Para além do X: como universidades na Holanda estão construindo alternativas às big techs

Publicado por GEICT em

No atual cenário de transformações digitais, a busca por soberania tecnológica e alternativas às grandes plataformas centralizadas tem se tornado pauta central para governos, instituições de ensino e movimentos sociais ao redor do mundo. Com esse espírito em mente, o Blog do GEICT abre espaço para a entrevista realizada por Damny Laya com Wladimir Mufty. Laya é doutor em Política Científica e Tecnológica (IG/Unicamp) e atualmente é aluno da especialização em Jornalismo Científico e Cultural do Labjor/Unicamp, tendo uma bolsa Mídia Ciência voltada para o debate sobre soberania digital e redes sociais alternativas. Na entrevista, Laya e Mufty abordam um panorama detalhado sobre o funcionamento do Mastodon, suas diferenças das plataformas das Big Techs em termos de privacidade e controle de dados. Além disso, oferecem exemplos concretos de governos e universidades que estão adotando essa rede federada como parte de uma estratégia de autonomia digital, algo essencial para quem deseja compreender os rumos da comunicação institucional em tempos de plataformização e polarização política. Boa leitura!


Por Damny Laya

Damny Laya é Doutor em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), mestre em Estudos Sociais da Ciência (IVIC – Venezuela), e aluno na especialização de Jornalismo Científico no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor). Ele pesquisa sobre soberania digital e redes sociais alternativas.

Com a aquisição do Twitter, hoje X, por Elon Musk em 2022 e seu posicionamento político ligado ao movimento da extrema-direita mundial, várias organizações, instituições e governos no mundo migraram desta rede social e procuraram alternativas. Nessa migração, alguns usuários encontraram uma “nova casa” na redeMastodon – uma rede social descentralizada, que não possui um CEO que a dirige, a mais popular do universo federado (Fediverso), com quase 9 milhões de usuários do total de 12 milhões que fazem parte desse universo.

O Mastodon funciona sob uma estrutura de código aberto, ou seja, qualquer pessoa pode pegar esse código e instalar num servidor sua própria instância Mastodon. Uma instância é como uma comunidade que funciona com suas próprias regras de moderação e códigos de conduta. Pode ser uma comunidade aberta ao público ou apenas, por exemplo, para os funcionários de uma instituição, ou estudantes de uma universidade, inclusive um instituto ou faculdade. Porém, essas comunidades podem se comunicar com outras instâncias. Resumindo, a entrada na instância pode ser privada, apenas para uma comunidade específica, mas o fluxo de conteúdo e a interação na rede Mastodon pode ocorrer entre usuários com contas de diferentes instâncias. A maneira mais fácil de entender como funciona o Mastodon é observando o funcionamento do e-mail: você pode usar diferentes serviços de e-mail, como Gmail, Yahoo! ou Outlook, mas ainda pode enviar e-mails para outras pessoas, não importa qual desses serviços use.

Captura de tela da versão de desktop do Mastodon. Caputa realizada por: https://social.lou.lt. Fonte: Wikimedia.
Captura de tela da versão de desktop do Mastodon. Captura realizada por: https://social.lou.lt. Fonte: Wikimedia.

O Mastodon não tem um algoritmo de recomendação; o feed é criado por ordem cronológica das postagens dos usuários que você segue. Também não tem anúncios, nem coleta seus dados para fazer um perfilamento e vender às empresas. Isto significa maior autonomia e privacidade para o usuário. E o mais importante: controle sobre o conteúdo que posta e consome. Devido a estes aspectos, o Mastodon tem se convertido numa opção para governos, instituições, movimentos sociais e pessoas que se preocupam com a soberania digital e querem cortar a dependência das redes sociais das big techs.

Por exemplo, os governos da França, Alemanha e Holanda, e instituições governamentais como a Comissão Europeia, abriram suas próprias instâncias onde todos os seus funcionários e diferentes corpos do governo podem criar suas contas e se comunicar com a audiência do Fediverso. O movimento parece estar motivado pela tentativa de construir uma soberania digital e exercer um maior controle na comunicação e informação desses corpos de governo. Da mesma forma, universidades públicas têm feito esse movimento, como é o caso das universidades da Holanda. Lá, graças aoprojeto piloto criado pelo SURF, a Rede Nacional de Pesquisa e Educação Holandesa (NREN), foi criada uma instância no Mastodon para hospedar seus membros, que incluem universidades, universidades de ciências aplicadas, instituições de educação profissional, instituições de pesquisa e hospitais universitários. O SURF fornece serviços compartilhados de TI e TIC e inovação para o setor holandês de educação e pesquisa, assim como a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) no Brasil.

Para entender como tem sido esta experiência, seus desafios, alcance e aprendizados, entrevistei o líder do projeto, Wladimir Mufty, Gerente de Programa de Soberania Digital no SURF. Ele impulsiona a inovação na interseção entre educação, tecnologia e valores públicos. Colaborando com o setor educacional, ele demonstra alternativas práticas às grandes empresas de tecnologia, abordando os riscos da plataformização enquanto apresenta oportunidades para uma mudança transformadora e para a construção da soberania digital.

Fotografia de Wladimir Mufty. Fonte: Mastodon.
Fotografia de Wladimir Mufty. Fonte: Mastodon.

Damny Laya: Pesquisando a relação entre o Fediverso, soberania digital e instituições públicas, me deparei com o projeto-piloto do SURF e sua instância Mastodon. Você pode me contar um pouco sobre como funciona esse projeto-piloto?

Wladimir Mufty: No final de 2022, pouco antes do Natal, havia uma inquietação significativa no Twitter (agora X). Muitos pesquisadores dependem das mídias sociais para comunicação acadêmica, compartilhamento de publicações, colaboração, anúncio de eventos e construção de comunidades. No entanto, a atmosfera na plataforma havia se deteriorado consideravelmente. Tornou-se socialmente insegura, com crescente hostilidade, misoginia, racismo, sexismo e desinformação.

A comunidade de pesquisa e educação é fortemente orientada por valores. Segurança social, transparência, combate à desinformação e salvaguarda da liberdade acadêmica são princípios fundamentais. Esses valores estavam cada vez mais em desacordo com a direção dessa plataforma de mídia social e seu(s) proprietário(s).

Como uma organização cooperativa de confiança que atende essas instituições, o SURF foi questionado por seus membros se poderia ajudar a fornecer uma alternativa. Como o SURF já oferece infraestrutura digital compartilhada e inovação, estava em uma posição forte para configurar um ambiente seguro e bem gerenciado no Mastodon. Em vez de cada instituição executar seu próprio servidor descentralizado de forma independente, o SURF poderia organizar isso centralmente, garantindo segurança, governança e conformidade adequadas desde o início e permitindo que os usuários se concentrassem em explorar, usar e aprender a plataforma que escolhemos como a mais orientada por valores e a que melhor se adequava a eles.

O projeto piloto envolveu o lançamento de uma instância Mastodon (servidor) adaptada para a comunidade holandesa de pesquisa e educação. Além de implantar a plataforma, o SURF construiu funcionalidades adicionais sobre ela.
Por exemplo:
– Os usuários podem fazer login usando suas contas institucionais existentes (como suas credenciais universitárias). Isso significa que eles não precisam criar perfis totalmente novos. A autenticação pode ser vinculada às mesmas contas que eles usam para sistemas de pesquisa ou serviços como eduroam. Eles podem escolher trabalhar com nomes de usuário autodefinidos na plataforma se preferirem não compartilhar sua identidade.
– O SURF desenvolveu suporte para contas de grupo. Isso permite que múltiplos indivíduos gerenciem uma única conta Mastodon sem compartilhar senhas. Isso é particularmente útil para grupos de pesquisa, equipes de marketing e comunicação e consórcios acadêmicos.
Essas adições reduziram a barreira para a adoção e tornaram a plataforma mais prática para uso institucional. O resultado é um ambiente no Mastodon que ainda está em funcionamento hoje, projetado especificamente para apoiar a soberania digital, os valores acadêmicos e um espaço online mais seguro para comunidades de pesquisa e educação dentro do Fediverso mais amplo.

Foto: ThisIsEngineering. Fonte: Pexels.

DL: O que motivou o SURF a abrir uma instância Mastodon e disponibilizá-la para a educação e pesquisa na Holanda? Por que o Mastodon?

WM: A motivação central foi que a comunidade de pesquisa e educação ainda precisava de um lugar para se manter conectada. Pesquisadores e educadores dependem fortemente de redes profissionais de longo prazo. Eles compartilham conhecimento, publicações, eventos, colaborações e discussões que muitas vezes abrangem décadas. Um pesquisador ativo hoje pode ainda estar ativo daqui a 10, 20 ou até 30 anos. Essas comunidades são globais e construídas sobre continuidade e confiança. Em seus primeiros anos, o Twitter fornecia exatamente esse tipo de espaço em rede.

No entanto, à medida que a plataforma mudou, o ambiente tornou-se cada vez mais desalinhado com os valores centrais do setor acadêmico. Quando essa mudança se tornou evidente, começamos a explorar alternativas. Avaliamos várias plataformas de mídia social e as ponderamos cuidadosamente em relação a um conjunto de valores públicos e acadêmicos: privacidade, transparência, governança, propriedade, políticas de moderação, responsabilidade e controle. Quem tem o poder de decisão? Quem é o dono da plataforma? O que acontece quando as políticas mudam? Sob qual jurisdição ela opera? Como a segurança social é salvaguardada?

Após considerar esses fatores, concluímos que o Mastodon era a escolha mais apropriada. O Mastodon existe desde 2016 e é construído sobre software de código aberto e padrões abertos. O que o torna particularmente atraente para a academia é sua arquitetura descentralizada. Não há um único proprietário, nenhuma autoridade central e nenhum acionista determinando a direção da plataforma. Isso se alinha estreitamente com valores acadêmicos como autonomia institucional, governança distribuída e soberania digital

Ao contrário de plataformas de propriedade comercial, como o Bluesky, que ainda têm investidores, executivos e estruturas de decisão centralizadas, o Mastodon permite que as instituições operem seus próprios servidores (instâncias). Cada instância pode definir suas próprias políticas de moderação, modelo de governança e diretrizes comunitárias. Se os usuários discordarem de como um servidor é administrado, eles podem mudar para outro sem perder o acesso à rede mais ampla.
Essa descentralização é semelhante a como o e-mail funciona: não há um único proprietário global do e-mail. Diferentes provedores operam seus próprios servidores, mas eles se comunicam através de protocolos abertos compartilhados. O Mastodon, e o Fediverso, segue o mesmo princípio. Servidores independentes interoperam usando padrões comuns, permitindo a comunicação através da rede sem controle central.

Para o SURF e suas instituições membros, este modelo apoia fortemente a soberania digital. Permite que o setor holandês de educação e pesquisa hospede e governe sua própria infraestrutura, aplique suas próprias políticas de moderação e incorpore valores acadêmicos no design e operação da plataforma.
Claro, há a questão dos efeitos de rede. Grandes plataformas comerciais como LinkedIn ou Instagram têm bases de usuários significativamente maiores. No entanto, para o SURF, a questão chave não era simplesmente escala, mas sustentabilidade e alinhamento com valores públicos. Plataformas centralizadas podem oferecer alcance, mas também concentram poder nas mãos de poucos atores. Quando a liderança ou a propriedade muda, as políticas e a cultura podem mudar rapidamente.
Um modelo descentralizado mitiga esse risco. Ele distribui o controle, reduz a dependência de uma única empresa e permite que instituições públicas assumam a responsabilidade por seu próprio ambiente digital. Por essas razões, o Mastodon não foi apenas uma escolha técnica… foi uma decisão orientada por valores que se alinha com os interesses de longo prazo da educação e pesquisa na Holanda.

Foto: Hitarth Jadhav. Fonte: Pexels.

DL: Como tem sido a recepção entre universidades e outras instituições de pesquisa em relação ao projeto? E como você descreveria a participação de estudantes, professores e pesquisadores no uso desta plataforma?

WM: A recepção entre universidades e instituições de pesquisa tem sido amplamente positiva, por várias razões. Em um nível prático, a plataforma inicialmente parecia diferente do que as pessoas estavam acostumadas. Certas funções tinham nomes diferentes ou funcionavam de maneira ligeiramente diferente. Por exemplo, não há “retweet”, mas um “boost”, e não há “curtir”, mas a opção de favoritar, “favorito”. A interface exigiu alguma adaptação. Com o tempo, muitas dessas diferenças se tornaram menos uma barreira.

Importante ressaltar, a comunidade acadêmica é geralmente capaz de lidar com um certo nível de atrito. Pesquisadores e educadores estão acostumados a lidar com sistemas complexos, aprender novas ferramentas e navegar por mudanças. Portanto, embora houvesse pequenas preocupações de usabilidade, elas não foram percebidas como obstáculos fundamentais.

Mais significativamente, o projeto teve valor simbólico. Embora possa parecer uma iniciativa relativamente pequena no debate mais amplo sobre soberania digital, tornou-se um dos primeiros exemplos tangíveis do setor assumindo o controle de sua própria infraestrutura digital em reação a uma perda de valores. Especialmente em 2022 e 2023, as discussões sobre autonomia tecnológica europeia e dependência de grandes empresas de tecnologia americanas já estavam ganhando impulso. Esta iniciativa do Mastodon demonstrou que instituições públicas poderiam organizar, governar e operar com sucesso uma plataforma social por conta própria.

Isso criou um forte senso de espírito coletivo. Mostrou que uma plataforma setorial, impulsionada pela comunidade, poderia funcionar de forma confiável e apoiar interações significativas. Esse impulso inicial desempenhou um papel importante na adoção e percepção. Houve também uma atenção significativa da mídia em torno do lançamento. De certa forma, essa atenção parecia desproporcional, já que muitas comunidades trabalhavam com o Mastodon há anos. No entanto, o SURF representa um setor nacional bem organizado, com forte apoio institucional, o que tornou a iniciativa mais visível.

O interesse da mídia também pode refletir algo mais amplo. O jornalismo, como a academia, tornou-se altamente dependente de grandes plataformas de mídia social americanas para distribuição e visibilidade. Na época deste projeto, muitas organizações de mídia já estavam lidando com questões como dependência de plataforma, controle algorítmico, desinformação, declínio do tráfego de referência e controle limitado sobre a visibilidade narrativa. A iniciativa do SURF, portanto, ressoou além da academia. Simbolizou um modelo alternativo alinhado com os valores públicos.

Em termos de participação, os pesquisadores têm sido geralmente os usuários mais ativos. Para eles, a plataforma funciona como uma rede profissional onde compartilham publicações, comentam sobre desenvolvimentos em seu campo, participam de debates públicos e mantêm conexões internacionais.
Contas institucionais, como as de universidades, grupos de pesquisa e equipes de comunicação, também têm sido ativas, particularmente porque o SURF habilitou contas compartilhadas ou de grupo. Isso facilita que as equipes gerenciem um perfil de forma colaborativa.

A participação estudantil tem sido mais variada. Embora alguns estudantes sejam ativos, muitos continuam a usar plataformas maiores e tradicionais onde suas redes de pares já estão presentes. Isso reflete a importância contínua dos efeitos de rede. Plataformas com bases de usuários maiores naturalmente atraem uma participação mais ampla. No geral, o projeto tem sido recebido como uma alternativa significativa e crível, particularmente valorizada por seu alinhamento com princípios acadêmicos como autonomia, transparência e governança responsável. Mesmo onde a adoção não é universal, a iniciativa é amplamente reconhecida como um passo importante para fortalecer a soberania digital no setor holandês de pesquisa e educação.

Foto: Markus Spiske. Fonte: Pexels.
Foto: Markus Spiske. Fonte: Pexels.

DL: Quantas universidades começaram a usar o Mastodon através do projeto do SURF

WM: A resposta não é totalmente direta, pois requer algumas nuances. A Holanda tem quatorze universidades. O que posso dizer é que todas elas pararam de usar o Twitter, agora X. Elas não saíram todas ao mesmo tempo, mas a última universidade remanescente também descontinuou o uso ativo. Algumas instituições excluíram completamente suas contas, enquanto outras mantêm uma conta inativa para reter seu nome, mas não estão mais ativas.

Em termos de Mastodon através do projeto do SURF, várias universidades estão ativas em nosso servidor com contas institucionais. No entanto, a participação não se limita às contas centrais das universidades. Em muitos casos, os usuários ativos são indivíduos afiliados a essas universidades, como pesquisadores e funcionários. Além disso, você vê subentidades como bibliotecas universitárias, faculdades ou institutos de pesquisa criando suas próprias contas. Há também consórcios ativos na plataforma, e alguns desses consórcios consistem em múltiplas universidades. As universidades também estão ativas em outros servidores Mastodon, o que é ótimo. Elas não precisam se mudar, são bem-vindas, mas não é um objetivo para nós dizer aos membros qual servidor devem usar para entrar no Fediverso. O mais importante é: eles devem entrar no Fediverso!

Devido a essa estrutura em camadas, é difícil fornecer um número preciso de “universidades” usando a plataforma. Os limites nem sempre são claros. Quando algo conta como uma universidade, uma faculdade, um grupo de pesquisa ou um consórcio?

O que posso compartilhar em termos de números é que a plataforma atualmente tem mais de 1.250 usuários no total. Entre estes, há aproximadamente 50 contas de grupo. Cada uma dessas contas de grupo pode representar uma universidade, uma biblioteca universitária, uma faculdade, um grupo de pesquisa ou um consórcio. Portanto, em vez de um número fixo de universidades, é mais preciso descrevê-lo como uma ampla participação setorial em múltiplos níveis institucionais.

DL: Quais têm sido os desafios e sucessos do projeto?

WM: Os desafios e sucessos do projeto operam tanto em nível prático quanto estratégico. Um dos principais desafios tem sido organizacional. O SURF está acostumado a gerenciar projetos de infraestrutura em larga escala e alto investimento. Estes tipicamente incluem supercomputadores nacionais, iniciativas de computação quântica, cabos submarinos, redes eduroam, infraestruturas WiFi seguras, GPTs e sistemas de login em larga escala. Esses projetos frequentemente envolvem orçamentos substanciais e estratégias de investimento de longo prazo.

Em contraste, o Mastodon é um serviço relativamente pequeno e compacto. É leve em termos de custo e infraestrutura. Paradoxalmente, isso torna mais difícil posicioná-lo dentro das estruturas existentes de governança e financiamento. Nossos processos internos são projetados para grandes investimentos em infraestrutura, com modelos de custo detalhados, esquemas de depreciação, acordos setoriais amplos e trajetórias formais de adoção.

Ao introduzir algo como o Mastodon, as instituições, com razão, fazem perguntas sobre custo, uso, sustentabilidade e valor de longo prazo. Em termos financeiros, é modesto. Em termos estratégicos, no entanto, contribui para algo muito maior, ou seja, a soberania digital e a infraestrutura orientada por valores públicos. A dificuldade reside no fato de que nossos processos ainda não estão totalmente adaptados para acomodar ferramentas menores, flexíveis e orientadas por valores desse tipo.Isto é algo em que estamos trabalhando ativamente. O Mastodon não é o único exemplo. Existem outras alternativas descentralizadas ou abertas, como o PeerTube, uma plataforma de vídeo do Fediverso, que também poderiam desempenhar um papel significativo na redução da dependência das big techs. Desenvolver modelos de governança e financiamento que apoiem essas ferramentas menores, mas estrategicamente importantes, continua sendo um desafio contínuo.Em termos de sucessos, a resposta da comunidade tem sido muito encorajadora. Muitos usuários expressam apreço pela atmosfera. Eles frequentemente a descrevem como reminiscente dos primeiros dias do Twitter, quando compartilhar conhecimento, humor e trocas informais parecia mais orgânico e menos polarizado. Nem tudo é formal ou sério. Há até tradições descontraídas como o “Caturday”, onde as pessoas simplesmente compartilham fotos de gatos.

Esse senso de comunidade e informalidade é importante. Cada servidor Mastodon tende a desenvolver sua própria identidade. Alguns focam em esportes, outros em música ou matemática. A instância do SURF desenvolveu um perfil claro centrado em pesquisa e educação. Os usuários valorizam esse contexto compartilhado e o fato de a plataforma refletir as normas e a cultura da comunidade acadêmica. Outro sucesso importante é que a plataforma fornece um exemplo concreto de soberania digital na prática. Em vez de discutir conceitos abstratos sobre valores, controle ou dependência, o Mastodon nos permite demonstrar essas diferenças de forma tangível. Torna possível explicar o contraste entre sistemas abertos e fechados, governança centralizada e descentralizada, concentração de poder versus responsabilidade distribuída.Como o Mastodon é construído sobre padrões abertos e protocolos abertos dentro do Fediverso mais amplo, ele se torna uma ilustração acessível e prática de como as instituições públicas podem recuperar a agência sobre sua infraestrutura digital. Nesse sentido, o projeto não tem sido apenas um sucesso funcional, mas também um importante sucesso educacional e estratégico.

Fonte: Pixabay/Pexels.

DL: Há lições aprendidas com esta experiência?

WM: Sim, houve várias lições importantes aprendidas, tanto técnicas quanto organizacionais. Primeiro, de uma perspectiva tecnológica, a plataforma provou ser estável e confiável. A infraestrutura central funciona bem. Os principais desafios não são de natureza técnica, mas relacionam-se mais com usabilidade, expectativas e adaptação cultural.

Uma lição chave é que, ao introduzir uma plataforma alternativa, você constantemente enfrenta trade-offs entre valores e expectativas dos usuários. Muitos usuários comparam o Mastodon ao Twitter ou outras plataformas comerciais. Eles esperam recursos semelhantes, como análises detalhadas, funcionalidade de pesquisa global e métricas de visibilidade. Por exemplo, equipes de comunicação frequentemente querem saber quantas vezes uma postagem foi visualizada, clicada ou compartilhada.

No entanto, o Mastodon é construído em torno de princípios de design diferentes. A privacidade é um valor central. Por design, ele não rastreia os usuários da mesma forma que as plataformas comerciais. Não fornece o mesmo nível de estatísticas granulares ou pesquisa global em toda a rede. Essas limitações são intencionais e enraizadas em valores como privacidade, descentralização e minimização de dados.

Isso cria uma tensão real. Por um lado, as instituições dizem que querem digitalização orientada por valores e maior soberania digital. Por outro lado, os departamentos de comunicação ainda são avaliados com base em métricas de marketing e indicadores de desempenho que foram moldados pelas plataformas de mídia social comerciais nas últimas duas décadas. Isso cria um dilema estrutural. Os valores por trás da tecnologia podem nem sempre estar alinhados com as estruturas de desempenho institucional existentes.

Outra lição diz respeito à descentralização em si. O conceito nem sempre é intuitivo. A ideia de que você não pode simplesmente pesquisar toda a rede da mesma forma que faria em uma plataforma centralizada pode ser confusa para muitos usuários. Um pequeno grupo valoriza fortemente essas escolhas de design baseadas em princípios. Um grupo maior pode achá-las difíceis de entender ou inconvenientes. Isso leva a discussões contínuas dentro da comunidade sobre se devemos priorizar o crescimento e a familiaridade, ou permanecer estritamente alinhados com os princípios originais de descentralização e abertura.

Há uma tensão natural entre aqueles que defendem a expansão e a adaptação às expectativas dominantes, e aqueles que acreditam que uma alternativa deve permanecer fundamentalmente diferente para permanecer significativa. Esse debate é saudável e faz parte do processo de amadurecimento. O progresso é gradual. Às vezes você avança, às vezes você reavalia. No geral, o ecossistema está se tornando mais maduro.

Outra área importante de aprendizado diz respeito à moderação. Historicamente, plataformas como o Mastodon e o Fediverso mais amplo frequentemente atraíram comunidades tecnicamente inclinadas e altamente orientadas por valores. No entanto, esses grupos não são necessariamente representativos da sociedade como um todo. Se a moderação for feita apenas por um grupo demográfico restrito, isso pode criar pontos cegos.

Portanto, refletimos sobre como criar uma estrutura de moderação mais representativa, envolvendo pessoas de diferentes setores educacionais e origens diversas. Curiosamente, no nosso caso, a moderação exigiu muito pouca intervenção. Como os usuários fazem login através de suas contas institucionais, mesmo que usem um pseudônimo publicamente, eles sabem que são responsabilizáveis dentro de sua organização. Esse mecanismo de responsabilização reduziu significativamente o comportamento prejudicial. Como resultado, a moderação permaneceu mínima, o que é tanto afortunado quanto um tanto teórico em termos de construção de grandes equipes de moderação.

No geral, talvez a lição mais importante seja que a tecnologia em si não é o principal desafio. Os verdadeiros desafios residem na usabilidade, nos efeitos de rede, nos modelos de governança, nos incentivos institucionais e no alinhamento das ferramentas digitais com os valores públicos de longo prazo.

Foto: Alina Grubnyak. Fonte: Unsplash.
Foto: Alina Grubnyak. Fonte: Unsplash.

DL: Você tem relacionado este projeto como uma expressão de soberania digital. Você pode aprofundar um pouco mais nisso?

WM: Sim, absolutamente. Considero este projeto uma expressão concreta de soberania digital. Para mim, soberania digital é sobre a capacidade de exercer controle. Significa ter capacidade de governança, direção estratégica e poder real de tomada de decisão sobre sua infraestrutura digital. Inclui a liberdade de escolher, a capacidade de inovar de forma independente e a capacidade de moldar a tecnologia de acordo com suas próprias prioridades, em vez daquelas de atores comerciais externos.

Quando você possui esses elementos, é capaz de salvaguardar e defender ativamente os valores públicos. Esses valores incluem autonomia, privacidade, interação social e centrada no ser humano, independência e justiça. Sem um mínimo de soberania digital, torna-se muito difícil proteger e sustentar esses valores a longo prazo.

O projeto Mastodon incorpora esses princípios. Ao hospedar e governar nossa própria instância, o setor de educação e pesquisa na |Holanda retém o controle sobre políticas de moderação, desenvolvimento técnico, tratamento de dados e padrões comunitários. As decisões não são ditadas por acionistas, interesses de capital de risco ou estratégias corporativas em mudança.

Como o Mastodon é de código aberto e construído sobre padrões abertos dentro do Fediverso, ele permite que instituições e indivíduos operem sua própria infraestrutura enquanto permanecem interoperáveis com outros. Essa combinação de autonomia e interoperabilidade é crucial. Evita o isolamento enquanto previne a dependência de um único provedor centralizado.

Nesse sentido, o projeto não está apenas simbolicamente ligado à soberania digital. É uma demonstração prática dela. Mostra que instituições públicas podem organizar, governar e inovar digitalmente em alinhamento com seus próprios valores, em vez de terceirizar essa responsabilidade para grandes plataformas comerciais.

DL: O governo holandês também disponibilizou uma instância Mastodon desde 2025 para todas as organizações governamentais. Como você avalia essa política?

WM: Acho que é um desenvolvimento fantástico, e genuinamente me orgulha que o governo holandês tenha dado esse passo. É importante esclarecer que a instância governamental não é destinada a funcionários públicos individuais ou a todos os 18 milhões de cidadãos holandeses. Ela é projetada para organizações governamentais. Isso inclui ministérios, os próprios ministros, agências executivas, autoridades fiscais, autoridades regionais e uma ampla gama de órgãos públicos que mantêm uma presença oficial nas mídias sociais através deste servidor Mastodon compartilhado.

Também vejo desenvolvimentos semelhantes surgindo em outros países, como a Alemanha. O fato de a Holanda ter assumido um papel de liderança nesta área merece verdadeiro reconhecimento, especialmente para as pessoas dentro do governo que trabalharam duro para torná-lo realidade.

Estamos em contato com eles e compartilhamos conhecimento sobre desafios e oportunidades quando relevante. Essa colaboração é valiosa e encorajadora de se ver.

Ao mesmo tempo, eu diria que o governo opera em um ambiente mais complexo e politicamente sensível do que o setor de educação e pesquisa. Dentro da comunicação governamental, há uma forte visão predominante de que as instituições públicas devem estar presentes onde os cidadãos já estão. Isso torna mais difícil argumentar que certas plataformas comerciais podem não ser sustentáveis ou alinhadas com os valores públicos a longo prazo.

Há também riscos concretos. Por exemplo, se informações oficiais do governo, como orientações de saúde pública, fossem rotuladas como desinformação ou tivessem sua visibilidade reduzida por uma plataforma comercial, isso seria altamente problemático. Da mesma forma, se uma região de segurança ou serviço de emergência precisar se comunicar urgentemente, não deveria ter que se preocupar em ser bloqueado ou restringido por uma plataforma de propriedade privada ou por decisões tomadas fora do controle democrático do país.

Por essa razão, acredito que a decisão do governo de operar sua própria instância Mastodon é um passo importante e corajoso. Reduz a dependência estratégica e fortalece a resiliência da infraestrutura de comunicação pública.

De certa forma, isso me deixa pelo menos tão orgulhoso quanto nossa própria iniciativa setorial do Mastodon dentro da educação e pesquisa. Talvez ainda mais, porque para o governo esse movimento requer romper com suposições há muito estabelecidas sobre como alcançar os cidadãos e como estruturar a comunicação digital. Representa não apenas uma decisão técnica, mas uma mudança no pensamento sobre autonomia, responsabilidade e o papel das instituições públicas na esfera digital.

Foto: Ron Lach. Fonte: Pexels.
Foto: Ron Lach. Fonte: Pexels.

DL: Você gostaria de acrescentar alguma informação ou perspectiva que eu possa ter deixado de lado?

WM: Uma perspectiva mais ampla que gostaria de acrescentar é que, historicamente, a digitalização na Holanda não tem sido fortemente orientada por valores. Tradicionalmente, focamos em preço e funcionalidade. E, para ser justo, somos muito bons nisso. Negociamos contratos competitivos com grandes provedores de tecnologia e somos hábeis em especificar requisitos funcionais e obter exatamente o que pedimos.

Também tendemos a estabelecer padrões claros em questões como privacidade. Em alguns casos, grandes empresas de tecnologia até fizeram ajustes específicos para o contexto holandês, inclusive para nosso setor de educação e pesquisa, para atender a requisitos de privacidade mais rigorosos.

No entanto, quando se trata de valores mais amplos, como autonomia, interoperabilidade e independência estrutural, esses têm sido frequentemente considerações secundárias. Quando confrontados com trade-offs, custo e funcionalidade frequentemente superaram questões mais profundas sobre controle e dependência de longo prazo. Na Holanda, às vezes descrevemos essa tensão como a diferença entre o “comerciante de mercado” e o “pregador”. Otimizamos para preço e eficiência, ou priorizamos princípios e valores?

Por muito tempo, tendemos para a primeira abordagem. Costumávamos olhar para países como a França com certa ironia, descrevendo-os como um tanto chauvinistas devido à sua forte ênfase no controle nacional em áreas como energia, infraestrutura digital e escolhas de TI no setor público. Mas também se poderia interpretar isso não como chauvinismo, mas como uma priorização consistente da autonomia.

O mesmo se aplica à Alemanha. De uma perspectiva holandesa altamente digitalizada, às vezes questionávamos por que certos processos públicos lá permaneciam menos digitalizados, como a administração fiscal que historicamente dependia por mais tempo de sistemas baseados em papel. Mas isso não era necessariamente conservadorismo. Refletia um compromisso profundamente enraizado com a privacidade e cautela em torno de sistemas de dados centralizados, moldado pela experiência histórica.

O que estamos vendo agora na Holanda, e iniciativas como o Mastodon são um exemplo disso, é uma mudança gradual. Estamos começando a pesar valores como autonomia, controle e interoperabilidade mais seriamente em nossas estratégias digitais. Nesse sentido, estamos conseguindo.

A Holanda é uma sociedade forte e saudável. Temos uma cultura cívica vibrante, instituições públicas fortes e uma tradição colaborativa. Mas no domínio digital, permitimo-nos tornar demasiado dependentes de atores externos. Pode haver razões históricas para isso, mas é encorajador ver que agora estamos abordando a digitalização mais explicitamente desde uma perspectiva de valores.

Se incorporarmos esses valores estruturalmente em nossas escolhas, não precisaremos reabrir o mesmo debate sobre soberania digital a cada cinco anos. Em vez disso, podemos trabalhar em direção a soluções sustentáveis de longo prazo que permaneçam alinhadas com nossos próprios princípios sociais e, portanto, sejam mais duráveis ao longo do tempo. Essa, na minha visão, é o verdadeiro significado de iniciativas como esta.


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