Sobre a importância das obras na arte de pregar

Outro dia escrevi um texto cujo objetivo era para mim muito claro: não importa discutir, falar sobre meio ambiente, sobre mudanças climáticas, aquecimento global se nossas próprias ações são a causa disso tudo e não nos dispomos a agir diferente. Padre Antônio Vieira, em seu Sermão da Sexagésima, enunciou as palavras que eu gostaria de ter falado: “O pregar, que é falar, faz-se com a boca; o pregar, que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.” Embora em geral meu post tenha sido bem recebido, parece ter causado alguma irritação. Os que leram, desagradados, o que escrevi, reclamando alternativas, soluções práticas, lembram-me um fumante que, informado do câncer no pulmão, reclama remédios e uma cura rápida mas descrê do médico quando este lhe sugere parar de fumar. Peço, releiam o texto, pensem um pouco e chegarão a algumas soluções. Será necessário um outro post convencendo-os a não serem consumistas? Uma série de textos propagandeando as vantagens de se andar a pé, de bicicleta, ou no mínimo utilizar mais os transportes públicos? Teremos que explicar que se não houver compradores para arranha-céus dentro do mar, estes deixarão de ser construídos? Será realmente necessário explicar ao cidadão bem informado que os confortos a que ele se acostumou e exige têm um preço alto, não monetário, mas ambiental e social? Não, acho que na verdade, o incômodo veio em grande parte porque tentei mostrar que se não agirmos, se só discutirmos, a situação não vai melhorar. Seria melhor que eu tivesse proposto tecnologias inovadoras, futuristas e falasse, falasse, falasse… Eça de Queiroz já culpava o amor ibérico à oratória pela situação de atraso de Portugal do século XIX. Não preciso dizer que quando ele sugeriu que ao invés de discussar, agissem, foi violentamente criticado. Novamente Antônio Vieira: “A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena”. Duras palavras para uma geração de hedonistas, de mauricinhos e patricinhas. Não quer dizer que não sugeriremos soluções, como já temos feito várias vezes nestes mais de dois anos de Geófagos, quer dizer apenas que não estamos do lado dos que preferem ficar nas palavras. Dos politicamente corretos que defendem os saberes de minorias enquanto vestem roupas de grife depois de um banho de uma hora com chuveiro elétrico ligado. Não compactuamos com a ditadura da simpatia.
Ítalo M. R. Guedes

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