{"id":1106,"date":"2026-09-02T17:48:27","date_gmt":"2026-09-02T20:48:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/?p=1106"},"modified":"2026-09-02T17:48:28","modified_gmt":"2026-09-02T20:48:28","slug":"o-prometeu-da-era-digital-um-olhar-sobre-a-exposicao-o-mundo-atraves-da-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2026\/09\/02\/o-prometeu-da-era-digital-um-olhar-sobre-a-exposicao-o-mundo-atraves-da-ia\/","title":{"rendered":"O Prometeu da era digital: um olhar sobre a exposi\u00e7\u00e3o \u201cO Mundo Atrav\u00e9s da IA\u201d"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>Por Thais Lassali<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a mitologia grega, em hist\u00f3rias que remontam os s\u00e9culos 700 e 400 a.C.<sup data-fn=\"7f270ff3-7d09-45cf-9440-e7b27b65bd48\" class=\"fn\"><a href=\"#7f270ff3-7d09-45cf-9440-e7b27b65bd48\" id=\"7f270ff3-7d09-45cf-9440-e7b27b65bd48-link\">1<\/a><\/sup>, Prometeu foi o tit\u00e3 que subiu ao Monte Olimpo, roubou o fogo divino e o ofereceu aos mortais. Ao presentear a humanidade com a chama da cria\u00e7\u00e3o, Prometeu teria compartilhado com ela conhecimentos exclusivos aos deuses e cravado, ao mesmo tempo, sua pr\u00f3pria ru\u00edna: passar o resto da eternidade acorrentado a uma rocha no C\u00e1ucaso, com o f\u00edgado sendo eternamente devorado por um abutre. Em algumas vers\u00f5es do mito, os humanos s\u00e3o criados a partir do barro e \u00e9 justamente o fogo ofertado por Prometeu que os anima (no sentido de dar vida e alma).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais de um mil\u00eanio depois, Mary Shelley retomou essa centelha de Prometeu em <em>Frankenstein<\/em>, cujo subt\u00edtulo \u00e9 justamente <em>O Prometeu moderno<\/em>. O protagonista do livro, Victor Frankenstein, n\u00e3o roubou o fogo de ningu\u00e9m, ao menos n\u00e3o literalmente. Sua perip\u00e9cia foi criar vida a partir de peda\u00e7os de cad\u00e1veres. E, por isso, como Prometeu, Frankenstein tamb\u00e9m foi punido. N\u00e3o pelos deuses, mas por sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o, uma criatura que, rejeitada e solit\u00e1ria, destruiu a todos a quem Victor amou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ter ofertado o segredo dos deuses aos humanos, Prometeu \u00e9 correntemente compreendido na literatura cl\u00e1ssica como um benfeitor da humanidade, por vezes tamb\u00e9m sendo encarado como seu criador. Nessa mesma toada, Frankenstein,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201ctotalmente absorto em sua curiosidade cient\u00edfica e em seu desejo de ultrapassar os conhecimentos que estavam presentes em seu tempo, acaba por descobrir a constitui\u00e7\u00e3o da vida humana e como fazer uma vida org\u00e2nica artificial, o que o faz desejar ser o criador de uma nova ra\u00e7a de criaturas\u201d (Gon\u00e7alves, 2021, p. 6).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A alus\u00e3o de Shelley de que <em>Frankenstein<\/em> seria tamb\u00e9m uma vers\u00e3o \u201cmoderna\u201d do mito de Prometeu n\u00e3o \u00e9 fortuita. Tanto o mito quanto o livro exp\u00f5em uma preocupa\u00e7\u00e3o sobre quem det\u00e9m (ou quem pode deter) conhecimento e at\u00e9 onde v\u00e3o os limites dele. De certa maneira, Shelley entrega uma chave interpretativa sobre o mito de Prometeu que \u00e9 bastante condizente com as preocupa\u00e7\u00f5es de um per\u00edodo, o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, que estava lidando com as transforma\u00e7\u00f5es incutidas pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e pelo desenvolvimento cient\u00edfico. O cientista e a hist\u00f3ria do roubo do tit\u00e3 foram os meios encontrados pela autora para refletir sobre a responsabilidade e as complexidades de se lidar com a t\u00e9cnica, o advento de novas tecnologias e a capacidade de se criar a partir delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas tamb\u00e9m s\u00e3o algumas das preocupa\u00e7\u00f5es de \u201cO Mundo Atrav\u00e9s da IA\u201d, exposi\u00e7\u00e3o que pretende, por meio da arte, provocar no visitante reflex\u00f5es sobre as possibilidades, as limita\u00e7\u00f5es e os problemas dos mais diversos tipos de intelig\u00eancia artificial. Com isso em mente, a exibi\u00e7\u00e3o&nbsp; tenta desnudar o funcionamento e as implica\u00e7\u00f5es complexas dessas tecnologias, oferecendo um olhar transversal sobre as IAs. Ela esteve alocada no galp\u00e3o do Sesc Campinas entre 27 de novembro de 2025 e 26 de abril de 2026 e chegou ao Sesc 24 de Maio, em S\u00e3o Paulo, no \u00faltimo dia 6 de agosto. Originalmente criada pelo centro de arte <a href=\"https:\/\/jeudepaume.org\/evenement\/exposition-le-monde-selon-ia\/\">Jeu de Paume<\/a>, em Paris, \u201cO Mundo Atrav\u00e9s da IA\u201d contou com <a href=\"https:\/\/curatorsintl.org\/collaborators\/7282-antonio-somaini\">a curadoria de Antonio Somaini<\/a>. No material de divulga\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o, o curador destaca que, ao abordar as IAs, a exposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 lidando com \u201cum amplo espectro de algoritmos e modelos capazes de automaticamente realizar opera\u00e7\u00f5es &#8211; como detec\u00e7\u00e3o, reconhecimento, classifica\u00e7\u00e3o, previs\u00e3o, an\u00e1lise e gera\u00e7\u00e3o de dados &#8211; por meio de incont\u00e1veis aplica\u00e7\u00f5es\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas tecnologias, cada vez mais presentes no nosso cotidiano, chegam at\u00e9 n\u00f3s principalmente por meio da media\u00e7\u00e3o com telas e\/ou por imagens e, conforme argumenta Somaini no material da exposi\u00e7\u00e3o, \u201cest\u00e3o transformando de forma profunda os modos como imagens s\u00e3o capturadas, geradas, modificadas, circuladas, descritas e visualizadas\u201d. Defendendo esse ponto, a exposi\u00e7\u00e3o se divide em oito se\u00e7\u00f5es. A primeira, Materiais e ambientes, destacam a circula\u00e7\u00e3o das materialidades que formam as tecnologias de intelig\u00eancia artificial, pensando elas principalmente a partir de sua dimens\u00e3o extrativista e do seu impacto ambiental. J\u00e1 a segunda, Vis\u00e3o maqu\u00ednica e reconhecimento facial, reflete sobre a capacidade visual das novas tecnologias, dando \u00eanfase aos seus pontos cegos e aos seus vieses, e questionando o que est\u00e1 em jogo quando agentes n\u00e3o-humanos tamb\u00e9m participam da circula\u00e7\u00e3o de imagens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira se\u00e7\u00e3o, Genealogias, busca mostrar todo o arcabou\u00e7o t\u00e9cnico, cient\u00edfico e social que foi necess\u00e1rio ser reunido e produzido desde 1500 para que tenhamos chegado, hoje, em uma tecnologia como as IAs. Por sua vez, a quarta se\u00e7\u00e3o, Microtrabalho, encara a intelig\u00eancia artificial a partir do que h\u00e1 de mais basilar em sua produ\u00e7\u00e3o: as novas formas (precarizadas) de trabalho humano. Imagina\u00e7\u00e3o colonial\/subvers\u00f5es decoloniais, a quinta parte de \u201cO Mundo Atrav\u00e9s da IA\u201d, enfoca a forte conex\u00e3o das IAs com aspectos coloniais contempor\u00e2neos, tomando-a como uma tecnologia que n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoca ou mesmo inevit\u00e1vel, tal como as grandes empresas de tecnologia do Norte Global gostam de propagandear. Em Nos espa\u00e7os latentes da hist\u00f3ria, a sexta se\u00e7\u00e3o, a exposi\u00e7\u00e3o explora as possibilidades abertas pelas IAs de lidar com o passado de maneira mediada por seus algoritmos, seja para pensar em passados alternativos ou oferecer hist\u00f3rias contrafactuais. J\u00e1 a s\u00e9tima se\u00e7\u00e3o, Palavras e imagens, pensa os m\u00faltiplos fluxos entre texto, fotografia e v\u00eddeo possibilitados pelos <em>prompts<\/em> e pelos algoritmos das intelig\u00eancias artificiais. E, finalmente, a oitava e \u00faltima se\u00e7\u00e3o, Futuros poss\u00edveis, oferecem alternativas para pensarmos coletivamente em modos de reconquistar alguma ag\u00eancia frente a um futuro que, ao menos parece, cada vez mais dominado pela IA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que \u201cO Mundo Atrav\u00e9s da IA\u201d e suas oito se\u00e7\u00f5es deixam de modo mais marcante ao visitante \u00e9 o fato de que isso que n\u00f3s chamamos corriqueiramente de \u201cIA\u201d na realidade diz respeito a\u00a0 muitas coisas ao mesmo tempo. E, justamente por isso, tem nos enredado das maneiras mais diversas poss\u00edveis, seja nos obrigando a lidar com nov\u00edssimas formas imag\u00e9ticas que muitas vezes nos parecem quimeras, seja invadindo sem aviso e com muita rapidez nossa forma de trabalhar, de vermos a n\u00f3s mesmos, de sermos e de estarmos no mundo. O que mais impressiona na exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o modo como ela lida com a magnitude do que nos assombra. Ao inv\u00e9s de encarar todo esse universo a partir de um olhar amedrontado, a curadoria de Somaini nos convida \u00e0 criticidade, \u00e0 reflex\u00e3o, sem tomar a IA algo intranspon\u00edvel ou incompreens\u00edvel. Sem entend\u00ea-la de modo tecnof\u00f3bico, mas tamb\u00e9m sem aderir totalmente a ela de modo acr\u00edtico. Pelo contr\u00e1rio, a exposi\u00e7\u00e3o consegue tornar vis\u00edvel e sens\u00edvel ao visitante o que h\u00e1 de mais complexo na compreens\u00e3o dos Estudos Sociais de Ci\u00eancia e Tecnologia:\u00a0 a rela\u00e7\u00e3o entre a materialidade das tecnologias e todo o aparato social, imaginativo, sens\u00edvel e ideol\u00f3gico que as ajudam a tomar forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso j\u00e1&nbsp; fica bastante vis\u00edvel na primeira obra da exposi\u00e7\u00e3o, \u201cBeleza Corrosiva\u201d (2025), de Giselle Beiguelman. Nela, vemos uma pilha de lixo eletr\u00f4nico colocada no canto da primeira sala em frente a uma proje\u00e7\u00e3o. Na pilha \u00e9 poss\u00edvel encontrar toda sorte de peda\u00e7os de tecnologias contempor\u00e2neas, como partes de impressoras, de televisores, teclados, pendrives, gabinetes de computador, modems, placas-m\u00e3e e discos r\u00edgidos. Encontramos tamb\u00e9m tecnologias mais antigas, como discmans, tocadores de DVDs, telefones dom\u00e9sticos comuns, celulares tijol\u00f5es, baterias de celulares antigos, controles de videogames antigos, dentre muitas outras coisas. Todos os equipamentos dispostos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais funcionais. J\u00e1 na proje\u00e7\u00e3o, vemos um rio, uma paisagem que se pretende org\u00e2nica, mas que \u00e9 constitu\u00edda de peda\u00e7os das mesmas tecnologias que est\u00e3o ali despejadas. Essas imagens foram feitas com uso de intelig\u00eancia artificial (Sora) e parecem querer evocar, exatamente, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2025\/06\/02\/do-smart-ao-scrap-a-rede-de-telecomunicacao-do-futuro-carrega-um-paradoxo-ambiental\/\">o que h\u00e1 de corrosivo nas tecnologias eletr\u00f4nicas: a capacidade que elas t\u00eam, desde sua produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 o seu descarte, de gerar impacto ambiental<\/a>. Ao lado da obra, havia um ponto de coleta de e-lixo. As obras nele depositadas poderiam, inicialmente, serem integradas \u00e0 pilha de lixo da obra de Beiguelman e seriam posteriormente encaminhadas para um tratamento adequado, podendo ser recicladas e, quando essa op\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse poss\u00edvel, seriam descartadas de modo adequado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1112\" style=\"width:666px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098334.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335-1024x576.jpg\" alt=\"Fotografias de  \u201cBeleza Corrosiva\u201d (2025), de Giselle Beiguelman. Fotos da autora.\" class=\"wp-image-1111\" style=\"aspect-ratio:1.7777580265255173;width:668px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098335.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fotografias de  \u201cBeleza Corrosiva\u201d (2025), de Giselle Beiguelman. Fotos da autora.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra obra que une a magnitude das tecnologias de IA com sua materialidade, dessa vez sob o vi\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano, \u00e9 a instala\u00e7\u00e3o \u201cMeta Office: Por Tr\u00e1s das Telas da Amazon Mechanical Turks\u201d (2021-2025), de autoria de Lauritz Bohne, Lea Scherer e Edward Zammit. Nela, vemos uma alta torre com diversas imagens de mesas vazias com computadores dentro de quartos dom\u00e9sticos, intercalados, vez ou outra, pela fotografia simples de pessoas dentro desses ambientes. Tais mesas s\u00e3o os locais de trabalho dos <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2025\/09\/08\/the-ghost-work-inteligencia-artificial-e-precarizacao-do-trabalho\/\">trabalhadores precarizados da plataforma Mechanical Turk, da Amazon, que realizam microtarefas extenuantemente repetitivas essenciais para o funcionamento de fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas das IAs<\/a> contempor\u00e2neas como o aprendizado de m\u00e1quina e o processamento de imagens e de dados. Feito em parceria com esses trabalhadores, ao mostrar locais que s\u00e3o ao mesmo tempo dom\u00e9sticos e de trabalho para eles, a obra torna tang\u00edvel a quantidade de trabalho humano que existe por tr\u00e1s do funcionamento das tecnologias contempor\u00e2neas, fazendo com que o visitante entenda a materialidade (e o esfor\u00e7o manual) que a sustenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098331-576x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1113\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098331-576x1024.jpg 576w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098331-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098331-500x889.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098331.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fotografia da instala\u00e7\u00e3o \u201cMeta Office: Por Tr\u00e1s das Telas da Amazon Mechanical Turks\u201d. Foto da autora.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ao menos pra mim, a obra que melhor escancara esse contraste entre magnitude e concretude \u00e9 \u201cCalculando Imp\u00e9rios\u201d (2023) de Kate Crawford e Vladan Joler. Nela, somos apresentados a uma representa\u00e7\u00e3o visual extremamente detalhada das m\u00faltiplas genealogias de tecnologias, t\u00e9cnicas, desenvolvimento de conhecimento cient\u00edfico e acontecimentos sociais que nos trouxeram at\u00e9 o atual estado das intelig\u00eancias artificiais. Tais representa\u00e7\u00f5es ocupam duas paredes inteiras, dispostas frente \u00e0 frente, na qual uma delas mostra os desenvolvimentos relacionados \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e \u00e0 computa\u00e7\u00e3o e a outra aqueles ligados ao controle e \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas paredes, vemos, de baixo \u00e0 cima, partindo do ano de 1500, cada simples desenvolvimento t\u00e9cnico, cient\u00edfico ou tecnol\u00f3gico que, cumulativamente, foi necess\u00e1rio para que fosse poss\u00edvel, hoje, produzirmos as tecnologias que produzirmos. E, mais do que isso, nos mostram o horizonte imaginativo, especulativo, e de tentativa e erro, para que o mesmo acontecesse. Assim, a obra consegue deixar evidente de maneira assustadora o modo como ci\u00eancia, tecnologia, pol\u00edtica e aspectos sociais s\u00e3o imbricados, detalhadamente mapeando o que Donna Haraway chamou de inform\u00e1tica da domina\u00e7\u00e3o no seu cl\u00e1ssico <em>Manifesto Ciborgue<\/em> (1985).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1116\" style=\"width:630px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098336-1.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1115\" style=\"width:632px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098337-1.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1-1024x576.jpg\" alt=\"Fotografias de  \u201cCalculando Imp\u00e9rios\u201d (2023), de Kate Crawford e Vladan Joler. Est\u00e3o presentes na primeira foto os seguintes integrantes do GEICT, da esquerda para a direita, Isabela Mayumi, Talita Azevedo, Carlos Javier Villegas e Mauricio Berger. Fotos da autora.\" class=\"wp-image-1114\" style=\"width:635px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/09\/4909278410132098338-1.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fotografias de  \u201cCalculando Imp\u00e9rios\u201d (2023), de Kate Crawford e Vladan Joler. Est\u00e3o presentes na primeira foto os seguintes integrantes do GEICT, da esquerda para a direita, Isabela Mayumi, Talita Azevedo, Carlos Javier Villegas e Mauricio Berger. Fotos da autora.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a exposi\u00e7\u00e3o reflete sobre as diversas intelig\u00eancias artificiais e seus desdobramentos tal qual estivesse de frente com as inven\u00e7\u00f5es de um (ou de muitos) Prometeu(s) do s\u00e9culo XXI: com espanto (por sua capacidade de se cotidianizar e de adentrar todos os espa\u00e7os), com algum pouco deslumbramento (por suas capacidades m\u00faltiplas e pelas possibilidades abertas por elas) e com uma certa melancolia em rela\u00e7\u00e3o ao modo como as grandes empresas de tecnologia t\u00eam de invadir nosso imagin\u00e1rio por meio delas. Ora vendo as IAs com contempla\u00e7\u00e3o, ora com receio. Tentando imaginar futuros alternativos promissores, reescrever o passado lado a lado com sujeitos que n\u00e3o tem direito a ele e refletindo sobre um presente assustador de domina\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia. Assim como o ousado tit\u00e3 e o atormentado cientista, as IAs carregam em si diversas ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es e o que \u201cO Mundo Atrav\u00e9s da IA\u201d faz de melhor \u00e9 nos mostrar isso em toda sua complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GON\u00c7ALVES, Alanis Zambrini. O monstro galvanizado: mito, religi\u00e3o e ci\u00eancia em Frankenstein, de Mary Shelley. <strong>L\u00edngua, Literatura e Ensino<\/strong>, V. XVII, Campinas, SP, 2021.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"7f270ff3-7d09-45cf-9440-e7b27b65bd48\">Segundo Gon\u00e7alves (2021), \u201co mito de Prometeu aparece pela primeira vez na [obra] <em>Teogonia<\/em>, de Hes\u00edodo, e torna-se mais importante em <em>Prometeu Acorrentado<\/em>, do dramaturgo \u00c9squilo\u201d, aparecendo tamb\u00e9m na obra do poeta romano Ov\u00eddio (43 a.C.-17 d.C.). Posteriormente, Prometeu seria retomado pelos poetas do Romantismo ingl\u00eas, tais como Lorde Byron e Percy Bysshe Shelley, respectivamente, colega e marido de Mary Shelley. <a href=\"#7f270ff3-7d09-45cf-9440-e7b27b65bd48-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo a mitologia grega, em hist\u00f3rias que remontam os s\u00e9culos 700 e 400 a.C., Prometeu foi o tit\u00e3 que subiu ao Monte Olimpo, roubou o fogo divino e o ofereceu aos mortais. Ao presentear a humanidade com a chama da cria\u00e7\u00e3o, Prometeu teria compartilhado com ela conhecimentos exclusivos aos deuses [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":726,"featured_media":1112,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":"[{\"id\":\"7f270ff3-7d09-45cf-9440-e7b27b65bd48\",\"content\":\"Segundo Gon\\u00e7alves (2021), \\u201co mito de Prometeu aparece pela primeira vez na [obra] <em>Teogonia<\\\/em>, de Hes\\u00edodo, e torna-se mais importante em <em>Prometeu Acorrentado<\\\/em>, do dramaturgo \\u00c9squilo\\u201d, aparecendo tamb\\u00e9m na obra do poeta romano Ov\\u00eddio (43 a.C.-17 d.C.). 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