Mapear problemas presentes e projetar futuros desejados: a oficina “3H-CLD – Uma abordagem participativa para a co-produção de conhecimento”
Por Thais Lassali
Existe um aforismo repetido de diversas maneiras pelo filósofo marxista italiano Antonio Gramsci no decorrer de sua trajetória intelectual que diz algo como: “sou pessimista com a razão, mas um otimista da vontade”. No contexto do pensamento de Gramsci, essa frase parte da ideia de que é necessário analisar as situações de maneira realista, com cautela e uma certa temperança mais próxima do pessimismo. Entretanto, mais que simplesmente constatar que problemas sociais existem, é necessário agir no sentido de transformar tal realidade com o otimismo de quem acredita que, mesmo com as complexidades que se impõem, isso seja possível. Justamente por isso o filósofo italiano tinha uma vida política ativa, escrevia em jornais voltados para a classe operária e mesmo preso pelo regime fascista italiano seguiu escrevendo e refletindo sobre os problemas sociais europeus das décadas de 1920 e 30.
Foi justamente esse aforismo que encerrou a parte introdutória da oficina “3H-CLD – Uma abordagem participativa para a co-produção de conhecimento”. Oferecida pela professora doutora Ana Paula Dutra de Aguiar, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pela doutora Taís Sonetti González, atual pesquisadora de pós-doutorado do GEICT, e pelo pesquisador Francisco Gilney Silva Bezerra, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que ocorreu no dia 15 de maio no Instituto de Geociências da Unicamp. A oficina teve como objetivo realizar uma introdução prática à abordagem dos Três Horizontes combinada com o conceito de Diagramas de Laços Causais (Causal Loop Diagrams, em inglês), orientando os presentes sobre as possíveis aplicações e complexidades dessa metodologia, que pode ser utilizada em contextos de pesquisas colaborativas, pesquisas-ação e pesquisas qualitativas voltadas para a resolução de problemas coletivos.

Logo no começo da oficina, os facilitadores apresentaram a história da metodologia 3H-CLD, sinalizando também suas possíveis aplicações a partir dos contextos práticos em que ela já havia sido utilizada. A pergunta central que motivou o desenvolvimento desse método partiu de uma inquietação geopolítica e ecológica: o que os atuais caminhos globais de desenvolvimento podem significar para as mais diferentes regiões do planeta? Inicialmente, a metodologia era organizada a partir de três eixos (daí o nome Três Horizontes): os problemas do presente, o futuro desejado e as transformações necessárias para que os primeiros se tornem o segundo. Foi exatamente por meio da aplicação prática dessa ideia que Aguiar observou uma limitação da abordagem de Três Horizontes (3H). Segundo ela, “os participantes viam os problemas, mas não os padrões por trás deles”, ou seja, era difícil para as pessoas pensarem em ações transformadoras apenas com esses três passos, porque o método original não incentivava um pensamento aprofundado sobre as causas dos problemas. Para superar essa barreira, a professora decidiu enriquecer a abordagem 3H com os Diagramas de Laços Causais, uma ferramenta de pensamento sistêmico que permite rastrear as causas estruturais dos problemas, revelando ciclos de retroalimentação, dinâmicas ocultas e possíveis pontos de alavancagem dentro de um sistema.
Depois dessa breve introdução, a oficina foi estruturada em três outras etapas, que se assemelham com aquelas próprias à metodologia 3H-CLD, de modo que pudessem aprender o funcionamento desse método na prática. Os presentes foram convidados a se dividirem em grupos e pensarem, por meio da metodologia sugerida, na seguinte pergunta guia: “imaginem que estamos em 2035: como diferentes sistemas de conhecimento (científicos, indígenas e locais) estão trabalhando juntos na coprodução de conhecimento para orientar políticas públicas mais justas, eficazes e sensíveis aos territórios?”.

Assim, a oficina ofereceu uma experiência próxima com uma abordagem prática, mas ainda pouco explorada no campo mais amplo das ciências humanas, a da “pesquisação” colaborativa. A participante Isabela Tosta, pesquisadora de doutorado do GEICT, nunca havia participado de uma dinâmica de metodologia participativa e, para ela, o contato com esse ponto de vista “foi ótimo para abrir horizontes sobre pesquisas que propõem soluções, mais do que problemas teóricos. O acesso a essa metodologia contribui para que eu pense formas mais dinâmicas e realmente coletivas de pensar a solução de questões [no meu campo de pesquisa]”. Segundo o líder do GEICT, Marko Monteiro, a oficina serviu para treinar alguns pesquisadores, incluindo ele próprio, para uma oficina que foi conduzida por Taís Sonetti-González em Manaus no dia 12/06, como parte do programa AmazonFACE.
“A oficina coloca perspectivas muito úteis para pensar formas de inclusão de outros saberes nos processos de interface entre a ciência do AmazonFACE e a política. Existe uma necessidade de fazer essa inclusão, mas não é claro como ela pode ser feita na prática. Esperamos contribuir com esse debate a partir deste tipo de pesquisa.”
Os participantes dessa dinâmica oferecida por Aguiar, Sonetti-González e Bezerra puderam aprender a metodologia que foi colocada em prática no experimento AmazonFACE, no qual Sonetti-González atua como pesquisadora de pós-doutorado, por meio de uma oficina junto aos cientistas participantes do projeto, atores da sociedade civil organizada, incluindo os saberes marginalizados, e de representantes do governo federal. Nesse contexto, a aplicação da 3H-CLD tem como objetivo a coprodução de um conhecimento que una o saber científico com os saberes indígenas, tradicionais e locais, além da sociedade civil e dos formuladores de políticas públicas. O horizonte dessa iniciativa é a justiça epistêmica, compreendida como a inclusão de diferentes maneiras de ver e entender o mundo em um sistema científico historicamente hegemônico, para que a ciência produzida pelo AmazonFACE seja mais plural e inclua também as populações locais onde o experimento ocorre.

Dessa maneira, o que as facilitadoras apresentaram aos presentes foi um aparato metodológico que visa lidar na prática com o aforismo gramsciano, partindo de uma realidade complexa, com problemas estruturais profundos, sem esquecer das possibilidades de futuros que só serão possíveis de se realizar com imaginação, ação e construção coletivas. Confira abaixo mais fotos da atividade.
0 comentário