, verificar e interpretar.

Assim, o projeto de iniciação científica que será desenvolvido é tão relevante. Oferecer letramento científico em assuntos relacionados à saúde poderá afetar de forma positiva as decisões cotidianas que os alunos tomarão ao longo de suas vidas.

Para transformar o contato com a ciência em uma experiência de aprendizagem, o projeto foi organizado em três eixos que se complementam: vivência em laboratórios; formação científica; letramento e divulgação científica.

A proposta é que esses três eixos se conectem ao longo dos 12 meses. Assim, os estudantes terão contato com todas as etapas da produção e divulgação do conhecimento científico, desde o desenvolvimento de uma pesquisa até a comunicação da ciência para diferentes públicos.

A seguir, iremos explorar melhor cada um dos eixos.

No primeiro eixo, os estudantes terão a oportunidade de conhecer diferentes ambientes de pesquisa. Para isso, será realizada uma rotação mensal entre nove laboratórios do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia.

Todos os docentes colaboradores desse programa receberão os alunos em seus laboratórios. Os docentes também selecionaram monitores para acompanhar e supervisionar os alunos durante todo o período. Os monitores são mestrandos ou doutorandos dos próprios laboratórios, que inclusive serão remunerados por essa atuação.

A experiência também poderá contribuir para a formação dos próprios monitores. Eles terão a oportunidade de exercitar a comunicação científica para um público que não possui formação especializada, aprendendo a explicar conceitos, procedimentos e resultados de maneira clara e acessível. Além disso, a experiência irá aproximar os monitores das atividades de ensino e orientação.

Coordenadoras do projeto, docentes colaboradores e monitores em reunião de alinhamento no auditório do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Durante o período supervisionado em cada laboratório, os alunos acompanharão a rotina dos diferentes grupos de pesquisa, conhecerão diferentes linhas de investigação e poderão interagir com pesquisadores e estudantes de pós-graduação.

Vale ressaltar que, no primeiro mês do projeto, antes de iniciarem as atividades nos laboratórios, os estudantes passarão por um treinamento comigo, Dra. Mia. O treinamento abordará aspectos de segurança laboratorial. Ao longo do projeto, os estudantes não realizarão procedimentos invasivos nem participarão de experimentos com animais vertebrados ou seres humanos.

A variedade de laboratórios permitirá que os estudantes conheçam diferentes maneiras de fazer pesquisa em Farmacologia, entrando em contato com temas, técnicas e perguntas científicas distintas.

Além da experiência prática, os alunos passarão por formação científica em temas gerais de Farmacologia, assim como em temas específicos relacionados às linhas de pesquisa de cada laboratório.

O treinamento ajudará os estudantes a compreender questões centrais da atuação científica, como: “Por que e como os experimentos são realizados?”, “Como interpretar os resultados?” e “O que é possível concluir com esses dados?”.

Por isso, o segundo eixo reúne atividades teóricas e práticas sobre método científico, conceitos básicos de Farmacologia e Fisiologia, princípios envolvidos nos experimentos, organização e análise de dados, levantamento bibliográfico e ética em pesquisa.

A proposta não é apenas apresentar aos estudantes técnicas laboratoriais. Ao observar um experimento, analisar seus resultados ou discutir uma pesquisa, eles também serão estimulados a compreender as perguntas que orientam a investigação, as etapas utilizadas para buscar respostas e a maneira como os dados podem ser interpretados.

O terceiro eixo busca conectar tudo o que é aprendido nos eixos 1 e 2 com a realidade dos alunos, tanto por meio da aplicação do conhecimento no cotidiano quanto pela atuação como divulgadores de ciência.

Os alunos serão capacitados para interpretar conteúdos científicos, identificar desinformação, reconhecer a relevância de descobertas e compreender como elas podem ser aplicadas à tomada de decisões cotidianas relacionadas à saúde.

Esse eixo também amplia a experiência para além da produção do conhecimento e aborda uma etapa fundamental: “como comunicar ciência?”. Nesse contexto, os estudantes passarão por treinamento em divulgação científica comigo, Dra. Mia. Eu também atuarei como mentora e editora de todo o conteúdo produzido por eles.

Ao aprender a comunicar ciência, os estudantes também aprofundam a própria compreensão sobre aquilo que estudaram. Afinal, para transformar um conceito, experimento ou resultado científico em uma explicação acessível, é necessário saber selecionar as informações mais importantes, organizar as ideias de forma clara e refletir sobre como apresentar determinado conteúdo.

Nesse processo, o estudante deixa de ser apenas um receptor do conhecimento e passa a atuar como seu intérprete e comunicador. Assim, ensinar também se torna uma forma de aprender.

Treinar os alunos para divulgar ciência tem ainda outra vantagem: o projeto deixa de se limitar aos três alunos selecionados para participar da iniciativa e passa a atingir um público maior.

Os alunos produzirão conteúdos de divulgação científica para as redes sociais do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e também para o blog Farmaco em Foco. Isso permitirá que eles compartilhem com outras pessoas o conhecimento adquirido durante o projeto.

A ciência aprendida no laboratório precisa voltar para a sociedade. Precisa ser transformada em conhecimento compreensível, criticamente interpretado e socialmente compartilhado.

Assim, o projeto não se restringirá a promover o letramento científico dos três alunos do Ensino Médio. Ele também se preocupa em fortalecer a cultura científica, buscando alcançar mais pessoas por meio da divulgação científica.

Outro trunfo de os estudantes atuarem como divulgadores científicos é que eles trarão suas próprias perspectivas para esse trabalho. Por terem idade e escolaridade semelhantes às de muitos dos potenciais leitores, eles podem reconhecer com maior facilidade quais dúvidas, assuntos e abordagens são mais relevantes para pessoas com perfil semelhante ao deles.

Essa proximidade pode ajudar a construir conteúdos mais adequados ao público jovem, tanto na escolha dos temas quanto na linguagem utilizada para apresentá-los.

Em vez de pensar apenas no que é importante do ponto de vista de quem produz a pesquisa, os estudantes também poderão se perguntar: “O que alguém da minha idade gostaria de saber sobre isso?”, “O que pode ser difícil de entender?” e “Como eu explicaria esse assunto para um colega?”.

Como comentado anteriormente, ao longo do projeto, os estudantes terão a oportunidade de conhecer diferentes laboratórios e linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia.

A experiência permitirá perceber que a Farmacologia é uma área ampla, que reúne diferentes temas, métodos e formas de investigar como o organismo funciona e como substâncias podem produzir efeitos sobre ele.

Em um dos laboratórios, por exemplo, os estudantes vão aprender a observar tecidos e órgãos ao microscópio. Eles terão contato com técnicas que permitem visualizar detalhes que não são visíveis a olho nu.

Em outro, poderão conhecer a Neurofarmacologia, área que estuda como medicamentos e substâncias químicas afetam o funcionamento do sistema nervoso e influenciam o comportamento. Para isso, participarão de atividades com baratas, observando, por exemplo, como esses animais exploram o ambiente e aprendem a reconhecer cheiros.

Também haverá experiências relacionadas a temas mais próximos de situações do cotidiano. Os estudantes poderão aprender sobre medicamentos e seu funcionamento, incluindo a importância do descarte correto de produtos farmacêuticos. Além disso, eles irão conhecer aspectos relacionados ao metabolismo, à obesidade e ao uso de medicamentos para controle do peso. Eles também poderão estudar a alergia a venenos de insetos e a imunoterapia.

Ao circular por diferentes grupos de pesquisa, os estudantes poderão perceber que não existe uma única maneira de fazer ciência. Uma pergunta científica pode exigir microscópios, análises bioquímicas, registros fisiológicos, interpretação de gráficos ou observação de comportamentos. Em todos esses casos, é necessário formular perguntas, reunir evidências, analisar resultados e construir interpretações.

A expectativa do projeto é que os três estudantes desenvolvam ferramentas para olhar a ciência de forma mais crítica e participativa. Com o letramento científico, eles poderão levar essa experiência para muito além dos laboratórios. Mais do que uma introdução à pesquisa científica, o projeto pretende mostrar aos jovens que compreender e comunicar ciência também são formas de participar ativamente da sociedade.

Para saber mais:

ARAÚJO, M. G. Promovendo o letramento científico no Ensino Médio: desafios e perspectivas educacionais. Cadernos Cajuína, São Paulo, v. 10, n. 1, e856, mar. 2025. DOI: 10.52641/cadcajv10i1.856

CABRAL, W. A. Alfabetização científica e letramento científico: caminhos possíveis para o ensino de ciências. Revista de Educação, Ciências e Matemática, Duque de Caxias, v. 11, n. 3, dez. 2021.

MACÊDO, M. W.; VALE-SILVA, P. Letramento científico na escola: potencial formativo da feira de ciências. Revista Nova Paideia, Brasília, v. 6, n. 1, p. 4–28, abr. 2024. DOI: 10.36732/riep.v6i1.337.

SOUSA, G. M. R. Letramento científico no contexto escolar: um olhar descendente para a produção do artigo de divulgação científica no Ensino Médio. 2022. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Linguística, João Pessoa, 2022.

SOUSA, L. Q. Letramento científico no Ensino Médio Integrado: olhares e perspectivas discentes do curso técnico em administração de uma Escola Estadual da Paraíba. 2024. Dissertação (Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica) – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano, Campus Salgueiro, 2024.

SOUZA, T. T.; STROHSCHOEN, A. A. G. O letramento científico e práticas dos professores de Biologia do Ensino Médio. Lajeado: Centro Universitário UNIVATES, Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências Exatas, 2014.

Mia Schezaro Ramos
Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Jornalista científica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exercício físico para não pirar