Uma floresta de dados e a governança do conhecimento na Amazônia, uma conversa com Felipe Mammoli

Publicado por GEICT em

Por Thais Lassali

A Amazônia é um território de suma importância para os sistemas ecológicos e climáticos brasileiros, sulamericanos e globais. Exatamente por isso, diversas instituições, governamentais ou não, e diversos projetos científicos voltam seus olhares e suas preocupações para ela. O AmazonFACE é um desses projetos, mas, além dele, ONGs como IMAFLORA, MapBiomas, IMAZON e IPAM também atuam na região realizando pesquisas e gerando informações que influenciam decisões governamentais e ações de conservação. Mas como esses dados são coletados, processados e compartilhados? Quais são as estratégias de governança que essas organizações adotam? E como elas imaginam o impacto de seus dados na política ambiental? Essas são algumas das perguntas que orientam a atual pesquisa de Felipe Mammoli, pesquisador do GEICT, junto ao Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI Renato Archer). Ele investiga as práticas de governança de dados dessas ONGs, explorando a participação de tais organizações no compartilhamento de informações e na atuação prática na redução do desmatamento.

Felipe Mammoli em sua defesa de doutorado, ocorrida no dia 1o de abril de 2025. Foto: Yama Chiodi.
Felipe Mammoli em sua defesa de doutorado, ocorrida no dia 1o de abril de 2025. Foto: Yama Chiodi.

Mammoli defendeu seu doutorado recentemente no Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica (PPG-PCT) do Instituto de Geociências da Unicamp. Orientada por Marko Monteiro, líder do GEICT, sua tese se intitula “Floresta de Conhecimento e Mistério: Uma Etnografia da Modelagem Computacional de Vegetação no AmazonFACE”. Nela, o pesquisador discute como diversas áreas do conhecimento, como as ciências ambientais e a ecologia, incorporaram técnicas e tecnologias digitais com a finalidade de compreenderem mais profundamente as mudanças climáticas. Ele tratou especificamente da modelagem digital, técnica que utiliza softwares especializados para criar versões totalmente digitais de objetos (inanimados ou não), realizando uma etnografia da aplicação disso no projeto AmazonFACE. Como postulou Mammoli ao apresentar sua tese à banca de doutorado e aos presentes que acompanhavam sua defesa:

“Existe uma outra Floresta Amazônica que é resultado do avanço dessas práticas de conhecimento baseada em dados digitais sobre essas várias ciências ambientais que fazem parte desses estudos sobre as mudanças climáticas. (…) A modelagem se situa dentro de uma controvérsia sobre o que vai acontecer com a floresta no futuro, se o aumento de CO2 atmosférico vai aumentar o crescimento das plantas ou se vai causar a savanização da região. O diferencial desse modelo do AmazonFACE é que ele vai levar em conta a biodiversidade da Floresta Amazônica na análise sobre a resiliência da floresta.”

 A apresentação da tese de Mammoli se encontra na íntegra no canal de YouTube do GEICT. Para vê-la, clique no vídeo abaixo!

Já a atual pesquisa de Felipe Mammoli está sediada no CTI Renato Archer, ligado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Ela também está inserida no projeto SEEKCommons, uma iniciativa financiada pela National Science Foundation (NSF) e conduzida por um consórcio de universidades norte-americanas que incluem a University of Notre Dame, a University of Michigan, a University of California Davis e a University of Virginia. Também participa do projeto o HDF Group, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é promover tecnologias de gerenciamento de dados de código aberto de última geração. O líder do GEICT, Marko Monteiro, também é integrante da rede, tendo inclusive tutorado a pesquisadora Madhuri Karak quando ela foi participante da mesma, em 2024.

O objetivo do SEEKCommons é criar espaços de bens comuns digitais (digital commons) para dados socioambientais, garantindo que eles sejam acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis. Em outras palavras, procura-se otimizar o encontro das informações criadas por pesquisas científicas, além de torná-las mais acessíveis e capazes de serem utilizadas por outros cientistas em outros contextos. Para tanto, o projeto conta com diferentes atores – incluindo ONGs científicas, governos e comunidades – que podem colaborar na gestão compartilhada de dados, facilitando a transparência e a eficácia no compartilhamento e na tomada de decisões em esferas decisórias ou governamentais. Além disso, o SEEKCommons promove discussões sobre plataformas colaborativas (como o WikiData), sobre os desafios políticos na abertura de dados de pesquisa e sobre os mais diferentes métodos de governança participativa.

É exatamente nesse contexto de colaboração e de compartilhamento de dados de pesquisa, bem como na utilização de tais dados pelo poder público, que o trabalho de Mammoli se foca. O principal interesse do pesquisador é compreender como organizações não-governamentais que atuam na captação e divulgação de dados sobre a Floresta Amazônica implementam, na prática, noções de open science e open data em suas tentativas de influenciar a política pública na região. Tais conceitos estão relacionados aos movimentos contemporâneos dentro da comunidade acadêmica global que advogam para que as práticas científicas, cada vez mais, busquem promover maior transparência e maior compartilhamento coletivo de todas as etapas da pesquisa. Como Mammoli contou ao Blog do GEICT, o objetivo dele

“é entender um pouco sobre o ciclo de vida dos dados dentro de organizações como o IMAFLORA, MapBiomas, IMAZON, IPAM. Como eles são coletados, processados e armazenados, quais são as estratégias de compartilhamento desses dados com outras organizações governamentais e não governamentais que atuam pela redução do desmatamento na Amazônia e como essas organizações imaginam que os dados que elas produzem afetam as tomadas de decisão e criação de políticas públicas para a região.”

Exemplo de forma de compartilhamento de dados coletados na Amazônia pela ONG MapBiomas. https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2024/09/MBI-Infograficos-Amazonia-9.0-BR-scaled.jpg.
Exemplo de forma de compartilhamento de dados coletados na Amazônia pela ONG MapBiomas. https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2024/09/MBI-Infograficos-Amazonia-9.0-BR-scaled.jpg.

Processar e gerenciar informações ecológicas e geoespaciais em uma escala tão grande quanto a amazônica é, obviamente, um grande desafio, principalmente quando se tem o objetivo de produzir conhecimento que seja acessível, colaborativo e compartilhado. Mammoli compreende que o modo como as organizações acima citadas lidam com dados ambientais, desde sua produção até sua circulação, revela uma intrincada relação entre capacidades técnicas e científicas, influência política e burocracia estatal. Segundo o pesquisador, isso aponta “para uma governança do conhecimento sobre a região caracterizada por uma tensão entre uma força centralizadora das agências governamentais e uma força descentralizadora das redes de organizações não governamentais.”


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