Pedologia, ciência histórica I

Existe um espinho incômodo na carne dos cientistas dos solos, principalmente naqueles que se dedicam ao ramo da Ciência do Solo chamado Pedologia. O espinho é uma pergunta incômoda: a Pedologia é uma ciência? Pedologia em geral é definida como “o estudo da gênese, morfologia, distribuição e uso do solo”. Há uma antiga visão de ciência como um “método geral completo, fundamentado na observação por mentes conscientemente livres de preconceitos sociais e usando ferramentas universais da razão para acumular conhecimentos confiáveis que levariam a um cada vez maior entendimento teórico das causas” nas palavras do já falecido Stephen Jay Gould. Vista desta maneira, a ciência seria uma infindável coleta sem critérios de informações que automaticamente levariam ao conhecimento da verdade e do mundo, o cientista seria idealmente um autômato coletor de dados. Hoje, entretanto, parece haver um consenso de que a prática científica consiste basicamente em testar experimentalmente hipóteses surgidas ou não de observações. Eis aí nosso problema. Embora na Europa Pedologia seja usada quase como um sinônimo de Ciência do Solo, nós, seguindo os americanos, entendemos Pedologia principalmente como o ramo que descreve os fatores e processos que levam à formação dos solos. Os solos modernos foram formados em algum ponto do passado, sob condições ambientais porventura diferentes das atuais, os fatores e processos que deram origem aos solos que aí estão não foram obviamente observados em ação no momento da gênese destes solos. Assim, o pedólogo não pode afirmar com certeza absoluta que determinada variável ambiental, em determinada quantidade, agiu desta ou daquela maneira para dar origem a certo solo desenvolvido em tempos já passados. Para explicar a formação dos solos partimos da observação dos fatores físicos, químicos e biológicos ocorrendo hoje e criamos modelos plausíveis. Ao contrário de outros ramos da ciência, não há como “aplicar” um certo clima sobre alguma rocha e controlar todos os outros fatores de formação do solo em um sítio experimental qualquer e observar depois de um tempo que solo foi formado. Entre outras coisas, a gênese dos solos é lenta. Esta impossibilidade de criar um solo experimentalmente é a causa da dúvida sobre a natureza científica da Pedologia. Ao ler recentemente o livro “Biologia, ciência única” do biólogo evolucionista Ernst Mayr, com felicidade e surpresa encontrei o seguinte trecho: “A biologia evolutiva, ao contrário da física e da química, é uma ciência histórica – o evolucionismo tenta explicar eventos e processos que já ocorreram. Leis e experimentos não são técnicas apropriadas para a explicação de tais eventos e processos. Em vez disso, é preciso construir uma narrativa histórica, que consista em uma reconstrução experimental de um cenário em particular que tenha levado aos eventos que se está tentando explicar”, ora, é exatamente isto o que fazem os pedólogos! A recriação dos processos que levaram à formação de um determinado solo não deixa de ser um processo histórico. Apesar de vermos e até medirmos alguns dos processos que levarão ou poderão levar à formação de um solo, ninguém acompanhou todo (ou sequer uma pequena parte) dos eventos que culminaram nos solos de hoje. Criamos modelos de desenvolvimento de solos mais ou menos plausíveis mas não temos como observar todo o processo pedogenético desde o intemperismo até o momento em que a descrição do perfil o enquadra em uma classe já existente. Eis aí um ponto em comum entre a Pedologia e a Biologia Evolutiva. (Continua)

Discussão - 6 comentários

  1. fernanda disse:

    precisa de mais coisas tem so besteira seus bando de imprestavel

  2. Italo M. R. Guedes disse:

    Cara Fernanda,
    Gostaríamos que você especificasse que outras coisas são necessárias, o que você classifica de besteiras e por que somos imprestáveis. As pessoas que fazem este blog são profissionais sérios e os posts são feitos pressupondo-se que os leitores também o sejam, o que nem sempre é verdade. O que temos observado, no entanto, é um número considerável de leitores imaturos, em geral com idade entre 14 e 23 anos, estudantes de ensino médio ou graduação que simplesmente querem textos prontos para que possam convenientemente plagiar por serem incapazes de produzir algo original, já que sofrem de graus variáveis de imbecilidade crônica, o que não imagino que seja seu caso, porque a mensagem que escreveu deixa claro que a leitora deve ser uma conceituada acadêmica, talvez da área de lingüística. É uma pena que o Geófagos não atinja seu nível de exigência.
    Cordialmente,
    Ítalo Moraes Rocha Guedes

  3. andréa disse:

    Ítalo, nao se incomede com pessoas como a fernanda, a ignorância no assunto leva à esse tipo de comentário.
    gostei muito das informações contidas e espero receber por email assusntos relativos à essa área.

  4. Italo M. R. Guedes disse:

    Cara Andréa,
    Muito obrigado por seu comentário. Apesar destes contratempos, felizmente constatamos que a grande maioria dos que nos lêem são pessoas sérias que em geral ficam satisfeitas com o que encontram aqui e costumam voltar. Cada vez mais destes leitores comentam e passam a realmente participar do Geófagos. Não se preocupe que manteremos a constância e a qualidade dos posts.

  5. Gabriel Mendes Batista disse:

    voces deviam falar especificamente dos tipos de solo

  6. Carlos Pacheco disse:

    Caro Gabriel,
    A partir da semana que vem começarei uma série de posts sobre a gênese de solos tropicais e também sobre os principais solos de ocorrência nessas condições. Espero que você os leia.
    Muito obrigado pela sugestão.

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