{"id":323,"date":"2018-06-08T17:33:58","date_gmt":"2018-06-08T20:33:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/femurdistal\/?p=323"},"modified":"2018-06-08T17:33:58","modified_gmt":"2018-06-08T20:33:58","slug":"plasma-rico-em-problemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/femurdistal\/2018\/06\/08\/plasma-rico-em-problemas\/","title":{"rendered":"Plasma Rico em Problemas"},"content":{"rendered":"<p>Um t\u00edtulo alternativo: &#8220;Em Defesa da \u00c9tica na Pesquisa Cl\u00ednica&#8221;. Mas estava precisando desabafar e saiu. O Plasma Rico em Plaquetas (PRP) \u00e9 um produto biol\u00f3gico, definido como uma fra\u00e7\u00e3o do plasma obtida do sangue da pr\u00f3pria pessoa, que atrav\u00e9s de centrifuga\u00e7\u00e3o, gera uma concentra\u00e7\u00e3o de plaquetas acima da contagem basal do indiv\u00edduo. As plaquetas s\u00e3o as menores c\u00e9lulas do sangue. Al\u00e9m de ajudar a estancar sangramentos (hemostasia), descobriu-se que as plaquetas cont\u00e9m gr\u00e2nulos ricos em subst\u00e2ncias envolvidas na regula\u00e7\u00e3o da inflama\u00e7\u00e3o, na forma\u00e7\u00e3o de novos vasos sangu\u00edneos (neoangiog\u00eanese) e na migra\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas-tronco (1). Este produto seria, em tese, uma forma de estimular a cicatriza\u00e7\u00e3o dos tecidos, utilizando \u00a0um derivado do sangue da pr\u00f3pria pessoa. Atualmente, diversas especialidades m\u00e9dicas prop\u00f5es pesquisas para uso terap\u00eautico do PRP em diversas patologias.\u00a0A Ortopedia \u00e9 uma das \u00e1reas com maior n\u00famero de aplica\u00e7\u00f5es, sendo usado para o tratamento de les\u00f5es articulares e do tecido m\u00fasculo-esquel\u00e9tico (1)<\/p>\n<ol>\n<li><strong>O PRP funciona ou n\u00e3o funciona?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Discuss\u00f5es apaixonadas tem surgido em congressos e em publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, a respeito da efic\u00e1cia do PRP, com uma polariza\u00e7\u00e3o extrema entre seus defensores e seus inimigos. Obviamente nenhum destes polos extremos deve ser a posi\u00e7\u00e3o de um pesquisador s\u00e9rio. Existe uma d\u00favida, vamos fazer uma pesquisa para esclarecer. Longe de querer opinar sobre esta quest\u00e3o, existem dois fatos que precisam ser conhecidos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>De acordo com o <a href=\"http:\/\/www.portalmedico.org.br\/resolucoes\/CFM\/2015\/2128_2015.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conselho Federal de Medicina (CFM)<\/a>, em sua Resolu\u00e7\u00e3o 2128\/2015, a aplica\u00e7\u00e3o do PRP em pacientes, no Brasil, s\u00f3 deve ser feita dentro de protocolos de pesquisa cl\u00ednica, devidamente aprovados e fiscalizados por um Comit\u00ea de \u00c9tica em Pesquisa (CEP) registrado na Comiss\u00e3o Nacional de \u00c9tica em Pesquisa (CONEP) (2);<\/li>\n<li>A <a href=\"http:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/saudelegis\/cns\/2013\/res0466_12_12_2012.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Resolu\u00e7\u00e3o 466\/2012<\/a>, da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade (ANS), que rege e normatiza a pesquisa cl\u00ednica no Brasil, pro\u00edbe qualquer tipo de cobran\u00e7a dos participantes de pesquisa (3).<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Favor\u00e1vel ou contr\u00e1rio ao uso do PRP, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fugir destes dois fatos. Portanto, muitos pesquisadores das \u00e1reas b\u00e1sicas e das \u00e1reas cl\u00ednicas tem se dedicado com seriedade a conduzir pesquisas \u00e9ticas, buscando obter respostas honestas, que tragam benef\u00edcios para pessoas que sofrem com dores articulares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2) Existe algum problema em fazer pesquisa cl\u00ednica em seres humanos usando o PRP?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, desde que regras \u00e9ticas e sanit\u00e1rias sejam estabelecidas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o porque o t\u00edtulo?<\/p>\n<p><strong>3) <\/strong><strong>O PROBLEMA<\/strong>:<\/p>\n<p>Por puro desconhecimento das normas \u00e9ticas e sanit\u00e1rias, ou por pura gan\u00e2ncia mesmo, existe um n\u00famero crescente de m\u00e9dicos oferecendo abertamente a aplica\u00e7\u00e3o de PRP, sem nenhum controle sanit\u00e1rio, em cl\u00ednicas privadas. Alguns at\u00e9 desconhecem a recomenda\u00e7\u00e3o do CFM para s\u00f3 usar como pesquisa e cobram pela aplica\u00e7\u00e3o como se estivesse tudo bem. Outros, cientes da recomenda\u00e7\u00e3o do CFM, criam falsos protocolos de pesquisa, com a finalidade de cobrar pela aplica\u00e7\u00e3o de maneira disfar\u00e7ada.<\/p>\n<p>Os exemplos a seguir s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es relatadas por colegas m\u00e9dicos, indignados com o atrevimento destes falsos pesquisadores:<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o 1) O paciente procura um ortopedista para tratar sua dor. Recebe a informa\u00e7\u00e3o de que seu caso ter\u00e1 benef\u00edcio com o uso do PRP, mas que para isso ter\u00e1 de participar de um estudo cl\u00ednico, por causa da orienta\u00e7\u00e3o do CFM. A aplica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 gratuita, mas o paciente precisa pagar um valor em torno de R$ 5.000,00 para uma empresa que ir\u00e1 fornecer o equipamento e que ir\u00e1 preparar o produto, ou para um determinado bi\u00f3logo ou biom\u00e9dico. A empresa ou o profissional repassam o dinheiro para o m\u00e9dico. Logo, o m\u00e9dico n\u00e3o cobrou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o 2) O paciente \u00e9 orientado pelo empres\u00e1rio dono da centr\u00edfuga que prepara o produto, a fazer uma &#8220;doa\u00e7\u00e3o&#8221; para um pequeno hospital filantr\u00f3pico. Assim poder\u00e1 ser inclu\u00eddo em um protocolo de pesquisa onde n\u00e3o ser\u00e1 cobrado. O hospital repassa depois o dinheiro para o m\u00e9dico. Logo, o m\u00e9dico n\u00e3o cobrou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o 3) Surge o an\u00fancio de uma pesquisa com PRP na m\u00eddia. Ao procurar o centro de pesquisa, o paciente \u00e9 informado que seu caso n\u00e3o se enquadra nos crit\u00e9rios de inclus\u00e3o, mas que ele pode procurar o m\u00e9dico no consult\u00f3rio e pagar pela aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todas estas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o formas de tentar driblar a fiscaliza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es de grave infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Infelizmente muitos destes m\u00e9dicos n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do delito que est\u00e3o cometendo. Viram colegas fazendo e fazem igual, achando que \u00e9 correto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4) Mas e da\u00ed, eu quero usar o PRP, &#8220;tenho o direito de tentar!&#8221;. Qual o problema?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;font-size: 18pt\"><strong>CADA PACIENTE FERIDO EM UM ESTUDO CL\u00cdNICO, FERE A CI\u00caNCIA COMO UM TODO.<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea concorda em pagar, saiba que est\u00e1 contribuindo para:<\/p>\n<ul>\n<li>a propaga\u00e7\u00e3o da cultura de desonestidade e corrup\u00e7\u00e3o e do &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;. Depois n\u00e3o reclame dos pol\u00edticos;<\/li>\n<li>para denegrir todas as pesquisas cl\u00ednicas s\u00e9rias e todos os pesquisadores s\u00e9rios que querem investigar o PRP e outras terapias, mas que est\u00e3o se afastando desta \u00e1rea devido ao crescente n\u00famero de falsos pesquisadores que usam da boa f\u00e9 do participante para explor\u00e1-lo;<\/li>\n<li>imposi\u00e7\u00e3o crescente de barreiras para coibir este tipo de abuso, barreiras que atrasam e encarecem muitas vezes a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas s\u00e9rias.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Se voc\u00ea foi convidado a participar de uma pesquisa cl\u00ednica, com PRP ou com qualquer outro tratamento, voc\u00ea n\u00e3o pode ter custos. Se te cobrarem qualquer coisa ou te pedirem doa\u00e7\u00e3o, recuse. Se poss\u00edvel, descubra em que CEP est\u00e1 registrada esta pesquisa e denuncie. A Ci\u00eancia de verdade agradece.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<ol>\n<li>Alves R, Grimalt R. A Review of Platelet-Rich Plasma: History, Biology, Mechanism of Action and Classification. Skin Appendage Disord 2018;4:18-24.<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.portalmedico.org.br\/resolucoes\/CFM\/2015\/2128_2015.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.portalmedico.org.br\/resolucoes\/CFM\/2015\/2128_2015.pdf<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/saudelegis\/cns\/2013\/res0466_12_12_2012.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/saudelegis\/cns\/2013\/res0466_12_12_2012.html<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-size: 18pt\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/femurdistal\/2017\/11\/29\/pesquisa-medica-com-seres-humanos-no-brasil-parte-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pesquisa M\u00e9dica com Seres Humanos no Brasil &#8211; Parte 1<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um t\u00edtulo alternativo: &#8220;Em Defesa da \u00c9tica na Pesquisa Cl\u00ednica&#8221;. 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