{"id":215,"date":"2025-04-16T16:44:04","date_gmt":"2025-04-16T19:44:04","guid":{"rendered":"http:\/\/67fec2787658b88efd5a5242"},"modified":"2025-04-25T17:35:14","modified_gmt":"2025-04-25T20:35:14","slug":"reflexoes-sobre-democracia-a-partir-da-politica-cientifica-e-tecnologica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2025\/04\/16\/reflexoes-sobre-democracia-a-partir-da-politica-cientifica-e-tecnologica-brasileira\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre democracia a partir da pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica brasileira"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>Por Thais Lassali\nCom a colabora\u00e7\u00e3o de Maria Clara Ferreira Guimar\u00e3es (AmazonFACE) e Yama Chiodi (LABMEM)<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No \u00faltimo dia 4 de abril, o Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp sediou o evento \u201cA pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica no Brasil\u201d, em comemora\u00e7\u00e3o aos 40 anos da cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI) e do Departamento de Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica do instituto (DPCT). A cerim\u00f4nia contou com a presen\u00e7a da atual ministra do MCTI, Luciana Santos, de pesquisadores, de representantes de \u00f3rg\u00e3os vinculados \u00e0 pasta e de docentes do departamento. Como a Profa. Janaina Pamplona da Costa, chefe do DPCT, bem resumiu na mesa de abertura do evento, o que se pretendia era \u201ctrazer uma reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria da pol\u00edtica cient\u00edfica do Brasil hoje e para os pr\u00f3ximos 40 anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"608\" height=\"411\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/1a-1.jpg\" alt=\"Fotografia do corredor do antigo pr\u00e9dio do Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp. Em primeiro plano, no canto direito da fotografia, aparecem duas pessoas em p\u00e9 cuja imagem est\u00e1 ligeiramente desfocada. Ao centro da imagem, focaliza-se o professor Amilcar Herrera em p\u00e9, de lado para a c\u00e2mera e de frente a outro homem, identificado pelo Siarq como um aluno. Ambos os homens se encaram frente a frente.\" class=\"wp-image-158\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/1a-1.jpg 608w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/1a-1-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/1a-1-500x338.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 608px) 100vw, 608px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Professor Amilcar Herrera no corredor do ent\u00e3o Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp. Fonte: SIARQ\/Unicamp.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O evento se dividiu em duas mesas, uma durante a manh\u00e3, sobre o MCTI, e outra, \u00e0 tarde, sobre o DPCT. Em ambas, p\u00e1ginas da hist\u00f3ria dessas institui\u00e7\u00f5es foram rememoradas, mas, mais do que isso, o que se debateu foram as particularidades dos debates sobre pol\u00edtica cient\u00edfica no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"i0q8p203\" class=\" eplus-wrapper\">Se \u00e9 poss\u00edvel resumir o que fora discutido no evento em apenas uma palavra, ela seria \u201cdemocracia\u201d, em toda sua complexidade e com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es, principalmente pelo esquadro da pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica brasileira. Como relembrou a Profa. Francilene Garcia durante a mesa da manh\u00e3, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia, institui\u00e7\u00e3o da qual ela \u00e9 atualmente vice-presidenta, desde os anos 1960 promoveu discuss\u00f5es sobre a necessidade de existir um minist\u00e9rio voltado para essa \u00e1rea. De modo an\u00e1logo, Carlos Pacheco, diretor-presidente da FAPESP, apontou que \u201ca ossatura b\u00e1sica do sistema de ci\u00eancia e tecnologia brasileiro se deu nos anos 1970\u201d. Mesmo assim, foi apenas na retomada democr\u00e1tica, em meados da d\u00e9cada de 1980, que se considerou oficializar, por meio da cria\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio, uma pol\u00edtica p\u00fablica voltada para a ci\u00eancia e tecnologia brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"kxzod206\" class=\" eplus-wrapper\">N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que isso tenha ocorrido dessa forma. A redemocratiza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 certo ponto, possibilitou um rearranjo de for\u00e7as pol\u00edticas no pa\u00eds. Ainda que, na pr\u00e1tica, \u201co sistema se preservou sem mudar\u201d (Nobre, 2013), existia no per\u00edodo um presumido \u201cotimismo\u201d entre acad\u00eamicos, intelectuais e grupos pol\u00edticos de orienta\u00e7\u00e3o mais progressista de que o acirramento contra a Ditadura Militar poderia fazer o pa\u00eds ao menos debater seus problemas sociais. O movimento por \u201cDiretas J\u00e1\u201d acabou aglutinando diversas pautas democr\u00e1ticas ao seu redor, como aquelas que debatiam a import\u00e2ncia do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura, e, nessa mesma seara, estava a preocupa\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica brasileira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9rh85209\" class=\" eplus-wrapper\">Um dos presentes da mesa da manh\u00e3 foi Luciano Coutinho, professor do Instituto de Economia da Unicamp e secret\u00e1rio executivo do minist\u00e9rio desde a sua funda\u00e7\u00e3o, em 1985, at\u00e9 1988. Ele contou aos presentes que foram justamente as press\u00f5es dos movimentos democr\u00e1ticos que acabaram por fazer com que o presidente Tancredo Neves, \u00e0 \u00e9poca rec\u00e9m-eleito, concordasse com a reivindica\u00e7\u00e3o de se criar um minist\u00e9rio espec\u00edfico para a ci\u00eancia e tecnologia brasileiras. Esse compromisso foi honrado por seu vice, Jos\u00e9 Sarney, mesmo ap\u00f3s a morte de Tancredo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Os fundadores do minist\u00e9rio, Coutinho incluso, queriam que a pasta n\u00e3o se focasse apenas em quest\u00f5es informacionais, o que a tornaria meramente burocr\u00e1tica. Pelo contr\u00e1rio, Renato Archer, primeiro a ocupar o cargo de ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia, e sua equipe queriam abordar diversas \u00e1reas de interesse nacional, como a biotecnologia, a qu\u00edmica fina de produ\u00e7\u00e3o de insumos para f\u00e1rmacos, novos materiais tecnol\u00f3gicos, etc. Relembra Coutinho:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u201co maior desafio do minist\u00e9rio era articular os sistemas de C&amp;T aos outros minist\u00e9rios, convencendo os ministros da import\u00e2ncia e da necessidade de trabalharem suas pol\u00edticas em conjunto\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A grande inspira\u00e7\u00e3o para a funda\u00e7\u00e3o do MCTI era pensar a pol\u00edtica de C&amp;T como um projeto a longo prazo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"kwxn6217\" class=\" eplus-wrapper\">Sabemos que tais for\u00e7as n\u00e3o se rearranjaram tanto quanto a esperan\u00e7a gestada nesse momento do pa\u00eds gostaria. Como Garcia e Pacheco tamb\u00e9m apontaram, muitas vezes, no decorrer desses quarenta anos, o MCTI parecia ser um minist\u00e9rio \u00e0 deriva justamente por n\u00e3o conseguir ocupar, pela complexidade dos arranjos pol\u00edticos de Bras\u00edlia, esse lugar de minist\u00e9rio \u201cinter-ministerial\u201d ou ent\u00e3o de \u201ccabe\u00e7a\u201d do sistema de C&amp;T. Dessa forma, a depender de quem ocupasse o cargo de presidente, o MCTI ganhava mais ou menos prest\u00edgio, mais ou menos aten\u00e7\u00e3o e verbas, e, igualmente, a pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica se mantinha \u00e0 reboque dessa deriva. Percal\u00e7os t\u00edpicos da cambaleante democracia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Em 1965, o m\u00e9dico Zeferino Vaz, figurinha carimbada no estabelecimento e no desenvolvimento de diversas universidades do interior paulista, foi incumbido da miss\u00e3o de organizar e estabelecer uma nova universidade na cidade de Campinas. Em meio \u00e0 Ditadura Militar, Vaz buscou, dentro e fora do Brasil, um quadro politicamente diverso de professores interessados em encabe\u00e7ar a Universidade Estadual de Campinas, concebida como um projeto interdisciplinar de universidade (Gomes, 2007). Foi justamente a convite dele que, em 1979, o professor Amilcar Herrera chegou ao Brasil, depois de um per\u00edodo de ex\u00edlio de seu pa\u00eds, a Argentina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"680\" height=\"984\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/74af76_d81f6920e8c642ee993a7cde25d817fcmv2.jpg\" alt=\"Imagem da capa de um documento entitulado &quot;Algunos comentarios sobre la orientacion de la ensenanza y la investigacion en el futuro Instituto de Geoci\u00eancias.\" class=\"wp-image-159\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/74af76_d81f6920e8c642ee993a7cde25d817fcmv2.jpg 680w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/74af76_d81f6920e8c642ee993a7cde25d817fcmv2-207x300.jpg 207w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/04\/74af76_d81f6920e8c642ee993a7cde25d817fcmv2-500x724.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">P\u00e1gina inicial do projeto de cria\u00e7\u00e3o do Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp de autoria do professor Amilcar Herrera. Fonte: SIARQ\/Unicamp.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Sua miss\u00e3o era a de fundar o Instituto de Geoci\u00eancias da ainda jovem Unicamp. Herrera trouxe consigo a marca da interdisciplinaridade que \u00e9 caracter\u00edstica n\u00e3o apenas do instituto, mas tamb\u00e9m do departamento do qual foi fundador, o DPCT, como rememoram a professora Leda Gitahy e o professor Newton Pereira. Como fora repetido diversas vezes no decorrer da mesa da tarde, o tino interdisciplinar \u00e9 justamente o que diferencia e destaca o Departamento de Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica da Unicamp. E isso adv\u00e9m n\u00e3o apenas do projeto inicial de Vaz para a universidade, mas, principalmente, da idiosincrasia intelectual de Herrera: ge\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o, mas com atua\u00e7\u00e3o profissional e acad\u00eamica interdisciplinar. Al\u00e9m de fundar o departamento, Herrera tamb\u00e9m acolheu na funda\u00e7\u00e3o do IG e ajudou a formar diversos dos professores que at\u00e9 hoje o comp\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"v3ldh226\" class=\" eplus-wrapper\">Pensar a pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica de modo interdisciplinar, como pretende o DPCT, significa compreend\u00ea-la a partir de suas complexidades e em suas mais diferentes frentes, desde os estudos sociais da ci\u00eancia, passando pela compreens\u00e3o de din\u00e2micas pol\u00edticas, territoriais e ambientais associadas aos sistemas t\u00e9cnicos, at\u00e9 a gest\u00e3o de tecnologia e inova\u00e7\u00e3o. Desse modo, mesmo aos trancos e barrancos democr\u00e1ticos, dos quais a pol\u00edtica tecnol\u00f3gica brasileira sempre esteve \u00e0 merc\u00ea, pode-se criar um espa\u00e7o intelectual que reflita sobre as complexidades e as contradi\u00e7\u00f5es do Brasil e do capitalismo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\" wp-block-preformatted eplus-wrapper\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas\nGOMES, Eust\u00e1quio. O Mandarim: hist\u00f3ria da inf\u00e2ncia da Unicamp. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.\nNOBRE, Marcos. Imobilismo em Movimento: da redemocratiza\u00e7\u00e3o ao governo Dilma. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 4 de abril, o Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp sediou o evento \u201cA pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica no Brasil\u201d, em comemora\u00e7\u00e3o aos 40 anos da cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI) e do Departamento de Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica do instituto (DPCT). 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