{"id":228,"date":"2023-11-17T13:11:02","date_gmt":"2023-11-17T16:11:02","guid":{"rendered":"http:\/\/65578ec50cfb1f6bf405e229"},"modified":"2025-04-25T17:58:31","modified_gmt":"2025-04-25T20:58:31","slug":"cidade-de-ferro-parte-ii-o-maior-buraco-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2023\/11\/17\/cidade-de-ferro-parte-ii-o-maior-buraco-do-mundo\/","title":{"rendered":"Cidade de Ferro, parte II: O maior buraco do mundo"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>Por Yama Chiodi<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Cidade de Ferro \u00e9 uma parceria entre o GEICT e o podcast Oxig\u00eanio. Uma reportagem em 4 partes que aborda o extrativismo da minera\u00e7\u00e3o na cidade de Itabira e suas conex\u00f5es com o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #173 \u2013 S\u00e9rie Cidade de Ferro \u2013 ep. 2: O maior buraco do mundo\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/2SoPfN2KNDXf20ytGOwJtD?go=1&#038;sp_cid=67849e03e6ff704cd02e0897333081e8&#038;utm_source=oembed&#038;utm_medium=desktop&#038;nd=1&#038;dlsi=6cbb2d72f3df4038\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dud8f\" class=\" eplus-wrapper\">ITABIRA<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4uuag\" class=\" eplus-wrapper\">Cada um de n\u00f3s tem seu peda\u00e7o no pico do Cau\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-41j5h\" class=\" eplus-wrapper\">Na cidade toda de ferro<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5ukhg\" class=\" eplus-wrapper\">as ferraduras batem como sinos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1siee\" class=\" eplus-wrapper\">Os meninos seguem para a escola.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d6mhr\" class=\" eplus-wrapper\">Os homens olham para o ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1vdcn\" class=\" eplus-wrapper\">Os ingleses compram a mina.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ukv5\" class=\" eplus-wrapper\">S\u00f3, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incompar\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-frblv\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Introdu\u00e7\u00e3o \u2013 Em busca do Cau\u00ea<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7ulkp\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: \u00c9 dif\u00edcil encontrar o pico do cau\u00ea. N\u00e3o a montanha, que sabemos, n\u00e3o existe mais. \u00c9 que o local onde um dia houve um pico \u00e9 dif\u00edcil de encontrar. Subimos mirantes para ver se, do alto, dava pra ver o buraco. Sem sucesso, eu e Lucas rodamos de carro por um tempo consider\u00e1vel em companhia do google maps e de dois pares de olhos atentos. Subindo uma estrada estreita de duas pistas h\u00e1 v\u00e1rios sinais de que estamos dentro da Vale, mas nada de Cau\u00ea. Vejo os barrancos ferrosos se misturarem aos eucaliptos t\u00e3o mais frequentes quanto mais alto subimos. Caminh\u00f5es e m\u00e1quinas pesadas. Lama, muita lama. Placas de seguran\u00e7a e placas urbanas. As placas colocadas pela Vale se abundam. A mais repetida n\u00e3o deixa d\u00favidas: propriedade privada da VALE SA, n\u00e3o ultrapassar. Invas\u00e3o \u00e9 crime! Outras, beiram ao cinismo, como a que vimos num pequeno morro com cinzas de queimadas: evite queimadas, preserve a natureza, sugere a placa da Vale.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-23i13\" class=\" eplus-wrapper\">N\u00e3o muito distante dali o GPS informa: voc\u00ea chegou ao seu destino. Mas onde chegamos exatamente? \u00c0 direita do carro, vejo lama, vejo florestas falsas e tristes. Trabalhadores da Vale, ou melhor, de suas terceirizadas, curiosos com a nossa presen\u00e7a. Estamos na cidade, em rua p\u00fablica, mas a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que invadimos a mina. Distra\u00eddo com tanta informa\u00e7\u00e3o \u00e0 direita, Lucas me chama a aten\u00e7\u00e3o. \u00c0 nossa esquerda, ali est\u00e1, milimetricamente escondido entre morros sobreviventes. A paisagem que d\u00e1 nome ao lugar. O maior buraco do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-df7j9\" class=\" eplus-wrapper\">As palavras se perdem. J\u00e1 sabemos do que se trata, mas o queixo cai mesmo assim. \u00c9 como visitar a l\u00e1pide do pico, mas com o sentimento contradit\u00f3rio e inc\u00f4modo de que \u00e9 a nossa pr\u00f3pria l\u00e1pide tamb\u00e9m. Senti como nunca antes o significado de que cada de um n\u00f3s tem seu peda\u00e7o no pico do cau\u00ea. Se as barragens chocam pela presen\u00e7a intermin\u00e1vel da lama, o maior buraco do mundo dilacera por uma aus\u00eancia incalcul\u00e1vel. Um buraco aberto que exibe as entranhas da terra e nos mostra a grandiosidade de quase 100 anos de extrativismo desavergonhado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8flsm\" class=\" eplus-wrapper\">Eu sou Yama Chiodi, jornalista do GEICT e esse \u00e9 o segundo epis\u00f3dio da s\u00e9rie Cidade de Ferro. Nesse epis\u00f3dio, tento recuperar de modo muito breve como as hist\u00f3rias de Itabira e da minera\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro se entrela\u00e7aram. E como seu cidad\u00e3o mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade, se tornou persona non grata por ser ferrenho cr\u00edtico do que a minera\u00e7\u00e3o fez com sua cidade natal. Sigo esse epis\u00f3dio com Lucas Nasser, pesquisador e advogado itabirano, autor do livro \u201cEntre a Mina e a Vila: viola\u00e7\u00f5es de direitos em Itabira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-feaq3\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Na obra de Drummond h\u00e1 duas Itabiras\u2026 ou a transforma\u00e7\u00e3o de uma Itabira em outra. E o pico do cau\u00ea \u00e9 a alegoria perfeita para essa transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, o poeta o classifica como \u201cNossa primeira vis\u00e3o do mundo\u201d na cr\u00f4nica Vila da Utopia \u2013 a mesma que nos d\u00e1 a express\u00e3o \u201cdestino mineral\u201d. Se a montanha era o mundo, sua pulveriza\u00e7\u00e3o catapulta a hist\u00f3ria po\u00e9tica da cidade a uma hist\u00f3ria de fim de mundo. De montanha a buraco. E se a montanha muda, a cidade muda. Se a montanha muda, a poesia muda.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fbhud\" class=\" eplus-wrapper\">Fica na mem\u00f3ria uma cidadezinha pacata na qual se podia ver o Cau\u00ea imponente da janela de casa. E a mem\u00f3ria se choca com a realidade. O s\u00e9culo XX \u00e9 para Itabira o momento hist\u00f3rico em que a cidade e a minera\u00e7\u00e3o se confundem, por for\u00e7a da viol\u00eancia e do extrativismo. Esse fen\u00f4meno foi aprofundado pela cria\u00e7\u00e3o da Companhia Vale do Rio Doce. Depois de ser o centro miner\u00e1rio dos Aliados na segunda guerra mundial, Itabira se misturou cada vez mais a Vale. Quando chegou a privatiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi s\u00f3 a Vale que foi privatizada. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que, sendo uma com a empresa, a cidade foi privatizada tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8kg01\" class=\" eplus-wrapper\">A seguir fa\u00e7o brev\u00edssimo sobrevoo sobre a hist\u00f3ria do ferro em Itabira, que introduz como cidade foi tomada pela minera\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea quiser aprofundar um pouco mais na hist\u00f3ria e nas conex\u00f5es da obra do Drummond com a minera\u00e7\u00e3o eu vou deixar mais uma recomenda\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do livro do nosso convidado Lucas Nasser. \u00c9 o Maquina\u00e7\u00e3o do Mundo, do Jos\u00e9 Miguel Wisnik, publicado pela Companhia das Letras. Do meu ponto de vista \u00e9 uma obra-prima e o livro definitivo sobre as conex\u00f5es entre minera\u00e7\u00e3o e a obra po\u00e9tica de Carlos Drummond de Andrade. Mas, por ora, seguimos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ac393\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Primeira parte: Ferro \u00e0 vista!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c19b5\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fgrkr\" class=\" eplus-wrapper\">Zico Tanajura est\u00e1 um pav\u00e3o de orgulho<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-83lp1\" class=\" eplus-wrapper\">no d\u00f3lm\u00e3 de brim c\u00e1qui.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aga53\" class=\" eplus-wrapper\">Vendeu sua terra sem planta\u00e7\u00e3o,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e8ar5\" class=\" eplus-wrapper\">sem cria\u00e7\u00e3o, aguada, benfeitoria,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5o1kq\" class=\" eplus-wrapper\">terra s\u00f3 de ferro, aridez<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5dven\" class=\" eplus-wrapper\">que o verde n\u00e3o consola.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ag2cp\" class=\" eplus-wrapper\">E n\u00e3o vendeu a qualquer um:<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5tfol\" class=\" eplus-wrapper\">vendeu a Mr. Jones,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9tkti\" class=\" eplus-wrapper\">distinto representante de Mr. Hays Hammond,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-982hg\" class=\" eplus-wrapper\">embaixador de Tio Sam em Londres-belle-\u00e9poque.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fgrfv\" class=\" eplus-wrapper\">Zico Tanajura passou a manta em Suas Excel\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c9f2p\" class=\" eplus-wrapper\">De alegria,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1gqog\" class=\" eplus-wrapper\">vai at\u00e9 fazer a barba no domingo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-92ngg\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: O que levou os olhos grandes coloniais a Itabira a princ\u00edpio n\u00e3o foi o ferro, mas o ouro. Quando as Minas Gerais demonstravam sinais inequ\u00edvocos de cansa\u00e7o na explora\u00e7\u00e3o aur\u00edfera, o viajante franc\u00eas contratado pela coroa portuguesa, Auguste de Saint-Hilaire, visitou v\u00e1rias cidades do interior mineiro para tentar encontrar novos pontos de interesse para explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio. Passou oito dias em Itabira, ainda no per\u00edodo pr\u00e9-independ\u00eancia, no primeiro quarto do s\u00e9culo XIX, onde se assustou com o potencial de explora\u00e7\u00e3o miner\u00e1ria do local, que deu origem a sua famosa frase, abre aspas, \u201cO ferro das montanhas de Minas Gerais pode de certo modo se considerar inesgot\u00e1vel\u201d, fecha aspas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f9m61\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: \u00c9, acho que foi internacionalizada, primeiro com o Saint-Hilaire, p\u00f5e a boca no mundo, terra \u00e0 vista n\u00e9? Mandou l\u00e1 a carta do Pero Vaz de Caminha. Mas Itabira j\u00e1 teve, um pouco antes, essa \u00e9poca do Saint Iller passou, j\u00e1 tinha uma f\u00e1brica de ferro, mas n\u00e3o no registro industrial, era de fazer ferramentas, de uso dom\u00e9stico, n\u00e9, digamos assim.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bo2vd\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: O ferro j\u00e1 estava ali, mas com outros prop\u00f3sitos, de escala muito menor. E, ainda assim, j\u00e1 atra\u00eda certo crescimento populacional. Mas \u00e9 s\u00f3 na passagem do s\u00e9culo XIX para o XX que a riqueza mineral itabirana coloca a cidade em risco. A gan\u00e2ncia colonial que j\u00e1 fazia amea\u00e7as de tomar as montanhas nos tempos de Saint-Hilaire ganha outro formato, onde os ingleses radicados no Brasil trabalham lentamente por baixo dos panos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f35tt\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: E a\u00ed teve um congresso em Estocolmo, que apontava esse potencial geol\u00f3gico em Itabira.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fbr4\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: \u00c9 recorrente entre historiadores e pesquisadores que o grande marco hist\u00f3rico que inaugura essa nova fase do ferro em Itabira \u00e9 o Congresso Internacional de Geologia, realizado em Estocolmo em 1910, ao qual o Lucas se referiu. O congresso foi realizado por grandes empresas sider\u00fargicas europeias e estadunidenses e tinha por objetivo principal fazer um detalhamento exaustivo das reservas de ferro existentes no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5ob2n\" class=\" eplus-wrapper\">Jos\u00e9 Miguel Wisnik diz que o diretor do Servi\u00e7o Geol\u00f3gico e Mineral\u00f3gico do Brasil e um professor da Escola de Minas de Ouro Preto apresentaram no congresso um documento que mostrava de modo detalhado os lugares de Minas com maior potencial para explora\u00e7\u00e3o de ferro. Literalmente entregaram o mapa da mina do ferro brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6gtrm\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: Inclusive depois desse per\u00edodo, alguns ingleses que moravam no Brasil, engenheiros que foram contratados pra fazer, por exemplo, a ferrovia que liga Minas a Vit\u00f3ria, n\u00e9, eles compraram uma por\u00e7\u00e3o de terra gigantesca.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-be1g9\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: A figura do ingl\u00eas em Itabira \u00e9 recorrente na poesia de Drummond. N\u00e3o \u00e9 por acaso que apenas um ano depois do congresso, a companhia inglesa Itabira Iron Ore Company recebeu autoriza\u00e7\u00e3o para funcionar no Brasil. O que se passou nos anos anteriores e nos anos subsequentes foi estarrecedor. Sabendo do verdadeiro valor das terras com seus morros e subsolos ferrosos, ingleses compraram quantidades gigantescas de terra no mato dentro a pre\u00e7o de banana. Os itabiranos vendiam sem saber o real valor de suas terras.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8v4lm\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: Enfim, ce tem esses engenheiros ingleses adquirindo essa propriedade de terra gigantesca, mas n\u00e3o s\u00f3 isso, n\u00e9, eles fundam companhias no intuito de adquirir jazidas mesmo de min\u00e9rio. Inclusive, o pico do cau\u00ea nesse semin\u00e1rio internacional era a maior reserva do mundo. Maior jazida de ferro do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4esoi\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Apesar da resist\u00eancia pol\u00edtica de v\u00e1rios setores da sociedade brasileira, em especial de intelectuais de esquerda como Drummond, a Itabira Iron Ore Company seguiria seu fluxo de pr\u00e1ticas coloniais at\u00e9 o governo de Get\u00falio Vargas, quando o nacionalismo desenvolvimentista culminou na proibi\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas e da subsequente nacionaliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do ferro. No nacionalismo varguista, havia amplo apelo pelo fortalecimento da siderurgia nacional \u2013 o que nunca aconteceu para Itabira. Em 1938, saiu uma edi\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o antifascista Revista Acad\u00eamica, onde o poeta manifestou sua percep\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas coloniais do extrativismo da Itabira Iron.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aot3q\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA<\/strong>: Ent\u00e3o Itabira, o Brasil, vai acabar derretido em Birmingham, em Cardiff? Ent\u00e3o os nossos duzentos anos de luta contra a pedra e contra o mato v\u00e3o desaparecer diante da fria contabilidade do rude imperialismo internacional? A nossa velha cidade vir\u00e1 a ser, na perda completa de seus meios de produ\u00e7\u00e3o, na fuga constante da sua riqueza, no seu progresso aparente mas cortado de espolia\u00e7\u00f5es, apenas um triste burgo colonial?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-abmnu\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: A Itabira Iron Ore Company foi dissolvida em 1942. E essa data certamente n\u00e3o tem nada de casual. O ferro de Itabira colocou o Brasil na guerra pela emerg\u00eancia da empresa, agora nacional, que veio a se chamar Companhia Vale do Rio Doce. Estava inaugurada uma nova fase da explora\u00e7\u00e3o do ferro e um novo tipo de subservi\u00eancia brasileira aos pa\u00edses ricos. Agora, por meio de acordos internacionais n\u00e3o cumpridos entre Estados Unidos, Inglaterra e uma grande empresa estatal.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1m17c\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA<\/strong>: Desfile<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-762db\" class=\" eplus-wrapper\">As terras foram vendidas,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f2i55\" class=\" eplus-wrapper\">as terras abandonadas<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f684c\" class=\" eplus-wrapper\">onde o ferro cochilava<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-etgkg\" class=\" eplus-wrapper\">e o mato-dentro adentrava.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-u85k\" class=\" eplus-wrapper\">Foram muito bem(?) vendidas<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5chqv\" class=\" eplus-wrapper\">aos am\u00e1veis emiss\u00e1rios<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ketq\" class=\" eplus-wrapper\">de Rothschild, Barry &amp; Brothers<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aq8nn\" class=\" eplus-wrapper\">e compadres Iron Ore.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7sqlp\" class=\" eplus-wrapper\">O dinheiro recebido<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-690gh\" class=\" eplus-wrapper\">deu pra saldar hipotecas,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3t3sq\" class=\" eplus-wrapper\">velhas contas de armarinho<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9536n\" class=\" eplus-wrapper\">e de secos e molhados<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-99mrg\" class=\" eplus-wrapper\">Inda sobrou um bocado<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ab2bb\" class=\" eplus-wrapper\">pra gente se divertir<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-836r7\" class=\" eplus-wrapper\">no faz de conta da vida<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4smq\" class=\" eplus-wrapper\">que devendo ser alegre<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2fcvh\" class=\" eplus-wrapper\">nem sempre \u00e9<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8sunl\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Segunda parte: A ferro e fogo<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1n59p\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: O advento da Segunda Guerra Mundial se tornou a oportunidade apropriada para Vargas implementar seu plano de fortalecimento da siderurgia e da minera\u00e7\u00e3o nacionais. Isso se deu a partir de acordos costurados com Estados Unidos e Inglaterra. Do lado da siderurgia, o governo brasileiro conseguiu o empr\u00e9stimo de 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares do Eximbank para a implementa\u00e7\u00e3o da Companhia Sider\u00fargica Nacional, em 1941. Do lado da minera\u00e7\u00e3o, foram estabelecidos os chamados Acordos de Washington, que teriam como principal efeito a nacionaliza\u00e7\u00e3o das minas antes em posse da Itabira Iron e a cria\u00e7\u00e3o da Companhia Vale do Rio Doce.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bpovk\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: Itabira \u00e9 o centro do acordo de Washington. C\u00ea come\u00e7a a ter esgotamento de produ\u00e7\u00e3o de ferro da ind\u00fastria armamentista e novamente o pessoal pega os estudos das maiores reservas de ferro do mundo e a\u00ed vai entrar Itabira e o pico do Cau\u00ea. Ent\u00e3o o Get\u00falio d\u00e1 uma canetada. Acaba com a gracinha dos ingleses. Nacionaliza tudo, mas, com base nesse acordo. E era o acordo da constru\u00e7\u00e3o da Vale e da constru\u00e7\u00e3o de uma sider\u00fargica, que depois vai virar a CSN.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7v4cj\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Os Acordos de Washington previam o empr\u00e9stimo do dinheiro e da equipagem maqu\u00ednica que supostamente tornariam a Vale do Rio Doce uma mineradora automatizada e moderna. Em troca, o Brasil forneceria min\u00e9rio de ferro exclusivamente a Estados Unidos e Inglaterra por um pre\u00e7o muito abaixo de mercado enquanto durasse a guerra. Itabira se tornou da noite pro dia um centro global por alimentar de ferro a ind\u00fastria b\u00e9lica da guerra e do plano Marshall. \u00c9 nesse contexto que Drummond publica o livro que muitos consideram sua obra-prima. A Rosa do Povo foi escrito entre 43 e 45, por um poeta at\u00f4nito diante dos horrores da guerra. Um dos poemas mais conhecidos do livro, Am\u00e9rica, observa a repentina globaliza\u00e7\u00e3o de sua cidade natal.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bqd8q\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aub0m\" class=\" eplus-wrapper\">(\u2026) As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no mundo escuro<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-coo55\" class=\" eplus-wrapper\">Uma rua come\u00e7a em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3q19k\" class=\" eplus-wrapper\">Nessa rua passam chineses, \u00edndios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aftpm\" class=\" eplus-wrapper\">Seus passos urgentes ressoam na pedra,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d4reg\" class=\" eplus-wrapper\">ressoam em mim.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c7nen\" class=\" eplus-wrapper\">Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7iuv4\" class=\" eplus-wrapper\">Sou apenas uma rua<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bel6e\" class=\" eplus-wrapper\">na cidadezinha de Minas, humilde caminho da Am\u00e9rica. (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-406t3\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: As promessas dos Acordos de Washington, no entanto, n\u00e3o foram cumpridas. A come\u00e7ar pelo maquin\u00e1rio que n\u00e3o chegou. Mas tamb\u00e9m pelo fato de que Volta Redonda ficou com o protagonismo da Siderurgia e Itabira permaneceria para sempre como mera exportadora de ferro. Nem mesmo as compras garantidas do min\u00e9rio brasileiro foram cumpridas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9qki0\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: Depois a Vale vai ter maquin\u00e1rio numa segunda etapa, n\u00e9? Inclusive parte desses acordos n\u00e3o \u00e9 entregue o maquin\u00e1rio por parte da Inglaterra e dos Estados Unidos. Ent\u00e3o a Vale durante muitos anos se constr\u00f3i e se consolida na base do muque e na base da explora\u00e7\u00e3o desses trabalhadores. Essa parte inicial dos Le\u00f5es da Vale, que tinha muito acidente de trabalho inclusive, ela n\u00e3o \u00e9 relatada. N\u00e3o sei se vc vai lembrar, a gente conversou com algumas pessoas. Eles contam n\u00e3o contando, n\u00e9? Tem uma quest\u00e3o l\u00e1 que parece que todo mundo sabe o que est\u00e1 acontecendo, mas voc\u00ea n\u00e3o pode falar por ser receio de retalia\u00e7\u00e3o, por receio de ser taxado de ingrato, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4jqtf\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Lembro sim. E impressiona que em pleno 2023 ainda seja uma realidade. Mesmo depois da privatiza\u00e7\u00e3o. Isso que o Lucas t\u00e1 falando \u00e9 um fen\u00f4meno super interessante e complexo. Ao mesmo tempo em que a Vale do Rio Doce fazia crescer a precariedade de Itabira com seu extrativismo, a cidade ficava cada vez mais ref\u00e9m da empresa, a ponto de se misturar com ela.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-88il8\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: Existe uma Itabira antes e depois da Vale, n\u00e9? Mas ela entra nas entranhas, a Vale viveu visceralmente Itabira. A cidade acaba se tornando a Vale e a Vale se tornando Itabira.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-66r75\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Nesse contexto, a Vale chegava inclusive a ser chamada de \u201cM\u00e3e Doce\u201d por parte da popula\u00e7\u00e3o. Tem por partes dos itabiranos uma gratid\u00e3o que tem tudo a ver com processo de depend\u00eancia entre a empresa e a cidade. \u00c9 claro que \u00e0 medida que o tempo passa essa ades\u00e3o se enfraquece e as cr\u00edticas se abundam. Mas a defesa \u00e0 empresa ainda \u00e9 muito palp\u00e1vel. Transformando profundamente a realidade local, Itabira parecia estar sempre atenta a seu potencial e \u00e0s promessas grandiosas de um futuro de abund\u00e2ncia constru\u00eddo \u00e0 base da explora\u00e7\u00e3o do ferro. Mas o extrativismo n\u00e3o pede licen\u00e7a para nada. E o progresso prometido \u00e9 uma eterna promessa, que nunca chega.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eal6m\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: De extrair, quando a gente fala desse extrativismo, \u00e9 de v\u00e1rias ordens. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 esse extrativismo econ\u00f4mico. Tem um extrativismo que \u00e9 tamb\u00e9m ontol\u00f3gico. Ce imp\u00f5e outro modo de vida ao local. O Drummond faz uma s\u00edntese disso em alguns poemas, mas \u00e9 s\u00f3 pra gente ter um par\u00e2metro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-73pip\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: O que o Lucas chama de extrativismo ontol\u00f3gico \u00e9 esse processo que transforma a cidade numa outra coisa. A cidade que havia vai sendo apagada pra se reduzir paulatinamente ao extrativismo ele mesmo. O pico do Cau\u00ea se torna um s\u00edmbolo inexor\u00e1vel dessa transforma\u00e7\u00e3o\u2026 \u00e0 medida que a montanha vai deixando de existir, a cidade \u00e9 cada vez mais Vale e cada vez menos mato dentro. E \u00e9 esse processo que desperta o desgosto e a cr\u00edtica do Drummond \u00e0 gigante estatal. Especialmente nas primeiras d\u00e9cadas de exist\u00eancia da empresa, as cr\u00edticas do poeta aliadas ao fato de que morava no Rio de Janeiro o tornaram uma esp\u00e9cie de persona non-grata em Itabira. Era como se fosse um filho ingrato, que virou as costas para suas origens, quando virar as costas para a Vale era o mesmo que virar as costas para a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eaid4\" class=\" eplus-wrapper\">Em tese, Carlos Drummond de Andrade sabia da retirada massiva de ferro para a guerra. Mas saber e ver com os pr\u00f3prios olhos faz toda diferen\u00e7a. Por ocasi\u00e3o do enterro de sua m\u00e3e, no ano de 1948, vai a Itabira uma \u00faltima vez na vida, de avi\u00e3o, e v\u00ea com a vis\u00e3o privilegiada das alturas a for\u00e7a do extrativismo. Ao ver as entranhas da terra e o in\u00edcio do fim do Pico do Cau\u00ea, percebeu cedo que o progresso prometido pela nacionaliza\u00e7\u00e3o da Itabira Iron n\u00e3o chegaria nunca. H\u00e1 um poema de Drummond que foi muito lembrado \u00e0 \u00e9poca das trag\u00e9dias de Mariana e Brumadinho, que mostra qu\u00e3o adequadas e premonit\u00f3rias eram as previs\u00f5es cr\u00edticas do poeta. Refiro-me \u00e0 Lira Itabirana.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5p5cj\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cglnu\" class=\" eplus-wrapper\">I<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3ns21\" class=\" eplus-wrapper\">O Rio? \u00c9 doce.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-40bb5\" class=\" eplus-wrapper\">A Vale? Amarga.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8ob21\" class=\" eplus-wrapper\">Ai, antes fosse<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7mkar\" class=\" eplus-wrapper\">Mais leve a carga.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ea3\" class=\" eplus-wrapper\">II<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cefcr\" class=\" eplus-wrapper\">Entre estatais<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1brvt\" class=\" eplus-wrapper\">E multinacionais,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9ai94\" class=\" eplus-wrapper\">Quantos ais!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2dha7\" class=\" eplus-wrapper\">III<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dtnh4\" class=\" eplus-wrapper\">A d\u00edvida interna.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8h1rg\" class=\" eplus-wrapper\">A d\u00edvida externa<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aukjd\" class=\" eplus-wrapper\">A d\u00edvida eterna.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1mk0a\" class=\" eplus-wrapper\">IV<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7i589\" class=\" eplus-wrapper\">Quantas toneladas exportamos<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3blck\" class=\" eplus-wrapper\">De ferro?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9rj0d\" class=\" eplus-wrapper\">Quantas l\u00e1grimas disfar\u00e7amos<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-73aql\" class=\" eplus-wrapper\">Sem berro?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4vm35\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Engana-se quem pensa, contudo, que a poesia anti-extrativista n\u00e3o arrancava rea\u00e7\u00f5es da gigante estatal. Em plena ditadura militar, em 20 de novembro de 1970, a Vale publicou um an\u00fancio grande no jornal O Globo. Uma grande frase no topo da pe\u00e7a n\u00e3o deixa d\u00favidas sobre seu esp\u00edrito revanchista: H\u00e1 uma pedra no caminho do desenvolvimento brasileiro. Com a imagem de uma pedra de min\u00e9rio de ferro, o an\u00fancio comemorava a marca de 20 milh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio de ferro exportadas pela empresa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-boq07\" class=\" eplus-wrapper\">O an\u00fancio coincide com o lan\u00e7amento do chamado \u201cProjeto Cau\u00ea\u201d, que, ironicamente, decretaria o fim do pico que lhe dava nome. O projeto marcou uma nova escala na automatiza\u00e7\u00e3o da britagem e peneiramento, que cercou o morro e abriu as portas para o extrativismo desenfreado. Como na poesia, a montanha foi pulverizada. \u00c9 importante lembrar do projeto cau\u00ea para que nos lembremos de que o fato de \u00e0 \u00e9poca ser uma empresa estatal, n\u00e3o diminui o impacto ambiental e social do extrativismo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7pml\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: Tem um te\u00f3rico que chama Eduardo Gudynas, que pesquisa extrativismo. Ele fala que extrativismo continua sendo extrativismo, n\u00e9? O que acontece no caso dela ser estatal \u00e9 que ela \u00e9 socialmente compensada. C\u00ea tem uma pequena parcela que vai ser convertida em alguns direitos sociais no caso da Vale, por exemplo. Por isso que muitas vezes movimentos sociais criticam de falar de minera\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria. Porque se tem minera\u00e7\u00e3o, ela vai ser predat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-57l3p\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: A privatiza\u00e7\u00e3o que fez a Vale do Rio Doce virar s\u00f3 Vale, parece ter aprofundado seus processos extrativistas, com a diferen\u00e7a que, agora, o que havia de retorno social \u00e9 pulverizado junto com o que restava do Pico do Cau\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3acds\" class=\" eplus-wrapper\">Terceira parte: Cidade \u00e0 venda<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3sgum\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Se a Vale do Rio Doce virou Itabira e vice-versa no p\u00f3s-guerra, a pulveriza\u00e7\u00e3o do Pico do Cau\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m s\u00edmbolo da centralidade da cidade para a empresa. O Projeto Cau\u00ea parece ter sido o \u00faltimo suspiro no qual Itabira ainda era o centro da mineradora. Com a privatiza\u00e7\u00e3o de 1997, dez anos ap\u00f3s a morte de Carlos Drummond de Andrade, a empresa se internacionalizou e a cidade natal do poeta virou um pontinho, uma nota de rodap\u00e9, um mito de origem de uma das maiores mineradoras do mundo. Se houve um momento em que Itabira e Vale de fato se tornaram uma, a impress\u00e3o que fica \u00e9 que a privatiza\u00e7\u00e3o da empresa foi tamb\u00e9m a privatiza\u00e7\u00e3o da cidade. Como sintetizou brilhantemente Jos\u00e9 Miguel Wisnik:<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2lh5u\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LU\u00cdS<\/strong>: A cidade, acoplada simbioticamente a essa pot\u00eancia nascida das suas entranhas, vive na depend\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica dos ditames da companhia, sem ter se beneficiado, nem de longe, de um retorno correspondente ao gigantismo da empresa que gerou. A inusual promiscuidade de origem do s\u00edtio minerador com n\u00facleo urbano acarreta um impacto ambiental que se traduz em altos n\u00edveis de poeira de ferro em suspens\u00e3o, im\u00f3veis afetados pela dinamita\u00e7\u00e3o das rochas e assoreamento das fontes de \u00e1gua. Longe de ser reconhecida como v\u00edtima de uma intrus\u00e3o abusiva, \u00e9 a cidade que \u00e9 posta, na pr\u00e1tica, no lugar de intrusa, no momento em que bairros constru\u00eddos sobre veios de min\u00e9rio de ferro s\u00e3o obrigados a se deslocaram para permitir a continuidade da explora\u00e7\u00e3o at\u00e9 o esgotamento total do estoque (WISNIK, 2018, p. 120-121).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-60tra\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Quando o Wisnik fala que a cidade que parece ser a intrusa para a minera\u00e7\u00e3o passar, \u00e9 uma coisa que fica muito claro quando relembramos a mem\u00f3ria dos bairros deslocados e destru\u00eddos pela minera\u00e7\u00e3o \u2013 assunto do pr\u00f3ximo epis\u00f3dio da s\u00e9rie. Mas voltando \u00e0 Vale, \u00e9 publicamente not\u00f3rio que a privatiza\u00e7\u00e3o da Vale do Rio Doce foi, no m\u00ednimo, muito pol\u00eamica. Dentre os muitos motivos para se questionar seus processos, talvez o mais relevante seja o m\u00e9todo utilizado para calcular seu valor. Calculado a partir do pre\u00e7o m\u00ednimo por a\u00e7\u00e3o, o valor de 10,36 bilh\u00f5es estipulado pelo governo FHC foi, mesmo \u00e0 \u00e9poca, fortemente questionado. Entre outros motivos, cr\u00edticos apontavam que foi levado em conta o valor da empresa, mas n\u00e3o das reservas minerais que acabaram sendo privatizadas em conjunto. Voltando a Itabira, contudo, vemos que na pr\u00e1tica a cidade se tornou ainda mais dependente da Vale, com a diferen\u00e7a que, agora, sua import\u00e2ncia era muito pouca diante do grande conglomerado internacional que a empresa se tornou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-95alv\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>LUCAS<\/strong>: E com isso o que que isso vai afetar na l\u00f3gica local de Itabira. Primeiro que vai perder o nome de Rio Doce, que era algo que transformava ela numa quest\u00e3o legal. Vc tenta internacionalizar, vc tenta dissociar essa marca, vira s\u00f3 Vale. Muda as cores, n\u00e9? A Vale tinha uma cor de terra, n\u00e9? Que \u00e9 o min\u00e9rio n\u00e9? Uma alus\u00e3o ao min\u00e9rio. Ela passa a ter uma cor verde de sustentabilidade e o amarelo do Brasil. (\u2026) voc\u00ea passa a ter muito mais acidentes do trabalho e um aprofundamento da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, e isso a\u00ed, tem v\u00e1rios estudos que demonstram isso, n\u00e9? A vulnerabilidade do trabalhador terceirizado. Ent\u00e3o voc\u00ea tem v\u00e1rias empresas que prestam servi\u00e7o pra Vale. A vale quase n\u00e3o faz atividade fim hoje, ela \u00e9 praticamente uma gerente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-amsps\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: O Lucas tamb\u00e9m me contou que no processo de privatiza\u00e7\u00e3o o direito adquirido, presente na nossa constitui\u00e7\u00e3o, foi totalmente relativizado. Os trabalhadores perderam direitos e a constante terceiriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os prestados \u00e0 mineradora precarizou o trabalho e precarizou a cidade \u2013 ainda muito dependente das vagas de emprego em torno da minera\u00e7\u00e3o, ainda que hoje sejam uma fra\u00e7\u00e3o do que foram um dia. Em suma, se os problemas do extrativismo miner\u00e1rio e ontol\u00f3gico marcaram a hist\u00f3ria da Vale desde os seus primeiros suspiros itabiranos, a Vale S.A. o elevou a outro n\u00edvel, tratando como refugo de menor pot\u00eancia a cidade que um dia foi sua galinha dos ovos de ferro. O progresso prometido nunca chegou. Ficou o p\u00f3 de ferro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5cfcd\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>FERNANDA<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2lc7o\" class=\" eplus-wrapper\">A montanha Pulverizada<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-99vaa\" class=\" eplus-wrapper\">Chego \u00e0 sacada e vejo a minha serra,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3oehd\" class=\" eplus-wrapper\">a serra de meu pai e meu av\u00f4,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-djp74\" class=\" eplus-wrapper\">de todos os Andrades que passaram<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3aftv\" class=\" eplus-wrapper\">e passar\u00e3o, a serra que n\u00e3o passa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2m46o\" class=\" eplus-wrapper\">Era coisa dos \u00edndios e a tomamos<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c3mnl\" class=\" eplus-wrapper\">para enfeitar e presidir a vida<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a07pc\" class=\" eplus-wrapper\">neste vale soturno onde a riqueza<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fjd73\" class=\" eplus-wrapper\">maior \u00e9 sua vista e contempl\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-67j\" class=\" eplus-wrapper\">De longe nos revela o perfil grave.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8ofsh\" class=\" eplus-wrapper\">A cada volta de caminho aponta<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cvife\" class=\" eplus-wrapper\">uma forma de ser, em ferro, eterna,<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6rnkc\" class=\" eplus-wrapper\">e sopra eternidade na flu\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6c6fb\" class=\" eplus-wrapper\">Esta manh\u00e3 acordo e<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2r6et\" class=\" eplus-wrapper\">n\u00e3o a encontro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3f1ne\" class=\" eplus-wrapper\">Britada em bilh\u00f5es de lascas<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5ol08\" class=\" eplus-wrapper\">deslizando em correia transportadora<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-af75r\" class=\" eplus-wrapper\">entupindo 150 vag\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-143lh\" class=\" eplus-wrapper\">no trem-monstro de 5 locomotivas<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b1cdg\" class=\" eplus-wrapper\">\u2014 o trem maior do mundo, tomem nota \u2014<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7r8aj\" class=\" eplus-wrapper\">foge minha serra, vai<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c2f04\" class=\" eplus-wrapper\">deixando no meu corpo e na paisagem<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-16brt\" class=\" eplus-wrapper\">m\u00edsero p\u00f3 de ferro, e este n\u00e3o passa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b6uao\" class=\" eplus-wrapper\"><strong>YAMA<\/strong>: Na terceira parte dessa s\u00e9rie, eu interrompo por um instante a conversa com a poesia drummondiana e falo com o Lucas Nasser sobre aquilo que foi o centro do seu livro: o impacto da minera\u00e7\u00e3o nas remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas duas vilas itabiranas, Explosivo e Vila Paci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aova4\" class=\" eplus-wrapper\">Antes de encerrar esse epis\u00f3dio, eu gostaria de divulgar o pedido dos cidad\u00e3os de Moeda, Minas Gerais. Moeda \u00e9 mais uma das cidades mineiras sendo consumida pela minera\u00e7\u00e3o. Na descri\u00e7\u00e3o se encontra um link para um v\u00eddeo, que \u00e9 um pedido de socorro. Os impactos da minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o acabam. A destrui\u00e7\u00e3o do extrativismo \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o do que vai virar barragem de rejeito depois. \u00c9 hora de lutar para que Minas Gerais n\u00e3o se torne, por for\u00e7a do extrativismo, Barragens Gerais num futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1170u\" class=\" eplus-wrapper\">Este epis\u00f3dio foi roteirizado e produzido por mim, Yama Chiodi. A revis\u00e3o foi da coordenadora do Oxig\u00eanio, Simone Pallone. Quem narrou as poesias do Drummond foi a Fernanda Capuvilla e quem conversou comigo foi o Lucas Nasser. O Luiz Leal do Artigo158 foi quem narrou a passagem do livro do Jos\u00e9 Miguel Wisnik.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ni17\" class=\" eplus-wrapper\">A edi\u00e7\u00e3o do \u00e1udio foi feita pela Elisa Valderano. O Oxig\u00eanio \u00e9 um podcast produzido pelos alunos do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo da Unicamp e colaboradores externos. Tem parceria com a Secretaria Executiva de Comunica\u00e7\u00e3o da Unicamp e apoio do Servi\u00e7o de Aux\u00edlio ao Estudante, da Unicamp. Al\u00e9m disso, contamos com o apoio da FAPESP, que financia bolsas como a que me apoia neste projeto de divulga\u00e7\u00e3o do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ci\u00eancia e Tecnologia, o GEICT.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6na1e\" class=\" eplus-wrapper\">A lista completa de cr\u00e9ditos para os sons e m\u00fasicas utilizados voc\u00ea encontra na descri\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6de9c\" class=\" eplus-wrapper\">Voc\u00ea encontra todos os epis\u00f3dios no site oxigenio.comciencia.br e na sua plataforma preferida. No Instagram e no Facebook voc\u00ea nos encontra como Oxig\u00eanio Podcast. Segue l\u00e1 pra n\u00e3o perder nenhum epis\u00f3dio! Aproveite para deixar um coment\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ffuhh\" class=\" eplus-wrapper\">Aerial foi composta por Bio Unit; Documentary por Coma-Media. Ambas sob licen\u00e7a Creative Commons.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-akala\" class=\" eplus-wrapper\">Ambos os sons de trens utilizados nesse epis\u00f3dio foram feitos por Sandro Lima e s\u00e3o livres para uso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4rjbq\" class=\" eplus-wrapper\">Os sons de rolha e os loops de baixo s\u00e3o da biblioteca de loops do Garage Band.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-s6oh\" class=\" eplus-wrapper\">Livro do Lucas Nasser: Entre a vila e a mina viola\u00e7\u00f5es de direitos<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Baixe gratuitamente em: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/experteditora.com.br\/entre-a-vila-e-a-mina\/\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/experteditora.com.br\/entre-a-vila-e-a-mina\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade de Ferro \u00e9 uma parceria entre o GEICT e o podcast Oxig\u00eanio. 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