Ciência e Literatura no Brasil

Alguém me pediu para escrever sobre a presença de cientistas na literatura brasileira, tanto como autores quanto como personagens. Tarefa mais do que árdua. A atividade científica me parece ser quase totalmente ignorada não só pelo brasileiro médio, mas até mesmo pela parcela formalmente educada da população. Há não muito tempo, ouvi o discurso de um político de esquerda, Fernando Gabeira (que também é escritor), atualmente recebendo muita atenção dos meios de comunicação, afirmar que não se deslumbra tanto com as conquistas da ciência porque se lembrava das bombas de Hiroshima e Nagasaqui. Não creio que fosse muito útil explicar-lhe a diferença entre ciência e tecnologia (aliás, o nome do ministério, que ele persegue com notável entusiasmo, é esse porque deve ficar bem claro que não são a mesma coisa). Numa entrevista à revista Caros Amigos, o escritor e ícone popular brasileiro Ariano Suassuna, talvez o artista mais influente e conhecido atualmente no Brasil, disse que achava a teoria da Seleção Natural uma idéia socialmente perigosa porque “pregava” a luta inclemente e a vitória do mais forte (as palavras usadas pelo escritor não foram exatamente estas, mas o sentido é exato). Claramente o artista tem uma idéia muito vaga do que seja a seleção natural e toma as interpretações capitalistas e racistas feitas por alguns mal intencionados como a teoria em si. Nada de se surpreender em um país onde um religioso de certa proeminência afirma não crer na Evolução porque ninguém presencia atualmente macacos se transformarem em homens (a não ser talvez em circos). Na própria ficção científica (da qual sou leitor assíduo), a imagem do cientista brasileiro está quase completamente ausente e quando aparece é sob a imagem distorcida, mas tristemente comum, do cientista louco ou amoral, o exemplo mais típico e maniqueísta que conheço é o de um físico personagem do livro Silicone XXI do ex-candidato à Presidência da República Alfredo Sirkis, do mesmo partido de Fernando Gabeira. Ironicamente, o único autor que conheço de ficção científica que cria uma imagem decente e plausível de um cientista de origem brasileira é o americano Orson Scott Card em seu livro Orador dos Mortos (Speaker for the Dead). Isso não é só triste, é trágico. Não creio que haja realmente uma percepção pública da ciência e do cientista no Brasil, a não ser em termos de uma certa desconfiança em relação às manipulações da natureza como uma “ofensa a Deus”, triste reminiscência de nossa herança inquisitorial ibérica perenizada pelo descaso com a educação no país. Seria na verdade paradoxal se houvesse algum tipo de abordagem do cientista na literatura e nas artes em geral no Brasil, apesar de grandes cientistas brasileiros terem se ocupado com atividades artísticas, já que os que lêem, os pouquíssimos que ainda lêem, pouco ou nenhum interesse têm pela Ciência e os cientistas interessados em Literatura são uma espécie ainda mais rara.

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