{"id":216,"date":"2025-02-20T16:59:52","date_gmt":"2025-02-20T19:59:52","guid":{"rendered":"http:\/\/67b7809a816cdba07faba623"},"modified":"2025-04-25T17:35:55","modified_gmt":"2025-04-25T20:35:55","slug":"em-quem-voce-pensa-quando-imagina-um-cientista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2025\/02\/20\/em-quem-voce-pensa-quando-imagina-um-cientista\/","title":{"rendered":"Em quem voc\u00ea pensa quando imagina um cientista?"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>Uma introdu\u00e7\u00e3o por Thais Lassali\nCom a colabora\u00e7\u00e3o de Maria Clara Guimar\u00e3es e Yama Chiodi<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Em quem voc\u00ea pensa quando imagina um cientista? As imagens do cinema e da televis\u00e3o n\u00e3o raramente nos mostram um homem esquisito, meio louco, meio ermit\u00e3o, de genialidade indubit\u00e1vel e fatalmente branco, em meio a tubos de ensaio e engenhocas tecnol\u00f3gicas. Sabemos, \u00e9 claro, que se trata de um estere\u00f3tipo. Os cientistas n\u00e3o s\u00e3o seres fant\u00e1sticos com capacidades praticamente m\u00e1gicas. Ainda assim, <a href=\"https:\/\/youtu.be\/rNoC8zDc408?si=QfJS4Z2i747HCM7D\"><u>segundo a f\u00edsica Z\u00e9lia Maria da Costa Ludwig<\/u><\/a>, algo se mant\u00e9m dessa imagem fantasiosa. Mais precisamente, seu g\u00eanero e sua cor, pois, frequentemente, segundo ela, as pessoas pensam em um senhor branco de barba.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"925\" height=\"925\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-249\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image.jpeg 925w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image-768x768.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image-500x500.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2025\/02\/image-800x800.jpeg 800w\" sizes=\"(max-width: 925px) 100vw, 925px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Freepik.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ludwig atualmente \u00e9 professora do Departamento de F\u00edsica da Universidade Federal de Juiz de Fora e criadora do projeto \u201cPara Meninas Negras na Ci\u00eancia\u201d e foi uma das entrevistadas do trabalho de conclus\u00e3o de curso \u201cMulheres negras em movimento na universidade\u201d, de autoria de Poliana Martins, ent\u00e3o aluna da Especializa\u00e7\u00e3o em Jornalismo Cient\u00edfico do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Orientado por Marta Kanashiro no \u00e2mbito do projeto de pesquisa \u201cComunica\u00e7\u00e3o, decolonialidade e interseccionalidade\u201d, o referido TCC tem como objetivo expor diversas facetas da transforma\u00e7\u00e3o pela qual as universidades p\u00fablicas brasileiras passaram a partir da ades\u00e3o a pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas, tais como as cotas raciais. O texto tamb\u00e9m foi publicado em sua \u00edntegra em forma de dossi\u00ea na <a href=\"https:\/\/www.comciencia.br\/os-desafios-de-decolonizar-o-jornalismo-cientifico-2\/\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\"><u>revista ComCi\u00eancia em novembro de 2024<\/u><\/a>, pelo advento do m\u00eas da consci\u00eancia negra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ce1mh6\" class=\" eplus-wrapper\">Poliana \u00e9 uma das mais novas integrantes do GEICT. Atualmente, ela faz mestrado em Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Cultural pelo Labjor, al\u00e9m de atuar como jornalista cient\u00edfica, com apoio da Bolsa M\u00eddia Ci\u00eancia da FAPESP. Nesse projeto ela far\u00e1 a cobertura da \u00e1rea socioambiental do programa AmazonFACE, co-coordenado pelo l\u00edder do GEICT, Marko Monteiro (e pela Profa. Maira Padgurschi, do CNPEM). Abaixo, reproduzimos \u201cOs Desafios de Decolonizar o Jornalismo Cient\u00edfico\u201d, editorial do dossi\u00ea publicado na ComCi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0mz718\" class=\" eplus-wrapper\">O trabalho de Poliana Martins combina diversos formatos jornal\u00edsticos, como a reportagem, a entrevista e a resenha, para apresentar uma abordagem aprofundada sobre o impacto que o aumento de alunos e professores pretos e pardos teve no cotidiano universit\u00e1rio. Ao mesmo tempo, evidencia as estrat\u00e9gias tomadas por essas pessoas ao adentrar num ambiente que, at\u00e9 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, n\u00e3o chegava nem perto de refletir a realidade racial brasileira. Criar coletivos acad\u00eamicos, redes de apoio e projetos como o de Z\u00e9lia Ludwig s\u00e3o alguns dos exemplos trazidos pelo TCC de tais estrat\u00e9gias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Os dois grandes fios condutores do texto de Poliana se relacionam intimamente: a interseccionalidade e a reorienta\u00e7\u00e3o de perspectiva que o aumento da presen\u00e7a de pessoas negras na universidade pode causar na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O conceito de interseccionalidade sugere que os mais diferentes marcadores sociais, tais como o g\u00eanero, a ra\u00e7a, a classe, a orienta\u00e7\u00e3o sexual, a idade, a escolaridade, dentre outros, se influenciam e interagem mutuamente. Trocando em mi\u00fados, de um ponto de vista interseccional, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar a viv\u00eancia e a hist\u00f3ria de vida de uma mulher negra, pobre, heterossexual, jovem e universit\u00e1ria de cada uma dessas categorias. \u00c9 preciso compreender como todas elas ocorrem e t\u00eam ag\u00eancia em conjunto e de maneira simult\u00e2nea. Foi justamente isso que a Poliana explicou, em entrevista, ao Blog do GEICT:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u201cO conceito de interseccionalidade sugere que diferentes opress\u00f5es n\u00e3o atuam isoladamente, mas se entrela\u00e7am, criando experi\u00eancias \u00fanicas de marginaliza\u00e7\u00e3o. Essa abordagem permite entender como m\u00faltiplas desigualdades se combinam, criando obst\u00e1culos que n\u00e3o s\u00e3o facilmente percebidos quando se analisam opress\u00f5es como racismo ou sexismo de forma isolada. Por exemplo, as dificuldades enfrentadas por mulheres negras n\u00e3o podem ser explicadas apenas como problemas de g\u00eanero ou de ra\u00e7a, mas como a interse\u00e7\u00e3o dessas opress\u00f5es. Isso encoraja a pensar em solu\u00e7\u00f5es que integrem ra\u00e7a e g\u00eanero, capazes de promover interven\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para alcan\u00e7ar maior equidade.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Seguindo o exemplo dado pela pesquisadora, uma mulher negra n\u00e3o \u00e9 \u201capenas\u201d mulher <em>ou <\/em>negra, mas mulher <em>e <\/em>negra. A misoginia e o racismo evidentemente impactam diretamente a vida de mulheres negras pobres e de mulheres negras ricas, mas, muitas vezes, de modos diferentes. \u00c9 justamente para isso que a ideia de interseccionalidade chama aten\u00e7\u00e3o. Ainda que j\u00e1 fizesse parte dos discursos dos movimentos sociais feministas e negros das d\u00e9cadas de 1970 e 80, esse conceito apenas tomou forma e ganhou o nome pelo qual o conhecemos hoje em 1989, no texto \u201cMapping the margins: intersectionality, identity politics, and violence against women of color\u201d, da jurista estadunidense Kimberl\u00e9 Crenshaw. Ele \u00e9 comumente associado ao estudo de marcadores sociais da diferen\u00e7a, ou ent\u00e3o de operadores sociais que marcam a desigualdade de rela\u00e7\u00f5es, oportunidades e possibilidades nos mais diferentes espa\u00e7os sociais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cs34z20\" class=\" eplus-wrapper\">Assim, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o ponto de vista interseccional questiona a naturaliza\u00e7\u00e3o de certas explica\u00e7\u00f5es e de certas apreens\u00f5es cient\u00edficas, procurando qualific\u00e1-las e complexific\u00e1-las. A ideia de interseccionalidade tamb\u00e9m permite interrogar os limites da suposta neutralidade sobre a qual diversas \u00e1reas cient\u00edficas, especialmente as STEM, constroem sua autoridade, entendendo que todo cientista \u00e9 algu\u00e9m (como nos questiona Z\u00e9lia Ludwig, quem?) e que todo conhecimento parte de um conjunto de convic\u00e7\u00f5es que t\u00eam sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, seu pr\u00f3prio contexto, sua pr\u00f3pria localiza\u00e7\u00e3o no tempo e no espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O trabalho de conclus\u00e3o de Poliana Martins, bem como seu dossi\u00ea publicado na ComCi\u00eancia, acabam por aplicar essa ideia de que os marcadores se influenciam mutuamente no espa\u00e7o universit\u00e1rio e na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento ali produzido. Dessa forma, a autora acaba, em primeiro lugar, apontando para um problema: os espa\u00e7os decis\u00f3rios e de lideran\u00e7a dentro dos grupos de pesquisa, dos departamentos e dos laborat\u00f3rios universit\u00e1rios ainda \u00e9 dominado, majoritariamente, por homens brancos. Ao mesmo tempo, Poliana mostra&nbsp; poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es que j\u00e1 est\u00e3o sendo colocadas em pr\u00e1ticas nos espa\u00e7os cient\u00edficos e de viv\u00eancia dentro da universidade p\u00fablica brasileira: a produ\u00e7\u00e3o de um conhecimento centrado em marcadores diferentes daqueles habitualmente operados e o interesse do jornalismo cient\u00edfico e dos estudos sociais de ci\u00eancia e tecnologia nos efeitos sociais e cotidianos nessa mudan\u00e7a de olhar. Convidamos, portanto, \u00e0 leitura do editorial do dossi\u00ea de Poliana e Marta Kanashiro, reproduzido em sua totalidade logo abaixo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-alpha-channel-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">OS DESAFIOS DE DECOLONIZAR O JORNALISMO CIENT\u00cdFICO<\/h2>\n\n\n\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>por Poliana Martins e Marta Kanashiro<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Originalmente publicado na <a href=\"https:\/\/www.comciencia.br\/os-desafios-de-decolonizar-o-jornalismo-cientifico-2\/\">Revista ComCi\u00eancia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Aspectos como verdade, neutralidade, imparcialidade e objetividade delineiam o fazer jornal\u00edstico considerado convencional ou hegem\u00f4nico ainda que muito debate j\u00e1 tenha ocorrido sobre os entraves para uma produ\u00e7\u00e3o textual que de fato atenda a todos eles. Ijuim (2023), ao tratar da emerg\u00eancia de decoloniza\u00e7\u00e3o do jornalismo, afirma que \u00e9 tamb\u00e9m por meio da observa\u00e7\u00e3o desses aspectos que podemos notar que \u201cos modelos jornal\u00edsticos em pr\u00e1tica em nosso pa\u00eds comportam heran\u00e7as da racionalidade moderna [&#8230;] Tais modelos incorporam uma vis\u00e3o euroc\u00eantrica\/nortec\u00eantrica n\u00e3o apenas nas t\u00e9cnicas, como tamb\u00e9m nos aspectos \u00e9ticos e est\u00e9ticos\u201d (IJUIM, 2023, p. 76). Esse autor ainda considera como algumas implica\u00e7\u00f5es da colonialidade no pensar e no fazer jornal\u00edsticos, a constru\u00e7\u00e3o e o refor\u00e7o de estigmas e preconceitos que desumanizam o jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"pliba3959\" class=\" eplus-wrapper\">Patr\u00edcio (2023) destaca os mesmos aspectos de um jornalismo convencional ao tratar, por oposi\u00e7\u00e3o, da produ\u00e7\u00e3o de um jornalismo perif\u00e9rico. Este autor apresenta o que seriam as bases da episteme moderna que estrutura e orienta uma comunica\u00e7\u00e3o tradicional: \u201cO trip\u00e9 que sustenta a l\u00f3gica colonial se estrutura a partir da hierarquia dos saberes, em torno da ci\u00eancia positiva (colonialidade do saber); o que levou \u00e0 estratifica\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica dos povos (colonialidade do ser); definindo um projeto civilizat\u00f3rio (colonialidade do poder) (Torrico, 2018). A comunica\u00e7\u00e3o, enquanto \u00e1rea de conhecimento, epistemicamente toma emprestado para si esse mesmo trip\u00e9 para definir-se. As linhas tem\u00e1ticas d\u00e3o prioridade a quest\u00f5es pr\u00f3prias de seu contexto de origem\u201d. (PATR\u00cdCIO, 2023, p. 95).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u00c9 neste sentido que, por exemplo, o que \u00e9 considerado notici\u00e1vel \u00e9 muitas vezes atravessado e demarcado pela territorialidade:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\" eplus-wrapper\">A dimens\u00e3o de territorialidades no jornalismo se insere num contexto mais amplo. A oposi\u00e7\u00e3o entre centros e periferias aloca o debate em perspectivas hist\u00f3ricas que d\u00e3o conta de uma discuss\u00e3o sobre como essas territorialidades perif\u00e9ricas foram silenciadas; como as realidades foram sendo homogeneizadas na perspectiva de determinados interesses, de um controle social. (PATR\u00cdCIO, 2023, p. 95).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Esses autores nos ajudam a delinear os primeiros questionamentos que surgiram nas reuni\u00f5es realizadas para a produ\u00e7\u00e3o deste TCC. Afinal: quais saberes, territ\u00f3rios e vozes s\u00e3o privilegiados no jornalismo cient\u00edfico? O que se define como uma fonte adequada ou como personagem nessa produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, quando consideramos os aspectos centro e periferia? Ainda que a decoloniza\u00e7\u00e3o do jornalismo j\u00e1 esteja em debate, \u00e9 poss\u00edvel considerar a possibilidade de que a desestabiliza\u00e7\u00e3o de perspectivas modernas e coloniais tamb\u00e9m atravesse o jornalismo cient\u00edfico?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"x1f593969\" class=\" eplus-wrapper\">No Brasil, existe uma trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de movimentos de produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica que promovem uma perspectiva decolonial, abordando temas frequentemente marginalizados pelas reda\u00e7\u00f5es tradicionais e produzindo conte\u00fados que muitas vezes s\u00e3o ignorados ou invisibilizados pelos grandes jornais. Esses movimentos trazem consigo um discurso cr\u00edtico e socialmente engajado, voltado contra desigualdades sociais e marcado por pautas e posicionamentos considerados transgressores. Um exemplo not\u00e1vel e hist\u00f3rico \u00e9 o <em>Clarim da Alvorada <\/em>(1924), talvez o mais proeminente no estado de S\u00e3o Paulo, que se destacou por sua atua\u00e7\u00e3o nesse campo (SANTOS, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9zw4y3973\" class=\" eplus-wrapper\">Na contemporaneidade, o que se configura como \u201cjornalismo perif\u00e9rico\u201d (FELIX, 2023) aparece como uma das pr\u00e1ticas que vem cumprindo o papel de dar voz aos grupos marginalizados da sociedade, n\u00e3o apenas como objetos de observa\u00e7\u00e3o ou como pautas espor\u00e1dicas \u2014 como frequentemente fazem os ve\u00edculos de m\u00eddia ao tratar das periferias urbanas \u2014, mas como protagonistas de um discurso que visa desconstruir estere\u00f3tipos e produzir novas perspectivas no jornalismo. Esse movimento rompe com o que Torrinco (2018) denomina \u201co trip\u00e9 que sustenta a colonialidade\u201d no discurso jornal\u00edstico. Assumindo o controle da condu\u00e7\u00e3o de suas narrativas, esses comunicadores buscam relatar as m\u00faltiplas realidades vividas na cidade a partir de seu olhar, linguagem e ponto de vista, profundamente engajados com a luta pela redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. Dessa forma, deslocam os sentidos do jornalismo hegem\u00f4nico, que tradicionalmente se assume como imparcial e neutro, criando abordagens para a pr\u00e1tica jornal\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8dr6y3975\" class=\" eplus-wrapper\">Inspirando-se nos crit\u00e9rios estabelecidos por Barbosa (2022), a escolha da pauta para a s\u00e9rie <em>\u201cMulheres negras em movimento na universidade\u201d<\/em>&nbsp;adotou uma abordagem decolonial e interseccional, acionando princ\u00edpios do fazer jornal\u00edstico \u2014 identificar o que constitui not\u00edcia, organizar informa\u00e7\u00f5es, planejar as etapas de apura\u00e7\u00e3o e antecipar a edi\u00e7\u00e3o do conte\u00fado a partir de tr\u00eas princ\u00edpios: primeiro, considerar as experi\u00eancias de mulheres negras em coletivos universit\u00e1rios e espa\u00e7os que promovem o conhecimento e o pensamento afrodiasp\u00f3rico como fontes principais; segundo, priorizar a voz de mulheres envolvidas em coletivos de alcance nacional, como Criola; e terceiro, referenciar pesquisas acad\u00eamicas (artigos, teses, disserta\u00e7\u00f5es) que tenham coletivos de mulheres negras como tema central.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bavq73979\" class=\" eplus-wrapper\">Esses processos foram conduzidos a partir de uma experimenta\u00e7\u00e3o sob a \u00f3tica de uma pr\u00e1tica jornal\u00edstica decolonial, informada por uma abordagem interseccional. \u201cAfinal, pode-se realmente discutir jornalismo decolonial sem incorporar uma perspectiva interseccional?\u201d (SILVA; AGUIAR, 2023). Essa pergunta surge como provoca\u00e7\u00e3o que orienta a escolha entre as variadas propostas que buscam se orientar pela pr\u00e1tica do jornalismo decolonial, escolha por uma produ\u00e7\u00e3o decolonial que tenha a interseccionalidade como n\u00facleos metodol\u00f3gico e epist\u00eamico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"jv62n3981\" class=\" eplus-wrapper\">L\u00e9lia Gonzalez (2020), a partir de investiga\u00e7\u00f5es, que relacionam as categorias de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero, sobre os aspectos socioculturais e pol\u00edticos, no Brasil prop\u00f5e a interseccionalidade como modelo anal\u00edtico para observarmos como m\u00faltiplas formas de opress\u00e3o (ra\u00e7a, g\u00eanero e classe) interagem para criar situa\u00e7\u00f5es que refor\u00e7am posi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade. Em suas investiga\u00e7\u00f5es a autora tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para as heran\u00e7as coloniais da Am\u00e9rica Latina, apontando para um modelo de an\u00e1lise que observa com seriedade a necessidade de considerar as especificidades hist\u00f3ricas e culturais no estudo das opress\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"by1i73983\" class=\" eplus-wrapper\">Para entrela\u00e7ar ra\u00e7a, classe e g\u00eanero no tema da circula\u00e7\u00e3o do conhecimento, a produ\u00e7\u00e3o da pauta adota uma perspectiva centralizada nas vozes de mulheres negras brasileiras \u2014 uma presen\u00e7a frequentemente marginalizada nas representa\u00e7\u00f5es sociais, especialmente nas m\u00eddias tradicionais. Esse esfor\u00e7o \u00e9 motivado pela compreens\u00e3o de que, para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma pr\u00e1tica jornal\u00edstica verdadeiramente decolonial, \u00e9 preciso contrastar a hegemonia de figuras masculinas e brancas que dominam a produ\u00e7\u00e3o e as decis\u00f5es editoriais nas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"mdbvl3985\" class=\" eplus-wrapper\">Essa abordagem ressoa com a an\u00e1lise de Keisha-Khan Perry (2007), que, ao examinar o ativismo de bairro das mulheres negras em Salvador, evidencia como suas narrativas contestam a \u201cdomina\u00e7\u00e3o racial e sexual\u201d e representam uma \u201creivindica\u00e7\u00e3o coletiva de poder atrav\u00e9s das redefini\u00e7\u00f5es da negritude\u201d. Perry destaca que essas narrativas emergem como uma resist\u00eancia \u00e0 gentrifica\u00e7\u00e3o e \u00e0s hist\u00f3rias oficiais, que frequentemente apagam a exist\u00eancia negra das cidades. Essa conex\u00e3o refor\u00e7a que o jornalismo decolonial tamb\u00e9m implica a disputa de narrativas, um terreno onde as hist\u00f3rias de mulheres negras questionam e contestam as representa\u00e7\u00f5es dominantes. Essa perspectiva \u00e9 compartilhada por autores como Bruck e Brito (2023), que consideram o jornalismo decolonial como um espa\u00e7o para contar hist\u00f3rias alternativas, articulando-se com o ativismo pol\u00edtico e social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"u7r1d3987\" class=\" eplus-wrapper\">Al\u00e9m disso, Albuquerque (2022) e Aguiar (2023) oferecem uma cr\u00edtica contundente ao sistema acad\u00eamico global como agente colonial, defendendo mudan\u00e7as curriculares nos cursos de jornalismo, inclusive cient\u00edfico, para promover uma decoloniza\u00e7\u00e3o efetiva no campo, reorientando as pr\u00e1ticas de ensino e as epistemologias que sustentam o conhecimento tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"un8fm3989\" class=\" eplus-wrapper\">Neste TCC, desenvolvido a partir de uma s\u00e9rie de reportagens, busco praticar um jornalismo cient\u00edfico, voltado para espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, na dire\u00e7\u00e3o de decolonizar esses espa\u00e7os e o pr\u00f3prio fazer jornalistico. \u00c9 por meio desse fazer que se ressalta como as pr\u00e1ticas jornal\u00edsticas tradicionais ainda s\u00e3o influenciadas por perspectivas euroc\u00eantricas. Enquanto o jornalismo convencional frequentemente perpetua legados coloniais, o jornalismo perif\u00e9rico vem propondo um jornalismo decolonial que desafia as narrativas predominantes, reconhecendo e validando as experi\u00eancias de grupos historicamente marginalizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Integrar saberes ind\u00edgenas, quilombolas, negros e amarelos no jornalismo cient\u00edfico, contudo, apresenta uma s\u00e9rie de desafios. Primeiramente, h\u00e1 obst\u00e1culos institucionais, pois a m\u00eddia tradicional tende a resistir \u00e0 inclus\u00e3o desses conhecimentos. Al\u00e9m disso, enfrentam-se barreiras de linguagem, uma vez que \u00e9 fundamental respeitar as especificidades culturais e lingu\u00edsticas desses grupos. Por fim, h\u00e1 a necessidade de desafiar as concep\u00e7\u00f5es tradicionais de ci\u00eancia, que frequentemente deslegitimam conhecimentos n\u00e3o ocidentais, convocando sempre a ci\u00eancia branca ocidental como fonte que representa a expertise adequada para tratar desses temas. Isso exige uma mudan\u00e7a de paradigma de como se compreende e se pratica a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de jornalismo cient\u00edfico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em quem voc\u00ea pensa quando imagina um cientista? As imagens do cinema e da televis\u00e3o n\u00e3o raramente nos mostram um homem esquisito, meio louco, meio ermit\u00e3o, de genialidade indubit\u00e1vel e fatalmente branco, em meio a tubos de ensaio e engenhocas tecnol\u00f3gicas. Sabemos, \u00e9 claro, que se trata de um estere\u00f3tipo. 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