{"id":1099,"date":"2026-08-26T16:47:13","date_gmt":"2026-08-26T19:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/?p=1099"},"modified":"2026-08-26T16:47:14","modified_gmt":"2026-08-26T19:47:14","slug":"um-projeto-de-resiliencia-o-protagonismo-de-povos-indigenas-e-comunidades-tradicionais-na-governanca-climatica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2026\/08\/26\/um-projeto-de-resiliencia-o-protagonismo-de-povos-indigenas-e-comunidades-tradicionais-na-governanca-climatica-brasileira\/","title":{"rendered":"Um projeto de resili\u00eancia: o protagonismo de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais na governan\u00e7a clim\u00e1tica brasileira"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>Por Thais Lassali<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao se narrar a hist\u00f3ria do enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no Brasil, o olhar costumeiramente se volta para o protagonismo de institui\u00e7\u00f5es como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e o pr\u00f3prio Governo Federal. Geralmente, se inicia pela participa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds nos debates da ONU, tendo como um importante marco, a assinatura da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Mudan\u00e7a do Clima em 1992 na cidade do Rio de Janeiro. Historicamente, nesses contextos multilaterais, o Brasil tem assinalado a discrep\u00e2ncia entre os maiores respons\u00e1veis pelas emiss\u00f5es de gases do efeito estufa que contribuem para o agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e aqueles mais atingidos. Essa l\u00f3gica, entretanto, se reproduz dentro das nossas pr\u00f3prias fronteiras. Segundo dados de 2023 do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a do Clima (IPCC), as popula\u00e7\u00f5es dentro do Brasil que menos emitem esses gases estufa s\u00e3o as mais afetadas pelas mudan\u00e7as do clima, chegando a ser 15 vezes mais expostas a riscos relativos \u00e0 inseguran\u00e7a h\u00eddrica, enchentes,&nbsp; secas e ventos extremos do que popula\u00e7\u00f5es de regi\u00f5es menos vulnerabilizadas (IPCC, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se, ao inv\u00e9s de tentarmos entender o enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas a partir dos tratados assinados entre pa\u00edses e das a\u00e7\u00f5es promovidas pelos governos brasileiros, pensarmos nas atitudes tomadas pelas popula\u00e7\u00f5es mais atingidas pela urg\u00eancia clim\u00e1tica? Mais do que isso at\u00e9, e se entendermos tais popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o como v\u00edtimas, mas como sujeitos de direito e protagonistas para mover a mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica? Foi justamente esse o objetivo da iniciativa \u201cJuventude Pelo Clima\u201d, que reuniu 18 jovens de diferentes territ\u00f3rios ind\u00edgenas, quilombolas e extrativistas amaz\u00f4nidas para pensarem coletivamente, junto \u00e0s suas comunidades, planos de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (IPAM) em parceria com a ONG Cultural Survival, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS) e do Environmental Defense Fund (EDS), a iniciativa contou com a coordena\u00e7\u00e3o da pesquisadora do GEICT Martha Fellows e resultou na publica\u00e7\u00e3o \u201cSolu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas pelo olhar de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais: Estudos de caso da iniciativa Juventude pelo Clima\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ministerio-do-meio-ambiente-1024x576-1.jpg\" alt=\"Fotografia do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima. Fonte: Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil.\" class=\"wp-image-1102\" style=\"width:682px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ministerio-do-meio-ambiente-1024x576-1.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ministerio-do-meio-ambiente-1024x576-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ministerio-do-meio-ambiente-1024x576-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ministerio-do-meio-ambiente-1024x576-1-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ministerio-do-meio-ambiente-1024x576-1-800x450.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fotografia do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima. Foto: Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Recusando a vulnerabilidade<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de contarmos mais sobre o \u201cJuventude Pelo Clima\u201d, \u00e9 importante retomarmos alguns aspectos hist\u00f3ricos do protagonismo ind\u00edgena no enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no Brasil. Durante d\u00e9cadas, o olhar externo sobre os povos ind\u00edgenas e as comunidades tradicionais diante desse tema foi moldado por uma palavra: vulnerabilidade. Ap\u00f3s assinar a Conven\u00e7\u00e3o-Quadro da ONU em 1992, o governo brasileiro passou a internalizar os acordos e diretrizes internacionais sobre o clima. Em 2016, o pa\u00eds concebeu a primeira vers\u00e3o do Plano Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o (PNA), com o objetivo de reduzir o risco clim\u00e1tico nacional e prevenir perdas e danos aos sistemas naturais, humanos, produtivos e de infraestrutura. Esse documento relegou os povos ind\u00edgenas a um t\u00edmido subcap\u00edtulo dentro da se\u00e7\u00e3o denominada &#8220;Popula\u00e7\u00f5es Vulner\u00e1veis&#8221;. No contexto institucional, ser vulner\u00e1vel significa ser objeto de prote\u00e7\u00e3o do Estado, o que, por um lado, pode ser lido como algo obviamente \u00e9 positivo, j\u00e1 que denota o reconhecimento, do ponto de vista estatal, da exist\u00eancia de um problema que necessita de sua aten\u00e7\u00e3o, ou mesmo de sua interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro, o lugar dispensado \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas diante de um problema que as atinge de maneira frontal demonstrava, \u00e0 \u00e9poca, pouca abertura do governo brasileiro em compreender a autonomia de tais povos em propor solu\u00e7\u00f5es para os problemas que os atingem. Em seu ensaio seminal \u201cPode o Subalterno Falar?\u201d (2010), Gayatri Spivak reflete sobre os mecanismos pelos quais grupos subalternizados foram exclu\u00eddos dos espa\u00e7os sociais que deveriam lhes garantir n\u00e3o apenas o direito \u00e0 voz, mas, principalmente, o direito \u00e0 escuta. Segundo a autora, falar sobre a vulnerabilidade do subalterno exige cuidado para n\u00e3o trat\u00e1-lo apenas como v\u00edtima sob o risco de transformar a sua condi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel em um objeto de conhecimento ou de comisera\u00e7\u00e3o, em vez de reconhec\u00ea-lo como sujeito de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Em outras palavras, trazendo as ideias de Spivak para o contexto do presente texto, n\u00e3o basta o Estado reconhecer a condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade de algu\u00e9m, mas tomar atitudes para de fato entender tais sujeitos como protagonistas dos processos que os envolvem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o subcap\u00edtulo diminuto, quase burocr\u00e1tico, da primeira vers\u00e3o do PNA, ao classificar os povos ind\u00edgenas como popula\u00e7\u00f5es a serem protegidas sem o devido di\u00e1logo, os coloca na condi\u00e7\u00e3o de sujeitos passivos, ignorando que essa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade na qual eles se encontram n\u00e3o \u00e9 um estado natural, mas uma condi\u00e7\u00e3o imposta por um modelo econ\u00f4mico e de desenvolvimento que estruturalmente marginaliza tais povos. Ao serem escanteados por parte do governo federal das pol\u00edticas clim\u00e1ticas, os ind\u00edgenas e comunidades tradicionais, obviamente, n\u00e3o ficaram parados. O ponto de partida foi a escuta dos anci\u00f5es, cujos alertas sobre altera\u00e7\u00f5es nos ciclos da natureza vinham de longa data. Para traduzir esse conhecimento em a\u00e7\u00e3o, a Coordena\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira (COIAB) promoveu, por meio do Centro Amaz\u00f4nico de Forma\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena (CAFI), uma s\u00e9rie de cursos para estabelecer pontes entre a ci\u00eancia ind\u00edgena e os conceitos discutidos nas Confer\u00eancias do Clima da ONU, como o ciclo do carbono e as estrat\u00e9gias de incid\u00eancia pol\u00edtica. Desse modo, visavam romper barreiras e criar novas abordagens a partir da perspectiva ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"729\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-1024x729.jpg\" alt=\"Representantes do Conselho Ind\u00edgena de Roraima em encontro com o secret\u00e1rio nacional de Articula\u00e7\u00e3o Social da Secretaria-Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Paulo Maldos, no ano de 2013. Foto: \nABR150413PZB 7013\nFabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil.\" class=\"wp-image-1104\" style=\"aspect-ratio:1.4046822742474916;width:681px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-1024x729.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-768x547.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-1536x1093.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-2048x1457.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-500x356.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-800x569.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-1280x911.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/ABR150413PZB_7052-1920x1366.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Representantes do Conselho Ind\u00edgena de Roraima em encontro com o secret\u00e1rio nacional de Articula\u00e7\u00e3o Social da Secretaria-Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Paulo Maldos, no ano de 2013. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse ecossistema que o Conselho Ind\u00edgena de Roraima (CIR) se consolidou como refer\u00eancia. Sob a lideran\u00e7a de Sineia do Vale, do povo Wapichana, o CIR publicou a obra \u201cAmazad Pana&#8217;Adinhan: Percep\u00e7\u00f5es das comunidades ind\u00edgenas sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d, um dos primeiros planos de adapta\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do Brasil, desenhado a muitas m\u00e3os e reconhecido nacional e internacionalmente. A publica\u00e7\u00e3o e a atua\u00e7\u00e3o do CIR se caracterizam por dar espa\u00e7o para que popula\u00e7\u00f5es tradicionais tivessem protagonismo no enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, oferecendo um ponto de vista ativo, diferente da ideia de adapta\u00e7\u00e3o estabelecida pelos \u00f3rg\u00e3os governamentais. Para o IPCC, adaptar-se significa promover a\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias com o objetivo de ajustar sistemas naturais e humanos com vistas a responder \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual e futura das mudan\u00e7as do clima (IPCC, 2023). Entretanto, conforme aponta a publica\u00e7\u00e3o \u201cSolu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas pelo olhar de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSob a perspectiva desses povos, adaptar-se pode significar perder sua ess\u00eancia e seus modos de vida; enquanto o verbo enfrentar refor\u00e7a sua resili\u00eancia e vontade de manter viva suas vis\u00f5es de mundo de forma ativa, mesmo diante de um novo cen\u00e1rio clim\u00e1tico.\u201d (Fellows et al, 2026).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a de l\u00e9xico \u00e0 primeira vista pode parecer apenas um detalhe sem\u00e2ntico. Ela revela, entretanto, a busca por um protagonismo que se recusa a ser mero objeto de pol\u00edticas p\u00fablicas desenhadas de cima para baixo. Ao trocar \u201cadaptar\u201d por \u201cenfrentar\u201d, os movimentos ind\u00edgenas reposicionam radicalmente seu lugar na governan\u00e7a clim\u00e1tica brasileira. N\u00e3o se trata de adaptar os modos de vida tradicionais \u00e0s exig\u00eancias de um clima em colapso, mas de mobilizar um vasto repert\u00f3rio de conhecimentos, pr\u00e1ticas de manejo e arranjos sociopol\u00edticos para resistir e oferecer caminhos concretos de resili\u00eancia. Uma l\u00f3gica parecida tem inspirado diversos ind\u00edgenas a entrarem na pol\u00edtica institucional do Brasil, disputando espa\u00e7o nas Assembleias Legislativas estaduais e na C\u00e2mara dos Deputados Federal. Em 2022, pela primeira vez na hist\u00f3ria do pa\u00eds, cinco deputados ind\u00edgenas se elegeram e, agora em 2026, <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2026\/06\/bancada-do-cocar-indigenas-lancam-47-pre-candidaturas-em-2026\/?utm_source=bluesky&amp;utm_medium=post&amp;utm_campaign=aldearpolitica\">esse grupo pretende n\u00e3o apenas alcan\u00e7ar o fato in\u00e9dito de reeleger, como tamb\u00e9m tem incentivado outras candidaturas, esperando poder criar, para os pr\u00f3ximos quatro anos, uma Bancada Ind\u00edgena no Congresso Nacional.<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A \u201cJuventude pelo Clima\u201d e a nova gera\u00e7\u00e3o de enfrentamento&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da experi\u00eancia do CIR, diversos outros povos amaz\u00f4nidas come\u00e7aram a refletir sobre as particularidades da emerg\u00eancia clim\u00e1tica em seu cotidiano e em sua realidade. Assim, as sementes plantadas em Roraima encontraram solo f\u00e9rtil para florescer em um processo participativo que, dentre v\u00e1rias outras experi\u00eancias, em 2024, deu \u00e0 luz \u00e0 iniciativa <a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/jovens-de-18-comunidades-apresentam-planos-de-adaptacao-climatica\/\">Juventude pelo Clima<\/a>. Promovida pelo IPAM em parceria com a Cultural Survival, ela buscou jovens de povos tradicionais que tivessem v\u00ednculos com suas comunidades e que, concomitante a isso, estivessem frequentando universidades, com o objetivo de fortalecer os v\u00ednculos entre as m\u00faltiplas ci\u00eancias tradicionais e aquelas constru\u00eddas em ambientes universit\u00e1rios. Ao mesmo tempo, se objetivava fortalecer lideran\u00e7as que pudessem al\u00e7ar os povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais como autores do enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-1024x683.webp\" alt=\"Jovens da iniciativa Juventude pelo Clima. Foto: Mayara Subtil\/IPAM.\" class=\"wp-image-1103\" style=\"aspect-ratio:1.4992860651486386;width:673px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-1024x683.webp 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-300x200.webp 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-768x512.webp 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-1536x1024.webp 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-500x333.webp 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-800x533.webp 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-1280x853.webp 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-360x240.webp 360w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1-272x182.webp 272w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/IMG_1432.jpg-scaled-1.webp 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Jovens da iniciativa Juventude pelo Clima. Foto: Mayara Subtil\/IPAM.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram quatorze meses de um processo de forma\u00e7\u00e3o continuada que combinou conceitos sobre clima, pol\u00edticas p\u00fablicas e a sabedoria ancestral de 18 jovens: sete ind\u00edgenas, sete quilombolas e quatro pertencentes a popula\u00e7\u00f5es extrativistas. Na pr\u00e1tica, a \u201cJuventude pelo Clima\u201d se baseou em encontros semanais e oficinas para formular objetivos, metas e a\u00e7\u00f5es de um plano de adapta\u00e7\u00e3o comunit\u00e1rio. Todo esse trabalho foi financiado por meio de bolsas de pesquisa para apoiar a elabora\u00e7\u00e3o dos planos de adapta\u00e7\u00e3o comunit\u00e1rios. Cada jovem tamb\u00e9m recebeu financiamento para desenvolver um projeto de m\u00eddia que demonstrasse como cada comunidade vinha sentindo e enfrentando as mudan\u00e7as do clima. Assim, foram criados 18 planos de enfrentamento, um para cada comunidade participante, abordando quest\u00f5es tais como a seca severa, o aumento de temperatura, os inc\u00eandios florestais, ventos intensos e a instabilidade das chuvas. Tais fen\u00f4menos prejudicam a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, criam dificuldades para a manuten\u00e7\u00e3o da diversidade biol\u00f3gica, para a pesca e para o artesanato, bases das economias, e, sobretudo, impactam diretamente as culturas locais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Martha Fellows, atual pesquisadora de doutorado do GEICT e com passagem de 4 anos pelo IPAM, acompanhou de perto essa tomada de protagonismo por parte dos jovens ind\u00edgenas. Segundo Martha,&nbsp; a maior for\u00e7a do projeto reside justamente na sua capacidade de unir um grupo bastante diverso de jovens, com diferentes hist\u00f3rias e comunidades, ao redor de um objetivo em comum. Conforme a pesquisadora explicou em entrevista para o Blog do GEICT:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mudan\u00e7a do clima atinge cada comunidade de maneira diferente. Entretanto, mesmo diante dessas diferen\u00e7as, o grupo se fortaleceu internamente, com muito apoio, muita troca e muita colabora\u00e7\u00e3o coletiva em busca da justi\u00e7a clim\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados e projetos produzidos pela Juventude pelo Clima tiveram diversos resultados. Em julho de 2025, <a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/jovens-de-18-comunidades-apresentam-planos-de-adaptacao-climatica\/\">a iniciativa apresentou os dezoito planos de enfrentamento para representantes do poder p\u00fablico em Bras\u00edlia<\/a>. A partir disso, foi poss\u00edvel conseguir financiamento para implementar, nas comunidades, as a\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias de cada plano. O projeto tamb\u00e9m foi apresentado por seus participantes em eventos acad\u00eamicos como o <a href=\"https:\/\/sapis.eco.br\/\">XII Semin\u00e1rio Brasileiro e VII Encontro Latino-Americano sobre \u00c1reas Protegidas e Inclus\u00e3o Social (XII Sapis &amp; VII Elapis)<\/a>, ocorridos entre os dias 18 e 22 de maio de 2026. E, finalmente, em junho desse ano, ocorreu o lan\u00e7amento do livro <a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/bibliotecas\/solucoes-climaticas-pelo-olhar-de-povos-indigenas-e-comunidades-tradicionais-estudos-de-caso-da-iniciativa-juventude-pelo-clima\/\">\u201cSolu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas pelo olhar de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais: Estudos de caso da iniciativa Juventude pelo Clima\u201d (dispon\u00edvel neste link)<\/a>, que relatam detalhadamente a experi\u00eancia da iniciativa, discutindo o enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas a partir de cada um dos territ\u00f3rios que compuseram a iniciativa, al\u00e9m de apontar as dificuldades e complexidades da implementa\u00e7\u00e3o dos projetos. A cria\u00e7\u00e3o desta publica\u00e7\u00e3o permitiu tornar mais evidente quais fen\u00f4menos clim\u00e1ticos mais impactam a vida nas comunidades e, ao mesmo tempo, quem t\u00eam sido mais impactado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/Foto-Sapis_12-768x1024.jpeg\" alt=\"Fotografia dos integrantes do projeto Juventude pelo Clima ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o no XII SAPIS. Foto: Martha Fellows.\" class=\"wp-image-1101\" style=\"width:537px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/Foto-Sapis_12-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/Foto-Sapis_12-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/Foto-Sapis_12-500x667.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/Foto-Sapis_12-800x1067.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/08\/Foto-Sapis_12.jpeg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fotografia dos integrantes do projeto Juventude pelo Clima ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o no XII SAPIS. Foto: Martha Fellows.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a experi\u00eancia da \u201cJuventude pelo Clima\u201d em vista, fica evidente a import\u00e2ncia da governan\u00e7a clim\u00e1tica brasileira entender os povos tradicionais n\u00e3o como apenas uma popula\u00e7\u00e3o-alvo de pol\u00edticas p\u00fablicas, mas tamb\u00e9m como protagonistas do seu pr\u00f3prio enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Esse protagonismo, materializado nas publica\u00e7\u00f5es da iniciativa, na a\u00e7\u00e3o cotidiana das associa\u00e7\u00f5es locais e <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2026\/03\/06\/cop-30-ou-podemos-chamar-de-cop-indigena\/\">na presen\u00e7a crescente em COPs e em outros eventos multilaterais<\/a>, reafirma uma autonomia que antecede e atravessa a crise clim\u00e1tica contempor\u00e2nea. A \u201cJuventude pelo Clima\u201d demonstra que o enfrentamento mais sofisticado n\u00e3o \u00e9 aquele que se projeta apenas para o futuro, mas sim o que j\u00e1 vem sendo praticado h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, e que, por isso mesmo, nunca precisou esperar por um subcap\u00edtulo para existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao se narrar a hist\u00f3ria do enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no Brasil, o olhar costumeiramente se volta para o protagonismo de institui\u00e7\u00f5es como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e o pr\u00f3prio Governo Federal. 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