Pensando espaços de interação, reflexão e co-produção para um futuro melhor – uma conversa com Taís Sonetti González
Por Thais Lassali
O GEICT conta com uma nova pesquisadora de pós-doutorado! Desde de dezembro de 2025, Taís Sonetti González faz parte do nosso grupo. Ela atuará no projeto “Analisando a interface entre ciência e política no experimento AmazonFACE”, financiado pela FAPESP no âmbito do projeto internacional AmazonFACE, experimento que simula os impactos do aumento de CO₂ na floresta amazônica. A pesquisa de Sonetti-González tem como principal objetivo compreender como as evidências científicas são interpretadas, mobilizadas e disputadas em contextos de governança climática. O Blog do GEICT entrevistou a pesquisadora para saber mais detalhes sobre sua trajetória acadêmica, sobre os conceitos e teorias que motivaram sua carreira e sobre o seu atual projeto de pesquisa.

Uma profissional multidisciplinar
Sonetti-González se formou em Comunicação Social pela Universidade São Judas Tadeu em 2010, tendo trabalhado como jornalista nos anos seguintes, sempre tendo como foco do seu ofício as questões socioambientais.
Esse período foi muito importante porque me colocou em contato direto com conflitos socioambientais e com diferentes formas de narrar essas realidades e, ao mesmo tempo, com os limites dessas narrativas, sobretudo em relação a quem tem voz e quem permanece invisibilizado.
Concomitante a isso, ela também atuou com desenvolvimento comunitário em contextos internacionais junto a organizações sem fins lucrativos em países como São Vicente e Granadinas e Moçambique. Essas experiências fora do contexto acadêmico foram essenciais para despertar na pesquisadora o interesse em refletir e tentar encontrar diferentes maneiras para se enfrentar problemas sociais, tanto globais como comunitários. A pergunta que intrigava Sonetti González era a seguinte: de que modo é possível influenciar e contribuir para transformações sociais a partir de diferentes ferramentas, inclusive através da produção de conhecimento?

Desse modo, a então jornalista e agente comunitária resolveu se aproximar da pesquisa acadêmica. Assim, em 2013 ela se mudou para a Suécia e depois de trabalhar com refugiados por três anos iniciou um mestrado em Ciência Política na Universidade de Estocolmo sob orientação de Josef Hien e coorientação de Jouni Reinikainen. Dele, resultou a dissertação “The Resistances of Indigenous Women – a decolonial approach to the Case Study of Amazonian women from the Rio Negro”. Sua pesquisa tinha como interesse compreender os modos de resistência política colocados em prática pelas mulheres indígenas da região do Rio Negro, na Amazônia. Sonetti-González fez então um estágio no ISA (Instituto Socioambiental) com Adriana Ramos e acompanhou a última oficina para a formulação do PGTA dos Povos Indígenas no Alto Rio Negro, junto ao Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), parte integrante da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Para tanto, se apoiou em teorias decoloniais de autores como Aníbal Quijano, Gayatri Spivak e Braulina Baniwa, com o objetivo de apreender um olhar sobre as ações políticas daquelas mulheres (e, por consequência, sobre a própria a política) que não fosse centrado nos autores, conceitos e teorias eurocêntricos. Assim, a pesquisadora pode desenvolver uma contribuição para os estudos de movimentos sociais, tão centrais para a Ciência Política brasileira, a partir de um olhar que evidenciasse diferentes dimensões de resistência, escapando às leituras mais tradicionais da teoria política.
Isso me permitiu não apenas reinterpretar o conceito de resistência, nas pequenas resistências diárias (Scott, 1985) do ser e performar mulher indígenas, mas também contribuir para os debates nos estudos de movimentos sociais a partir de outras ontologias e experiências. Nesse percurso, comecei também a aprofundar uma reflexão crítica sobre os fundamentos onto-epistemológicos da pesquisa, especialmente aqueles ancorados em tradições europeias. Mais do que uma rejeição, tratou-se de um esforço de deslocamento e rearticulação, buscando contribuir para o diálogo e tensionar suas bases, abrindo fissuras nas formas hegemônicas de produção de conhecimento.

O segundo mestrado de Sonetti González, por sua vez, foi em Resiliência Socioecológica para o Desenvolvimento Sustentável, no Stockholm Resilience Centre (SRC), também parte da Universidade de Estocolmo. Durante esse mestrado a pesquisadora também realizou um estágio em Moçambique no projeto FoRel (Forum theatre to enhance joint agency) baseado no SRC que utilizou teatro comunitário (teatro-fórum) para fortalecer a capacidade de ação de comunidades costeiras no Quênia e Moçambique contra os impactos das mudanças climáticas. Sua dissertação, “Understanding women’s stewardship in the Amazon A decolonial-process-relational perspective”, entretanto, focou-se na região de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos no Pará, com trabalhadoras rurais, dentro do contexto do projeto internacional AGENTS, liderado pelo professor Eduardo Brondízio e teve como orientadora a professora Maria Tengö, do SRC. A pesquisa teve como foco investigar práticas sustentáveis desenvolvidas por atores locais na Amazônia, com foco no papel das mulheres. A partir de uma perspectiva decolonial, processual-relacional e feminista, ancorada em leituras latino-americanas, a pesquisadora buscou, com seu trabalho, não apenas aplicar, mas tensionar e reinterpretar criticamente os marcos teóricos dominantes na literatura de sistemas socioecológicos e sustentabilidade.
Esse movimento contribuiu para deslocar o olhar para experiências situadas e para formas de conhecimento historicamente marginalizadas, a partir de uma prática de pesquisa que se aproxima de uma práxis latino-americana, feminista e orientada pelo sentipensar (Fals-Borda, 1987). Com isso, procurei evidenciar tanto o potencial quanto os limites dessas práticas, sobretudo na sua capacidade de articular conservação ambiental e desenvolvimento local, ao mesmo tempo em que questionava as bases epistemológicas que sustentam essas categorias.
Essas primeiras experiências de mestrado têm em comum, além do aparato teórico decolonial e feminista, o fato de lidarem com olhares transdisciplinares, preocupados em problematizar as fronteiras comumente estabelecidas tanto entre as áreas do conhecimento e suas teorias, quanto entre os pesquisadores e os participantes de suas pesquisas. Dessa maneira, Sonetti-González realizou entre 2021 e 2025 seu doutorado em Gestão Ambiental na Universidade Livre de Bruxelas como bolsista do Swedish Research Council for Sustainable Development. Ela defendeu a tese “Transformations for Communal Sustainability ~ A pluriversal thinking”, que se concentra na questão da justiça epistêmica em processos participativos de coprodução de conhecimento. Fundamentada em perspectivas feministas decoloniais e processuais-relacionais, essa pesquisa buscou explorar como apoiar, de forma ética, dialógica e decolonial, a participação de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais no Cerrado brasileiro, integrando suas cosmovisões a processos transdisciplinares e multissetoriais voltados à sustentabilidade. O resultado da sua pesquisa de doutorado materializou-se na integração de uma ação co-criada por esses povos no Plano de Ações elaborado pelos participantes do projeto XPaths, do qual a pesquisadora fez parte. Ademais, esse Plano foi apresentado a diversas secretarias do governo federal e tem servido como base para a formulação do plano decenal do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF).
Eu me debrucei sobre os desafios metodológicos e éticos do “como fazer o como” em contextos participativos, isto é, como avançar de práticas participativas para processos efetivamente colaborativos, orientados por princípios de pesquisa-ação e compromisso ético. Esse percurso levou-me a desenvolver uma reflexão crítica sobre a própria práxis da pesquisa e sobre o meu papel enquanto mediadora de conhecimentos e facilitadora de processos colaborativos.

Pensando política, ciência e poder na teoria e na prática
Como a pesquisadora contou ao Blog do GEICT, suas reflexões teóricas sempre estiveram acompanhadas das tensões entre as inúmeras assimetrias de poder que atravessam a construção do conhecimento acadêmico e da própria posicionalidade da pesquisadora (uma mulher branca do Sudeste brasileiro, realizando pesquisa a partir do Norte Global e se situando em espaços institucionais europeus dos quais era identificada como latina) em relação aos sujeitos que participaram de suas pesquisas. Para Sonetti-González, tais tensões acabaram se tornando parte constitutiva das análises que realizou, permitindo a ela realizar leituras situadas das dinâmicas de participação dos atores políticos e institucionais na política local, bem como da coprodução de conhecimento entre tais atores em diferentes contextos, seja entre mulheres indígenas amazônidas, seja entre populações tradicionais do Cerrado brasileiro. Colocando em outros termos, a grande preocupação da pesquisadora no decorrer de sua trajetória foi a justiça onto-epistêmica, ou seja, a compreensão sobre quais conhecimentos são reconhecidos, quais são marginalizados, e sob quais condições seria possível construir processos mais plurais, inclusivos e transformadores para orientar políticas públicas mais assertivas.
Foi justamente articulando essa preocupação com uma visão prática sobre as tomadas de decisão e a formulação de políticas com um refino teórico voltado para construção multisituada do conhecimento que a pesquisadora chegou ao GEICT, para realizar o projeto “Analisando a interface entre ciência e política no experimento AmazonFACE”. Dessa vez, o objeto da análise de Sonetti-González será a interface entre ciência e política a partir do experimento multidisciplinar AmazonFACE, que está sendo realizado na Amazônia Brasileira por meio simulação de condições atmosféricas com altas concentrações de dióxido de carbono (CO₂). A área socioambiental do projeto, que se preocupa com compreender como as mudanças climáticas podem afetar não apenas a floresta, mas também as pessoas que dela dependem de maneira mais imediata, é coordenada por Maíra Padgurschi e por Marko Monteiro, líder do GEICT.
No contexto do AmazonFACE, o foco de Sonetti-González será compreender como o conhecimento científico é produzido, legitimado e mobilizado em processos de governança climática, e quais são as implicações disso para a construção de futuros mais justos e sustentáveis exatamente para as populações que são as primeiras a serem atingidas pelo colapso climático. Para isso, o ponto de partida da pesquisadora será uma abordagem ancorada na ideia de justiça onto-epistêmica, entendendo que diferentes formas de conhecer e interpretar o mundo, apesar de coexistirem, influenciam de maneira desigual os processos de tomada de decisão e a construção de futuros, ainda mais em um contexto de aceleração das mudanças climáticas. Para tanto, Sonetti-González utilizará uma abordagem teórica-metodológica denominada Base de Evidências Múltiplas (originalmente Multiple Evidence Base, MEB). Tal abordagem, desenvolvida pelos pesquisadores com os quais a pesquisadora trabalhou em seu mestrado , tem como o objetivo orientar processos inclusivos de colaboração entre diferentes sistemas de conhecimento, tendo como cerne a equidade e a utilidade dessa colaboração para todos os atores envolvidos. A MEB enfatiza que os sistemas de conhecimento indígena, local e científico são complementares, igualmente válidos e úteis para fundamentar a governança sustentável da biodiversidade e dos ecossistemas.
Desse modo, como contou Sonetti-González ao Blog do GEICT, a pesquisa que ela realizará nos próximos anos, inspirada pela MEB,
busca avançar em sua operacionalização empírica, concebendo a coprodução como um processo relacional e iterativo, estruturado em momentos de mobilização, tradução, negociação e síntese entre diferentes atores e formas de conhecimento. (…) [Compreendendo] a pesquisa como uma prática relacional, na qual as fronteiras entre sujeito e objeto não são dadas a priori, mas co-constituídas ao longo do processo investigativo.
Para tanto, a pesquisadora se irá realizar, primeiramente, uma revisão bibliográfica acompanhada de uma análise documental das políticas públicas brasileiras relacionadas às mudanças climáticas, com foco, claro, na Amazônia. Esse momento da pesquisa terá como objetivo compreender como problemas, soluções e evidências são construídos discursivamente nas práticas das políticas públicas. Em seguida, Sonetti-González fará uma investigação empírica e colaborativa, combinando entrevistas com cientistas, formuladores de políticas e outros atores relevantes com a observação participante em espaços de interação entre cientistas, políticos e a população das localidades onde estão sendo realizados os experimentos do AmazonFACE. Conforme nos explicou a pesquisadora, “a pesquisa é organizada em um processo de engajamento em etapas, articulando diferentes escalas e territórios”. Uma das etapas desse processo foi o Workshop de Engajamento “Ciência e Política em Mudanças Climáticas – o caso do Programa AmazonFACE” que ocorreu em Brasília em abril de 2025 e contou com a cobertura do Blog do GEICT. Um outro momento desse engajamento acontecerá em junho de 2026 em Manaus (AM) e terá como objetivo o aprofundamento territorial com atores locais e regionais, com produção conjunta de análises e materiais visuais, e culminará em uma terceira oficina, com previsão para ser realizada em maio de 2027, na qual a pesquisadora espera consolidar redes institucionais com os atores locais e possibilitar a tradução dos aprendizados em recomendações estratégicas para políticas públicas a partir dos resultados de um experimento de tão larga escala como AmazonFACE.

Pensando espaços de interação, reflexão e co-produção
Essa organização orientada em etapas de engajamento a partir de oficinas e workshops tem como metodologia central a abordagem dos Três Horizontes integrada a dos Diagramas de Laços Causais (3H-CLD) (Aguiar et al., 2025). Tal metodologia une outras duas. A primeira é a abordagem dos Três Horizontes (3H), que se popularizou nos espaços que discutem sustentabilidade no decorrer dos anos 2010 por ser uma ferramenta que permite orientar o pensamento coletivo sobre caminhos para o futuro. Ela parte da ideia de se debater um primeiro horizonte em comum a ser modificado por meio de processos transitórios (segundo horizonte) com a finalidade de alcançar um futuro alternativo melhor (terceiro horizonte). Exatamente por isso tal metodologia é útil para ser utilizada em espaços como as oficinas, por que cada um desses três horizontes é discutido coletivamente no sentido de se debater possíveis atitudes, atores e ações a serem realizadas para agir e modificar a realidade social.
A segunda metodologia, a dos Diagramas de Laços Causais (CLD, em inglês), diz respeito à construção de conceitualizações e mapas de sistemas para descrever situações de alta complexidade, apontando as principais variáveis e interconexões em jogo, criando laços causais entre elas. Esse tipo de construção visual modelos permitem tornar mais visíveis como as mudanças (como aquelas propostas na teoria dos Três Horizontes) em uma área podem afetar múltiplos atores e múltiplas situações. A partir da criação coletiva de diagramas, espera-se facilitar a comunicação, a colaboração coletiva e a construção de consensos.
A combinação dessas duas metodologias em uma só em sua pesquisa de pós-doutorado permite a Sonetti-González, segundo a própria, a
co-construir, com os participantes, visões de futuro, identificar desafios (ou problemas) sistêmicos e explorar caminhos de transformação. No contexto da minha pesquisa, a oficina não é apenas uma técnica de coleta de dados, mas um espaço de interação, reflexão e coprodução entre diferentes atores, cientistas, formuladores de políticas e, progressivamente, atores dos territórios.
Conforme explicou ao Blog a pesquisadora, durante as oficinas, por meio de tais metodologias, os participantes são convidados a refletir sobre diferentes temporalidades, o presente, as tendências emergentes e os futuros desejados, e a mapear coletivamente as relações causais, os desafios estruturais e os pontos de alavancagem para a ação.

Já do ponto de vista do AmazonFACE, projeto de pesquisa no qual Sonetti-González está alocada, os processos de diálogo com diversos atores por meio de oficinas têm o papel estratégico de fortalecer a interface entre ciência, política e sociedade desde as fases iniciais do experimento. Ao criar espaços estruturados de diálogo e coprodução, o projeto e a pesquisa da integrante do GEICT podem contribuir para tornar a ciência mais acionável pelos sujeitos que participam ou são interpelados por ela, tornando-a também mais socialmente relevante.
Trata-se, sobretudo, de fomentar espaços de escuta ativa e sensível, nos quais diferentes ciências e formas de conhecer se encontram, se tensionam e se transformam mutuamente. É nesse emaranhado que se abrem possibilidades não apenas de compreender o presente, mas também de ousar imaginar e cultivar futuros outros, que sejam não apenas tecnicamente viáveis, mas também socialmente justos, eticamente sustentáveis e enraizados nas múltiplas formas de habitar e significar o mundo.
→ A pesquisadora Tais Sonetti González irá oferecer um curso sobre 3H-CLD no dia 15 de maio, no Instituto de Geociências da Unicamp. As inscrições já estão abertas (para a lista de espera) e podem ser realizadas clicando aqui.
Referências
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