O Prometeu da era digital: um olhar sobre a exposição “O Mundo Através da IA”
Por Thais Lassali
Segundo a mitologia grega, em histórias que remontam os séculos 700 e 400 a.C.1, Prometeu foi o titã que subiu ao Monte Olimpo, roubou o fogo divino e o ofereceu aos mortais. Ao presentear a humanidade com a chama da criação, Prometeu teria compartilhado com ela conhecimentos exclusivos aos deuses e cravado, ao mesmo tempo, sua própria ruína: passar o resto da eternidade acorrentado a uma rocha no Cáucaso, com o fígado sendo eternamente devorado por um abutre. Em algumas versões do mito, os humanos são criados a partir do barro e é justamente o fogo ofertado por Prometeu que os anima (no sentido de dar vida e alma).
Mais de um milênio depois, Mary Shelley retomou essa centelha de Prometeu em Frankenstein, cujo subtítulo é justamente O Prometeu moderno. O protagonista do livro, Victor Frankenstein, não roubou o fogo de ninguém, ao menos não literalmente. Sua peripécia foi criar vida a partir de pedaços de cadáveres. E, por isso, como Prometeu, Frankenstein também foi punido. Não pelos deuses, mas por sua própria criação, uma criatura que, rejeitada e solitária, destruiu a todos a quem Victor amou.
Por ter ofertado o segredo dos deuses aos humanos, Prometeu é correntemente compreendido na literatura clássica como um benfeitor da humanidade, por vezes também sendo encarado como seu criador. Nessa mesma toada, Frankenstein,
“totalmente absorto em sua curiosidade científica e em seu desejo de ultrapassar os conhecimentos que estavam presentes em seu tempo, acaba por descobrir a constituição da vida humana e como fazer uma vida orgânica artificial, o que o faz desejar ser o criador de uma nova raça de criaturas” (Gonçalves, 2021, p. 6).
A alusão de Shelley de que Frankenstein seria também uma versão “moderna” do mito de Prometeu não é fortuita. Tanto o mito quanto o livro expõem uma preocupação sobre quem detém (ou quem pode deter) conhecimento e até onde vão os limites dele. De certa maneira, Shelley entrega uma chave interpretativa sobre o mito de Prometeu que é bastante condizente com as preocupações de um período, o início do século XIX, que estava lidando com as transformações incutidas pela Revolução Industrial e pelo desenvolvimento científico. O cientista e a história do roubo do titã foram os meios encontrados pela autora para refletir sobre a responsabilidade e as complexidades de se lidar com a técnica, o advento de novas tecnologias e a capacidade de se criar a partir delas.
Essas também são algumas das preocupações de “O Mundo Através da IA”, exposição que pretende, por meio da arte, provocar no visitante reflexões sobre as possibilidades, as limitações e os problemas dos mais diversos tipos de inteligência artificial. Com isso em mente, a exibição tenta desnudar o funcionamento e as implicações complexas dessas tecnologias, oferecendo um olhar transversal sobre as IAs. Ela esteve alocada no galpão do Sesc Campinas entre 27 de novembro de 2025 e 26 de abril de 2026 e chegou ao Sesc 24 de Maio, em São Paulo, no último dia 6 de agosto. Originalmente criada pelo centro de arte Jeu de Paume, em Paris, “O Mundo Através da IA” contou com a curadoria de Antonio Somaini. No material de divulgação da exposição, o curador destaca que, ao abordar as IAs, a exposição está lidando com “um amplo espectro de algoritmos e modelos capazes de automaticamente realizar operações – como detecção, reconhecimento, classificação, previsão, análise e geração de dados – por meio de incontáveis aplicações”
Essas tecnologias, cada vez mais presentes no nosso cotidiano, chegam até nós principalmente por meio da mediação com telas e/ou por imagens e, conforme argumenta Somaini no material da exposição, “estão transformando de forma profunda os modos como imagens são capturadas, geradas, modificadas, circuladas, descritas e visualizadas”. Defendendo esse ponto, a exposição se divide em oito seções. A primeira, Materiais e ambientes, destacam a circulação das materialidades que formam as tecnologias de inteligência artificial, pensando elas principalmente a partir de sua dimensão extrativista e do seu impacto ambiental. Já a segunda, Visão maquínica e reconhecimento facial, reflete sobre a capacidade visual das novas tecnologias, dando ênfase aos seus pontos cegos e aos seus vieses, e questionando o que está em jogo quando agentes não-humanos também participam da circulação de imagens.
A terceira seção, Genealogias, busca mostrar todo o arcabouço técnico, científico e social que foi necessário ser reunido e produzido desde 1500 para que tenhamos chegado, hoje, em uma tecnologia como as IAs. Por sua vez, a quarta seção, Microtrabalho, encara a inteligência artificial a partir do que há de mais basilar em sua produção: as novas formas (precarizadas) de trabalho humano. Imaginação colonial/subversões decoloniais, a quinta parte de “O Mundo Através da IA”, enfoca a forte conexão das IAs com aspectos coloniais contemporâneos, tomando-a como uma tecnologia que não é unívoca ou mesmo inevitável, tal como as grandes empresas de tecnologia do Norte Global gostam de propagandear. Em Nos espaços latentes da história, a sexta seção, a exposição explora as possibilidades abertas pelas IAs de lidar com o passado de maneira mediada por seus algoritmos, seja para pensar em passados alternativos ou oferecer histórias contrafactuais. Já a sétima seção, Palavras e imagens, pensa os múltiplos fluxos entre texto, fotografia e vídeo possibilitados pelos prompts e pelos algoritmos das inteligências artificiais. E, finalmente, a oitava e última seção, Futuros possíveis, oferecem alternativas para pensarmos coletivamente em modos de reconquistar alguma agência frente a um futuro que, ao menos parece, cada vez mais dominado pela IA.
O que “O Mundo Através da IA” e suas oito seções deixam de modo mais marcante ao visitante é o fato de que isso que nós chamamos corriqueiramente de “IA” na realidade diz respeito a muitas coisas ao mesmo tempo. E, justamente por isso, tem nos enredado das maneiras mais diversas possíveis, seja nos obrigando a lidar com novíssimas formas imagéticas que muitas vezes nos parecem quimeras, seja invadindo sem aviso e com muita rapidez nossa forma de trabalhar, de vermos a nós mesmos, de sermos e de estarmos no mundo. O que mais impressiona na exposição é o modo como ela lida com a magnitude do que nos assombra. Ao invés de encarar todo esse universo a partir de um olhar amedrontado, a curadoria de Somaini nos convida à criticidade, à reflexão, sem tomar a IA algo intransponível ou incompreensível. Sem entendê-la de modo tecnofóbico, mas também sem aderir totalmente a ela de modo acrítico. Pelo contrário, a exposição consegue tornar visível e sensível ao visitante o que há de mais complexo na compreensão dos Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia: a relação entre a materialidade das tecnologias e todo o aparato social, imaginativo, sensível e ideológico que as ajudam a tomar forma.
Isso já fica bastante visível na primeira obra da exposição, “Beleza Corrosiva” (2025), de Giselle Beiguelman. Nela, vemos uma pilha de lixo eletrônico colocada no canto da primeira sala em frente a uma projeção. Na pilha é possível encontrar toda sorte de pedaços de tecnologias contemporâneas, como partes de impressoras, de televisores, teclados, pendrives, gabinetes de computador, modems, placas-mãe e discos rígidos. Encontramos também tecnologias mais antigas, como discmans, tocadores de DVDs, telefones domésticos comuns, celulares tijolões, baterias de celulares antigos, controles de videogames antigos, dentre muitas outras coisas. Todos os equipamentos dispostos já não estão mais funcionais. Já na projeção, vemos um rio, uma paisagem que se pretende orgânica, mas que é constituída de pedaços das mesmas tecnologias que estão ali despejadas. Essas imagens foram feitas com uso de inteligência artificial (Sora) e parecem querer evocar, exatamente, o que há de corrosivo nas tecnologias eletrônicas: a capacidade que elas têm, desde sua produção até o seu descarte, de gerar impacto ambiental. Ao lado da obra, havia um ponto de coleta de e-lixo. As obras nele depositadas poderiam, inicialmente, serem integradas à pilha de lixo da obra de Beiguelman e seriam posteriormente encaminhadas para um tratamento adequado, podendo ser recicladas e, quando essa opção não fosse possível, seriam descartadas de modo adequado.


Outra obra que une a magnitude das tecnologias de IA com sua materialidade, dessa vez sob o viés da exploração do trabalho humano, é a instalação “Meta Office: Por Trás das Telas da Amazon Mechanical Turks” (2021-2025), de autoria de Lauritz Bohne, Lea Scherer e Edward Zammit. Nela, vemos uma alta torre com diversas imagens de mesas vazias com computadores dentro de quartos domésticos, intercalados, vez ou outra, pela fotografia simples de pessoas dentro desses ambientes. Tais mesas são os locais de trabalho dos trabalhadores precarizados da plataforma Mechanical Turk, da Amazon, que realizam microtarefas extenuantemente repetitivas essenciais para o funcionamento de funções básicas das IAs contemporâneas como o aprendizado de máquina e o processamento de imagens e de dados. Feito em parceria com esses trabalhadores, ao mostrar locais que são ao mesmo tempo domésticos e de trabalho para eles, a obra torna tangível a quantidade de trabalho humano que existe por trás do funcionamento das tecnologias contemporâneas, fazendo com que o visitante entenda a materialidade (e o esforço manual) que a sustenta.

Mas, ao menos pra mim, a obra que melhor escancara esse contraste entre magnitude e concretude é “Calculando Impérios” (2023) de Kate Crawford e Vladan Joler. Nela, somos apresentados a uma representação visual extremamente detalhada das múltiplas genealogias de tecnologias, técnicas, desenvolvimento de conhecimento científico e acontecimentos sociais que nos trouxeram até o atual estado das inteligências artificiais. Tais representações ocupam duas paredes inteiras, dispostas frente à frente, na qual uma delas mostra os desenvolvimentos relacionados à comunicação e à computação e a outra aqueles ligados ao controle e à classificação.
Nas paredes, vemos, de baixo à cima, partindo do ano de 1500, cada simples desenvolvimento técnico, científico ou tecnológico que, cumulativamente, foi necessário para que fosse possível, hoje, produzirmos as tecnologias que produzirmos. E, mais do que isso, nos mostram o horizonte imaginativo, especulativo, e de tentativa e erro, para que o mesmo acontecesse. Assim, a obra consegue deixar evidente de maneira assustadora o modo como ciência, tecnologia, política e aspectos sociais são imbricados, detalhadamente mapeando o que Donna Haraway chamou de informática da dominação no seu clássico Manifesto Ciborgue (1985).



Desse modo, é possível dizer que a exposição reflete sobre as diversas inteligências artificiais e seus desdobramentos tal qual estivesse de frente com as invenções de um (ou de muitos) Prometeu(s) do século XXI: com espanto (por sua capacidade de se cotidianizar e de adentrar todos os espaços), com algum pouco deslumbramento (por suas capacidades múltiplas e pelas possibilidades abertas por elas) e com uma certa melancolia em relação ao modo como as grandes empresas de tecnologia têm de invadir nosso imaginário por meio delas. Ora vendo as IAs com contemplação, ora com receio. Tentando imaginar futuros alternativos promissores, reescrever o passado lado a lado com sujeitos que não tem direito a ele e refletindo sobre um presente assustador de dominação e vigilância. Assim como o ousado titã e o atormentado cientista, as IAs carregam em si diversas ambiguidades e contradições e o que “O Mundo Através da IA” faz de melhor é nos mostrar isso em toda sua complexidade.
Referências bibliográficas
GONÇALVES, Alanis Zambrini. O monstro galvanizado: mito, religião e ciência em Frankenstein, de Mary Shelley. Língua, Literatura e Ensino, V. XVII, Campinas, SP, 2021.
- Segundo Gonçalves (2021), “o mito de Prometeu aparece pela primeira vez na [obra] Teogonia, de Hesíodo, e torna-se mais importante em Prometeu Acorrentado, do dramaturgo Ésquilo”, aparecendo também na obra do poeta romano Ovídio (43 a.C.-17 d.C.). Posteriormente, Prometeu seria retomado pelos poetas do Romantismo inglês, tais como Lorde Byron e Percy Bysshe Shelley, respectivamente, colega e marido de Mary Shelley. ↩︎
0 comentário