Um projeto de resiliência: o protagonismo de povos indígenas e comunidades tradicionais na governança climática brasileira

Publicado por GEICT em

Por Thais Lassali

Ao se narrar a história do enfrentamento às mudanças climáticas no Brasil, o olhar costumeiramente se volta para o protagonismo de instituições como a Organização das Nações Unidas, o Ministério do Meio Ambiente e o próprio Governo Federal. Geralmente, se inicia pela participação do país nos debates da ONU, tendo como um importante marco, a assinatura da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima em 1992 na cidade do Rio de Janeiro. Historicamente, nesses contextos multilaterais, o Brasil tem assinalado a discrepância entre os maiores responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa que contribuem para o agravamento das mudanças climáticas e aqueles mais atingidos. Essa lógica, entretanto, se reproduz dentro das nossas próprias fronteiras. Segundo dados de 2023 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), as populações dentro do Brasil que menos emitem esses gases estufa são as mais afetadas pelas mudanças do clima, chegando a ser 15 vezes mais expostas a riscos relativos à insegurança hídrica, enchentes,  secas e ventos extremos do que populações de regiões menos vulnerabilizadas (IPCC, 2023).

E se, ao invés de tentarmos entender o enfrentamento às mudanças climáticas a partir dos tratados assinados entre países e das ações promovidas pelos governos brasileiros, pensarmos nas atitudes tomadas pelas populações mais atingidas pela urgência climática? Mais do que isso até, e se entendermos tais populações não como vítimas, mas como sujeitos de direito e protagonistas para mover a mitigação e adaptação climática? Foi justamente esse o objetivo da iniciativa “Juventude Pelo Clima”, que reuniu 18 jovens de diferentes territórios indígenas, quilombolas e extrativistas amazônidas para pensarem coletivamente, junto às suas comunidades, planos de adaptação climática. Desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) em parceria com a ONG Cultural Survival, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS) e do Environmental Defense Fund (EDS), a iniciativa contou com a coordenação da pesquisadora do GEICT Martha Fellows e resultou na publicação “Soluções climáticas pelo olhar de povos indígenas e comunidades tradicionais: Estudos de caso da iniciativa Juventude pelo Clima”.

Fotografia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Fonte: Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Fotografia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Recusando a vulnerabilidade

Antes de contarmos mais sobre o “Juventude Pelo Clima”, é importante retomarmos alguns aspectos históricos do protagonismo indígena no enfrentamento às mudanças climáticas no Brasil. Durante décadas, o olhar externo sobre os povos indígenas e as comunidades tradicionais diante desse tema foi moldado por uma palavra: vulnerabilidade. Após assinar a Convenção-Quadro da ONU em 1992, o governo brasileiro passou a internalizar os acordos e diretrizes internacionais sobre o clima. Em 2016, o país concebeu a primeira versão do Plano Nacional de Adaptação (PNA), com o objetivo de reduzir o risco climático nacional e prevenir perdas e danos aos sistemas naturais, humanos, produtivos e de infraestrutura. Esse documento relegou os povos indígenas a um tímido subcapítulo dentro da seção denominada “Populações Vulneráveis”. No contexto institucional, ser vulnerável significa ser objeto de proteção do Estado, o que, por um lado, pode ser lido como algo obviamente é positivo, já que denota o reconhecimento, do ponto de vista estatal, da existência de um problema que necessita de sua atenção, ou mesmo de sua intervenção.

Por outro, o lugar dispensado às populações indígenas diante de um problema que as atinge de maneira frontal demonstrava, à época, pouca abertura do governo brasileiro em compreender a autonomia de tais povos em propor soluções para os problemas que os atingem. Em seu ensaio seminal “Pode o Subalterno Falar?” (2010), Gayatri Spivak reflete sobre os mecanismos pelos quais grupos subalternizados foram excluídos dos espaços sociais que deveriam lhes garantir não apenas o direito à voz, mas, principalmente, o direito à escuta. Segundo a autora, falar sobre a vulnerabilidade do subalterno exige cuidado para não tratá-lo apenas como vítima sob o risco de transformar a sua condição vulnerável em um objeto de conhecimento ou de comiseração, em vez de reconhecê-lo como sujeito de sua própria história. Em outras palavras, trazendo as ideias de Spivak para o contexto do presente texto, não basta o Estado reconhecer a condição de vulnerabilidade de alguém, mas tomar atitudes para de fato entender tais sujeitos como protagonistas dos processos que os envolvem.

Assim, é possível dizer que o subcapítulo diminuto, quase burocrático, da primeira versão do PNA, ao classificar os povos indígenas como populações a serem protegidas sem o devido diálogo, os coloca na condição de sujeitos passivos, ignorando que essa situação de vulnerabilidade na qual eles se encontram não é um estado natural, mas uma condição imposta por um modelo econômico e de desenvolvimento que estruturalmente marginaliza tais povos. Ao serem escanteados por parte do governo federal das políticas climáticas, os indígenas e comunidades tradicionais, obviamente, não ficaram parados. O ponto de partida foi a escuta dos anciões, cujos alertas sobre alterações nos ciclos da natureza vinham de longa data. Para traduzir esse conhecimento em ação, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) promoveu, por meio do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), uma série de cursos para estabelecer pontes entre a ciência indígena e os conceitos discutidos nas Conferências do Clima da ONU, como o ciclo do carbono e as estratégias de incidência política. Desse modo, visavam romper barreiras e criar novas abordagens a partir da perspectiva indígena.

Representantes do Conselho Indígena de Roraima em encontro com o secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, no ano de 2013. Foto: 
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Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.
Representantes do Conselho Indígena de Roraima em encontro com o secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, no ano de 2013. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Foi nesse ecossistema que o Conselho Indígena de Roraima (CIR) se consolidou como referência. Sob a liderança de Sineia do Vale, do povo Wapichana, o CIR publicou a obra “Amazad Pana’Adinhan: Percepções das comunidades indígenas sobre as mudanças climáticas”, um dos primeiros planos de adaptação indígena do Brasil, desenhado a muitas mãos e reconhecido nacional e internacionalmente. A publicação e a atuação do CIR se caracterizam por dar espaço para que populações tradicionais tivessem protagonismo no enfrentamento das mudanças climáticas, oferecendo um ponto de vista ativo, diferente da ideia de adaptação estabelecida pelos órgãos governamentais. Para o IPCC, adaptar-se significa promover ações e estratégias com o objetivo de ajustar sistemas naturais e humanos com vistas a responder à situação atual e futura das mudanças do clima (IPCC, 2023). Entretanto, conforme aponta a publicação “Soluções climáticas pelo olhar de povos indígenas e comunidades tradicionais”:

“Sob a perspectiva desses povos, adaptar-se pode significar perder sua essência e seus modos de vida; enquanto o verbo enfrentar reforça sua resiliência e vontade de manter viva suas visões de mundo de forma ativa, mesmo diante de um novo cenário climático.” (Fellows et al, 2026).

Essa mudança de léxico à primeira vista pode parecer apenas um detalhe semântico. Ela revela, entretanto, a busca por um protagonismo que se recusa a ser mero objeto de políticas públicas desenhadas de cima para baixo. Ao trocar “adaptar” por “enfrentar”, os movimentos indígenas reposicionam radicalmente seu lugar na governança climática brasileira. Não se trata de adaptar os modos de vida tradicionais às exigências de um clima em colapso, mas de mobilizar um vasto repertório de conhecimentos, práticas de manejo e arranjos sociopolíticos para resistir e oferecer caminhos concretos de resiliência. Uma lógica parecida tem inspirado diversos indígenas a entrarem na política institucional do Brasil, disputando espaço nas Assembleias Legislativas estaduais e na Câmara dos Deputados Federal. Em 2022, pela primeira vez na história do país, cinco deputados indígenas se elegeram e, agora em 2026, esse grupo pretende não apenas alcançar o fato inédito de reeleger, como também tem incentivado outras candidaturas, esperando poder criar, para os próximos quatro anos, uma Bancada Indígena no Congresso Nacional.

A “Juventude pelo Clima” e a nova geração de enfrentamento 

A partir da experiência do CIR, diversos outros povos amazônidas começaram a refletir sobre as particularidades da emergência climática em seu cotidiano e em sua realidade. Assim, as sementes plantadas em Roraima encontraram solo fértil para florescer em um processo participativo que, dentre várias outras experiências, em 2024, deu à luz à iniciativa Juventude pelo Clima. Promovida pelo IPAM em parceria com a Cultural Survival, ela buscou jovens de povos tradicionais que tivessem vínculos com suas comunidades e que, concomitante a isso, estivessem frequentando universidades, com o objetivo de fortalecer os vínculos entre as múltiplas ciências tradicionais e aquelas construídas em ambientes universitários. Ao mesmo tempo, se objetivava fortalecer lideranças que pudessem alçar os povos indígenas e comunidades tradicionais como autores do enfrentamento às mudanças climáticas.

Jovens da iniciativa Juventude pelo Clima. Foto: Mayara Subtil/IPAM.
Jovens da iniciativa Juventude pelo Clima. Foto: Mayara Subtil/IPAM.

Foram quatorze meses de um processo de formação continuada que combinou conceitos sobre clima, políticas públicas e a sabedoria ancestral de 18 jovens: sete indígenas, sete quilombolas e quatro pertencentes a populações extrativistas. Na prática, a “Juventude pelo Clima” se baseou em encontros semanais e oficinas para formular objetivos, metas e ações de um plano de adaptação comunitário. Todo esse trabalho foi financiado por meio de bolsas de pesquisa para apoiar a elaboração dos planos de adaptação comunitários. Cada jovem também recebeu financiamento para desenvolver um projeto de mídia que demonstrasse como cada comunidade vinha sentindo e enfrentando as mudanças do clima. Assim, foram criados 18 planos de enfrentamento, um para cada comunidade participante, abordando questões tais como a seca severa, o aumento de temperatura, os incêndios florestais, ventos intensos e a instabilidade das chuvas. Tais fenômenos prejudicam a produção agrícola, criam dificuldades para a manutenção da diversidade biológica, para a pesca e para o artesanato, bases das economias, e, sobretudo, impactam diretamente as culturas locais.

Martha Fellows, atual pesquisadora de doutorado do GEICT e com passagem de 4 anos pelo IPAM, acompanhou de perto essa tomada de protagonismo por parte dos jovens indígenas. Segundo Martha,  a maior força do projeto reside justamente na sua capacidade de unir um grupo bastante diverso de jovens, com diferentes histórias e comunidades, ao redor de um objetivo em comum. Conforme a pesquisadora explicou em entrevista para o Blog do GEICT:

A mudança do clima atinge cada comunidade de maneira diferente. Entretanto, mesmo diante dessas diferenças, o grupo se fortaleceu internamente, com muito apoio, muita troca e muita colaboração coletiva em busca da justiça climática. 

Os dados e projetos produzidos pela Juventude pelo Clima tiveram diversos resultados. Em julho de 2025, a iniciativa apresentou os dezoito planos de enfrentamento para representantes do poder público em Brasília. A partir disso, foi possível conseguir financiamento para implementar, nas comunidades, as ações prioritárias de cada plano. O projeto também foi apresentado por seus participantes em eventos acadêmicos como o XII Seminário Brasileiro e VII Encontro Latino-Americano sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (XII Sapis & VII Elapis), ocorridos entre os dias 18 e 22 de maio de 2026. E, finalmente, em junho desse ano, ocorreu o lançamento do livro “Soluções climáticas pelo olhar de povos indígenas e comunidades tradicionais: Estudos de caso da iniciativa Juventude pelo Clima” (disponível neste link), que relatam detalhadamente a experiência da iniciativa, discutindo o enfrentamento às mudanças climáticas a partir de cada um dos territórios que compuseram a iniciativa, além de apontar as dificuldades e complexidades da implementação dos projetos. A criação desta publicação permitiu tornar mais evidente quais fenômenos climáticos mais impactam a vida nas comunidades e, ao mesmo tempo, quem têm sido mais impactado.

Fotografia dos integrantes do projeto Juventude pelo Clima após a apresentação no XII SAPIS. Foto: Martha Fellows.
Fotografia dos integrantes do projeto Juventude pelo Clima após a apresentação no XII SAPIS. Foto: Martha Fellows.

Com a experiência da “Juventude pelo Clima” em vista, fica evidente a importância da governança climática brasileira entender os povos tradicionais não como apenas uma população-alvo de políticas públicas, mas também como protagonistas do seu próprio enfrentamento às mudanças climáticas. Esse protagonismo, materializado nas publicações da iniciativa, na ação cotidiana das associações locais e na presença crescente em COPs e em outros eventos multilaterais, reafirma uma autonomia que antecede e atravessa a crise climática contemporânea. A “Juventude pelo Clima” demonstra que o enfrentamento mais sofisticado não é aquele que se projeta apenas para o futuro, mas sim o que já vem sendo praticado há gerações, e que, por isso mesmo, nunca precisou esperar por um subcapítulo para existir.


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