Datificação do estar no mundo: o capitalismo cognitivo e o ensino de língua portuguesa
Por Marina Bitencourt
Marina Bitencourt dos Santos é graduanda no curso de Licenciatura em Letras no IEL/Unicamp. É professora de gramática no cursinho popular Pré-Vestibulinho Malunga Thereza Santos em Barão Geraldo e de redação no cursinho popular Colmeia-Limeira. Faz parte do grupo de pesquisa em Processamento de Linguagem Natural coordenado pela Profa. Dra. Sandra Ávila no Hub de Inteligência Artificial e Arquiteturas Cognitivas (HIAAC) da UNICAMP, onde faz pesquisa de iniciação científica sob orientação da Profa. Dra. Simone Tiemi Hashiguti sobre a relação entre descrição e imagem em grandes bancos de dados multimodais.
Ano passado, lá pelo final de maio e início de junho, participei de um evento de divulgação científica no Instituto Eldorado, uma instituição de pesquisa, desenvolvimento e inovação para criação de soluções para empresas, nacionais ou não, nas áreas de “tecnologia da informação e comunicação, automotivo, agro, energia, óleo e gás, saúde e indústria 4.0”1. Um dos pólos desta instituição fica nas rotas dos ônibus circulares internos da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), especificamente na Av. Alan Turing ao lado do Museu Exploratório de Ciências.
Nesse evento, pude acompanhar algumas apresentações de pesquisas feitas por estudantes, pós-graduandos, e professores do Instituto de Computação da UNICAMP na área de Inteligência Artificial (IA) aplicada a dispositivos móveis, aparelhos eletrônicos portáteis como o celular. Um dos trabalhos apresentados no dia consistia em métodos de identificação de comportamentos cotidianos e os lugares nos quais são realizados — como caminhar na rua, sentar-se em uma cadeira, subir escadas, correr em uma esteira, passar por uma catraca — por meio da análise das frequências que advém de sensores tradicionais já presentes em smartphones, como o giroscópio e o acelerômetro. Entre os objetivos da pesquisa estava traduzir os padrões físicos do corpo, ocupando diferentes lugares e realizando diferentes ações, em dados que podem ser interpretados por sistemas de IA com alto grau de precisão.
Após a apresentação feita pelo pesquisador responsável, que era professor adjunto do Instituto de Computação da UNICAMP, uma das pessoas no auditório perguntou: “Não seria muito interessante se isso fosse monetizado com publicidades? Por exemplo, se soubermos que as pessoas compram mais enquanto sentadas no sofá de casa podemos criar propagandas ainda mais direcionadas”. A resposta dada foi que sim, já haviam pensado sobre isso e que seria extremamente possível.

Confesso que não sei até que ponto a pesquisa citada é inovadora em nível global, mas não busco divulgar ou criticar o trabalho. Apenas faço este breve relato, porque essa vivência fez aparecer um nó na minha garganta que só cresceu no momento em que entrei em contato com as entrevistas de Maurizio Lazzarato (2006) e Yann Moulier-Boutang (2007), pesquisadores que têm advogado sobre as mudanças do capitalismo contemporâneo. Acredito que essa experiência seja significativa a nível das transformações da economia global discutidas por esses autores. A seguir discorro um pouco sobre essa mudança e busco fazer uma consideração, extremamente inicial, sobre a educação escolar e o ensino de língua portuguesa frente a essas alterações.
A lógica de uma nova roupa capitalista
Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), o filósofo e sociólogo italiano Maurizio Lazzarato (2006) diz que o capitalismo se define a partir da articulação entre 3 elementos principais – a tecnologia, o saber e o capital. Atualmente essas relações se dão através da existência e desenvolvimento de novas tecnologias e saberes “que concernem à mente, tecnologias biológicas”, chamadas, então, de Novas Tecnologias de Informação e de Comunicação (NTIC), e que levam à caracterização do capitalismo contemporâneo como capitalismo cognitivo. Nessa nova organização, a cadeia produtiva é alterada e a informação torna-se o insumo central, e o consumo passa a ser regulado por dados em tempo real.
Imaginemos uma loja virtual de roupas, ela pode coletar dados de diversas fontes, o nosso comportamento de navegação, o nosso histórico de compras, e passar essas informações a algoritmos de aprendizado de máquina capazes de identificar padrões, segmentar clientes e prever tendências, e que, então, podem armazenar e processar essas informações. A partir do processamento dessas informações essa loja pode passar a planejar a criação de novos produtos em alta demanda e criar experiências de marketing planejadas, de maneira que um cliente que compra um vestido passa a receber publicidades de sapatos que combinem com aquela peça. As NTIC permitem coleta, processamento e armazenamento de dados digitais que servem à criação de novos desejos e produtos, sendo que esses dados são produzidos pela nossa própria existência no mundo virtual. Caracterizam essa virtualização da economia os bens imateriais como softwares, algoritmos, e modelos preditivos.
Em outra entrevista para o mesmo instituto, o economista e político francês Yann Moulier-Boutang (2007) descreve que essa alteração na cadeia produtiva, a partir das próprias informações produzidas pelos usuários, define uma nova lógica de acumulação, cada vez mais complexa, mais descentralizada e mais fluida. A inovação se torna a palavra de ordem, sinônima ao progresso. Nesse cenário, o trabalho humano não desaparece, mas é reconfigurado. Os trabalhadores passam a ser “capital humano”, mensuráveis não mais por horas de trabalho, mas pela sua capacidade de criar, conectar e influenciar informações, dados, e como medir esse valor?

Segundo Lazzarato (2006), mesmo com a diminuição do número de empregados, a produtividade de uma empresa aumenta, esse aumento vem da tecnologia e do conhecimento, bens imateriais do capitalismo cognitivo, aumento esse que, aparentemente, só beneficia os próprios donos do capital. É o aumento substancial da desigualdade nas relações de poder que faz com que as pessoas vivam experiências de capitalismo distintos, um bom exemplo disso são as plataformas de serviços como o Uber, nas quais o trabalho material dos motoristas convive com o trabalho dos desenvolvedores de software da plataforma – o valor atribuído a esses trabalhos é extremamente desigual.
É nessa nova roupagem que podemos observar um ciclo que se retroalimenta no que Moulier-Boutang chama de “sociedade das redes” – onde informações criam demanda que cria desejo e produtos que criam informação que cria demanda, etc. Como carro chefe deste ciclo, que aparentemente ocorre não linearmente até o esgotamento do mundo (Krenak, 2017), a pesquisadora e professora Shoshana Zuboff (2022) cunhou o termo capitalismo de vigilância, que é capaz de descrever como a experiência humana é extraída, quantificada e convertida em produto na mesma medida em que a nossa existência é cada vez mais vigiada e controlada. As NTICs consomem dados do mundo físico, de maneira que o próprio estar no mundo é uma commodity para a datificação, como posto por Gonsales (2021).
E a que/a quem serve a educação?
Retomo a narração inicial para ilustrar essas teorias apresentadas: vejo na pesquisa do professor universitário a centralidade do conhecimento e da inovação, que dita, juntamente com os dados retirados do mundo, como as frequências geradas por andar na rua, sentar no sofá de casa, correr, subir/descer escadas, tudo aquilo que pode se tornar um bem imaterial. Ao final, cabe ao mercado, representado pelo homem que pergunta sobre a possibilidade de monetização, buscar maneiras de monetizar e vender essas novas informações a outras empresas e pessoas, essas consideradas como empreendedoras de si mesmas.

Tendo em vista esse novo cenário, no qual hoje é possível extrair informações das experiências de vida físicas, reais, e transformá-las em dados, produtos a serem vendidos à serviço da organização capitalista mundial, combinado a organização atual de alguns cursos das universidades, que estão cada vez mais a serviço desta mesma organização – um exemplo é a presença do próprio Instituto Eldorado na UNICAMP –, incentivando seus estudantes a entrarem no mercado de trabalho privado, a inovarem, a empreenderem, sem devida reflexão ética sobre as possíveis consequências dessas inovações (os estudantes de engenharia da UNICAMP contam com poucas, ou nenhuma, disciplina sobre ética em suas respectivas atuações), é possível questionar, a serviço do quê e de quem a universidade pública está formando esses estudantes?
Intencionando trazer esse questionamento para mais perto, dada a minha graduação em licenciatura em Língua Portuguesa, percebo a necessidade urgente de uma reflexão maior sobre o papel da educação escolar primária e secundária, espaço privilegiado de engajamento e transformação social. A instituição escolar tradicional foi construída a partir do início da industrialização como lugar de formação à trabalhadores urbanos e de controle desses corpos dentro do espaço urbano e fabril, naquele momento importava que as pessoas soubessem seguir ordens, cumprir as funções a que fossem designadas a fim de se enquadrarem na ordem social. Essa tradição parece persistir em determinadas escolas, ainda mais com a instalação no estado de São Paulo do Novo Ensino Médio (2023) nas escolas públicas que, com o objetivo de tornar os estudantes empreendedores, acabou tornando o ensino público mais técnico e aumentando as desigualdades entre escolas públicas e privadas (Pfeiffer, 2018).
Nesse contexto, como estamos preparando os estudantes dos ensinos fundamental e médio a um mundo em que o trabalho é invisível, a informação é poder e a existência é moeda? Será que, dentro das escolas, estamos fornecendo o que é necessário para que eles consigam desenvolver uma cidadania verdadeiramente autônoma e coletiva – na medida em que se percebe e se preocupa com as outras pessoas e espaços – capaz de refletir e criticar a experiência da vida social?
Suponho que as novas relações de trabalho, mais complexas, dinâmicas, flexíveis sob o forte apelo da inovação, devam refletir na escola e na sala de aula uma concepção de ensino e aprendizagem que leve em conta essas complexidades. É preciso formar sujeitos capazes de compreender criticamente o funcionamento das NTICs e suas consequências, suas implicações éticas e políticas, suas estruturas de poder. Na sala de aula de língua portuguesa, isso significa desenvolver letramentos múltiplos: textual, visual, estatístico, midiático e, sobretudo, o letramento de dados (Gonsales, 2021).
Como professores/as de língua que compreendem o ato extremamente político de sua atuação, devemos ampliar a noção de linguagem como prática social, no horizonte de uma sociedade marcada por violências epistêmicas, como o racismo e o machismo, muitas vezes repetidos e reforçados por ferramentas de IA de larga escala (Bender, McMillan-Major, Gebru, Schmitchell, 2021). Pesquisas como a de Silva (2025) evidenciam episódios preconceituosos de discriminação algoritmica que envolveram IAs, como quando em agosto de 2023 o Midjourney, IA de geração de imagens a partir de textos, não conseguiu gerar imagens de médicos negros cuidando de crianças brancas2.
Tenho para mim que devemos mediar o caminho para que os/as estudantes possam agir conscientemente, tanto online quanto offline, no mundo. Na mediação em uma sala de aula de língua, leitura e escrita, incluem atividades que envolvam as multisemioses da modernidade: a interpretação e questionamento de infográficos, dashboards, memes, vídeos, a criação de algoritmos e os seus resultados. A resistência a tecnologias como a IA vem da problematização delas diante de uma sociedade extremamente desigual. Tal movimento exige novas áreas para a formação de professores, a fim de que eles próprios sintam-se preparados para lidar com essas alterações constantes da estrutura social. O espaço escolar hoje parece dever aos seus estudantes o ensino sobre os usos dessas novas tecnologias, e seus respectivos gêneros, a fim de possibilitar ao sujeito o trabalho cognitivo mais reflexivo e comprometido consigo mesmo, com sua comunidade, com seu país, com sua classe, com seu gênero, etc. O capitalismo cognitivo cria uma sociedade cronicamente exausta (recomendo aqui o livro Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han), exaurida do seu próprio tempo, e com dificuldades de separar aquilo que é importante porque requer e merece trabalho, e o que é relevante porque diverte. A escola ainda é uma das poucas instituições que pode disputar sentidos, formar para a autonomia e oferecer tempo de reflexão. Frente ao sistema que transforma nossos passos em mercadoria, ensinar a questionar é um ato político. Talvez a pergunta mais urgente para o nosso tempo seja: a serviço de qual projeto social estamos ensinando?
referências
BENDER, E. M., GEBRU, T., MCMILLAN-MAJOR, A., SHMITCHELL, S. 2021. On the Dangers of Stochastic Parrots: Can Language Models Be Too Big?. Na Conference on Fairness, Accountability, and Transparency (FAccT ’21), March 3–10, 2021, Virtual Event, Canada. ACM, New York, 14 pages. https://doi.org/10.1145/3442188.3445922
GONSALES, P., BUZATO, M., KING, E. “Digital literacies and digital inclusion in contemporary brazil”. Zenodo, 6 Agosto 2021. https://doi.org/10.5281/zenodo.5167705. Acesso em: 23, maio 2025.
PFEIFFER, C. R. C. Reforma do Ensino Médio – a evidência de uma liberdade de escolha em uma escola para todos. Cadernos de Letras da UFF, v. 28, n. 57, p. 27-51, 26 dez. 2018. Disponível em: https://periodicos.uff.br/cadernosdeletras/article/view/43964/25135. Acesso em: 15 ago. 2025.
SILVA, T. (ed.) et al. Mapeamento de Danos e Discriminação Algorítmica. Desvelar, 2025. Disponível em: https://desvelar.org/casos-de-discriminacao-algoritmica/ Acesso em: 29, maio 2025.
UNISINOS. Entrevista com Yann Moulier-Boutang. Disponível em: https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/858-yann-moulier-boutang-1/. Acesso em: 23, maio 2025.
________. Capitalismo cognitivo e trabalho imaterial: entrevista com Maurizio Lazzarato. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/175-noticias-2006/562570-capitalismo-cognitivo-e-tra balho-imaterial-entrevista-com-maurizio-lazzarato. Acesso em: 23, maio 2025.
________. A privacidade é pública: se a entregamos, destruímos a sociedade. Entrevista com Shoshana Zuboff. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/603694-a-privacidade-e-publica-se-a-entregamos-dest ruimos-a-sociedade-entrevista-com-shoshana-zuboff. Acesso em: 23 maio 2025.
- Informações do próprio instituto, disponíveis em: https://www.eldorado.org.br/. ↩︎
- Disponível em: https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2023/10/06/1201840678/ai-was-asked-to-create-images-of-black-african-docs-treating-white-kids-howd-it-. Acesso em: 15 ago. 2025. ↩︎
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