{"id":225,"date":"2024-05-20T16:22:12","date_gmt":"2024-05-20T19:22:12","guid":{"rendered":"http:\/\/664ba10921fd6fc615e51ebc"},"modified":"2025-04-25T17:50:50","modified_gmt":"2025-04-25T20:50:50","slug":"podcast-ecologia-do-reparo-no-santa-ifigenia-entrevista-com-a-dra-liliana-gil-ohio-state","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2024\/05\/20\/podcast-ecologia-do-reparo-no-santa-ifigenia-entrevista-com-a-dra-liliana-gil-ohio-state\/","title":{"rendered":"Podcast: ecologia do reparo no Santa Ifig\u00eania. Entrevista com a Dra. Liliana Gil (Ohio State)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Voc\u00ea j\u00e1 pensou no Santa Ifig\u00eania como um lugar que produz tecnologia? A pesquisa da antrop\u00f3loga portuguesa Liliana Gil (Ohio State, EUA) sugere que h\u00e1 uma ecologia do reparo no bairro central da capital paulista e que um ecossistema de reparo \u00e9 um local de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Em reportagem composta por dois epis\u00f3dios, Yama Chiodi investiga outros olhares poss\u00edveis ao Santa Ifig\u00eania que v\u00e3o al\u00e9m das vis\u00f5es classistas que o associam exclusivamente a atividades il\u00edcitas.<br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #176 \u2013 Ecologia do reparo: a produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica no Santa Ifig\u00eania, parte 1.\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/1g2fb1lg4FlQSz3UXiVnGq?go=1&#038;sp_cid=67849e03e6ff704cd02e0897333081e8&#038;utm_source=oembed&#038;utm_medium=desktop&#038;nd=1&#038;dlsi=29bba89984234e30\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">ROTEIRO EPIS\u00d3DIO &#8211; ECOLOGIA DO REPARO: a produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica no Santa Ifig\u00eania, parte 1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-w6op7153\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[ sons urbanos ca\u00f3ticos aumentam progressivamente]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4lo0t156\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: \u00c9 um caos, n\u00e3o \u00e9? Carros, vendedores de bolo, facas, lojas de eletr\u00f4nicos, muitos CCTV, sistemas de seguran\u00e7a, v\u00e1rios mo\u00e7os meio que te chamando pra comprar isto e ver aquilo, c\u00ea t\u00e1 interessado nisto?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5ugj5159\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[ som de caos urbano continua por um instante e depois um fade out at\u00e9 eu come\u00e7ar a falar ]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7nu4l162\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: A voz que voc\u00ea escutou \u00e9 da antrop\u00f3loga portuguesa Liliana Gil e ela t\u00e1 falando sobre o Santa Ifig\u00eania, bairro central da capital paulista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5srmz165\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Eu&nbsp; sou Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ci\u00eancia e Tecnologia, o GEICT, e este epis\u00f3dio \u00e9 mais uma parceria do GEICT com o Oxig\u00eanio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cjo8l168\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[ vinheta oxig\u00eanio]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6siir171\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[come\u00e7a a tocar Bio Unit ]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-t2fy8174\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O Santa Ifig\u00eania \u00e9 um bairro antigo, que vem desde o s\u00e9culo XIX, e j\u00e1 mudou muito ao longo do tempo. Mas \u00e9 pelo menos desde a d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo XX um p\u00f3lo de venda de produtos e componentes eletr\u00f4nicos\u2026 e tamb\u00e9m de reparo. De acordo com o Portal da Santa Ifig\u00eania, cat\u00e1logo online dos com\u00e9rcios da regi\u00e3o, s\u00e3o mais de mil lojas. A maioria delas na rua de mesmo nome. O bairro \u00e9 uma refer\u00eancia internacional. Antigamente seu p\u00fablico era bastante t\u00e9cnico porque supria uma demanda bem mais espec\u00edfica. Profissionais de v\u00e1rios ramos iam at\u00e9 l\u00e1 em busca de componentes para a constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e aparelhos el\u00e9tricos e eletr\u00f4nicos. Isso ainda acontece hoje, mas seu p\u00fablico se diversificou muito.&nbsp; &nbsp; Hoje a maior parte dos frequentadores do bairro s\u00e3o consumidores finais em busca de fones, tablets, celulares e outros produtos com pre\u00e7os bem mais baratos. Os produtos s\u00e3o de fontes e qualidades variadas. H\u00e1 produtos originais importados legalmente como em qualquer loja da cidade, mas h\u00e1 tamb\u00e9m produtos contrabandeados e falsificados. Iphones de todas as idades e produtos sem marca importados da China. Mas al\u00e9m de tudo, \u00e9 isso \u00e9 frequentemente invisibilizado, h\u00e1 vendedores capacitados a ajudar as pessoas a resolver seus problemas tecnol\u00f3gicos dentro de suas possibilidades financeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-0qpog177\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Voc\u00ea deve se lembrar de um epis\u00f3dio relativamente recente em que o deputado federal e polemista Celso Russomanno visitou o bairro, causando confus\u00e3o e gerando memes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f0k5m180\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[ Que corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, aqui \u00e9 Santa Ifig\u00eania, paiz\u00e3o]. Reportagem completa dispon\u00edvel no canal de Celso Russomanno, no link: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AOGyS7VRGI4\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AOGyS7VRGI4<\/a><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-xen1a184\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A reportagem de Russomanno refor\u00e7ou um estere\u00f3tipo classista do bairro, muito difundido entre parte da classe m\u00e9dia e entre as elites paulistanas. As contradi\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas dos com\u00e9rcios de centro est\u00e3o l\u00e1: por um lado, uma linha t\u00eanue entre pr\u00e1ticas legais e ilegais. Por outro, uma democratiza\u00e7\u00e3o do acesso a eletr\u00f4nicos para pessoas de baixa renda. E a gente sabe que tanto uma coisa como outra gera inc\u00f4modos nas partes mais abastadas da cidade. Mas o estere\u00f3tipo classista que associa o bairro a atividades il\u00edcitas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fato que tem afastado potenciais consumidores da regi\u00e3o. Lojistas dizem que nos \u00faltimos anos o p\u00fablico tem diminu\u00eddo consideravelmente &#8211; o que eles atribuem \u00e0 pr\u00e1tica de comprar pela internet e ao aumento da viol\u00eancia no centro de S\u00e3o Paulo, fatores que foram potencializados durante e ap\u00f3s a pandemia. Reportagem da Folha de S\u00e3o Paulo de setembro de 2023 n\u00e3o exita em dar uma explica\u00e7\u00e3o logo na manchete, sugerindo que o esvaziamento do Santa Ifig\u00eania est\u00e1 diretamente relacionado com a dispers\u00e3o da cracol\u00e2ndia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-vm4gs187\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Mas o que ser\u00e1 que uma antrop\u00f3loga portuguesa, cursando doutorado nos Estados Unidos, encontrou no Santa Ifig\u00eania que contrasta com as vis\u00f5es classistas sobre o bairro? Voc\u00ea j\u00e1 parou para pensar no Santa Ifig\u00eania como um lugar que PRODUZ tecnologia? \u00c9 sobre isso que a gente conversa em seguida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-wma62190\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[ separador baixo]&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-v390w193\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Uma trajet\u00f3ria inesperada, como muitas vezes \u00e9 o caso com antrop\u00f3logos. Uma antrop\u00f3loga portuguesa com origens na periferia industrial do sul de Lisboa, vai \u00e0 universidade e acaba pesquisando ci\u00eancia e arte, tema que a leva aos Estados Unidos. J\u00e1 durante seu doutorado, uma escola de ver\u00e3o na Unicamp a impacta profundamente. N\u00e3o apenas ela muda seu tema para priorizar a produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, como passa a pensar no Brasil como um lugar ideal para fazer seu trabalho de campo. Visita a zona franca de Manaus, o complexo do Alem\u00e3o no Rio de Janeiro e tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de espa\u00e7os de ativismo hacker e de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em S\u00e3o Paulo. Entre indas e vindas ao Brasil, termina fazendo parte de seu campo etnogr\u00e1fico no famoso bairro paulistano de Santa Ifig\u00eania. Mais especificamente, numa escola de reparo de celulares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-u4itb196\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Na primeira parte de duas dessa entrevista com a professora Liliana Gil, da universidade Ohio State, nos Estados Unidos, conversamos sobre sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica at\u00e9 chegar a S\u00e3o Paulo e conhecemos um pouco melhor essa face menos conhecida do Santa Ifig\u00eania, onde as atividades de reparo ganham centralidade. Na segunda parte, conheceremos uma escola de reparo de celulares que fica no bairro e que foi pesquisada de perto pela professora &#8211; como antrop\u00f3loga e como aluna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d4qwz199\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Entre boxes infinitesimais e galerias labir\u00ednticas, ela encontrou o que chama de ecologia do reparo. Esse termo que d\u00e1 nome a esse epis\u00f3dio a gente descobre o que \u00e9, j\u00e1 j\u00e1.&nbsp; (pausa) O que voc\u00ea escuta agora s\u00e3o trechos das nossas conversas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-s2y0e202\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[ separador baixo]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cwb4s205\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Boa tarde Liliana, obrigado por conversar com a gente hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-rb82w208\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Sim, muito obrigada Yama pela oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-o79rv211\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Imagina, n\u00f3s \u00e9 que agradecemos pela sua disponibilidade. Antes de a gente falar sobre o Santa Ifig\u00eania em si, eu queria que voc\u00ea contasse pra gente um pouco da sua trajet\u00f3ria como pesquisadora. Primeiramente, porque voc\u00ea escolheu a antropologia?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cbmpq214\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Eu comecei a fazer antropologia na Universidade Nova de Lisboa, onde, na verdade, eu venho, meu treino no ensino m\u00e9dio, acho que fala m\u00e9dio, foi em ci\u00eancias, matem\u00e1tica, biologia, qu\u00edmica. Ent\u00e3o quando fui para antropologia, primeiro foi um ato de rebeldia, de querer me afastar um pouco das \u00e1reas mais \u00f3bvias que seria a engenharia e medicina. E eu estava muito intrigada. A antropologia oferecia cursos sobre, n\u00e3o \u00e9?, sobre simbologia, sobre pol\u00edtica, sobre economia, eu estava fascinada por essas outras \u00e1reas. Culturas do mundo\u2026 eu nunca tinha viajado nessa \u00e9poca, ent\u00e3o para mim era uma forma de viajar pelos livros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-glvgu217\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Voc\u00ea manteve sua forma\u00e7\u00e3o toda na antropologia, n\u00e9? Mas considerando que seu mestrado em Portugal foi na antropologia m\u00e9dica e que voc\u00ea pesquisava arte e ci\u00eancia, como foi a mudan\u00e7a que te fez acabar pesquisando produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica&nbsp; no campo de estudos sociais da ci\u00eancia e tecnologia?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4t2cy220\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Eu quando comecei o doutorado, achei que ia fazer uma tese sobre arte e ci\u00eancia. E achei que ia regressar a Portugal e \u00e0 Europa e fazer pesquisa em laborat\u00f3rios de sci-art e espa\u00e7os comunit\u00e1rios de ci\u00eancia. Citizen-science, eram t\u00f3picos que me interessavam muito. Entretanto, teve uma summer school na unicamp precisamente, a 2014, acho eu, que foi organizada pelo Dr. Marko Monteiro, entre outros professores. E foi minha 1a visita ao Brasil e foi nesse contexto que conheci um pessoal t\u00e3o bom, mas t\u00e3o bom, t\u00e3o maravilhoso, que fazia coisas t\u00e3o interessantes com citizen science, com ci\u00eancia voltada para a comunidade. Conheci nessa viagem o pessoal envolvido no garoa hacker space em S\u00e3o Paulo, que nessa \u00e9poca fazia coisas incr\u00edveis. Isso meio que deu uma volta nos meus projetos e na minha cabe\u00e7a e voltei assim com uma s\u00e9rie de interesses novos e numa discuss\u00e3o com meu orientador, conversando sobre isso, ele meio que me desafiou &#8220;ent\u00e3o, mas que tal um projeto diferente do que voc\u00ea fez no mestrado? Explorar um outro t\u00f3pico?&#8221;. E foi assim que o projeto se direcionou para quest\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de tecnologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-sgiti223\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[tom]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-jkp3a226\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA (em off): Estudos Sociais da Ci\u00eancia e Tecnologia \u00e9 um campo interdisciplinar do conhecimento, que se esfor\u00e7a em combinar o conhecimento de v\u00e1rias disciplinas para avaliar, em conjunto, como sociedade e ci\u00eancia ou como a pol\u00edtica e o conhecimento cient\u00edfico est\u00e3o entrela\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-juoxx229\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[tom]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-yj042232\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Dentre muitas possibilidades para pesquisar a produ\u00e7\u00e3o de tecnologia no Brasil voc\u00ea acabou escolhendo S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-i561r235\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Devo tamb\u00e9m dizer que fiz alguma pesquisa em Manaus, na zona franca de Manaus, fiz pesquisa no Rio de Janeiro. At\u00e9 teve um momento que, devo confessar, que achei que ia fazer mais trabalho no Complexo do Alem\u00e3o, onde passei um m\u00eas numa colabora\u00e7\u00e3o com uma organiza\u00e7\u00e3o que era o Barraco 55. E foi muito duro. E depois dessa experi\u00eancia eu entendi que n\u00e3o ia conseguir fazer essa pesquisa dessa forma, por uma s\u00e9rie de motivos. E S\u00e3o Paulo acolheu-me\u2026 enfim, n\u00f3s sabemos porque n\u00e3o \u00e9? Foi mais f\u00e1cil viver em S\u00e3o Paulo e circular em S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-oxjf7238\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Al\u00e9m dessas quest\u00f5es pr\u00e1ticas, o que havia na cidade de S\u00e3o Paulo que te fez achar ser mais interessante para sua pesquisa?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-w7dme241\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Tem muita tecnologia, n\u00e3o \u00e9? E tem esse imagin\u00e1rio p\u00f3s-industrial que pra mim \u00e9 muito familiar, tem a ver com o contexto que eu cresci em Portugal, que \u00e9 na periferia de Lisboa, periferia sul de Lisboa, que era a zona mais industrializada do pa\u00eds (deixou de ser). E um pouco, a raz\u00e3o pela qual meus av\u00f3s se mudaram para l\u00e1 nos anos 50 e 60. Ent\u00e3o tinha essa coisa meio familiar e eu tenho um carinho muito especial por cidades que tiveram trajet\u00f3ria e tem esse tipo de cultura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ztgxb244\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Mas a cidade de S\u00e3o Paulo \u00e9 gigante e tem muitas possibilidades pra se pesquisar a produ\u00e7\u00e3o de tecnologia. Como voc\u00ea acabou fazendo campo no Santa Ifig\u00eania?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c1ijl247\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Eu conheci atrav\u00e9s do pessoal que trabalhava no FabLab Livre, que ia a Santa Ifig\u00eania comprar componentes e materiais. Ent\u00e3o o Santa Ifig\u00eania surgiu a\u00ed, uma primeira vez. Depois, mais tarde, numa conversa com o colega Dr. Carlos Freire, que agora d\u00e1 aulas, acho que em Bel\u00e9m. Ele \u00e9 que mencionou a Prime. Nessa \u00e9poca eu comentei com ele &#8220;ah eu gostaria de fazer mais trabalho sobre o bairro, acho esse bairro superinteressante, sei que tem toda uma hist\u00f3ria de eletr\u00f4nicos, tem todas essas camadas&#8221;. E ele \u00e9 que me falou da escola de reparos que acabei estudando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4pqh1250\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA (off, explicativo): Uma pequena explica\u00e7\u00e3o. A prime que a professora acabou de citar, \u00e9 o nome fict\u00edcio que ela deu para a escola de reparos que fica em Santa Ifig\u00eania e que ela pesquisou de perto. A gente conversa especificamente sobre a escola no segundo epis\u00f3dio. Dar nomes fict\u00edcios a pessoas e lugares pesquisados por etnografia \u00e9 uma pr\u00e1tica comum entre antrop\u00f3logos e antrop\u00f3logas para minimizar os potenciais impactos da pesquisa na vida cotidiana dos colaboradores. Mas agora, voltando \u00e0 conversa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-rfwe7253\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Como foi para uma estrangeira ir ao bairro pela primeira vez?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-u59r8256\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: \u00c9 um caos, n\u00e3o \u00e9? Carros, vendedores de bolo, facas, lojas de eletr\u00f4nicos, muitos CCTV, sistemas de seguran\u00e7a, v\u00e1rios mo\u00e7os meio que te chamando pra comprar isto e ver aquilo, c\u00ea t\u00e1 interessado nisto? Toda uma ecologia urbana (risos) intensa, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-0533c259\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Percebiam de cara que era Portuguesa?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ezeij262\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Sou portuguesa mas enquanto estou calada ningu\u00e9m sabe, ent\u00e3o n\u00e3o chamo muita aten\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, tenho hist\u00f3rias sobre o sotaque tamb\u00e9m muito engra\u00e7adas, de as pessoas n\u00e3o saberem identificar. Ah, seu portugues \u00e9 t\u00e3o bom, voc\u00ea vem da Col\u00f4mbia? Do Uruguai? Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 facilmente identific\u00e1vel. (&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-deejh264\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Mas com o Santa Ifig\u00eania era pra mim esse espa\u00e7o de muito ebuli\u00e7\u00e3o, claramente muita coisa acontecendo, \u00e9 dif\u00edcil ler\u2026 porque ao mesmo tempo os pr\u00e9dios s\u00e3o um pouco degradados, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil entender o que est\u00e1 dentro desses edif\u00edcios. As galerias, pois tem uma lojinha, e eu escrevi sobre isso na tese de doutorado, tem uma lojinha que ta l\u00e1 uma senhora vendendo componentes eletr\u00f4nicos desde 1965, sei l\u00e1. E tem muita coisa acontecendo que se voc\u00ea n\u00e3o passar um tempo no bairro e conhecer o bairro, n\u00e3o sabe que est\u00e1 l\u00e1. E eu acho que fiquei muito encantada com, por um lado, essa superf\u00edcie de caos e muita coisa acontecendo e depois conhecendo essas camadas, abrindo e estudando sobre o bairro e percebendo que h\u00e1 dezenas, h\u00e1 muito tempo e muitas camadas de diferentes neg\u00f3cios, e o fato de que ficou focado em eletr\u00f4nicos muito interessante. (&#8230;) E tamb\u00e9m um espa\u00e7o democr\u00e1tico, \u00e9 um espa\u00e7o onde muita gente que n\u00e3o consegue um celular vai l\u00e1 e consegue, um tablet. Tem esse lado democratizante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-69wf4267\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Santa Ifig\u00eania j\u00e1 teve um enfoque maior na produ\u00e7\u00e3o, mas hoje, pelo menos na superf\u00edcie, o que se v\u00ea mais \u00e9 a venda. O que ficou de produ\u00e7\u00e3o de tecnologia por ali?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-t0ccy270\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: (&#8230;) Eu acho que o mais pr\u00f3ximo que tem de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 reparo e n\u00f3s podemos considerar o reparo como uma forma de produ\u00e7\u00e3o de tecnologia, mas \u00e9, neste momento, um bairro com venda de eletr\u00f4nicos de muitos tipos, seja celulares, seja tablets, seja sistemas de vigil\u00e2ncia tipo CCTV. Tem tamb\u00e9m muitas componentes, ent\u00e3o pequenas partes que voc\u00ea pode comprar para reparar ou para montar os seus eletr\u00f4nicos. Tudo isto novo e usado. Ent\u00e3o tem, sim, partes importadas, sejam da China, depois tem toda uma discuss\u00e3o sobre o que vem atrav\u00e9s do Paraguai, que provavelmente s\u00e3o c\u00f3pias. Tamb\u00e9m tem material importado de formas mais ortodoxas e depois tem material usado, tamb\u00e9m adquirido de v\u00e1rias formas. Inclusive, lembro-me que uma das formas de aquisi\u00e7\u00e3o de componentes era atrav\u00e9s de\u2026 Era umas fam\u00edlias que compravam bens, n\u00e3o sei se era a pol\u00edcia federal, mas basicamente bens confiscados que s\u00e3o comprados em monte e depois desmontados e revendidos. Ent\u00e3o tem de tudo. Tem vendedores de rua, camel\u00f4s, mas tem muita lojinha tamb\u00e9m mais formal, outro tipo de neg\u00f3cio. E, sobretudo, dentro desses pr\u00e9dios, desses edif\u00edcios mais antigos, que por fora parece que n\u00e3o t\u00eam nada, voc\u00ea entra e s\u00e3o galerias imensas de pessoal vendendo coisas, fazendo reparos, etc. Ent\u00e3o \u00e9 um misto. H\u00e1 o bairro visto a partir da rua e h\u00e1 o bairro visto por dentro desses edif\u00edcios, que \u00e0s vezes s\u00e3o dif\u00edceis at\u00e9 de circular l\u00e1 dentro. Ent\u00e3o uma das estrat\u00e9gias que eu tinha durante a pesquisa, eu \u00e0s vezes contactava pessoas para irem comigo, tipo usu\u00e1rios que conheciam bem Santa Ifig\u00eania e n\u00f3s \u00edamos passear juntos pelo bairro e pelas lojinhas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-h3kiz273\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Voc\u00ea falou algo interessante que a diferen\u00e7a do bairro visto de fora de dentro dos edif\u00edcios. Dentro dos edif\u00edcios seriam os labirintos de boxes que voc\u00ea cita no artigo?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b93rf276\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Sim, \u00e9 sobretudo boxes dentro das galerias. Sim, sobretudo boxes. Sim, s\u00e3o espa\u00e7os que s\u00e3o divididos e subdivididos e sub-sub-sub-subdivididos e subalugados.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eazyu279\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[tom]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-zlf7r282\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA (em off): Foi nessa parte da conversa que eu perguntei pra Liliana sobre algo que \u00e9 central no artigo dela\u2026 um termo que me chamou aten\u00e7\u00e3o desde in\u00edcio e que ela usa pra descrever o que ela viu em campo\u2026 ecologia do reparo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-nj8pv285\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;[tom]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-o1yz1288\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: O que \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 chamando de ecologia do reparo? Se isso \u00e9 um termo que surgiu com sua pesquisa ou se \u00e9 um termo corrente na literatura, voc\u00ea pode falar um pouco sobre isso?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-56i3w291\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Sim, eu acho que n\u00e3o \u00e9 um tema corrente da literatura. A raz\u00e3o pela qual eu puxei esse termo de ecologia \u00e9 porque de fato o reparo para acontecer depende de todo um ecossistema. N\u00e3o existe reparo ou \u00e9 dif\u00edcil ter reparo sem haver uma ecologia e um ecossistema que sustente esse reparo, seja atrav\u00e9s de materiais, seja atrav\u00e9s de equipamentos, seja atrav\u00e9s de contactos, seja atrav\u00e9s de conhecimento. E o conhecimento \u00e0s vezes at\u00e9 \u00e9 parte mais dif\u00edcil de conseguir adquirir e obter porque vivemos numa sociedade em que os rapazes s\u00e3o ensinados desde pequeninos a gostar de eletr\u00f4nicos e de fazer reparos e a pensar sobre eles pr\u00f3prios como seres t\u00e9cnicos e as meninas n\u00e3o. Eu acho que isso cria uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-v7761294\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Aham<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-i4l0d296\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">(pausa)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-et19o299\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Mas a ecologia do reparo tem que ver mesmo com esta ideia de que o reparo depende de um ecossistema, depende de uma s\u00e9rie de outras coisas acontecendo \u00e0 sua volta para permitir que o reparo aconte\u00e7a. E eu acho que Santa Ifig\u00eania \u00e9 de facto uma ecologia do reparo comparada ao lugar, sei l\u00e1, como Silicon Valley, enfim, tamb\u00e9m ter\u00e1 o seu reparo, mas se viveres num ecossistema que policia muito o reparo e n\u00e3o providencia os equipamentos, o conhecimento para renovar eletr\u00f4nicos, o reparo n\u00e3o vai acontecer. Uma das coisas que eu falo muito no artigo \u00e9 a import\u00e2ncia das networks. Um dos motivos pelos quais as pessoas procuravam a escola que eu estudei \u00e9 porque entravam na network de fornecedores, de equipamento e isso s\u00e3o redes muito dif\u00edceis de entrares, nas quais entrares. Ent\u00e3o era nesse sentido, a ecologia do reparo. E claro, justamente, \u00e9 o lado da ecologia, quanto mais repararmos, n\u00e3o \u00e9? H\u00e1 um lado ben\u00e9fico, mas sim, achei que era apropriado a no\u00e7\u00e3o da ecologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-q2cl9302\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[tom]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-0njh0305\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA (em off): Numa cultura econ\u00f4mica pautada pela obsolesc\u00eancia programada, as pr\u00e1ticas de reparo se tornam pr\u00e1ticas de resist\u00eancia. Tornam o acesso \u00e0 tecnologia poss\u00edvel para as pessoas de menor poder aquisitivo e, em sua devida propor\u00e7\u00e3o, reage aos planos das grandes empresas de tecnologia ao prolongar o tempo de vida dos eletr\u00f4nicos, o que, por si s\u00f3, d\u00e1 uma dimens\u00e3o ambiental para o termo ecologia. Reconhecer o Santa Ifig\u00eania como o local de uma ecologia do reparo \u00e9 resgatar uma dimens\u00e3o invisibilizada do bairro e que reconhece sua import\u00e2ncia social, cultural e econ\u00f4mica. E, porque n\u00e3o?, at\u00e9 mesmo ambiental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-yfkfl308\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[tom]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-qqoa9311\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Santa Efig\u00eania \u00e9 quase\u2026 Estou a pensar agora num buraco negro com met\u00e1fora, mas talvez n\u00e3o seja a melhor. Mas \u00e9 muito condensada, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 a sensa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea est\u00e1 num espa\u00e7o que condensa todos esses elementos do ecossistema de uma forma que talvez n\u00e3o encontre noutros lugares com facilidade. (&#8230;) Acho que ningu\u00e9m olha para Santa Ifig\u00eania com esse carinho. Ningu\u00e9m olha para Santa Ifig\u00eania como\u2026 ou pouca gente reconhece aquele espa\u00e7o como um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de tecnologia. E acho que \u00e9 parte do meu trabalho tentar puxar contra isso e tentar mostrar. N\u00e3o, puxa, tipo&#8230; Sim, talvez n\u00e3o seja shiny, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aquela coisa que foi h\u00e1 anos atr\u00e1s, mas continua produzindo tecnologia e tem essa genealogia. E \u00e9 importante que a gente valide e reconhe\u00e7a o trabalho destas pessoas como produtores de tecnologia tamb\u00e9m&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9g92l314\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Mudando um pouco de assunto agora\u2026 como todo espa\u00e7o nos centros urbanos, Santa Ifig\u00eania guarda contradi\u00e7\u00f5es, diversidade e diferen\u00e7as. Vou come\u00e7ar te perguntando sobre quest\u00f5es raciais. Voc\u00ea me disse que mais cedo que h\u00e1 uma hist\u00f3ria da presen\u00e7a negra do local que \u00e9 um pouco esquecida, apagada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dx222317\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: H\u00e1 toda uma s\u00e9rie de trabalhos que est\u00e1 sendo feito agora sobre territ\u00f3rios negros em S\u00e3o Paulo. O Instituto Bixiga est\u00e1 fazendo alguma pesquisa sobre o passado negro de Santa Ifig\u00eania, que \u00e9 algo que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, porque \u00e9 muito ligado \u00e0 igreja. E ent\u00e3o essas camadas \u00e9 um bairro de eletr\u00f4nicos com muita hist\u00f3ria, mas essa hist\u00f3ria vai assim ainda mais profundamente no tempo e tem todas essas dimens\u00f5es que o centro de uma cidade como S\u00e3o Paulo tem.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-xi6d3320\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Voc\u00ea percebeu esse componente racial do Santa Ifig\u00eania de hoje?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-t56lq323\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o&#8230; sim, n\u00e3o. Eu vi muitos imigrantes e percebo essa componente racial. H\u00e1 claramente uma divis\u00e3o de trabalho, n\u00e3o \u00e9? Aqueles que trabalham na rua, aqueles que trabalham em lojas, os donos de lojas, que normalmente s\u00e3o brancos ou que ser\u00e3o, enfim, de origem imigrante, mas&#8230;Ent\u00e3o, sim, eu acho que \u00e9 tamb\u00e9m um microcosmos daquilo que \u00e9 S\u00e3o Paulo, n\u00e3o \u00e9? Est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-vqega326\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Na sua pesquisa voc\u00ea comenta em v\u00e1rios momentos como importavam as diferen\u00e7as de g\u00eanero no bairro. Isso tanto no fato de voc\u00ea como antrop\u00f3loga pesquisando num lugar predominantemente masculino, como nas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es locais.&nbsp; O que voc\u00ea pode nos dizer sobre as diferen\u00e7as de g\u00eanero no Santa Ifig\u00eania?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e5e7a329\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: \u00c9 assim, em geral estes espa\u00e7os s\u00e3o muito masculinos e sobretudo na sua primeira apar\u00eancia, n\u00e3o \u00e9? Na rua, s\u00e3o espa\u00e7os muito masculinos os lojistas, as pessoas que est\u00e3o na rua chamando clientes, h\u00e1 todo um\u2026 \u00e9 um espa\u00e7o que parece muito masculino. O que eu acho&#8230; o que eu aprendi com o tempo \u00e9 que existem mulheres, mas elas talvez n\u00e3o estejam nos lugares mais \u00f3bvios ou n\u00e3o seja t\u00e3o f\u00e1cil de encontrar. Eu tive um momento em que eu precisei de soldar um fone que estava estragado e pensei, bem, vou a Santa Ifig\u00eania resolver este problema, vai servir de pesquisa de campo e de coisa \u00fatil para fazer. Falei com um amigo interlocutor que conhecia bem Santa Ifig\u00eania, fomos juntos, e ningu\u00e9m queria soldar o meu fone porque era um trabalho muito minucioso e dif\u00edcil. Falavam de uma tal de Priscila, tem que ir \u00e0 Priscila, tem que ir \u00e0 Priscila, falem com a Priscila que ela resolve. Bem, a Priscila foi dific\u00edlima de encontrar, mas a Priscila \u00e9 uma mulher que faz reparo em Santa Efig\u00eania. Estava numa box, numa galeria, parecia um labirinto, mas ela est\u00e1 l\u00e1 e est\u00e1 a trabalhar, inclusive tinha mais mulher na equipa dela, na box dela. Ent\u00e3o, as mulheres est\u00e3o presentes, mas talvez n\u00e3o sejam nos lugares mais \u00f3bvios, talvez n\u00e3o sejam da forma mais p\u00fablica, e o espa\u00e7o enquanto mulher a fazer pesquisa \u00e0s vezes se intimidava, n\u00e3o \u00e9?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-q4xr3332\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Voc\u00ea se sentia intimidada enquanto pesquisadora fazendo campo por l\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-iaytm335\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: Eu parto sempre, eu nunca penso muito nessas quest\u00f5es at\u00e9 me sentir intimidada. N\u00e3o parto do princ\u00edpio que vai ser dif\u00edcil por ser mulher, nem&#8230; ali\u00e1s, a minha pesquisa \u00e9 sobre tecnologia e estou perfeitamente habituada em estar em espa\u00e7os muito masculinos, infelizmente \u00e9 assim que acontece, mas \u00e0s vezes era, sim, era duro e, sobretudo, fazer entrevistas com pessoas. Eu sentia que \u00e0s vezes, sabes, mulher, portuguesa, era um bocadinho dif\u00edcil, era dif\u00edcil estabelecer contacto, era dif\u00edcil manter a conversa, sentia muitas vezes que me sentia um bocadinho minorizada, n\u00e3o \u00e9? E embora eu \u00e0s vezes utilize essa estrat\u00e9gia, porque acho que para falar de tecnologia muitas vezes at\u00e9 d\u00e1 jeito fazermos um pouco de burros para conseguir ter as conversas, nesse contexto de Santa Ifig\u00eania \u00e0s vezes foi muito dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-luf5t338\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: E na escola de reparo que voc\u00ea pesquisou mais de perto, era a mesma situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4s16a341\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LILIANA: O que eu encontrei nessa escola de reparo foi um espa\u00e7o muito mais amig\u00e1vel para mulheres, n\u00e3o \u00e9? Muito mais acolhedor para pessoas que n\u00e3o s\u00e3o as pessoas t\u00edpicas que frequentam o bairro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eo6xb344\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[tom]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-j3ac0347\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">YAMA: Vou interromper a nossa conversa um pouquinho agora. Agora que j\u00e1 temos alguma dimens\u00e3o do que seja o Santa Ifig\u00eania e que sabemos que h\u00e1 uma ecologia do reparo no local, seguimos para a segunda parte desta entrevista, onde olhamos em detalhe para a Prime, a escola de reparos de celulares onde a Liliana pesquisou, mas tamb\u00e9m frequentou como aluna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ty41c350\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[baixo]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-mz574353\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[come\u00e7a Documentary]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ukjuc356\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Este epis\u00f3dio foi roteirizado e produzido por mim, Yama Chiodi. A revis\u00e3o foi da coordenadora do Oxig\u00eanio, Simone Pallone. Se voc\u00ea quiser ler o artigo completo escrito pela Dra. Liliana Gil, em ingl\u00eas, deixo um link para o pdf na descri\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eotat359\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o do \u00e1udio foi feita por *****. . O Oxig\u00eanio \u00e9 um podcast produzido pelos alunos do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo da Unicamp e colaboradores externos. Tem parceria com a Secretaria Executiva de Comunica\u00e7\u00e3o da Unicamp e apoio do Servi\u00e7o de Aux\u00edlio ao Estudante, da Unicamp. Al\u00e9m disso, contamos com o apoio da FAPESP, que financia bolsas como a que me apoia neste projeto de divulga\u00e7\u00e3o do&nbsp; Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ci\u00eancia e Tecnologia, o GEICT.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-plt7t362\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A lista completa de cr\u00e9ditos para os sons e m\u00fasicas utilizados voc\u00ea encontra na descri\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-j2w8p365\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Voc\u00ea encontra todos os epis\u00f3dios no site <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\" rel=\"noreferrer noopener\">oxigenio.comciencia.br<\/a> e na sua plataforma preferida. No Instagram e no Facebook voc\u00ea nos encontra como Oxig\u00eanio Podcast. Segue l\u00e1 pra n\u00e3o perder nenhum epis\u00f3dio! Aproveite para deixar um coment\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-n4c4f370\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">[Termina Documentary]<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-w4j87374\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Aerial foi composta por Bio Unit; Documentary por Coma-Media. Ambas sob licen\u00e7a Creative Commons.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-tbczr377\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Os sons de rolha e os loops de baixo s\u00e3o da biblioteca de loops do Garage Band.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ogw8z380\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A reportagem de Celso Russomanno citada est\u00e1 dispon\u00edvel na \u00edntegra no canal dele no Youtube, no link: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AOGyS7VRGI4\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AOGyS7VRGI4<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Para ler o artigo da professora entrevistada na \u00edntegra, basta acessar o link: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/100tviO-2c1z7mhzMLYX8ghXrxs2jNXYJ\/view?usp=sharing\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/100tviO-2c1z7mhzMLYX8ghXrxs2jNXYJ\/view?usp=sharing<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 pensou no Santa Ifig\u00eania como um lugar que produz tecnologia? A pesquisa da antrop\u00f3loga portuguesa Liliana Gil (Ohio State, EUA) sugere que h\u00e1 uma ecologia do reparo no bairro central da capital paulista e que um ecossistema de reparo \u00e9 um local de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Em reportagem composta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":726,"featured_media":333,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[34,38,40,41,33,1],"tags":[],"class_list":["post-225","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevista","category-esct","category-jornalismo-cientifico","category-oxigenio","category-podcast","category-sem-categoria"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2024\/06\/da8f118f-df7e-44ad-a4b3-82ebc4850c13.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/users\/726"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=225"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":292,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions\/292"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/media\/333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}