Pedologia, ciência histórica II

No post anterior, mostrei que o ponto comum entre a Biologia Evolucionista e a Pedologia é a historicidade dos eventos que levam à formação das espécies para a primeira e à gênese dos solos para a segunda. Esta historicidade faz com que a estrutura teórica de ambas as disciplinas sejam um tanto quanto diferente de outras ciências, Física e Química principalmente. Quando falo de estrutura teórica refiro-me à enunciação de leis científicas. Vejamos novamente o que diz Esnst Mayr: “Leis certamente desempenham um papel, ainda que pequeno, na construção de teorias em biologia. A razão principal dessa menor importância das leis na formulação de teorias biológicas talvez seja o papel principal do acaso e da aleatoriedade em sistemas biológicos. Outras razões para o pequeno papel das leis são o caráter único de um alto percentual dos fenômenos em sistemas vivos e também a natureza histórica dos eventos.” Este trecho me faz lembrar uma das primeiras perguntas que fiz na disciplina de Gênese e Classificação dos Solos, ainda na graduação. Quando a professora nos mostrou um bloco de rocha já bastante intemperizado, sobre o qual cresciam líquenes e briófitas, e nos disse que víamos ali o estágio inicial de um solo, perguntei-lhe qual classe de solo seria formada. A resposta dada me pareceu evasiva, o que era estranho porque era uma excelente professora. Embora não soubesse expressar minhas crenças, achava que havia leis deterministas capazes de explicar a formação do solo. Esperei entaõ que, baseada no tipo de rocha e nas características ambientais circundantes, a professora me pudesse dizer que tipo de solo haveria naquele lugar após tantos anos. Neste ponto, permito-me ir um pouco mais além de Mayr, vito que me parece que a dimensão histórica está muito mais presente no estudo da formação do solo do que no da origem das espécies. A química de um solo qualquer, por exemplo, varia muito dependendo do estágio de desenvolvimento do mesmo. A reação (pH) de um solo jovem (pouco intemperizado) pode ser bem distinta da reação de um solo maduro (muito intemperizado), assim como a composição química e mineralógica. Na verdade, a própria estrutura variará de acordo com o estágio de desenvolvimento. É bom lembrar que um solo não tem DNA que direcione seu desenvolvimento ou estabeleça limites à sua composição, quer seja química, quer seja física, quer biológica. Um animal terá os mesmos órgãos, independentemente de sua idade. As células de uma planta serão em geral semelhantes, apesar de diferenças taxonômicas. Há características comuns ligando todos os seres vivos conhecidos. Não assim os solos. Aliás, aproveito para dissuadir meus leitores e colegas de um erro que já vi ser cometido repetidas vezes. Apesar de haver inúmeras analogias possíveis entre Biologia Evolucionista e Pedologia, solos não são organismos vivos da mesma forma que animais e plantas. Um dos primeiros pedólogos americanos, Marbut, chegou a fazer a analogia entre a classificação dos solos e a de animais e plantas em gênero e espécie. A classificação de animais e plantas em gêneros e espécies é basicamente uma classificação genealógica, pressupondo-se ancestrais comuns em algum ponto da história evolutiva. O mesmo certamente não pode ser feito com os solos. Solos originam-se de rochas e sedimentos, sendo inclusive observados solos de uma mesma classe originados de rochas completamente diferente. Para ficar em Minas Gerais, não vi eu mesmo Latossolos (solos muito intemperizados) originados de filitos na Serra do Cipó, de gnaisse em Viçosa e de basalto em Capinópolis? O que os deve ligar são os processos pedogenéticos: grande intensidade do intemperismo químico e físico, remoção de elementos básicos, formação de argilominerais 1:1 e de óxidos de ferro e de alumínio, homogeneização dos horizontes, principalmente em termos de teores de argila, formação de estrutura granular estável…

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