{"id":723,"date":"2026-04-24T11:27:49","date_gmt":"2026-04-24T14:27:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/?p=723"},"modified":"2026-05-04T11:44:54","modified_gmt":"2026-05-04T14:44:54","slug":"etica-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/2026\/04\/24\/etica-animais\/","title":{"rendered":"\u00c9tica no uso de animais na pesquisa: limites, avan\u00e7os e dilemas atuais"},"content":{"rendered":"\n<p>O uso de animais na pesquisa cient\u00edfica ainda levanta d\u00favidas e controv\u00e9rsias. Esse debate envolve quest\u00f5es pol\u00eamicas a respeito da dor e do bem-estar dos animais. Mas como equilibrar a necessidade cient\u00edfica com a responsabilidade \u00e9tica? Para entender mais sobre o assunto, o Farmaco em Foco entrevistou o Prof. Dr. Stephen Hyslop, pesquisador e consultor da Comiss\u00e3o de \u00c9tica no Uso de Animais (CEUA) da UNICAMP.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-19b1a1443436c6ab6f9e718f527ed13e\">Uma carreira entre toxinas e decis\u00f5es \u00e9ticas<\/h2>\n\n\n\n<p>O <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8655386938955187\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8655386938955187\" rel=\"noreferrer noopener\">Prof. Stephen Hyslop<\/a> \u00e9 docente da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas (FCM) da UNICAMP, onde tamb\u00e9m \u00e9 credenciado no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/farmacologia-da-unicamp\/\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/farmacologia-da-unicamp\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Farmacologia<\/a>. Formado em Bioqu\u00edmica e Zoologia pela Universidade de Leeds e doutor em Fisiologia pela Universidade de Londres, o Prof. Stephen construiu sua carreira dedicada a uma \u00e1rea chamada <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">toxinologia<\/mark>.<\/p>\n\n\n\n<p>A <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">toxinologia<\/mark> \u00e9 o estudo da a\u00e7\u00e3o de <strong>venenos e toxinas produzidos por organismos vivos<\/strong>, como animais, plantas, fungos e bact\u00e9rias. No caso do Prof. Stephen, seu foco est\u00e1 em serpentes, escorpi\u00f5es, aranhas, abelhas e vespas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria, o Prof. Stephen tamb\u00e9m ocupou papel relevante como <strong>membro<\/strong> e, hoje, <strong>consultor<\/strong> da <a href=\"https:\/\/www.ib.unicamp.br\/comissoes\/ceua_principal\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.ib.unicamp.br\/comissoes\/ceua_principal\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Comiss\u00e3o de \u00c9tica no Uso de Animais (CEUA) da UNICAMP<\/a>. Dentro do CEUA, ele participa da avalia\u00e7\u00e3o de projetos e contribui para o cumprimento das normas que regulam a experimenta\u00e7\u00e3o animal no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta como iniciou sua atua\u00e7\u00e3o dentro da comiss\u00e3o do CEUA: \u201cEu estou nessa comiss\u00e3o h\u00e1 muito tempo, quase desde o in\u00edcio. Eu acabei entrando nesta comiss\u00e3o por indica\u00e7\u00e3o, porque as diferentes unidades que usam animais na Unicamp precisam ter um representante l\u00e1. Naquela \u00e9poca, precis\u00e1vamos de algu\u00e9m para representar a FCM.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen tamb\u00e9m comenta sua posi\u00e7\u00e3o atual: \u201cHoje em dia tem outras pessoas que tamb\u00e9m representam ou j\u00e1 representaram a FCM nessa comiss\u00e3o. Mas eu continuo l\u00e1 como consultor ad hoc, como algu\u00e9m para ajudar em momentos mais necess\u00e1rios.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-74cf8271a8196e756c4a0ccf7d851131\">O que define quais animais s\u00e3o protegidos na ci\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/43-1024x576.png\" alt=\"\u00e9tica no uso de animais na pesquisa Ethics in use of animals in research\" class=\"wp-image-726\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/43-980x551.png 980w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/43-480x270.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando se fala em uso de animais na pesquisa cient\u00edfica, nem todos s\u00e3o tratados da mesma forma. As diretrizes que orientam o uso de animais em laborat\u00f3rio est\u00e3o, em sua maioria, voltadas para <strong>animais vertebrados<\/strong>. Ou seja, aqueles animais com coluna vertebral, como peixes, anf\u00edbios, r\u00e9pteis, aves e mam\u00edferos.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta: \u201cToda a legisla\u00e7\u00e3o que a gente tem no Brasil est\u00e1 voltada essencialmente para animais vertebrados. <strong>N\u00e3o existe uma legisla\u00e7\u00e3o, nem no Brasil nem no exterior, em rela\u00e7\u00e3o a invertebrados<\/strong>. Ent\u00e3o, o uso de animais de laborat\u00f3rio, de experimenta\u00e7\u00e3o, requer v\u00e1rias considera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se aplicam necessariamente a invertebrados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que considerar o uso \u00e9tico apenas de vertebrados? Como a legisla\u00e7\u00e3o referente ao uso de animais na pesquisa foca em diminuir <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">dor e sofrimento<\/mark><\/strong>, parece fazer sentido que os animais vertebrados sejam os principais protegidos. Afinal, esses animais apresentam um <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">sistema nervoso mais complexo<\/mark><\/strong> e muito do que sabemos sobre dor e sofrimento animal est\u00e1 relacionado ao grau de desenvolvimento do sistema nervoso. Nesse contexto, a legisla\u00e7\u00e3o busca estabelecer limites e crit\u00e9rios para o uso \u00e9tico de vertebrados em experimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ainda h\u00e1 um grupo de invertebrados cujo uso em pesquisa \u00e9 controlado por legisla\u00e7\u00e3o: <strong>as lulas e os polvos<\/strong>. Esses animais t\u00eam o sistema nervoso central altamente desenvolvido, com grande complexidade e evid\u00eancias de elevada capacidade cognitiva (intelig\u00eancia). Isso levanta preocupa\u00e7\u00f5es sobre sua habilidade de perceber a dor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-338ad6e6dba03d11d68d31962625e4cd\">Dor: o alarme do corpo que ningu\u00e9m gosta, mas todo mundo precisa<\/h2>\n\n\n\n<p>Para entender por que a dor ocupa um papel central nas discuss\u00f5es sobre \u00e9tica no uso de animais, \u00e9 preciso primeiro compreender o que ela \u00e9 e como funciona no corpo. Longe de ser apenas uma sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, a dor \u00e9 um mecanismo para detectar <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\"><strong>est\u00edmulos aversivos<\/strong><\/mark>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">Est\u00edmulos aversivos<\/mark><\/strong> s\u00e3o aqueles que provocam desconforto ou representam alguma amea\u00e7a, por exemplo, muito calor ou press\u00e3o. Quando entramos em contato com esses est\u00edmulos, sentimos <strong>dor<\/strong>. A dor nada mais \u00e9 que um sinal enviado pelo sistema nervoso. \u00c9 a forma que nossos nervos encontraram de dizer \u201cCUIDADO!\u201d, para que tenhamos uma rea\u00e7\u00e3o de nos proteger.<\/p>\n\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o da dor envolve uma <strong>rede complexa de estruturas e mediadores qu\u00edmicos<\/strong>. Tudo come\u00e7a com a <strong>ativa\u00e7\u00e3o de termina\u00e7\u00f5es nervosas<\/strong> (extremidades dos neur\u00f4nios do sistema nervoso) espec\u00edficas. No caso da dor, essas termina\u00e7\u00f5es s\u00e3o chamadas de <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">nociceptores<\/mark><\/strong>. Os nociceptores est\u00e3o espalhados pela pele, m\u00fasculos e \u00f3rg\u00e3os, atuando como sensores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os nociceptores s\u00e3o ativados quando detectam algo que pode causar dano.<\/strong> Quando isso acontece, eles enviam os sinais at\u00e9 o c\u00e9rebro atrav\u00e9s de <strong>fibras nervosas<\/strong>. As fibras s\u00e3o como os cabos de energia que conectam o interruptor (nociceptores) at\u00e9 a l\u00e2mpada (c\u00e9rebro).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/44-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-727\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/44-980x551.png 980w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/44-480x270.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><mark style=\"background-color:#ffffff\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">A nocicep\u00e7\u00e3o: como fibras nervosas sensoriais s\u00e3o estimuladas e transmitem o sinal at\u00e9 o c\u00e9rebro, causando a dor (fonte: WikiCommons).<\/mark><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante todo o percurso entre nociceptores e c\u00e9rebro, os neur\u00f4nios do nosso corpo se comunicam por meio da libera\u00e7\u00e3o e do reconhecimento de <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">mediadores qu\u00edmicos<\/mark><\/strong>, como <strong>glutamato e subst\u00e2ncia P<\/strong>. Eles funcionam como cartas enviadas entre um neur\u00f4nio e outro, avisando: \u201cEi, estamos com um problema aqui! Parece que o Z\u00e9 colocou o ded\u00e3o no fogo e vai se queimar feio se n\u00e3o fizermos nada. Mande esse recado para a frente at\u00e9 chegar ao c\u00e9rebro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9rebro \u00e9 capaz de receber diferentes est\u00edmulos e traduzi-los em sensa\u00e7\u00f5es, como calor, sabor doce ou um cheiro espec\u00edfico, entre outros. No caso dos sinais enviados pelos nociceptores, <strong>o c\u00e9rebro os traduz como sensa\u00e7\u00e3o de dor<\/strong>. Voc\u00ea deve estar pensando: \u201cPoxa, mas precisava traduzir para algo t\u00e3o ruim?\u201d Acontece que a dor precisa ser um sinal altamente desconfort\u00e1vel para o nosso corpo. S\u00f3 assim reagimos rapidamente e n\u00e3o ficamos calmos e parados enquanto queimamos o dedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, quando tocamos no metal quente de uma panela que estava no fogo, o corpo produz dor para afastarmos a m\u00e3o imediatamente. Se pisamos em algo pontiagudo por acidente, sentimos dor para levantar o p\u00e9 o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, antes que nos machuquemos mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A dor desempenha um papel fundamental na sobreviv\u00eancia. Imagine se n\u00e3o sent\u00edssemos dor: estar\u00edamos constantemente nos ferindo mais e mais. Al\u00e9m disso, a dor tamb\u00e9m contribui para <strong>processos de aprendizado<\/strong>, ajudando o organismo a reconhecer e evitar situa\u00e7\u00f5es semelhantes no futuro. Se voc\u00ea j\u00e1 levou uma <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/2026\/03\/12\/imunoterapia-vespas\/\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/2026\/03\/12\/imunoterapia-vespas\/\" rel=\"noreferrer noopener\">picada de uma vespa<\/a>, deve ter muito mais cuidado para n\u00e3o acontecer de novo, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-99a782d4cc4afeb465cec2bd728b0881\">Insetos sentem dor?<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Saber qual animal sente ou n\u00e3o sente dor n\u00e3o \u00e9 uma tarefa t\u00e3o simples assim. Isso depende do conhecimento cient\u00edfico dispon\u00edvel.<\/strong> Prof. Stephen comenta: \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil avaliar dor em vertebrados. Isso porque eles apresentam as estruturas do sistema nervoso e os mediadores que a gente sabe que participam da dor. <strong>Eles s\u00e3o muito mais conhecidos em vertebrados do que em invertebrados<\/strong>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de insetos e outros invertebrados sentirem dor \u00e9 amplamente debatida na ci\u00eancia. <strong>Muitos acreditam que esses animais n\u00e3o seriam capazes de experimentar dor \u201cde verdade\u201d, mas apenas reagir a est\u00edmulos nocivos.<\/strong> Moscas-das-frutas e baratas, por exemplo, ao entrarem em contato com superf\u00edcies muito quentes, fogem rapidamente. Antes, era praticamente unanime entre cientistas de que isso era apenas uma resposta autom\u00e1tica, sem sofrimento envolvido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/45-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-728\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/45-980x551.png 980w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/45-480x270.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>No entanto, estudos mais recentes est\u00e3o desafiando essa vis\u00e3o. Pesquisas mostram que alguns insetos apresentam comportamentos complexos, como a forma\u00e7\u00e3o de \u201cmem\u00f3ria\u201d ap\u00f3s experi\u00eancias negativas. Por exemplo, abelhas aprendem a evitar locais onde receberam choques el\u00e9tricos leves anteriormente. J\u00e1 baratas e gafanhotos podem esfregar ou proteger partes do corpo que foram lesionadas, para n\u00e3o as machucar ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses comportamentos podem indicar que, embora o sistema nervoso dos insetos seja mais simples que o dos vertebrados, suas respostas a danos podem ser mais complexas do que meras rea\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas. Diante desse cen\u00e1rio, o debate permanece aberto. Cada nova evid\u00eancia contribui para repensar os limites \u00e9ticos no uso desses animais na ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta: \u201cEventualmente, <strong>pode ter outras vias de sinaliza\u00e7\u00e3o ou redes neurais em invertebrados que possam estar associados \u00e0 dor<\/strong>. Mas, geralmente, o que \u00e9 conhecido de vertebrados \u00e9 transferido para invertebrados para dizer se sentem ou n\u00e3o sentem dor. Por enquanto, esse \u00e9 o padr\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-53be85e3771ffd3020e55e7c0d166005\">O futuro da \u00e9tica<\/h2>\n\n\n\n<p>Se hoje a maior parte das legisla\u00e7\u00f5es est\u00e1 centrada na prote\u00e7\u00e3o de animais vertebrados, <strong>o cen\u00e1rio pode estar prestes a mudar<\/strong> em resposta ao aumento das evid\u00eancias sobre a complexidade de alguns invertebrados. Cada vez mais cresce o uso desses animais em diferentes contextos, desde a alimenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 a pesquisa. Assim, surgiu tamb\u00e9m a necessidade de refletir sobre o uso \u00e9tico desses organismos.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta: \u201cEu acho que no futuro vamos ter leis sobre o uso \u00e9tico de invertebrados. Inclusive, vemos muito o uso de insetos para consumo em v\u00e1rios pa\u00edses, tanto para consumo humano quanto como fonte de prote\u00ednas para ra\u00e7\u00e3o de animais dom\u00e9sticos. Ent\u00e3o, a Uni\u00e3o Europeia j\u00e1 tem legisla\u00e7\u00e3o que trata do bem-estar da cria\u00e7\u00e3o de insetos. E eu acho que n\u00e3o vai demorar muito para que apare\u00e7a algo relacionado ao uso cient\u00edfico desses animais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os invertebrados s\u00e3o utilizados na pesquisa cient\u00edfica por apresentarem <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\"><strong>vantagens pr\u00e1ticas e experimentais<\/strong><\/mark>. Por exemplo, representam menor custo de manuten\u00e7\u00e3o, se reproduzem facilmente e, pela aus\u00eancia de legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, seu uso exige menor complexidade regulat\u00f3ria do que o de vertebrados. Essas caracter\u00edsticas permitem a realiza\u00e7\u00e3o de estudos em larga escala e com maior rapidez.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos princ\u00edpios \u00e9ticos para o uso de animais na pesquisa \u00e9 a prefer\u00eancia por esp\u00e9cies consideradas <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">menos sencientes<\/mark><\/strong>, ou seja, com menor capacidade de experimentar dor e sofrimento. Sempre que poss\u00edvel, recomenda-se, por exemplo, <strong>substituir vertebrados por invertebrados<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 mesmo entre vertebrados essa abordagem \u00e9 recomendada: <strong>deve-se substituir um vertebrado mais complexo<\/strong> (como ratos e camundongos) <strong>por outro menos complexo<\/strong> (como peixes). Essa l\u00f3gica estimulou pesquisadores a come\u00e7arem a utilizar o <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">peixe-zebra (zebrafish)<\/mark><\/strong> em seus experimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta que isso n\u00e3o \u00e9 isento de debates: \u201cTem pessoas que acham que o zebrafish n\u00e3o \u00e9 um modelo alternativo, porque voc\u00ea continua usando vertebrados. Ent\u00e3o esse \u00e9 um ponto de atrito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-52cbc7dda3ca7636787a0b7af0c3b2fd\">O uso de animais na pesquisa ainda \u00e9 necess\u00e1rio?<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas, afinal de contas, <strong>o uso de animais na pesquisa \u00e9 realmente necess\u00e1rio?<\/strong> A resposta envolve uma an\u00e1lise cuidadosa que considera crit\u00e9rios \u00e9ticos e a exist\u00eancia de <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">m\u00e9todos alternativos<\/mark><\/strong>. Com o avan\u00e7o de novas tecnologias, cresce a possibilidade de <strong>substituir o uso de animais<\/strong>. Ainda assim, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que a complexidade de um organismo vivo completo n\u00e3o pode ser totalmente reproduzida em laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os principais m\u00e9todos alternativos ao uso de animais na pesquisa est\u00e3o os <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">ensaios <em>in vitro<\/em><\/mark><\/strong>, como a <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">cultura celular<\/mark><\/strong>. Os m\u00e9todos <em>in vitro<\/em> (do latim &#8220;em vidro&#8221;) abrangem experimentos realizados fora de um organismo vivo, como em tubos de ensaio ou placas de cultura. J\u00e1 a cultura celular consiste no cultivo de c\u00e9lulas em laborat\u00f3rio, permitindo estudar processos biol\u00f3gicos, testar subst\u00e2ncias e avaliar toxicidade de forma controlada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/46-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-729\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/46-980x551.png 980w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/46-480x270.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><mark style=\"background-color:#ffffff\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">Cultura de c\u00e9lulas de linhagem 4T1: modelo animal para o c\u00e2ncer de mama humano em est\u00e1gio IV.<\/mark><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen explica o cen\u00e1rio atual: \u201cSe a gente olhar as recomenda\u00e7\u00f5es internacionais e no Brasil, primeiro devemos ver se existe algum m\u00e9todo alternativo ao uso de animais. Mas esse m\u00e9todo alternativo tem que ser um m\u00e9todo j\u00e1 bem padronizado, reconhecido e aceito. Ele tem que ser fidedigno e representar aquilo que seria avaliado em animais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen exemplifica casos em que n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9todos alternativos: \u201cPor exemplo, projetos que prop\u00f5em investigar uma subst\u00e2ncia que tem a possibilidade de reduzir um quadro de hipertens\u00e3o. Voc\u00ea tem que ter um modelo em que \u00e9 poss\u00edvel avaliar a press\u00e3o arterial. Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer nem em cultura celular, nem <em>in vitro<\/em>. <strong>Voc\u00ea precisa do animal intacto<\/strong>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tamb\u00e9m acrescenta outro exemplo: \u201cOu quem trabalha com a indu\u00e7\u00e3o de tumores em animais. Isso tamb\u00e9m requer os animais. \u00c9 dif\u00edcil de reproduzir <em>in vitro<\/em>. E outros sistemas. Porque a vantagem de usar o animal \u00e9 que voc\u00ea tem o organismo, digamos assim, intacto. O organismo completo que d\u00e1 pra voc\u00ea ver as v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es que ocorrem devido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns experimentos s\u00e3o considerados <em>in vitro<\/em>, mas utilizam <strong>amostras de animais<\/strong>. Eles s\u00e3o chamados de <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">experimentos com prepara\u00e7\u00f5es isoladas<\/mark><\/strong>, pois utilizam tecidos ou \u00f3rg\u00e3os retirados de humanos ou animais. Por exemplo, no estudo da contra\u00e7\u00e3o de vasos sangu\u00edneos podem ser utilizadas art\u00e9rias removidas de animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta sobre esses m\u00e9todos: \u201cSe voc\u00ea vai avaliar, por exemplo, a atividade dos vasos, voc\u00ea vai de alguma forma ter que sacrificar o animal para obter esse vaso para fazer o estudo <em>in vitro<\/em>. Ou \u00e0s vezes a gente precisa de determinado tipo de c\u00e9lulas inflamat\u00f3rias. O estudo fora do animal. Ent\u00e3o isso tamb\u00e9m \u00e9 o uso de animais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que muitas pesquisas ainda dependam do uso de animais, j\u00e1 existem \u00e1reas em que modelos alternativos prevalecem. Um exemplo importante \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de <strong>anticorpos monoclonais por cultura de c\u00e9lulas<\/strong>, amplamente utilizada na pesquisa e na produ\u00e7\u00e3o de medicamentos. Essa t\u00e9cnica foi desenvolvida na d\u00e9cada de 1970 pelo pesquisador argentino <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/C%C3%A9sar_Milstein\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/C%C3%A9sar_Milstein\" rel=\"noreferrer noopener\">C\u00e9sar Milstein<\/a>, em parceria com <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Georges_K%C3%B6hler\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Georges_K%C3%B6hler\" rel=\"noreferrer noopener\">Georges K\u00f6hler<\/a>. O impacto da descoberta foi t\u00e3o significativo que rendeu aos cientistas o Pr\u00eamio Nobel.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen traz outros exemplos: \u201cEm estudos de citotoxicidade \u00e9 poss\u00edvel usar cultura de c\u00e9lulas. Seja para quest\u00f5es de tecido card\u00edaco, tecido renal ou at\u00e9 tecido neuronal, algumas coisas j\u00e1 podem ser feitas em c\u00e9lulas.\u201d Citotoxicidade \u00e9 a capacidade de uma subst\u00e2ncia causar dano ou morte \u00e0s c\u00e9lulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra frente importante na redu\u00e7\u00e3o do uso de animais \u00e9 o avan\u00e7o das <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">abordagens computacionais<\/mark><\/strong>. Hoje, ferramentas de simula\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia artificial permitem prever o comportamento de mol\u00e9culas sem a necessidade imediata de animais. Esses m\u00e9todos possibilitam, por exemplo, desenhar novas mol\u00e9culas e avaliar, em ambiente virtual, sua afinidade com determinados receptores, sua estabilidade e at\u00e9 potenciais efeitos t\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, essa etapa funciona como um <strong>filtro inicial<\/strong>. Apenas as mol\u00e9culas mais promissoras seguem para testes <em>in vitro<\/em> e, posteriormente, para estudos em animais e em humanos (ensaios cl\u00ednicos). Esse fluxo \u00e9 amplamente adotado na ind\u00fastria farmac\u00eautica, contribuindo para tornar o processo de desenvolvimento mais eficiente e \u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-6ce8bf8bdd5efb71463b3ede1b37eea5\">Como funciona a aprova\u00e7\u00e3o \u00e9tica de pesquisas com animais<\/h2>\n\n\n\n<p>Antes que um estudo envolvendo animais possa sequer come\u00e7ar, ele precisa passar por um <strong>processo rigoroso de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica<\/strong>. Essa an\u00e1lise envolve uma s\u00e9rie de crit\u00e9rios e procedimentos que buscam garantir que o uso de animais seja justificado, respons\u00e1vel e conduzido com o m\u00e1ximo cuidado poss\u00edvel. <strong>Somente ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o da <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">Comiss\u00e3o de \u00c9tica no Uso de Animais (CEUA)<\/mark>, a pesquisa pode ser iniciada<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen explica a primeira etapa do processo junto ao CEUA da UNICAMP: \u201cO pesquisador de interesse, primeiro, tem que fazer um <strong>curso on-line do CEUA<\/strong>, pra, pelo menos, ter umas no\u00e7\u00f5es gerais dos princ\u00edpios \u00e9ticos envolvidos em pesquisa. Sem esse certificado, \u00e9 imposs\u00edvel mandar um projeto pro CEUA pra ser analisado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s isso, o pesquisador deve preencher um formul\u00e1rio descrevendo o projeto de pesquisa e envi\u00e1-lo ao CEUA. Nesse documento, s\u00e3o detalhadas diversas informa\u00e7\u00f5es relevantes ao uso \u00e9tico de animais na pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O formul\u00e1rio deve incluir <strong>informa\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia da equipe de pesquisa envolvida<\/strong>. Exige-se a comprova\u00e7\u00e3o de capacita\u00e7\u00e3o dos pesquisadores. Eles devem ter experi\u00eancia nos experimentos envolvendo os animais, a fim de n\u00e3o causarem sofrimento desnecess\u00e1rio ou perda dos animais, por exemplo, por falta de habilidade na realiza\u00e7\u00e3o de algum procedimento cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os primeiros itens do formul\u00e1rio, o pesquisador deve <strong>justificar por que precisa usar animais em sua pesquisa<\/strong>. Neste momento, ele deve demonstrar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel utilizar m\u00e9todos alternativos, como cultura celular ou outras abordagens <em>in vitro<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O formul\u00e1rio tamb\u00e9m exige uma descri\u00e7\u00e3o minuciosa do <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">desenho experimental<\/mark><\/strong>. Isso significa que o pesquisador deve detalhar o que ser\u00e1 feito com cada animal, o n\u00famero necess\u00e1rio e como esse n\u00famero foi definido. O pesquisador n\u00e3o pode decidir por conta pr\u00f3pria a quantidade de animais. Ele deve se basear em um <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">c\u00e1lculo amostral<\/mark><\/strong>, isto \u00e9, demonstrar matematicamente que utilizar\u00e3o o m\u00ednimo poss\u00edvel de animais para obter dados cient\u00edficos confi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, devem ser detalhadas as subst\u00e2ncias que ser\u00e3o administradas, suas doses, as vias de administra\u00e7\u00e3o (oral, inje\u00e7\u00e3o intramuscular etc.) e todos os procedimentos que ser\u00e3o realizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro eixo fundamental da avalia\u00e7\u00e3o diz respeito ao <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">bem-estar animal<\/mark><\/strong>. O pesquisador precisa informar quais anest\u00e9sicos e analg\u00e9sicos ser\u00e3o utilizados e como a dor ser\u00e1 monitorada e controlada. Se for realizada alguma cirurgia no animal, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio descrever como ser\u00e1 feito o manejo da dor no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse conjunto de informa\u00e7\u00f5es, o CEUA realiza a avalia\u00e7\u00e3o do projeto, priorizando a <strong>redu\u00e7\u00e3o do sofrimento animal, o uso adequado do n\u00famero de indiv\u00edduos e a justificativa cient\u00edfica do estudo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen explica como ocorre a aprova\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o dos projetos: \u201cSe n\u00e3o houver nenhuma pend\u00eancia, o protocolo \u00e9 aprovado na reuni\u00e3o do CEUA. Se houver alguma pend\u00eancia, a\u00ed o processo \u00e9 devolvido ao pesquisador. Ele tem que fazer os ajustes solicitados ou prestar os esclarecimentos. Ent\u00e3o, ele pode submeter mais uma vez, geralmente limitado a uma nova tentativa. O processo todo leva de um m\u00eas a dois meses pra ser aprovado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez aprovado pelo CEUA, os pesquisadores podem iniciar o projeto, mas <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">devem seguir \u00e0 risca o que foi previamente aprovado<\/mark><\/strong>. O n\u00e3o cumprimento do protocolo pode trazer <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">consequ\u00eancias s\u00e9rias para o pesquisador e para a institui\u00e7\u00e3o<\/mark><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, esse tipo de infra\u00e7\u00e3o pode resultar na <strong>suspens\u00e3o imediata do projeto<\/strong>, na <strong>proibi\u00e7\u00e3o do uso de animais em novas pesquisas<\/strong> e at\u00e9 na <strong>perda de financiamentos e v\u00ednculos institucionais<\/strong>. Al\u00e9m disso, dependendo da gravidade, o caso pode ser enquadrado na <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">legisla\u00e7\u00e3o vigente<\/mark><\/strong>, com possibilidade de <strong>san\u00e7\u00f5es administrativas e at\u00e9 penais em situa\u00e7\u00f5es de maus-tratos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das implica\u00e7\u00f5es legais, h\u00e1 tamb\u00e9m impactos \u00e9ticos e cient\u00edficos. <strong>Dados obtidos de forma irregular podem ser invalidados, o que compromete a credibilidade da pesquisa e do pr\u00f3prio pesquisador<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-440b3cd75c542ec4fca2de3903700991\">Do laborat\u00f3rio \u00e0 sociedade: repensando nossa rela\u00e7\u00e3o com os animais<\/h2>\n\n\n\n<p>No centro desse debate est\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima e compartilhada pelo p\u00fablico: <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">a dor e o sofrimento dos animais<\/mark><\/strong>, mais do que o uso em si. Prof. Stephen acredita que o que gera questionamento na sociedade \u00e9 <strong>como esses animais s\u00e3o tratados ao longo da pesquisa<\/strong>. Nesse sentido, os protocolos \u00e9ticos e a atua\u00e7\u00e3o de comiss\u00f5es como o CEUA t\u00eam justamente o papel de garantir que qualquer desconforto seja minimizado ao m\u00e1ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Prof. Stephen comenta: \u201cSe, por acaso, houver uma situa\u00e7\u00e3o em que a dor e o sofrimento se tornem incontrol\u00e1veis, o animal tem que ser sacrificado. Justamente para ele n\u00e3o ter que passar por aquela situa\u00e7\u00e3o. Eu acho que mostrar que a gente leva a s\u00e9rio a quest\u00e3o da dor e do sofrimento, que a gente toma as medidas para controlar isso, de certa forma alivia muito a preocupa\u00e7\u00e3o da maioria das pessoas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o tema ganha novas camadas quando colocado em perspectiva com o uso de animais pela sociedade como um todo. Em termos num\u00e9ricos,<strong> o consumo alimentar e outras formas de utiliza\u00e7\u00e3o de animais superam amplamente o uso cient\u00edfico<\/strong>. Essa compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina as quest\u00f5es \u00e9ticas da pesquisa, mas ajuda a contextualizar o debate e a ampliar a reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre humanos e outros animais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Por fim, Prof. Stephen comenta: \u201cA gente tem que sempre lembrar que, ao longo dos \u00faltimos 100 anos, o uso de animais na pesquisa propiciou avan\u00e7os m\u00e9dicos que a gente usa ou usufrui at\u00e9 hoje. Desde quest\u00f5es de transplante de cora\u00e7\u00e3o, do papel da insulina, das vacinas e muitas outras coisas. V\u00e1rios avan\u00e7os dependeram do uso de animais e a gente tem que reconhecer isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Isso <strong>n\u00e3o encerra o debate<\/strong>, mas refor\u00e7a a complexidade do tema. Entre a <strong>necessidade cient\u00edfica<\/strong> e a <strong>responsabilidade \u00e9tica<\/strong>, a tend\u00eancia \u00e9 que a discuss\u00e3o continue evoluindo, acompanhando tanto o desenvolvimento de novas tecnologias quanto as transforma\u00e7\u00f5es nos valores da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A presente mat\u00e9ria foi realizada com apoio da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), Brasil. Processo n\u00ba 25\/17158-3. As opini\u00f5es, hip\u00f3teses e conclus\u00f5es ou recomenda\u00e7\u00f5es expressas neste material s\u00e3o de responsabilidade do(s) autor(es) e n\u00e3o necessariamente refletem a vis\u00e3o da FAPESP.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-large-font-size\">Para saber mais:<\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/revistas.ufpr.br\/veterinary\/article\/view\/11532\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/revistas.ufpr.br\/veterinary\/article\/view\/11532\" rel=\"noreferrer noopener\">Mecanismos da dor e da nocicep\u00e7\u00e3o<\/a> (DOI: 10.5380\/avs.v13i1.11532)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0065280622000170\" target=\"_blank\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0065280622000170\" rel=\"noreferrer noopener\">Insetos sentem dor?<\/a> (DOI: 10.1016\/bs.aiip.2022.10.001)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2007-2010\/2008\/Lei\/L11794.htm\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2007-2010\/2008\/Lei\/L11794.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lei Arouca (Lei n\u00ba 11.794\/2008)<\/a> \u2013 principal marco regulat\u00f3rio no Brasil sobre o uso cient\u00edfico de animais<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/composicao\/conselhos\/concea\/paginas\/publicacoes-legislacao-e-guia\/legislacao-do-concea\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/composicao\/conselhos\/concea\/paginas\/publicacoes-legislacao-e-guia\/legislacao-do-concea\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Legisla\u00e7\u00e3o e normas do Conselho Nacional de Controle de Experimenta\u00e7\u00e3o Animal (CONCEA)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/composicao\/conselhos\/concea\/paginas\/publicacoes-legislacao-e-guia\/guia-brasileiro-de-producao-manutencao-ou-utilizacao-de-animais-para-atividades-de-ensino-ou-pesquisa-cientifica\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/composicao\/conselhos\/concea\/paginas\/publicacoes-legislacao-e-guia\/guia-brasileiro-de-producao-manutencao-ou-utilizacao-de-animais-para-atividades-de-ensino-ou-pesquisa-cientifica\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Guia Brasileiro para o Uso de Animais em Ensino e Pesquisa<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading eplus-wrapper has-vivid-green-cyan-color has-text-color has-link-color has-large-font-size wp-elements-533c596946ce414f90d84d5d6ba5c407\"><mark style=\"background-color:#ffffff\" class=\"has-inline-color has-vivid-green-cyan-color\">Autoria:<\/mark><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/02\/Design-sem-nome-3-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-258\" style=\"width:150px\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/02\/Design-sem-nome-3-980x980.png 980w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/02\/Design-sem-nome-3-480x480.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper\"><strong><mark style=\"background-color:#ffffff\" class=\"has-inline-color has-vivid-green-cyan-color\">Mia Schezaro Ramos<\/mark><\/strong><br><mark style=\"background-color:#ffffff\" class=\"has-inline-color has-vivid-green-cyan-color\">Farmac\u00eautica. Doutora em Farmacologia. Jornalista cient\u00edfica, ilustradora, trans, nintendista, kpopeira e dependente de exerc\u00edcio f\u00edsico para n\u00e3o pirar.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista sobre uso de animais na pesquisa com o Prof. Stephen Hyslop (UNICAMP), abordando \u00e9tica, dor, atua\u00e7\u00e3o do CEUA, invertebrados e m\u00e9todos alternativos in vitro.<\/p>\n","protected":false},"author":776,"featured_media":725,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[19,22],"tags":[114,112,113,110,111,115],"class_list":["post-723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-portugues","category-farmaco-explica","tag-dor","tag-etica","tag-experimentacao-animal","tag-in-vitro","tag-in-vivo","tag-nocicepcao"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-content\/uploads\/sites\/303\/2026\/04\/42.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/776"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=723"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/723\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":791,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/723\/revisions\/791"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/farmacoemfoco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}