Entre o diálogo e os algoritmos: os desafios de divulgar ciência em blogs
Por Thais Lassali
Dos primeiros diários digitais até se tornarem uma possível ferramenta de diálogo entre a academia e a sociedade, os blogs percorreram uma trajetória notável desde a popularização da internet nos anos 1990. O termo foi cunhado em 1997 pelo norte-americano Jorn Barger para descrever sites que funcionavam como curadores de links e informações de interesse coletivo. Inicialmente compreendidos como registros pessoais ou profissionais, esses espaços online se multiplicaram ao longo dos anos 2000 e assumiram formas cada vez mais diversas, abarcando desde a literatura e o jornalismo até o diário, a poesia e a produção acadêmica. Como argumentam os pesquisadores Amaral, Recuero e Montardo (2009), trata-se de um formato intrinsecamente aberto a múltiplos usos e apropriações.
O comunicólogo Nishat Shah (2009) oferece uma visão ainda mais profunda para entender esse fenômeno: para ele, os blogs funcionam como artefatos culturais, uma espécie de “repositório vivo dos significados compartilhados produzidos por uma comunidade de ideias”. Entre as diversas comunidades que, no decorrer da década de 2000, encontraram nesse formato um meio de expressar seus significados particulares estão os cientistas. Para eles, o blog se revelou uma ferramenta potente tanto para a criação de comunidades digitais interessadas em ciência quanto para a divulgação científica, atividade que, na definição de Vogt e Morales (2018), representa o ponto de encontro entre a ciência e a sociedade.

O blog, por se estabelecer como uma forma de comunicação a princípio independente, se destaca justamente por escapar das restrições típicas dos meios tradicionais, que frequentemente operam sob linhas editoriais ditadas por grandes conglomerados de mídia, além de poderem enfrentar limitações de formato e de tempo de produção. Assim, eles acabam deslocando a centralidade de veículos tradicionais, como o jornal, a revista e a televisão, como os grandes e unívocos emissores de informações na esfera pública. Isso obviamente não é uma particularidade dos blogs, mas, de maneira mais ampla, algo típico dos espaços digitais, como argumenta Letícia Cesarino em O Mundo do Avesso (2022).
Foi justamente tal descentralização que inspirou diversas instituições e associações acadêmicas, como a Public Library of Science (PLOS) e o Committee for the Anthropology of Science, Technology & Computing (CASTAC) da American Anthropological Association (AAA), a adotar os blogs como meio de divulgação de suas produções e como comunicação com o público não-acadêmico. A adesão por parte desses atores revelou uma ferramenta ágil e capaz de atingir diferentes audiências (Pando, 2014), possibilitando tanto a difusão de informações para um público leigo, quanto um compartilhamento de dados científicos de modo mais despojado para públicos especializados. Foi a capacidade dialógica dessa forma peculiar de comunicação que inspirou não apenas a criação do próprio Blog do GEICT (em julho de 2012), como também nossa entrada na Rede de Blogs Unicamp, especializada justamente em blogs de ciência.
Ainda que estejamos abertos e busquemos, claro, atingir também um público leigo, é possível afirmar que o Blog do GEICT quer se comunicar com pessoas interessadas em ciência e tecnologia, estudantes de todas as áreas, além de pesquisadores já familiarizados com os debates dos estudos sociais em ciência e tecnologia (ESCT) e com a própria comunidade acadêmica com a qual o grupo já tem relação. Os ESCT partem da perspectiva de que a ciência, a tecnologia e tudo que as circunscrevem são processos sociais. Como tal, estão longe de serem neutros e apartados da cultura, da política e das demais contingências às quais qualquer ator social está imerso. Como defende Donna Haraway (1995), todo conhecimento é situado e corporificado, ou seja, tem um ponto de vista próprio e corresponde a um tempo, um espaço e suas constrições sociais. Em outras palavras, isso significa dizer que o GEICT tem um ponto de vista específico e que seu Blog, além de ser uma extensão disso, é também uma maneira de se posicionar e se tornar presente no espaço digital. Mais ainda, de defender uma perspectiva de ciência que seja cada vez mais aberta e participativa, compreendendo os possíveis leitores do Blog menos como receptores passivos do que produzimos e mais como atores que podem também participar e contribuir conosco.
Evidentemente, seguindo com a visão crítica dos ESCT, não se objetiva com isso afirmar que um blog ou mesmo o Blog do GEICT são livres de quaisquer outras restrições. Pelo contrário, estar alocado na internet oferece um sem número de outros balizamentos e enquadramentos. Apostar em uma ferramenta que possivelmente teve seu auge em meados dos anos 2000 traz limitações ao alcance do que é publicado aqui. Ainda mais contemporaneamente, em um contexto em que o online tem sido governado, cada vez mais, por meio das lógicas associadas à plataformização, qual seja, à complexa infraestrutura (na forma de sites e aplicativos) das grandes empresas de tecnologia (Google, Meta, Microsoft, Apple) que ativamente organiza, filtra, escolhe e media toda a série de informações, dados e produtos que os usuários das plataformas podem e vão acessar (Van Dijck et al, 2018).
Dessa maneira, o acesso do usuário ao online trata-se, antes de mais nada, de um modelo de negócio, algo que impacta profundamente o acesso e a circulação de informações na internet. Isso torna a divulgação científica que ocorre em meios digitais uma atividade repleta de desafios, porque ela é realizada tendo que disputar espaço com um sem número de outros tipos de conteúdos, ao mesmo tempo que se utiliza de um meio de difusão que não é neutro. Mais ainda, que ativamente atua para selecionar quais conteúdos vão ter visibilidade e quais não.

Nesse sentido, a aposta em blogs vem do fato deles ainda serem, apesar do atual estado da internet, espaços minimamente abertos, em contraposição a privatização promovida por plataformas como o Substack. Esse último tem ganhado relevância como um local de circulação de textos pessoais, jornalísticos e de divulgação científica, entretanto, o conteúdo nele publicado muitas vezes está escondido por trás da necessidade de login e, em alguns casos, de paywalls, ou seja, pela liberação do material apenas sob pagamento. Por maiores que sejam as dificuldades, a divulgação científica em ambientes digitais e especificamente por meio de blogs é uma aposta na capacidade comunicativa desse espaço e na necessidade de disputá-lo. Mais do que isso, é também reconhecer a importância do diálogo, da difusão e de uma ciência aberta.
Referências bibliográficas
AMARAL, Adriana; RECUERO, Raquel; MONTARDO, Sandra. Blogs: mapeando um objeto. In: Id. (Orgs) Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial, 2009. p. 27-44.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, n. 5, 1995.
LEMOS, André; CUNHA, Paulo (Orgs). Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.
PANDO, Daniel Abraão. “Comunicação científica no contexto da Web 2.0: considerações sobre o uso de blogs como canais para a difusão de informações científicas”. Ibersid, v. 8, 2014.
PORTO, C. M. (org.) Difusão e cultura científica: alguns recortes. Salvador: EDUFBA, 2009.
SHAH, Nishant. “PlayBlog: Pornography, performance and cyberspace”. Cut-up.com Magazine. Holanda, V.2.5, issue 42, 24 set. 2005. Disponível em: <http://www.cut-up.com/news/detail.php?sid=413> Acesso em 23 fev. 2009.
SILVEIRA, Mauro César; SANDRINI, Rafaela. “Divulgação científica por meio de blogs: desafios e possibilidades para jornalistas e cientistas”. Intexto, n. 31, p. 112-127, 2014.
VAN DIJCK, José; POELL, Thomas e DE WAAL, Martijn. The Plataform Society: Public Values in a Connective World. Nova Iorque: Oxford University Press, 2018.
VOGT, C.; MORALES, A. P. Cultura científica. In: VOGT, C.; GOMES, M.; MUNIZ, R. (org.), Comciência e divulgação científica Campinas: BCCL: UNICAMP, p. 13-22, 2018.
0 comentário