Sustentabilidade da agricultura no semi-árido brasileiro II

A perda da diversidade vegetal em regiões semi-áridas pode levar a uma diminuição da produtividade secundária, entendida como a capacidade da vegetação em manter herbívoros que dela se alimentam, causada pelo pastejo excessivo por uma pequena quantidade de espécies domesticadas, problema que se agrava em regiões onde a vegetação não evoluiu exposta a mamíferos herbívoros.
Uma questão a ser cuidadosamente ponderada quanto ao uso da vegetação nativa do semi-árido como pastagem é a constatação de que pastagens nativas em regiões áridas e semi-áridas severamente degradadas podem não voltar ao estado original mesmo quando abandonadas por décadas.
Há um modelo conceptual visando ordenar as etapas de degradação da vegetação nativa em ambientes áridos e semi-áridos pelo pastejo por animais domésticos: a primeira etapa da degradação é a mudança na estrutura etária das populações de plantas, onde espécies tóxicas ou de baixa palatabilidade têm sua densidade aumentada, enquanto plântulas de espécies forrageiras se tornam mais raras. O decréscimo na diversidade e produtividade da vegetação nativa é a segunda etapa do processo de degradação, seguida pela redução da cobertura vegetal perene. A última etapa é o deserto antrópico, em que toda a cobertura vegetal é perdida e os processos de erosão e salinização do solo são acelerados.
O pesquisador americano Stephen Gliessman afirma em seu livro Agroecologia que “a diversidade [ecológica] é, simultaneamente, um produto, uma medida e uma base da complexidade de um sistema – e, portanto, da sua habilidade de manter um funcionamento sustentável”. A importância de se manter não só a diversidade de espécies, mas também de nichos, de grupos funcionais no sistema é que a interação entre as populações proporciona o surgimento do que os ecólogos chamam de qualidades emergentes, possíveis apenas ao se atingir certa medida de diversidade, essenciais no estabelecimento da sustentabilidade em ecossistemas naturais e, acredita-se, na de agroecossistemas também.
Segundo Gliessman o manejo de um agroecossistema deve levar em conta as interações de toda a comunidade (conjunto de populações de espécies) aí presentes, bem como as interações entre as comunidades e o meio físico (ambiente), visto que “as práticas convencionais de manejo atuam principalmente nos níveis individual ou populacional” visando o controle rígido e a máxima homogeneização do sistema, eliminando as interações benéficas que pudessem contribuir à sustentação, porque “somente com alta diversidade poderá existir potencial para as interações benéficas”.
Não é opinião isolada que pouco há a se fazer no que tange à melhoria da sustentabilidade da agricultura ora praticada no semi-árido nordestino, de maneira que criatividade, espírito empreendedor e muita e boa ciência devem ser usados em conjunto não apenas para “encontrar soluções” mas antes de tudo para por em prática as soluções que indubitavelmente já existem.

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