{"id":224,"date":"2024-06-03T22:13:10","date_gmt":"2024-06-04T01:13:10","guid":{"rendered":"http:\/\/665e66789aee456fa200d13e"},"modified":"2025-04-25T17:50:23","modified_gmt":"2025-04-25T20:50:23","slug":"podcast-ecologia-do-reparo-parte-2-informalidade-improviso-e-a-polemica-da-gambiarra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2024\/06\/03\/podcast-ecologia-do-reparo-parte-2-informalidade-improviso-e-a-polemica-da-gambiarra\/","title":{"rendered":"Podcast: ecologia do reparo, parte 2: informalidade, improviso e a pol\u00eamica da gambiarra"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>Por Yama Chiodi<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Voc\u00ea j\u00e1 pensou no Santa Ifig\u00eania como um lugar que produz tecnologia? A pesquisa da antrop\u00f3loga portuguesa Liliana Gil (Ohio State, EUA) sugere que h\u00e1 uma ecologia do reparo no bairro central da capital paulista e que um ecossistema de reparo \u00e9 um local de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Em reportagem composta por dois epis\u00f3dios, Yama Chiodi investiga outros olhares poss\u00edveis ao Santa Ifig\u00eania que v\u00e3o al\u00e9m das vis\u00f5es classistas que o associam exclusivamente a atividades il\u00edcitas. Veja e escute a primeira parte <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.geict.com.br\/post\/podcast-ecologia-do-reparo-no-santa-ifig%C3%AAnia-entrevista-com-a-dra-liliana-gil-ohio-state\" rel=\"noreferrer noopener\"><u>aqui<\/u><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na segunda parte da reportagem discutimos os limites da formalidade e da informalidade nos com\u00e9rcios populares, as rela\u00e7\u00f5es entre improviso e produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e tamb\u00e9m as pol\u00eamicas em torno do conceito de gambiarra. No segundo epis\u00f3dio contamos tamb\u00e9m com um professor do CEFET-MG, o soci\u00f3logo Dr. Tarc\u00edsio Perdig\u00e3o Ara\u00fajo Filho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A reportagem pode ser ouvida nos servi\u00e7os de streaming e no site do <a href=\"https:\/\/www.oxigenio.comciencia.br\/177-ecologia-do-reparo-parte-2-informalidade-improviso-e-a-polemica-da-gambiarra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u>Oxig\u00eanio<\/u><\/a>. Caso voc\u00ea prefira ler, o conte\u00fado em texto na \u00edntegra est\u00e1 publicado a seguir.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #177 \u2013 Ecologia do reparo \u2013 Parte 2: informalidade, improviso e a pol\u00eamica da gambiarra\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/7dY3mJHO1juE4cXYafjgzR?go=1&#038;sp_cid=67849e03e6ff704cd02e0897333081e8&#038;utm_source=oembed&#038;utm_medium=desktop&#038;nd=1&#038;dlsi=3da80f7982ba41c4\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-alpha-channel-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">ECOLOGIA DO REPARO, parte 2: informalidade, improviso e a pol\u00eamica da gambiarra<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-sygfh2375\" class=\" eplus-wrapper\">[ sons urbanos ca\u00f3ticos aumentam progressivamente at\u00e9 sil\u00eancio total]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eq17s2378\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: No primeiro epis\u00f3dio a gente come\u00e7ou comentando do caos urbano do Santa Ifig\u00eania. Em algum lugar do bairro um forte contraste se apresenta para quem sabe procurar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-z6m682381\" class=\" eplus-wrapper\">[ come\u00e7a Documentary]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-jd27s2384\" class=\" eplus-wrapper\">Uma escola de conserto de celulares que atrai pessoas de v\u00e1rias partes do Brasil. As cores s\u00e3o pensadas com crit\u00e9rios rigorosos, os espa\u00e7os organizados, limpos e arquitetados para serem fluidos e funcionais. Seu contraste com o bairro onde est\u00e1 localizada n\u00e3o passa sem algumas contradi\u00e7\u00f5es.&nbsp; Se na est\u00e9tica&nbsp; ela quer se diferenciar do bairro, sua proposta de formar t\u00e9cnicos capazes de reparar celulares a aproxima do Santa Ifig\u00eania.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-73snu2387\" class=\" eplus-wrapper\">Nossa convidada hoje \u00e9 novamente a antrop\u00f3loga portuguesa Liliana Gil, que esteve presente na escola como etn\u00f3grafa, mas tamb\u00e9m como aluna de duas diferentes turmas. Em sua pesquisa, refletiu sobre a escola e o bairro de Santa Ifig\u00eania enquanto aprendeu na pr\u00e1tica a reparar celulares. Em seguida a gente conversa sobre o trabalho de campo da professora na escola de consertos de celulares Prime, sobre formalidade e informalidade na forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica no Brasil e tamb\u00e9m sobre as pol\u00eamicas em torno do termo gambiarra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bcm8t2390\" class=\" eplus-wrapper\">[ termina Documentary]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8lobm2393\" class=\" eplus-wrapper\">[tom]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4quro2395\" class=\" eplus-wrapper\">Oh\u2026 se voc\u00ea caiu de paraquedas neste epis\u00f3dio, recomendo que voc\u00ea escute a primeira parte antes de continuar, ok? Essa \u00e9 uma parte dois que realmente \u00e9 uma parte dois. Risos<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7c9pr2398\" class=\" eplus-wrapper\">[tom]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-y7sac2401\" class=\" eplus-wrapper\">Eu sou o Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ci\u00eancia e Tecnologia, o GEICT, e nesse segundo epis\u00f3dio eu converso mais uma vez com a Dra. Liliana Gil, professora da universidade Ohio State, nos Estados Unidos, que fez sua pesquisa de doutorado no Brasil. Contamos em primeira m\u00e3o, tamb\u00e9m, que sua pesquisa est\u00e1 em vias de virar livro. Depois da vinheta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-78bsn2404\" class=\" eplus-wrapper\">[ vinheta oxig\u00eanio]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2ype52407\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Continuando nossa conversa, agora nos voltando \u00e0 Prime em si. Como foi que conheceu a escola e porqu\u00ea decidiu fazer dela seu campo de pesquisa etnogr\u00e1fica?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9yibm2410\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Ent\u00e3o, eu achei que ia fazer pesquisa sobre Santa Ifig\u00eania enquanto bairro e entrevistar todo mundo, mas de fato foi dif\u00edcil fazer esse tipo de trabalho e em parte pelas quest\u00f5es de g\u00eanero. At\u00e9 que numa conversa com um colega, ele me falou nesta escola, ah mas sabes que existe esta escola, talvez fosse um bom ponto de entrada e foi assim, foi um amigo, enfim. Inclusive a primeira vez que fui l\u00e1, fui com ele e conversei com os professores, com os instrutores e inclusive expliquei, eu estou a fazer uma pesquisa sobre Santa Ifig\u00eania, seria interessante para mim saber como funciona a escola. Ah, claro, vem ser aluna!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-osf0y2413\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: E como aluna? Se sentiu acolhida pelos colegas? Era estranho uma antrop\u00f3loga entre eles?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-inf4n2416\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Achei muito engra\u00e7ado, porque durante todo o processo eu fiz o curso de reparo e v\u00e1rias vezes falava no meu doutorado e meio que as pessoas me diziam, sim, sim doutorado, claro, quando voc\u00ea perceber, quando voc\u00ea ver, o dinheiro que pode fazer com reparos, deixa o doutorado, deixa a antropologia de lado e vai abrir a sua lojinha, porque \u00e9 outra dimens\u00e3o. N\u00e3o, os meus colegas achavam que bom, bom era eu abrir um box em Lisboa e trazer os meus colegas para l\u00e1 e trabalh\u00e1vamos todos juntos na nossa box. \u00cdamos fazer muito dinheiro assim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-h0roq2419\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: J\u00e1 que estamos falando sobre seus colegas. Qual \u00e9 o perfil dos alunos da Prime? D\u00e1 pra fazer alguma generaliza\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-kzczu2422\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Talvez n\u00e3o d\u00ea, eu acho que a generaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 que havia pessoas de todas as idades e de todos, inclusive de muitos estados diferentes, tinha um colega que tinha vindo do Acre, tinha colega do Recife, tinha colega, sabe, era assim um conjunto de pessoas mesmo muito diferente, eu fiz o curso com duas turmas diferentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9i7gk2425\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Mas migrantes ou pessoas que vieram para estudar na escola?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-n0vvz2428\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Brasileiros que vieram estudar na escola, n\u00e3o, que moravam l\u00e1 e vinham fazer o curso uma semana, duas semanas, o tempo que fosse necess\u00e1rio, um m\u00eas, dependendo se faziam em formato intensivo ou n\u00e3o, ficavam em S\u00e3o Paulo e depois regressavam para as suas cidades para desenvolver o seu neg\u00f3cio. Ent\u00e3o tinha, mas tamb\u00e9m tinha, tinha jovenzinhos, tipo, sei l\u00e1, havia um colega que tinha que ter uns 18 anos, os pais dele pagaram o curso porque queriam que ele fizesse alguma coisa profissional com reparos. Mas tamb\u00e9m tinha pessoal mais velho que tinha tido uma profiss\u00e3o a sua vida toda, tinha ficado desempregado e estava um pouco a tentar reinventar-se. H\u00e1 a hist\u00f3ria de uma mulher em particular da periferia de um dos bairros, penso que da Zona Leste, j\u00e1 n\u00e3o tenho a certeza, mas de um bairro perif\u00e9rico de S\u00e3o Paulo que tinha uma lojinha de acess\u00f3rios, de celulares e muita gente vinha \u00e0 loja dela, perguntava se ela fazia reparos, ela n\u00e3o sabia fazer e ela entendeu que havia ali uma oportunidade de neg\u00f3cio. Ent\u00e3o foi fazer o curso, tinha inclusive filhos, cuidava dos filhos na sua loja, era cuidadora e estava na loja trabalhando ao mesmo tempo. Ent\u00e3o havia assim pessoas de muitas, claro, em termos de classe, diria, classe trabalhadora, talvez m\u00e9dia baixa, majoritariamente brancos, mas n\u00e3o apenas. Mas de v\u00e1rios estados, de v\u00e1rias cidades, de v\u00e1rios bairros, n\u00e3o apenas de S\u00e3o Paulo, mas tamb\u00e9m de fora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-nhpwj2431\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: No seu artigo voc\u00ea d\u00e1 bastante import\u00e2ncia pro contraste entre a escola e o Santa Ifig\u00eania. Que contrastes s\u00e3o esses?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-k08ic2434\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: A Prime enquanto espa\u00e7o visto de fora e, devo refor\u00e7ar que este n\u00e3o \u00e9 o nome verdadeiro, isto \u00e9 um pseud\u00f4nimo que eu utilizo para proteger o anonimato dos envolvidos e utilizo sempre pseud\u00f4nimos, a menos que me pe\u00e7am explicitamente para utilizar os nomes. O que \u00e0s vezes acontece especialmente quando voc\u00ea trabalha com artistas ou ativistas que gostam de ser reconhecidos. Mas a Prime, assim, vista a partir de fora, mais uma vez, os edif\u00edcios de Santa Ifig\u00eania n\u00e3o revelam o que est\u00e1 l\u00e1 dentro, o espa\u00e7o l\u00e1 dentro era bastante novo, como eu descrevo, o equipamento, os espa\u00e7os bonitos at\u00e9, n\u00e3o \u00e9? Assim, organizados, tudo era color-coded, com cores muito particulares e era tudo muito intencional, a escolha das cores, a forma como o espa\u00e7o estava organizado. E depois vim saber que o criador dessa escola era algu\u00e9m que tinha trabalhado para o McDonald&#8217;s, o que eu achei muito curioso, era uma pessoa que trazia algum conhecimento de estandardiza\u00e7\u00e3o, de como tornar as coisas muito eficientes e melhorar o workflow e pe\u00e7o desculpa aos estrangeirismos, mas \u00e0s vezes n\u00e3o me lembro das palavras.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-83w8d2437\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Interessante. D\u00e1 um aspecto de formalidade, n\u00e9? Em meio a um mar de informalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-uezv72440\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: E\u2026 sim, parece muito contrastante e eu acho que utilizei a estrat\u00e9gia ret\u00f3rica de enfatizar o contraste no artigo porque facilita ou d\u00e1 uma imagem, n\u00e3o \u00e9? Isso \u00e9 bom para contar hist\u00f3rias. No entanto, a cr\u00edtica que se faz a quest\u00f5es de informalidade \u00e9 que toda informalidade tem as suas formas de formalidade. Ent\u00e3o eu n\u00e3o diria que, embora eu esteja falando de Santa Ifig\u00eania como ca\u00f3tica, como isso \u00e9 o que transparece, n\u00e3o \u00e9? A apar\u00eancia do espa\u00e7o, mas o espa\u00e7o tem que ter&nbsp; regras, n\u00e3o \u00e9? Tem as suas l\u00f3gicas e as suas regras. (&#8230;) Agora, talvez a Prime esteja a flertar com a est\u00e9tica de outros espa\u00e7os, que n\u00e3o s\u00e3o talvez espa\u00e7os de Santa Ifig\u00eania. E \u00e9 isso que aspiram muitos dos alunos que v\u00e3o \u00e0 Prime, que depois sabem que para ter um neg\u00f3cio bem sucedido, o ideal \u00e9 montar o seu neg\u00f3cio de reparo num bairro de classe alta, onde juntam um shopping caro. E enfim, ali um jogo, claramente, a Prime est\u00e1 tentando preparar os alunos para fazer o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel e d\u00e1 estrat\u00e9gias para fazer isso. Ent\u00e3o h\u00e1 o contraste da est\u00e9tica, o contraste da performance da organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Santa Ifig\u00eania n\u00e3o precisa de&#8230; tem a sua organiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o faz a performance da organiza\u00e7\u00e3o da mesma forma que a Prime faz. Eu acho que esses s\u00e3o os contrastes, assim, maiores, mas t\u00eam coisas em comum, porque todos esses espa\u00e7os t\u00eam as suas pr\u00f3prias l\u00f3gicas e regras.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-g7k112443\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Achei curioso isso que voc\u00ea falou. Voc\u00ea falou em performance da organiza\u00e7\u00e3o. No artigo voc\u00ea fala sobre o cuidado que eles t\u00eam com uso de EPI, com a limpeza do espa\u00e7o e at\u00e9 as cores de objetos como luvas de prote\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea acha que essa organiza\u00e7\u00e3o interna \u00e9 mais perform\u00e1tica que uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a? \u00c9 e n\u00e3o \u00e9? Como \u00e9? Risos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-rnudw2446\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: \u00c9 e n\u00e3o \u00e9, \u00e9 e n\u00e3o \u00e9. \u00c0s vezes dava a sensa\u00e7\u00e3o que \u00e9 mais por uma quest\u00e3o de performance, de compet\u00eancia, de organiza\u00e7\u00e3o, de\u2026 \u00e9 e n\u00e3o \u00e9. Eu acho que as luvas, o cuidado com a apar\u00eancia, n\u00e3o \u00e9? Tipo as cores da loja, d\u00e1 toda uma discuss\u00e3o sobre cores que eu acho fascinante, quando se diz que a 9010 \u00e9 a Apple, que passa alta, e depois h\u00e1 o 30, 20&#8230; assim, todos os c\u00f3digos de cores s\u00e3o pensados de acordo com o p\u00fablico alvo que voc\u00ea tem em mente. (&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-38dv92449\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Esse cuidado com a organiza\u00e7\u00e3o me faz querer retomar a quest\u00e3o sobre formalidade e informalidade. Perto do Santa Ifig\u00eania, a Prime inspira uma formalidade. Mas os cursos n\u00e3o s\u00e3o algo reconhecido pelo estado, ou formais como o ensino t\u00e9cnico oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dx9gr2452\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: (&#8230;) Eu fico sempre muito perdida com debates sobre formalidade e informalidade, porque acho que \u00e9 sempre&#8230; tudo \u00e9 formal e informal at\u00e9 a um certo limite, n\u00e3o \u00e9? Acho que na quest\u00e3o particular da Prime, que \u00e9 interessante e importante notar, \u00e9 que de fato n\u00e3o \u00e9 creditada pelo Minist\u00e9rio, n\u00e3o \u00e9? O diploma, como est\u00e1vamos falando agora, o diploma n\u00e3o \u00e9 um diploma reconhecido pelo Estado brasileiro, pelo&#8230; ent\u00e3o, mas \u00e9 um diploma que para as pessoas significa muito, que \u00e9 um diploma que elas v\u00e3o colocar na parede e vai estar vis\u00edvel e vai ser uma forma de dar autoridade e dar autoridade \u00e0 sua profiss\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 definitivamente extremamente formal, porque \u00e9 um programa bem montado, com manuais, com uma estrutura pedag\u00f3gica, com pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9? Tem aulas te\u00f3ricas, aulas pr\u00e1ticas, \u00e9 extremamente bem montado do ponto de vista pedag\u00f3gico. Eu achei bastante eficaz da forma como essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 passada e o treino \u00e9 feito. Mas depois funciona completamente \u00e0 parte do sistema educativo brasileiro, n\u00e3o \u00e9? E nesse sentido \u00e9 absolutamente informal.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-n4h192455\" class=\" eplus-wrapper\">[baixo]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-y9pgf2458\" class=\" eplus-wrapper\">Na pesquisa da professora Gil, apareceu essa discuss\u00e3o sobre formalidade e informalidade que me parece muito importante no caso do Brasil. Em dois sentidos diferentes. Primeiro, a gente pode se perguntar, onde come\u00e7a e onde termina a formalidade e a informalidade nos com\u00e9rcios populares e de grandes centros urbanos, como \u00e9 o caso do Santa Ifig\u00eania? Segundo, onde ser\u00e1 que est\u00e1 o lugar da forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica no Brasil? Um aspecto dela \u00e9 formal e fomentado pelo estado, no sistema S e nos institutos federais, por exemplo. Mas uma parte relevante da forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica no Brasil \u00e9 feita em lugares como a Prime, que n\u00e3o tem qualquer respaldo oficial &#8211; ainda que ensine e entregue diplomas. Essas n\u00e3o s\u00e3o perguntas ret\u00f3ricas. S\u00e3o perguntas que eu fiz para um soci\u00f3logo do trabalho, o Dr. Tarc\u00edsio Perdig\u00e3o Ara\u00fajo Filho, que \u00e9 professor do CEFET-MG. Primeiro, foi isso que ele me disse sobre os com\u00e9rcios populares:<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-96xfw2461\" class=\" eplus-wrapper\">TARC\u00cdSIO: A formalidade urbana foi primeiro pensada como um fen\u00f4meno em si, que era observada exclusivamente nos chamados pa\u00edses de terceiro mundo, na d\u00e9cada de 60, 70, ent\u00e3o se tornou um campo de estudo em si que fazia contraste com a forma com que os pa\u00edses do centro do capitalismo organizavam suas atividades econ\u00f4micas. Ent\u00e3o esse termo virou meio que um grande guarda-chuva para tudo aquilo que n\u00e3o se enquadrava naquele padr\u00e3o ocidental, vindo da Europa, do bem-estar social, do fordismo. Com o tempo os estudos foram se tornando mais emp\u00edricos e comparativos tamb\u00e9m entre as diferentes realidades dos pa\u00edses e foi vendo que existiam, na verdade, in\u00fameras grada\u00e7\u00f5es entre o que poderia ser formal e informal. Quando a gente vai para fazer um estudo sobre o com\u00e9rcio popular, a gente v\u00ea, obviamente, a gente est\u00e1 contaminado por esse olhar de ver o que \u00e9 formal, o que \u00e9 informal, o que \u00e9 legal, o que \u00e9 ilegal, mas ao n\u00edvel dos atores ali aquilo est\u00e1 bastante misturado e os atores eles mobilizam essas diferen\u00e7as. Por exemplo, quando a gente est\u00e1 olhando para ambulantes, alguns t\u00eam, por exemplo, as licen\u00e7as, as permiss\u00f5es do Estado para poder fazer a sua atividade e ou&nbsp; tros n\u00e3o. E muitas vezes esses signos do que \u00e9 formal, do que \u00e9 informal, n\u00e3o t\u00eam necessariamente um padr\u00e3o muito bem determinado. Mas tamb\u00e9m acho que \u00e9 importante falar que as pr\u00e1ticas informais n\u00e3o est\u00e3o restritas<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-st3si2463\" class=\" eplus-wrapper\">aos universos do &#8220;empreendedorismo dos pobres&#8221;. A gente olha para uma empresa que sonega imposto, por exemplo, uma empresa grande, a loja do shopping l\u00e1 que voc\u00ea comprou o celular novinho, \u00e0s vezes est\u00e1 com as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas avacalhadas tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ag6t62466\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Depois, eu perguntei pra ele especificamente sobre as posi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-muj3z2469\" class=\" eplus-wrapper\">TARC\u00cdSIO: Eu tenho a impress\u00e3o de que os cursos t\u00e9cnicos, esses dos sistemas federais, esses que a gente est\u00e1 chamando do curso t\u00e9cnico formal, eles dizem muito em respeito a uma pol\u00edtica de Estado relacionada \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, ao sentido do desenvolvimento que o Estado est\u00e1 ali desenhando, envolve o aprendizado t\u00e9cnico para voc\u00ea, enquanto uma na\u00e7\u00e3o organizar os processos produtivos. Q uando a gente olha para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, a gente v\u00ea na verdade que a informalidade ocupa um lugar estrutural. Ent\u00e3o, nada mais condizente desse tipo de desenvolvimento em que a industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 fraca, foi historicamente fraca e incapaz de absorver a m\u00e3o de obra e de n\u00e3o acompanhar a urbaniza\u00e7\u00e3o, enfim, que essa massa de informais tamb\u00e9m fosse se formar. Ent\u00e3o, quer dizer, a busca pelo conhecimento t\u00e9cnico ligado ao celular, que \u00e9 uma demanda relativamente recente, se a gente pega a hist\u00f3ria do Brasil, ela acaba tendo maior centralidade, \u00e0s vezes, do que um conhecimento, por exemplo, os conhecimentos t\u00e9cnicos cl\u00e1ssicos da ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-28rd92472\" class=\" eplus-wrapper\">[ baixo ]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-84xwf2475\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Eu tenho a impress\u00e3o que h\u00e1 no Brasil certo preconceito e desvaloriza\u00e7\u00e3o com as profiss\u00f5es t\u00e9cnicas. Voc\u00ea percebeu isso no seu campo?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-i1muz2478\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: (&#8230;) Eu acho que isso \u00e9 geral, na verdade, acho que n\u00e3o \u00e9 uma especificidade brasileira esse tipo de preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s profiss\u00f5es t\u00e9cnicas, que eu pessoalmente n\u00e3o tenho e acho que no meu trabalho aquilo que eu tento fazer \u00e9 mesmo contrapor isso, n\u00e3o \u00e9? E mostrar a import\u00e2ncia das profiss\u00f5es e a import\u00e2ncia de reconhecer e reconhecer n\u00e3o apenas socialmente mas monetariamente. E se voc\u00ea vai para lugares, eu acho, no Brasil a m\u00e3o de obra \u00e9 muito barata e a desigualdade permite que profiss\u00f5es t\u00e9cnicas sejam muito mal pagas, mas voc\u00ea vai para lugares, cada vez mais em Portugal \u00e9 assim e nos Estados Unidos, essas profiss\u00f5es s\u00e3o muito bem pagas. Quando voc\u00ea precisar de algu\u00e9m para arranjar a canaliza\u00e7\u00e3o, um canalizador, vai ter que pagar muito, as pessoas s\u00e3o cada vez mais raras, um trabalho bem feito requer muito conhecimento t\u00e9cnico e, enfim, s\u00e3o profiss\u00f5es muit\u00edssimo importantes que v\u00e3o ficar conosco muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-430392481\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Entre o formal e o informal\u2026 l\u00e1 estava uma professora universit\u00e1ria fazendo cursos t\u00e9cnicos de reparo como aluna. A pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9:&nbsp; voc\u00ea se sente capaz de consertar celulares hoje? Ser\u00e1 que vamos ver um box da Liliana em Columbus, Ohio para reparar os celulares dos amigos? Risos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ugdes2484\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Eu sinto-me mais ou menos, eu acho que n\u00e3o tive a pr\u00e1tica que deveria ter tido e uma das coisas que a escola oferecia era depois de voc\u00ea completar o curso tinha direito a frequentar as bancadas e utilizar o equipamento da escola durante j\u00e1 n\u00e3o sei quantas horas, precisamente para praticar e fazer os primeiros reparos, nesse contexto e com algum apoio dos professores. Mas eu sei, o que eu sei exatamente agora \u00e9 onde encontrar a informa\u00e7\u00e3o que necessito. Tamb\u00e9m n\u00e3o, esta informa\u00e7\u00e3o, muita dela \u00e9 p\u00fablica, n\u00e3o \u00e9? Eu comento no artigo que na escola utiliz\u00e1vamos muito o website californiano iFixit, fica a\u00ed a recomenda\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, sei onde encontrar a informa\u00e7\u00e3o, sei que equipamento eu iria precisar, que n\u00e3o tenho, nomeadamente m\u00e1quina de soldar e&nbsp; tenho alguma confian\u00e7a que se precisar de um reparo sei qual \u00e9 o tipo de trabalho que est\u00e1 envolvido e j\u00e1 ningu\u00e9m me engana. Risos. Eu sei quanto custa aquele trabalho, mas tamb\u00e9m sei apreciar o que me envolve, n\u00e3o \u00e9? Mas n\u00e3o, neste momento, n\u00e3o fa\u00e7o reparos para amigos, lamento. Risos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-wxzc32487\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Mudando um pouco de assunto agora\u2026 No artigo voc\u00ea discute brevemente que a escola promoveria din\u00e2micas anticapitalistas, certo?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4q6mn2490\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Talvez. (&#8230;) Mas tem a ver com esta quest\u00e3o do reparo, n\u00e3o \u00e9? Por um lado, \u00e9 uma escola privada que pretende fazer dinheiro, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o \u00e9 uma non-profit, n\u00e3o \u00e9? Tipo, tem essa miss\u00e3o e \u00e9 bem sucedida daquilo que eu vi e pareceu muito bem sucedida nisso, mas l\u00e1 est\u00e1, est\u00e1 a promover e a permitir reparar coisas que&#8230; reparar um iPhone, por exemplo, \u00e9 uma medida, acho, \u00e9 um comportamento anticapitalista, n\u00e3o \u00e9? Vai contra os interesses da Apple, que faz tudo o que pode para manter os seus equipamentos fechados e imposs\u00edveis de reparar ou apenas repar\u00e1veis pela marca. Inclusive, pratica t\u00e9cnicas muito agressivas de, como se diz, obsolesc\u00eancia&nbsp; planejada. (&#8230;) Ent\u00e3o, uma escola com uma Prime, aquilo que faz \u00e9 contrapor isso, n\u00e3o \u00e9? E criar alguma resist\u00eancia no sistema, o que para mim \u00e9 fant\u00e1stico. Agora, se me perguntar, mas este \u00e9 o modelo de escola que queremos, \u00e9 o modelo geral para o mundo, para o Brasil? N\u00e3o, n\u00e3o, porque \u00e9 uma escola privada, \u00e9 preciso&#8230; os alunos, muitos deles pedem cr\u00e9ditos para fazer estes cursos, n\u00e3o parece que seja uma situa\u00e7\u00e3o ideal, mas se consegu\u00edssemos dar esses&nbsp; cursos de forma p\u00fablica, acho que seria muito, muito interessante, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-vtlhj2493\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Sem d\u00favidas. Pegando carona no que voc\u00ea disse sobre as pr\u00e1ticas da Apple\u2026 Eu acho que percebi no seu artigo certo paralelo entre os contrastes entre iPhone e Android e o Santa Ifig\u00eania e a escola, certo? Ao menos do ponto de vista da escola. Risos. Ser\u00e1 que essa met\u00e1fora \u00e9 produtiva?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-o81d82496\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Sim, sim, sem d\u00favida. E acho que h\u00e1 uma tentativa de fazer isso, uma tentativa de criar distin\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Toda aquela conversa sobre o oceano azul e o oceano vermelho e onde tem sharks, onde tem, n\u00e3o sei, sardinhas. H\u00e1 o peixe pequeno e o peixe grande. Ent\u00e3o, sem d\u00favida que aquilo que a escola d\u00e1 \u00e9 essas narrativas e essas possibilidades, mas tamb\u00e9m explica como abrir, no fundo explica como adequar o seu neg\u00f3cio ao p\u00fablico que voc\u00ea tem. (&#8230;) Mas eu acho que h\u00e1 essa tentativa, sim, do ponto de vista da escola. A pr\u00f3pria escola joga com essas ideias. O mais bizarro de tudo isto, agora um aparte, \u00e9 que no meio disto tudo \u00e9 mais f\u00e1cil consertar Androids, porque a tecnologia \u00e9 mais aberta, mas no fundo \u00e9 mais f\u00e1cil reparar, na verdade, mais f\u00e1cil reparar iPhones, porque \u00e9 tudo t\u00e3o modular que \u00e9 literalmente encontrar os m\u00f3dulos, s\u00f3 que \u00e9 dif\u00edcil comprar os m\u00f3dulos oficiais, n\u00e3o \u00e9? Normalmente s\u00e3o c\u00f3pias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-trqkp2499\" class=\" eplus-wrapper\">[baixo]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-r71wz2502\" class=\" eplus-wrapper\">MAYRA: Oi, aqui \u00e9 a Mayra e eu vim contar para voc\u00eas sobre o lan\u00e7amento da nova temporada do podcast Mundar\u00e9u: De Lua em Lua, nova temporada do Mundar\u00e9u sobre menstrua\u00e7\u00e3o e antropologia.&nbsp; Ser\u00e3o sete epis\u00f3dios, lan\u00e7ados um por dia, durante os dias 22 a 28 de maio de 2024; confira o trailer e ou\u00e7a no site&nbsp; Mundar\u00e9u \u2013 Podcast de antropologia ou no seu streaming de \u00e1udio preferido. De Lua em Lua \u00e9 feita para e por adolescentes. S\u00e3o 7 ciclos recheados de hist\u00f3rias descontra\u00eddas, com diversas vozes diferentes e compartilhamentos sinceros sobre menstrua\u00e7\u00e3o, adolesc\u00eancia e dignidade menstrual, que nos ajudam a abrir mentes e cora\u00e7\u00f5es sobre os desafios e belezas de menstruar. N\u00e3o perca essa conversa essencial e transformadora. Prepare os fones de ouvido e embarque nessa jornada de ciclo em ciclo, de Lua em Lua!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ofhe52505\" class=\" eplus-wrapper\">[baixo]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-n08ay2509\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Nesse \u00faltimo bloco deste epis\u00f3dio, a gente retoma um assunto pol\u00eamico, que \u00e9 a conex\u00e3o entre improviso na produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e o conceito de gambiarra.&nbsp; N\u00f3s brasileiros estamos super acostumados a usar a palavra gambiarra no nosso dia a dia. Ironicamente\u2026 quando eu estava gravando esse epis\u00f3dio eu tropecei no fio e acabei quebrando o adaptador da tomada do meu notebook, que desprendeu o plug da fonte. Prontamente, fui \u00e0 porta da minha geladeira e usei a superbonder para improvisar um conserto tempor\u00e1rio que me permitiu continuar gravando. Um jeito po\u00e9tico de come\u00e7ar uma conversa sobre gambiarra, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-sd7bc2511\" class=\" eplus-wrapper\">Nem sempre esse conceito tem uma conota\u00e7\u00e3o negativa, como quando a gente refere a um servi\u00e7o mal feito, por exemplo. Por vezes a gente usa esse termo para assinalar que um problema foi resolvido de modo criativo, com os recursos que estavam dispon\u00edveis. Este segundo sentido acabou caindo nas gra\u00e7as de alguns pesquisadores e pesquisadoras estrangeiros, que viram no termo um conceito que organiza pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica fora dos centros do norte global. Mas, no \u00e2mbito das ci\u00eancias sociais, o encantamento dos gringos com a gambiarra nem sempre \u00e9 bem recebido. Frequentemente cientistas sociais brasileiros de diversas disciplinas alertaram sobre possibilidade de o interesse gringo denotar certa romantiza\u00e7\u00e3o da pobreza e tamb\u00e9m o problema de querer &#8220;descobrir&#8221;, entre aspas, um conceito que para n\u00f3s \u00e9 absolutamente cotidiano. Curiosamente, foi em um desses debates que eu conheci a professora Liliana, num evento na UFSCAR onde ela apresentava seu trabalho e falava sobre seu interesse no improviso na produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Naquele momento j\u00e1 com alguns anos de pesquisa de campo no Brasil, ela&nbsp; encontrou lugares bons para pensar tanto em espa\u00e7os ativistas, caso dos hackerspaces, como em com\u00e9rcios populares, caso do Santa Ifig\u00eania.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3crtu2514\" class=\" eplus-wrapper\">[ separador bolha ]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e4itc2517\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Agora, assunto pol\u00eamico. Eu te conheci em 2018, justamente apresentando um trabalho que articulava o conceito de gambiarra com pr\u00e1ticas de improviso na tecnologia. Essa ideia continuou importante na sua pesquisa?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-zf9ki2520\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Olha, eu, na verdade, esta pergunta \u00e9 excelente porque foi assim que a pesquisa come\u00e7ou e provavelmente vai ser assim que a pesquisa vai acabar, deixa eu explicar. Lembro dessa viagem que eu falei em 2014, foi nesse momento que eu conheci a express\u00e3o gambiarra, at\u00e9 foi no Garoa, no HackerSpace e foi a partir da\u00ed que eu fiquei muito interessada e fui lendo mais sobre o termo. Em Portugal n\u00e3o existe a palavra, ou existe a palavra gambiarra, mas n\u00e3o tem o mesmo significado. Gambiarra, at\u00e9 salvo erro, \u00e9 as luzes do teatro, \u00e9 umas luzes que se usa no teatro para iluminar o palco, mas n\u00e3o tem essa no\u00e7\u00e3o de improviso conectada. E foi por isso mesmo que eu fiquei muito, muito intrigada, que \u00e9 o fato que a mesma palavra consegue ter vidas t\u00e3o diferentes, em espa\u00e7os t\u00e3o diferentes e acho que isso tem que&#8230; claro que tem que ver com a trajet\u00f3ria do Brasil, com aquilo que \u00e9 realidade no Brasil, o Brasil p\u00f3s-colonial, o Brasil que foi colonizado por portugueses, foi um dos pa\u00edses que mais escravizou no mundo, provocou situa\u00e7\u00f5es de extrema desigualdade, sei l\u00e1, infraestruturas que s\u00e3o extremamente prec\u00e1rias, condi\u00e7\u00f5es de vida, etc. Ent\u00e3o \u00e9 nesse contexto que a palavra, uma palavra ligada ao improviso e \u00e0 tecnologia ganha toda uma vida que n\u00e3o tem, de fato, n\u00e3o tem da mesma forma em Portugal. Mas enfim, ent\u00e3o a pesquisa come\u00e7ou com um trabalho \u00e0 volta disso e eu escrevi toda a tese doutorado procurando a ideia<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-vbk5r2522\" class=\" eplus-wrapper\">de improviso em conex\u00e3o com tecnologia e tentando fazer essas discuss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fuakp2525\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: No evento que eu citei, a professora Catarina Morawska te aconselhou a ter cuidado ao lidar com a ideia de gambiarra enquanto portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-effef2528\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: E na verdade foi muito importante para mim porque eu percebi que algo que me disse foi cuidado, que eu estava utilizando o Buarque de Holanda e uma s\u00e9rie de autores assim mais do canon do pensamento brasileiro e ela disse cuidado, com esse tema vai com calma, como portuguesa falando desse tema, vai com calma. E eu achei isso muito importante porque me deixou assim, mas ok, tenho que fazer quase a cr\u00edtica da cr\u00edtica, n\u00e3o \u00e9? Tenho que pensar na minha posicionalidade em rela\u00e7\u00e3o a objetos de estudo e como tudo isso se relaciona. (&#8230;) E mais recentemente, h\u00e1 toda uma s\u00e9rie de autores escrevendo sobre Gambiarra como esta coisa, como uma possibilidade p\u00f3s-colonial, n\u00e3o \u00e9? Tipo, de pensar a produ\u00e7\u00e3o de tecnologia a partir de outro lugar. E o que eu fiz precisamente na tese, que eu acho que o livro vai acabar sendo, \u00e9 uma etnografia destas v\u00e1rias formas de pensar sobre gambiarra e tentar, com o m\u00e1ximo de cuidado poss\u00edvel, colocar isso em di\u00e1logo com a minha pr\u00f3pria posicionalidade enquanto portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-0cg7z2531\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Conversando hoje mais cedo voc\u00ea me disse que est\u00e1 escrevendo um livro baseado na sua tese. O conceito de gambiarra vai continuar sendo importante para essa conversa sobre improviso e tecnologia?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-syoeh2534\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: \u00c9 um termo complicad\u00edssimo, super interessante, que eu n\u00e3o vou resolver. Tamb\u00e9m n\u00e3o me cabe a mim, acho que as etnografias muitas vezes n\u00e3o resolvem nada, s\u00f3 trazem-as de cima e enfatizam as t\u00e9cnicas, n\u00e3o \u00e9? E apresentam-nas. Mas o que eu estou procurando escrever, e j\u00e1 comecei, \u00e9 um livro que fa\u00e7o uma esp\u00e9cie de mapeamento das v\u00e1rias formas como improviso e tecnologia foram pensadas. \u00c0s vezes de forma positiva, outras vezes de forma negativa, alguns dizendo que \u00e9, l\u00e1 est\u00e1, uma forma p\u00f3s-colonial de olhar para a produ\u00e7\u00e3o de tecnologia, outros dizendo que na verdade \u00e9 uma romantiza\u00e7\u00e3o da pobreza. E tamb\u00e9m perceber que essas din\u00e2micas acontecem em outros pa\u00edses, em outros contextos, talvez n\u00e3o sejam t\u00e3o faladas como no Brasil, e acho que \u00e9 por isso que o Brasil \u00e9 t\u00e3o interessante para pensar esta quest\u00e3o do improviso. Mas o improviso est\u00e1 em todo lado, n\u00e3o \u00e9? E est\u00e1 em Portugal, est\u00e1 nos Estados Unidos, est\u00e1 em Singapura, est\u00e1 em todo lado. (&#8230;) Eu acho que o meu interesse desde o in\u00edcio na ideia de gambiarra, na ideia de improviso, \u00e9 sempre numa procura de questionamento das minhas assun\u00e7\u00f5es e das minhas assumptions, daquilo que \u00e9 considerado tecnologia e produ\u00e7\u00e3o de tecnologia em lugares como Portugal, como nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m como no Brasil, dentro de certos contextos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ug1xw2537\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: Agora, j\u00e1 falando sobre seu livro. Est\u00e1 encaminhado? J\u00e1 tem uma previs\u00e3o de lan\u00e7amento?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-m9az42540\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Olha, nunca pensei na vida de escrever um livro, mas de fato se voc\u00ea est\u00e1 na academia americana, nas nossas \u00e1reas, \u00e9 algo que \u00e9 esperado. Ent\u00e3o a ideia seria transformar a tese de doutorado no livro. Vou regressar agora em junho, julho, porque de fato o Covid interrompeu uma pesquisa. Eu felizmente consegui fazer muita pesquisa antes do Covid e como disse fui todos os anos desde 2014 e depois passei 2018, 2019, passei 13 meses, sobretudo em S\u00e3o Paulo, mas de fato desde o Covid que n\u00e3o tive a possibilidade de revisitar. Ent\u00e3o quero muito voltar, saber como est\u00e3o as coisas, quero rever amigos sobretudo, sou uma pessoa que faz muita pesquisa de campo atrav\u00e9s de amizade e de conversar com pessoas e \u00e0s vezes&#8230; Ent\u00e3o quero muito reconectar com espa\u00e7os, com pessoas das quais tenho muitas saudades.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-hbjr72543\" class=\" eplus-wrapper\">YAMA: T\u00e1 certo. Muito obrigado Liliana pela entrevista. Espero que a gente possa conversar de novo quando o livro for lan\u00e7ado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-k2iwk2546\" class=\" eplus-wrapper\">LILIANA: Muito obrigada, Yama, pela generosa conversa. A quem nos ouviu, muito obrigada por ouvirem. Se tiverem quest\u00f5es, por favor, o meu email \u00e9 <a target=\"_blank\" href=\"mailto:gils.1@osu.edu\" rel=\"noreferrer noopener\">gils.1@osu.edu<\/a>. Tamb\u00e9m podem encontrar online, se googlarem Liliana Gil Antropologia, tenho a certeza que v\u00e3o encontrar os meus contatos. Estou muito disposta&nbsp; a partilhar artigos, para partilhar ideias. \u00c9 isso, muito obrigada pela oportunidade, muito obrigada, Oxig\u00e9nio tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7ox212551\" class=\" eplus-wrapper\">[baixo]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1xalg2554\" class=\" eplus-wrapper\">[come\u00e7a Bio Unit]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-x5mhr2557\" class=\" eplus-wrapper\">Este epis\u00f3dio foi roteirizado e produzido por mim, Yama Chiodi. A revis\u00e3o foi da coordenadora do Oxig\u00eanio, Simone Pallone. Quem fez a divulga\u00e7\u00e3o do podcast Mundar\u00e9u foi a Mayra Trinca. Se voc\u00ea quiser ler o artigo completo escrito pela Dra. Liliana Gil, em ingl\u00eas, deixo um link para o pdf na descri\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-xkxox2560\" class=\" eplus-wrapper\">O Oxig\u00eanio \u00e9 um podcast produzido pelos alunos do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo da Unicamp e colaboradores externos. Tem parceria com a Secretaria Executiva de Comunica\u00e7\u00e3o da Unicamp e apoio do Servi\u00e7o de Aux\u00edlio ao Estudante, da Unicamp. Al\u00e9m disso, contamos com o apoio da FAPESP, que financia bolsas como a que me apoia neste projeto de divulga\u00e7\u00e3o do&nbsp; Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ci\u00eancia e Tecnologia, o GEICT.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-luz7g2563\" class=\" eplus-wrapper\">A lista completa de cr\u00e9ditos para os sons e m\u00fasicas utilizados voc\u00ea encontra na descri\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-hyr992566\" class=\" eplus-wrapper\">Voc\u00ea encontra todos os epis\u00f3dios no site <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\" rel=\"noreferrer noopener\">oxigenio.comciencia.br<\/a> e na sua plataforma preferida. No Instagram e no Facebook voc\u00ea nos encontra como Oxig\u00eanio Podcast. Segue l\u00e1 pra n\u00e3o perder nenhum epis\u00f3dio! Aproveite para deixar um coment\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3x1uc2571\" class=\" eplus-wrapper\">[Termina Bio Unit]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-19i4c2574\" class=\" eplus-wrapper\">Aerial foi composta por Bio Unit; Documentary por Coma-Media. Ambas sob licen\u00e7a Creative Commons.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-pocxm2577\" class=\" eplus-wrapper\">Os sons de rolha e os loops de baixo s\u00e3o da biblioteca de loops do Garage Band.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5764i2580\" class=\" eplus-wrapper\">A reportagem de Celso Russomanno citada est\u00e1 dispon\u00edvel na \u00edntegra no canal dele no Youtube, no link: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AOGyS7VRGI4\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AOGyS7VRGI4<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Para ler o artigo da professora entrevistada na \u00edntegra, basta acessar o link: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/100tviO-2c1z7mhzMLYX8ghXrxs2jNXYJ\/view?usp=sharing\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/100tviO-2c1z7mhzMLYX8ghXrxs2jNXYJ\/view?usp=sharing<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 pensou no Santa Ifig\u00eania como um lugar que produz tecnologia? A pesquisa da antrop\u00f3loga portuguesa Liliana Gil (Ohio State, EUA) sugere que h\u00e1 uma ecologia do reparo no bairro central da capital paulista e que um ecossistema de reparo \u00e9 um local de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. 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