{"id":874,"date":"2026-03-06T16:04:59","date_gmt":"2026-03-06T19:04:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/?p=874"},"modified":"2026-03-10T16:21:41","modified_gmt":"2026-03-10T19:21:41","slug":"cop-30-ou-podemos-chamar-de-cop-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/2026\/03\/06\/cop-30-ou-podemos-chamar-de-cop-indigena\/","title":{"rendered":"COP 30, ou podemos chamar de COP ind\u00edgena?"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-code eplus-wrapper\"><code>Por Martha Fellows<\/code><\/pre>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Uma pincelada de hist\u00f3ria<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nesse pequeno relato, conto um pouco da hist\u00f3ria de cria\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia de Clima e como foi a participa\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas, com especial destaque para os ind\u00edgenas brasileiros a partir do olhar de uma aliada dos movimentos ind\u00edgenas que acompanha a pauta h\u00e1 mais de dez anos. A sigla \u201cCOP\u201d invadiu a vida de muitas pessoas apenas a partir de 2025, pois sua trig\u00e9sima edi\u00e7\u00e3o aconteceu em solo canarinho. Para garantir que todos estamos na mesma p\u00e1gina, vou partir do in\u00edcio de cria\u00e7\u00e3o dessa Confer\u00eancia. Caso a Confer\u00eancia de Clima (COP) e os outros acr\u00f4nimos que a rondam j\u00e1 fa\u00e7am parte do seu vocabul\u00e1rio, fique \u00e0 vontade para pular algumas linhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Come\u00e7ando do princ\u00edpio, a COP surge a partir de uma sequ\u00eancia de acontecimentos internacionais. Diversas cat\u00e1strofes ambientais estavam deixando de ser tratadas apenas como um problema dom\u00e9stico, passando para a pauta internacional<sup data-fn=\"1feed11d-fb08-430b-a766-2a4b29b5d0b8\" class=\"fn\"><a href=\"#1feed11d-fb08-430b-a766-2a4b29b5d0b8\" id=\"1feed11d-fb08-430b-a766-2a4b29b5d0b8-link\">1<\/a><\/sup>. Uma das pedras fundamentais para a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o plural de debate entre tomadores de decis\u00e3o do mundo todo, foi o lan\u00e7amento do primeiro relat\u00f3rio do <a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/about\/history\/\">Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7a do Clima (IPCC), das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)<\/a>. Publicado em 1990, esse documento re\u00fane evid\u00eancias que apontam as atividades humanas como as respons\u00e1veis pela altera\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es clim\u00e1ticos com o intuito de informar a sociedade e os l\u00edderes globais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large is-resized eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"686\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-1024x686.jpg\" alt=\"Foto: Aotearoa. Fonte: Wikimedia\/Wikicommons.\" class=\"wp-image-877\" style=\"aspect-ratio:1.4927141226030045;width:710px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-1024x686.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-768x514.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-1536x1028.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-500x335.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-800x536.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-1280x857.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-360x240.jpg 360w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2-272x182.jpg 272w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/UN_Members_Flags2.jpg 1840w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Bandeiras dos Estados-membros na <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sede_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas\">Sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a>.<\/sup><\/sub> <sub><sup>Foto: Aotearoa. Fonte: Wikimedia\/Wikicommons.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Com o fim da Guerra Fria, criou-se a impress\u00e3o de que o mundo vivia a alvorada das rela\u00e7\u00f5es multilaterais. Sem entrar em detalhes, este contexto hist\u00f3rico nos ajuda a entender como pa\u00edses que at\u00e9 ent\u00e3o se situavam em p\u00f3los opostos como os Estados Unidos da Am\u00e9rica e a R\u00fassia, se abriram a agendas colaborativas. Essa mudan\u00e7a de ares resultou na Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, ou simplesmente, Eco-92, que inundou a cidade do Rio de Janeiro em junho de 1992, levando at\u00e9 a ela centenas de chefes de Estado. Como resultado imediato, nascem desse evento as trig\u00eameas: Confer\u00eancias de Clima (COP), da Diversidade Biol\u00f3gica (CDB) e da Desertifica\u00e7\u00e3o (UNCCD).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nesse universo de sopa de letrinhas que n\u00e3o para de crescer, cada Confer\u00eancia est\u00e1 sob o mandato de um \u00f3rg\u00e3o espec\u00edfico das Na\u00e7\u00f5es Unidas, sendo a COP de Clima regida pela Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima (UNFCCC). Seu primeiro e perene objetivo \u00e9 combater a mudan\u00e7a do clima ao limitar o aumento da temperatura global, buscando formas de reduzir os impactos decorrentes desse fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Povos ind\u00edgenas das esquinas&#8230;\u00a0<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Em textos acad\u00eamicos raramente nos descrevemos, mas acho importante me situar para que n\u00e3o haja controv\u00e9rsias. Sou uma mulher n\u00e3o-ind\u00edgena, portanto, n\u00e3o pretendo falar por essas pessoas. Minha inten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 compartilhar um peda\u00e7o da hist\u00f3ria que acompanho como testemunha ocular desde 2014, al\u00e9m das leituras e estudos que busco para enriquecer meu entendimento sobre esses fatos. Tudo isso \u00e9 fruto de um trabalho desenvolvido em alian\u00e7a com lideran\u00e7as e organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, que procuro fazer com muito respeito. Assim sendo, espero que os leitores entendam meu vi\u00e9s e meus limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Sabendo o objetivo central das COPs, sua estrutura n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o expl\u00edcita. Pensada em um formato que restringe a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, o espa\u00e7o da Confer\u00eancia de Clima foi originalmente desenhado para que negociadores de pa\u00edses representassem os interesses e a vis\u00e3o de 199 na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large is-resized eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"511\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-1024x511.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-878\" style=\"aspect-ratio:2.0038965334306362;width:676px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-1024x511.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-768x383.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-1536x767.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-2048x1022.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-500x250.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-800x399.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-1280x639.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/07.11.2025_\u2013_Fotografia_oficial_da_Cupula_do_Clima_COP30_54907903518-1920x958.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fotografia oficial da C\u00fapula do Clima (COP30). Foto: Ricardo Stuckert\/PR. Fonte: Wikimedia\/Wikicommons.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Com o passar dos anos, a sociedade civil passou a pressionar por mais abertura e participa\u00e7\u00e3o. Assim, organiza\u00e7\u00f5es com trabalho comprovado na \u00e1rea de mudan\u00e7a do clima passaram a acessar a COP como \u201cobservadoras\u201d. Essa foi uma forma encontrada para conectar observadores e negociadores, abrindo os primeiros di\u00e1logos e a possibilidade de influ\u00eancia, por parte da sociedade civil, para a tomada de decis\u00f5es. Uma abertura t\u00edmida, mas poss\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ainda na toada de explica\u00e7\u00e3o do funcionamento da COP, vou tentar ilustrar com voc\u00eas como se d\u00e1 a geografia das Confer\u00eancias. Imaginem uma grande \u00e1rea azul e com c\u00edrculos cor-de-rosa dentro dela. Ao lado, mas sem contato direto, h\u00e1 uma \u00e1rea verde. A \u00e1rea azul, ou a \u201czona azul\u201d \u00e9 restrita aos que t\u00eam credenciais para adentrar o espa\u00e7o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 sim, seja no Brasil ou no Egito, o local das negocia\u00e7\u00f5es \u00e9 considerado um espa\u00e7o internacional. Dentro da zona azul, h\u00e1 a segunda barreira, que s\u00e3o as salas onde as negocia\u00e7\u00f5es propriamente acontecem, aqui representadas por c\u00edrculos rosas. A zona verde surgiu alguns anos depois como uma ala aberta e dedicada \u00e0 sociedade civil, que, via de regra, negociador n\u00e3o frequenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Eu comentei sobre os acessos das organiza\u00e7\u00f5es observadoras, certo? Bom, se sua credencial for amarela, voc\u00ea pode circular pela zona azul, mas n\u00e3o pode acessar as salas de negocia\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser em casos espec\u00edficos. As salas de negocia\u00e7\u00e3o exigem, portanto, uma credencial de \u201cpa\u00eds\u201d da cor rosa, que permite, a\u00ed sim, entrar em espa\u00e7os mais exclusivos. Apesar da simplifica\u00e7\u00e3o, essa divis\u00e3o representa de forma grosseira como os espa\u00e7os se subdividem (Figura 1). Ent\u00e3o, se vamos al\u00e9m, h\u00e1 outras cores de credenciais e outros espa\u00e7os mais exclusivos do que esses que descrevi.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large is-resized eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-1024x576.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o representativa dos diferentes espa\u00e7os de negocia\u00e7\u00e3o da COP. \" class=\"wp-image-876\" style=\"width:638px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho-1280x720.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/COP30_desenho.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Figura 1: Ilustra\u00e7\u00e3o representativa dos diferentes espa\u00e7os de negocia\u00e7\u00e3o da COP. Autoria: Martha Fellows.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Em meio aos recortes e exclus\u00f5es, os ind\u00edgenas percorrem um caminho ainda mais longo para se projetarem dentro da COP e terem suas vis\u00f5es refletidas nos textos finais das negocia\u00e7\u00f5es. O grau de formalidade e burocracia exigido para o cadastro de observadores \u00e9 alto. Isso deixa muitas organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas de fora do sistema da UNFCCC, no Brasil, por exemplo, muitas n\u00e3o t\u00eam CNPJ. N\u00e3o por falta de vontade, mas porque esse \u00e9 um modelo colonizador e reducionista de entender formas plurais de organiza\u00e7\u00e3o. Outro limite \u00e9 o idioma. Dentro do espa\u00e7o da UNFCCC h\u00e1 apenas seis l\u00ednguas oficiais, sendo o ingl\u00eas o idioma corrente. Essa restri\u00e7\u00e3o impede uma participa\u00e7\u00e3o mais ampla daqueles que, em muitos casos, j\u00e1 s\u00e3o for\u00e7ados a se comunicar em uma segunda l\u00edngua (o portugu\u00eas), que n\u00e3o sua l\u00edngua materna. C\u00f3digos de conduta e formas de manifesta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m inibem a express\u00e3o de culturas t\u00e3o diversas. Esse pacote acaba encapsulando e coibindo a presen\u00e7a de povos ind\u00edgenas no espa\u00e7o da UNFCCC.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>&#8230;para o centro<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A palavra \u201cresili\u00eancia\u201d ganhou f\u00f4lego nos \u00faltimos tempos. Todos buscam ser resilientes para, de alguma forma, resistir aos impactos da mudan\u00e7a do clima \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 nada justo com aqueles que n\u00e3o causaram o problema. Um bom momento \u00e9 aquele em que voc\u00ea sai diferente de como entrou. Foi assim em 2024 quando participei de um evento paralelo sobre resili\u00eancia. Um dos palestrantes, Ronaldo Amanay\u00e9, da Federa\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Par\u00e1 (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fepipa_oficial\/\">FEPIPA<\/a>), me questionou por que usar a express\u00e3o \u201cresili\u00eancia\u201d, dando a entender que o conceito pudesse ter sido cunhado pelos ind\u00edgenas. No momento fiquei pensativa, porque para mim a origem da palavra vinha das ci\u00eancias naturais. Mas o Ronaldo, e muitos outros, t\u00eam raz\u00e3o, afinal, existir em sua plenitude depois de s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">De forma resiliente, lideran\u00e7as ind\u00edgenas foram ent\u00e3o conquistando espa\u00e7o na COP. Algumas organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas passaram a ter status de observadora, outras foram fortalecendo alian\u00e7as com parceiros t\u00e9cnicos e pol\u00edticos, o que possibilitou uma presen\u00e7a de maior peso. Em 2008, o Caucus Ind\u00edgena ganhou forma e passou a ser reconhecido como uma inst\u00e2ncia leg\u00edtima de representa\u00e7\u00e3o perante a UNFCCC. Em 2015, no ano em que muitos olhos estavam voltados \u00e0 capital francesa diante da assinatura do Acordo de Paris, surge a Plataforma de Comunidades Tradicionais e Povos Ind\u00edgenas (LCIPP). Tal espa\u00e7o abre novas possibilidades de di\u00e1logo entre organiza\u00e7\u00f5es e representantes ind\u00edgenas, negociadores e tomadores de decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Chegamos a 2025 com um caminho, certamente com muitos buracos e falhas, mas minimamente pavimentado. O cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro tamb\u00e9m foi fundamental para que povos ind\u00edgenas tivessem uma participa\u00e7\u00e3o mais ativa. Pela primeira vez, o pa\u00eds tinha um Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas (MPI), conduzido por S\u00f4nia Guajajara, lideran\u00e7a internacionalmente reconhecida. Sua articula\u00e7\u00e3o logrou garantir um espa\u00e7o f\u00edsico para acolher cerca de tr\u00eas mil ind\u00edgenas do mundo todo. A aldeia COP, como ficou batizada, teve uma programa\u00e7\u00e3o de eventos, rotinas e manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, sempre atentos \u00e0s particularidades culturais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large is-resized eplus-wrapper\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-1024x683.jpg\" alt=\"Fachada da Aldeia COP. Foto: Martha Fellows.\" class=\"wp-image-879\" style=\"aspect-ratio:1.4992860651486386;width:608px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-500x333.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-800x533.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-360x240.jpg 360w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-9-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Fachada da Aldeia COP. Foto: Martha Fellows.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No entanto, n\u00e3o foi poss\u00edvel garantir credenciais para todas essas pessoas. Ent\u00e3o, em um processo costurado junto ao Caucus Ind\u00edgena e suas sete etnoregi\u00f5es, o governo brasileiro e a UNFCCC credenciaram mil pessoas ind\u00edgenas, sendo uma metade para brasileiros e outra para ind\u00edgenas das demais partes do globo. Assim, essas lideran\u00e7as puderam acessar a zona azul da UNFCCC. Al\u00e9m das credenciais, <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/instituto-rio-branco\/noticias\/programa-201ckuntari-katu-lideres-indigenas-na-politica-global201d\">o MPI promoveu o Programa Kuntari Katu<\/a>, em alian\u00e7a com o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Seu objetivo era formar 31 negociadores ind\u00edgenas com acesso aos espa\u00e7os de tomada de decis\u00e3o em um processo que durou um ano e meio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Infelizmente, nem tudo na vida s\u00e3o flores, <a href=\"https:\/\/news.un.org\/pt\/story\/2025\/11\/1851535\">as manifesta\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas do povo Munduruku durante a COP<\/a> evidenciaram a dist\u00e2ncia entre discursos e a\u00e7\u00f5es efetivas para que os direitos fundamentais dos povos ind\u00edgenas sejam respeitados. Alessandra Munduruku e outras lideran\u00e7as se reuniram pacificamente em frente \u00e0 entrada da COP para chamar aten\u00e7\u00e3o para as viola\u00e7\u00f5es que acontecem sistematicamente no estado do Par\u00e1, que antes de ser paraense, era Munduruku, Kayap\u00f3, Temb\u00e9, Parakan\u00e3, Tapaj\u00f3, Gavi\u00e3o, Amanay\u00e9, entre outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large is-resized eplus-wrapper\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-1024x683.jpg\" alt=\"Estruturas da Aldeia COP. Foto: Martha Fellows.\" class=\"wp-image-880\" style=\"aspect-ratio:1.4992860651486386;width:597px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-500x333.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-800x533.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-360x240.jpg 360w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-7-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Estruturas da Aldeia COP. Foto: Martha Fellows.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ao fim da COP30, ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas deixaram Bel\u00e9m frustrados com os fracos resultados da Confer\u00eancia e pouco avan\u00e7o em temas cruciais para o clima, como o fim dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Essas frustra\u00e7\u00f5es v\u00e3o se acumulando ao longo dos anos, o que pode suscitar a pergunta se faz sentido lutar por um espa\u00e7o que parece um le\u00e3o desdentado, pois h\u00e1 mais de 30 anos os pa\u00edses t\u00eam se reunido para propor solu\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 mudan\u00e7a do clima com baixa capacidade de resolu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que os impactos clim\u00e1ticos t\u00eam sido cada vez mais evidentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Com ou sem dentes, esse \u00e9 o le\u00e3o que ainda mobiliza e promove projetos e pol\u00edticas que promovem a justi\u00e7a clim\u00e1tica. E mesmo diante dos limites que se imp\u00f5em, ainda h\u00e1 avan\u00e7os consider\u00e1veis. Basta pensar que uma lideran\u00e7a ind\u00edgena, como Sineia do Vale do povo Wapichana, estava entre os enviados especiais da presid\u00eancia da COP, espa\u00e7o antes impens\u00e1vel de ser ocupado por pessoas ind\u00edgenas; que quatro terras ind\u00edgenas foram homologadas e dez tiveram suas portarias declarat\u00f3rias assinadas; que nunca antes os corredores e salas de evento tiveram uma assist\u00eancia t\u00e3o diversa. Sem ser leviana, n\u00e3o vou chamar a COP30 de COP ind\u00edgena, ainda estamos longe disso. Mas certamente o mundo est\u00e1 entendendo que \u00e9 preciso abrir espa\u00e7o para que os ind\u00edgenas saiam das esquinas e estejam no centro do debate. Saio da COP30 com a esperan\u00e7a de que essa seja uma importante p\u00e1gina no livro da hist\u00f3ria do clima.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large is-resized eplus-wrapper\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-881\" style=\"aspect-ratio:1.4992860651486386;width:595px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-500x333.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-800x533.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-360x240.jpg 360w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geict\/wp-content\/uploads\/sites\/296\/2026\/03\/Aldeia-COP-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub><sup>Estruturas da Aldeia COP. Foto: Martha Fellows.<\/sup><\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"1feed11d-fb08-430b-a766-2a4b29b5d0b8\">Paglia, E. The Swedish initiative and the 1972 Stockholm Conference: the decisive role of science diplomacy in the emergence of global environmental governance. <em>Humanit Soc Sci Commun<\/em> 8, 2 (2021). https:\/\/doi.org\/10.1057\/s41599-020-00681-x <a href=\"#1feed11d-fb08-430b-a766-2a4b29b5d0b8-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pincelada de hist\u00f3ria Nesse pequeno relato, conto um pouco da hist\u00f3ria de cria\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia de Clima e como foi a participa\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas, com especial destaque para os ind\u00edgenas brasileiros a partir do olhar de uma aliada dos movimentos ind\u00edgenas que acompanha a pauta h\u00e1 mais de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":726,"featured_media":879,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":"[{\"id\":\"1feed11d-fb08-430b-a766-2a4b29b5d0b8\",\"content\":\"Paglia, E. 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