{"id":226,"date":"2024-03-01T16:41:37","date_gmt":"2024-03-01T19:41:37","guid":{"rendered":"http:\/\/65e22c9ee6ded07f24437441"},"modified":"2025-04-25T17:52:36","modified_gmt":"2025-04-25T20:52:36","slug":"geict-etnografia-e-transicao-sustentavel-para-o-setor-energetico-brasileiro-entrevista-com-o-dr-jean-miguel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2024\/03\/01\/geict-etnografia-e-transicao-sustentavel-para-o-setor-energetico-brasileiro-entrevista-com-o-dr-jean-miguel\/","title":{"rendered":"GEICT, etnografia e transi\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel para o setor energ\u00e9tico brasileiro: entrevista com o Dr. Jean Miguel"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>Por Yama Chiodi<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em 2022 o GEICT completou 10 anos de forma\u00e7\u00e3o. Para comemorar essa marca, o blog realizou mais uma das entrevistas do projeto <strong>GEICT 10 anos<\/strong>. Hoje publicamos a conversa com o professor Dr. Jean Miguel, do Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp. Jean foi um dos membros originais do GEICT e sua tese de doutorado foi a segunda a ser defendida do grupo. Conversamos sobre como o GEICT surgiu, como \u00e9 voltar a Unicamp, futuras parcerias e tamb\u00e9m sobre sua atual pesquisa, que versa sobre a transi\u00e7\u00e3o para sustentabilidade no setor energ\u00e9tico brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"438\" height=\"403\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2024\/03\/image.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-334\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2024\/03\/image.jpeg 438w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2024\/03\/image-300x276.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 438px) 100vw, 438px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Prof. Dr. Jean Miguel (IG-UNICAMP)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA CHIODI: Boa tarde, Jean. Primeiramente obrigado pela entrevista. Voc\u00ea hoje \u00e9 professor aqui no IG, na Unicamp, mas foi uma das pessoas que estavam no GEICT l\u00e1 no in\u00edcio, na forma\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode contar um pouco sobre a forma\u00e7\u00e3o do grupo e como voc\u00ea foi fazer parte dele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN MIGUEL:<\/strong> Eu fiz parte do GEICT desde o in\u00edcio, quando o Marko Monteiro montou o grupo. Antes do GEICT,&nbsp; eu e o Marko particip\u00e1vamos de um grupo chamado Grupo de Estudos Sociais da Ci\u00eancia e Tecnologia. Assim que o Marko entrou como professor, ele montou o grupo de estudos interdisciplinares, que \u00e9 o GEICT. Acredito que tenha sido por volta de 2012. Eu entrei na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Unicamp no DPCT em 2011. Ent\u00e3o antes de existir o GEICT eu participava junto com o Marko desse grupo organizado pela professora L\u00e9a Velho e pela professora Maria da Concei\u00e7\u00e3o. E esse grupo anterior ele tinha um car\u00e1ter de discutir STS de maneira mais ampla. A gente lia textos de diferentes autores do campo, cl\u00e1ssicos e tamb\u00e9m teorias mais modernas. E o GEICT quando come\u00e7ou foi um grupo formado por orientandos do Marko e alguns outros participantes. Eu n\u00e3o era orientando dele na \u00e9poca, mas da L\u00e9a Velho.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">E o GEICT no come\u00e7o ele tinha um forte direcionamento para estudos da teoria ator-rede. Era praticamente um grupo de ator-rede. Estudava-se muito essa ideia de simetriza\u00e7\u00e3o de humanos e n\u00e3o-humanos, mapeamento de controv\u00e9rsias, etc. Tinha um forte foco em estudos de controv\u00e9rsias.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">nclusive o Marko deu uma disciplina que era estudo de controv\u00e9rsias. Mas o grupo tamb\u00e9m trazia a coisa da etnografia da ci\u00eancia, que \u00e9 algo que o Marko se prop\u00f4s como uma das linhas de pesquisa que ele ia desenvolver no departamento. Ent\u00e3o esse foi o come\u00e7o do grupo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-zmcpb85\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: E nesse come\u00e7o, o que voc\u00ea pesquisava? O GEICT j\u00e1 contribu\u00eda para sua pesquisa antes que voc\u00ea fosse orientando do Marko?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-56eat88\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN: <\/strong>Na \u00e9poca em que eu entrei como participante estava estudando a controv\u00e9rsia do c\u00f3digo florestal, como os pesquisadores especialistas participaram das audi\u00eancias p\u00fablicas\u2026 algo bastante relacionado a esse tipo de controv\u00e9rsia p\u00fablica que envolve ci\u00eancia. E na ocasi\u00e3o eu me beneficiei bastante das reuni\u00f5es do grupo por conta dessas rodadas que se faz dos trabalhos dos participantes e como s\u00e3o debatidos pelo grupo. Eu lembro que na ocasi\u00e3o eu aprendi bastante com os debates internos. A\u00ed depois quando eu sa\u00ed do mestrado eu me tornei orientando do Marko, n\u00e9? A\u00ed eu participei do grupo de maneira mais direta. Nessa \u00e9poca o grupo j\u00e1 tinha um n\u00famero mais expressivo de participantes, acredito que j\u00e1 contava com uns 10 participantes fixos. Nesse per\u00edodo eu participei bastante durante todo o doutorado e de certa maneira eu nunca deixei de colaborar. Mesmo quando eu fui pro p\u00f3s-doc na Unifesp e quando eu fui pra fora do pa\u00eds, eu sempre tive boa colabora\u00e7\u00e3o com o grupo. Muitas vezes participando dos workshops, \u00e0s vezes como debatedor, \u00e0s vezes como participante mesmo. E colaborando com o Marko em coisas paralelas, como publica\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00e3o de eventos, etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Depois de tantos anos de colabora\u00e7\u00e3o com GEICT e participando dos workshops, como \u00e9 voltar agora como professor do DPCT?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Eu vejo que o grupo cresceu bastante. O GEICT era um grupo que basicamente era de orientandos do Marko e as atividades eram bastante internas. Mas hoje eu vejo que o GEICT tem uma abrang\u00eancia maior de tem\u00e1ticas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Voc\u00ea percebe que a etnografia da ci\u00eancia \u00e9 uma das tem\u00e1ticas. Uma das linhas. Voc\u00ea tem trabalhos mais diversos, temos mais diversidade de trabalhos, perspectivas de an\u00e1lises tamb\u00e9m. E isso tamb\u00e9m \u00e9 um desafio atual pro grupo, n\u00e9? Para saber mais ou menos qual o seu m\u00e9tier. Quais s\u00e3o as quest\u00f5es que o grupo discute. Claramente a crise ambiental \u00e9 um tema bastante presente no grupo, mas tamb\u00e9m sa\u00fade, corporalidade. Vejo com bons olhos a maneira como o grupo vem se desenvolvendo. Trabalhos de grande qualidade acad\u00eamica e tem\u00e1ticas diversas. Eu sou um colaborador de longa data do Marko, n\u00e9? E tamb\u00e9m pretendo colaborar com o GEICT de maneira pr\u00f3xima. E, de certa forma, ajudar no esfor\u00e7o articular o GEICT com outras iniciativas do departamento, outras linhas do departamento e possivelmente tamb\u00e9m enxergar, digamos assim, uma problem\u00e1tica que organize os trabalhos que s\u00e3o mais individuais do grupo. Acho que talvez isso possa ser uma coisa que eu possa ajudar o grupo a desenvolver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f90i298\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Voc\u00ea foi o coordenador de um dos grupos de trabalho de workshop do GEICT. Mais especificamente, o grupo de pesquisa etnogr\u00e1fica. Voc\u00ea pode falar um pouco sobre essa experi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c2uq2101\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong> Foi uma experi\u00eancia muito boa. Os\/as participantes s\u00e3o pesquisadores e pesquisadoras de alto n\u00edvel acad\u00eamico. Eu n\u00e3o falo isso da boca pra fora, assim, percebe-se claramente que s\u00e3o pessoas bem preparadas, metodologicamente conscientes daquilo que est\u00e3o fazendo. Ent\u00e3o a experi\u00eancia no grupo de etnografia foi bastante interessante. Aprendi bastante com as exposi\u00e7\u00f5es.&nbsp; O que que a gente fez basicamente: n\u00f3s partimos quest\u00e3o por quest\u00e3o que havia sido colocada e cada participante foi falando um pouco sobre sua pesquisa e como etnografia trazia ganhos e algumas dificuldades no desenvolver da pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aebl6104\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: E quais foram os principais pontos da discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong> De partida, havia uma pergunta assim\u2026 porque etnografia? Porque escolhemos etnografia como metodologia? A etnografia vai permitir que o pesquisador trabalhe problema em m\u00faltiplas escalas. Ent\u00e3o desde uma controv\u00e9rsia que se processa num n\u00edvel mais local, at\u00e9 o seu desdobramento e suas rela\u00e7\u00f5es com pol\u00edticas, com estruturas de governan\u00e7a globais. Ent\u00e3o a maioria dos trabalhos ali discutia algum tema cujo campo era local, por\u00e9m a ramifica\u00e7\u00e3o a partir do mapeamento que a etnografia proporciona, ganhava escalas de contextos regionais e globais. Ent\u00e3o eu acredito que o olhar etnogr\u00e1fico tem essa capacidade de ser uma metodologia que voc\u00ea consegue conectar pontos multi-situados. Isso \u00e9 fundamental, acredito eu, no momento da pesquisa em que a gente lida com fen\u00f4menos que ocorrem no mundo digital, nas redes\u2026 a maneira como o digital transforma as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, na organiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o a etnografia permite esse passo metodol\u00f3gico de seguir fen\u00f4menos em m\u00faltiplas escalas. Mas n\u00e3o somente. A etnografia \u00e9 uma forma de descrever detalhadamente a maneira processual que os fatos s\u00e3o constitu\u00eddos e d\u00e3o embasamento a certas pr\u00e1ticas e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Muitos dos trabalhos discutidos no workshop t\u00eam a preocupa\u00e7\u00e3o de entender como disputas que envolvem conhecimento e poder t\u00eam seu curso. Portanto, a etnografia \u00e9 uma perspectiva que realmente contribui como m\u00e9todo e perspectiva de an\u00e1lise.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-womla110\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Quais os pr\u00f3ximos passos no DPCT?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-oj0d4113\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong> No meu planejamento pessoal no departamento, eu estou trazendo tr\u00eas linhas de pesquisa junto ao <strong>LABMEM &#8211; Laborat\u00f3rio de Estudos sobre Mudan\u00e7a Tecnol\u00f3gica<\/strong>, Energia e Meio Ambiente, que \u00e9 o laborat\u00f3rio que divide o espa\u00e7o f\u00edsico com o GEICT. Atualmente ele \u00e9 coordenado pelo prof. Andr\u00e9 Furtado e pelo Prof. Aleix Altmiras, dois professores do DPCT. Os temas deste laborat\u00f3rio dialogam muito com o GEICT. Tem tr\u00eas linhas de pesquisa que v\u00e3o ajudar nessa conversa: A primeira \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica para sustentabilidade. Eu, Altmirasf e Furtado vamos dividir uma disciplina sobre esse tema, a CT148, mais especificamente, trata sobre transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. \u00c9 um tema que est\u00e1 na ordem dia, inclusive em pol\u00edticas nacionais, se voc\u00ea for pensar no plano de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do governo atual. Envolve setores estrat\u00e9gicos e a pesquisa da STS, da economia, das pol\u00edticas p\u00fablicas. Outra linha \u00e9 uma que eu j\u00e1 venho trabalhando desde o doutorado que \u00e9 a antropologia das infraestruturas. Essa \u00e9 uma linha que apesar do GEICT ter trabalhos que dialogam com esse tema, eu n\u00e3o vejo claramente essa tem\u00e1tica como uma tem\u00e1tica do grupo. J\u00e1 a terceira linha \u00e9 algo que o GEICT trabalha bastante e que \u00e9 mais tradicional aos Estudos Sociais da Ci\u00eancia e Tecnologia, que s\u00e3o interfaces entre ci\u00eancia e pol\u00edtica. Meu foco, contudo, seria na interface de ci\u00eancia e pol\u00edtica clim\u00e1tica, me orientando mais para a governan\u00e7a clim\u00e1tica e energ\u00e9tica. Eu tenho dois temas fundamentais: mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e energia, digamos assim. Ent\u00e3o eu acredito que tem um di\u00e1logo muito interessante nessa tem\u00e1tica que eu coloquei aqui que v\u00e3o de alguma maneira conversar com os trabalhos do GEICT, colaborar nos pr\u00f3ximos eventos, assim que esse laborat\u00f3rio que eu estou entrando agora for agregando novos estudantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-rnyiw118\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Al\u00e9m das conversas entre o GEICT e o LABMEM, j\u00e1 existem projetos em vista de colabora\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-p97rf121\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong> Sim, h\u00e1 um conjunto de trabalhos e um planejamento que eu pretendo ter em conjunto com o GEICT, tanto da parte do Marko como da minha parte. O Marko tem em vista a submiss\u00e3o de um projeto tem\u00e1tico que envolve o Amazon FACE. \u00c9 preciso f\u00f4lego, um projeto tem\u00e1tico, e pessoas para trabalhar nele, de diferentes est\u00e1gios da carreira acad\u00eamica. Desde a IC, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m outros professores. Ent\u00e3o eu j\u00e1 conversei com o Marko que eu estou disposto a trabalhar nesse projeto tem\u00e1tico. O outro ponto s\u00e3o as orienta\u00e7\u00f5es, n\u00e9? O Marko sempre me chama pra participar de bancas de membros do GEICT, \u00e9 algo mais pontual mas \u00e9 bastante importante, porque eu conhe\u00e7o o trabalho dos estudantes e posso ajudar a orientar ou ajudar no que for preciso. Provavelmente vou participar de algumas reuni\u00f5es presenciais tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-taby7125\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Agora eu gostaria de conversar sobre a sua pesquisa atual. J\u00e1 atuando junto ao LABMEM, quais s\u00e3o seus interesses atuais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong> Bom, a minha pesquisa atualmente pode ser dividida em tr\u00eas eixos que se relacionam &#8211; que s\u00e3o justamente os que eu citei antes. Interfaces entre ci\u00eancia e pol\u00edtica, antropologia das infraestruturas e transi\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica para a sustentabilidade. Esses tr\u00eas eixos eles se coordenam no que eu pesquiso atualmente porque eu tenho pesquisado a transi\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica do setor el\u00e9trico brasileiro<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Qual \u00e9 o problema a\u00ed? O setor el\u00e9trico brasileiro \u00e9 uma mega infraestrutura hidro-intensiva. 60% da nossa energia el\u00e9trica \u00e9 baseada em grandes plantas de hidrel\u00e9tricas, certo? E hoje n\u00f3s estamos num contexto global de descarboniza\u00e7\u00e3o, de restri\u00e7\u00e3o dos regimes h\u00eddricos pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a ocorr\u00eancia de secas, que colocam em xeque os sistemas el\u00e9tricos dos mundos inteiro. Eu tenho estudado o caso brasileiro. Como a transi\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico tem ocorrido no Brasil.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, de certa maneira, uma forma de eu abordar esse tema \u00e9 pensando como certas infraestruturas, certas condi\u00e7\u00f5es dessas infraestruturas condicionam uma forma de governan\u00e7a, e como essa governan\u00e7a muitas vezes organizadas em lobbies, grupos de interesse e grupos politicamente organizados travam a modifica\u00e7\u00e3o das infraestruturas. Do ponto de vista te\u00f3rico dos STS, vejo que a linha de discuss\u00e3o aborda como infraestruturas e materialidades coproduzem formas de governan\u00e7a, estabelecem certas hierarquias, categorias e padr\u00f5es que criam certo tipos de condicionamento aos processos socioambientais de transi\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade. Essa discuss\u00e3o deriva de meus interesses de pesquisa anteriores que tratavam da maneira que as interfaces entre ci\u00eancia e pol\u00edtica clim\u00e1tica foram constru\u00eddas no Brasil. Meu objetivo atual \u00e9 dar continuidade a essa discuss\u00e3o de maneira mais ampliada para o contexto das pol\u00edticas de transi\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade e seus fundamentos factuais, t\u00e9cnicos e infraestruturais.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ahlf4131\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Como a atual agenda global para as mudan\u00e7as do clima impactam a tomada de decis\u00e3o sobre o setor el\u00e9trico brasileiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O impacto da mudan\u00e7a clim\u00e1tica pressiona o setor el\u00e9trico brasileiro para se tornar menos hidro-intensivo. Porque se voc\u00ea n\u00e3o tem \u00e1gua voc\u00ea n\u00e3o gera energia hidrel\u00e9trica, ent\u00e3o \u00e9 preciso encontrar outros caminhos para a sustentabilidade e para a seguran\u00e7a do setor energ\u00e9tico brasileiro que n\u00e3o seja a contrata\u00e7\u00e3o de t\u00e9rmicas. Porque o objetivo \u00e9 descarbonizar os sistemas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o conhecimento clim\u00e1tico fazem parte dessa pesquisa. No caso brasileiro, o nexo clima e energia \u00e9 central. Nos \u00faltimos anos tivemos s\u00e9rias crises h\u00eddricas no pa\u00eds que abalaram a opera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica nacional. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter uma pol\u00edtica energ\u00e9tica de transi\u00e7\u00e3o separada da pol\u00edtica clim\u00e1tica. Ent\u00e3o na minha vis\u00e3o, a interface entre ci\u00eancia e pol\u00edtica das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tem que incorporar necessariamente esse debate sobre transi\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade. Porque se n\u00f3s estamos num novo regime clim\u00e1tico, se n\u00e3o existe mais aquela incerteza clim\u00e1tica fundamental, \u00e9 preciso pensar em formas de transi\u00e7\u00e3o.&nbsp; Pensar os problemas setoriais e os problemas coletivos, sociais, dos grupos vulner\u00e1veis, e pensar em formas de produzir ci\u00eancia e pol\u00edtica, coproduzir isso de maneira que a gente comece uma a\u00e7\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o para encarar esse problema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-zedbx139\" class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>YAMA: Voc\u00ea mencionou algumas vezes que sua pesquisa atual traz quest\u00f5es que vieram da sua pesquisa de doutorado, que foi feita no GEICT. Que quest\u00f5es s\u00e3o essas?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>JEAN:<\/strong> O tema da transi\u00e7\u00e3o para sustentabilidade do setor el\u00e9trico brasileiro une um ferramental te\u00f3rico e tamb\u00e9m uma pesquisa emp\u00edrica que vai, digamos assim, transladar uma s\u00e9rie de interesses anteriores de pesquisa que derivam do meu doutorado. O doutorado foi onde eu trabalhei com essa ideia que as infraestruturas exercem uma forma de pol\u00edtica tecnol\u00f3gica, uma geopol\u00edtica infraestrutural, e governamentalidade ambiental, como eu chamei no meu doutorado. Portanto se n\u00f3s vamos pensar num tipo e governan\u00e7a de uma infraestrutura, seja ela do conhecimento clim\u00e1tico ou do setor el\u00e9trico, n\u00f3s temos que pensar essa governan\u00e7a coordenada com as condi\u00e7\u00f5es materiais das infraestruturas. Os agenciamentos poss\u00edveis das infraestruturas e os espa\u00e7os que elas criam para participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, para uma abertura, ou para a clausura degoverno de determinados grupos. Eu acho que de certa forma \u00e9 estrat\u00e9gico trabalhar com esse tema no DPCT, por conta dos diferentes temas congregados. Estudos Sociais da Ci\u00eancia e Tecnologia, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o tema da energia que \u00e9 muito caro para outros professores e professoras do departamento. Eu vejo o tema da transi\u00e7\u00e3o para sustentabilidade como agregador e um tema que deriva da minha p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no DPCT e da minha pesquisa no GEICT.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2022 o GEICT completou 10 anos de forma\u00e7\u00e3o. Para comemorar essa marca, o blog realizou mais uma das entrevistas do projeto GEICT 10 anos. Hoje publicamos a conversa com o professor Dr. Jean Miguel, do Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp. 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