Depois do aquecimento global vem uma glaciação?!

Por Elton Luiz Valente

Já afirmei aqui no Geófagos que é razoável ter cautela antes de fazer afirmações categóricas sobre MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE LONGO PRAZO. O que se pode afirmar, com um grau razoável de confiança, é que o sistema é cíclico. A um período de resfriamento segue-se outro de aquecimento, e vice-versa. Pelo menos foi assim que o clima se comportou ao longo da evolução do Planeta Terra.

Durante o Pleistoceno estima-se que houve quatro grandes glaciações, intercaladas por períodos quentes ou interglaciais. Segundo alguns autores, o Holoceno marcou o fim da última era glacial, que teve seu início a cerca de 70.000 anos. Portanto, o período “interglacial” que estamos vivendo agora começou a cerca de 10.000 anos, no início do Holoceno.

Entre algumas teorias interessantes e consistentes sobre mudanças climáticas, existe a “Teoria de Milankovitch”, que explica as mudanças climáticas responsáveis pelas glaciações. Com alguns incrementos, ela é bem aceita pela comunidade científica. Esta teoria, diga-se, foi baseada em outras teorias sobre variações climáticas provocadas pelos movimentos orbitais da Terra.

É bom lembrar que os limites entre um ciclo e outro, segundo registros paleoecológicos, foram marcados por mudanças muito bruscas no sistema como um todo, principalmente no relevo, a exemplo do que ocorreu nos ciclos do Terciário, entre 65 a 1,8 Milhões de anos (Ma), e do Quaternário, de 1,8 Ma até o presente. Ou seja, catástrofes ambientais não são nenhuma novidade nesse velho planeta. Se alguém aí se lembrou de Santa Catarina, pode até ser que exista alguma semelhança, ou relação. Mas para acalmar os ânimos de quem acha que pode acordar amanhã em um mundo arrasado pelo calor, como num Inferno de Dante ou, ao contrário, em plena Era do Gelo, é bom lembrar que no mundo real as coisas não costumam acontecer como nos filmes de Hollywood. No ‘tempo geológico’ as mudanças geralmente são graduais e costumam levar alguns milhares de anos, no mínimo algumas centenas.

Para exemplificar, há uma seqüência de eventos interessantes que ocorreram em um período entre 400 a 300 Ma. Em linhas gerais, durante um ciclo de aquecimento observou-se, entre outras coisas, o aumento de oxigênio gasoso (O2) na atmosfera, seguido de um avanço extraordinário no desenvolvimento de plantas terrestres, como Pteridófitas de até 50 m de altura, no Carbonífero (354-290 Ma), e um também extraordinário seqüestro de carbono (CO2) por via da fitomassa. Foi a maior crise de carbono já registrada na Terra – daí o nome do período ‘Carbonífero’. E então? Surpresa! O seqüestro de carbono foi tão violento que precipitou o planeta em uma nova glaciação. No final do Permiano (290-248 Ma) o sistema já estava experimentando uma dramática extinção em massa, talvez a maior delas. Alguns autores afirmam que essa extinção atingiu cerca de 90% da vida marinha e 70% da vida terrestre.

Mas é importante lembrar que, no Carbonífero, o acúmulo da fitomassa na forma de matéria orgânica deveu-se, principalmente, à inexistência de consumidores e decompositores em escala compatível. O que é muito diferente do que aconteceu nos ciclos mais recentes, em que houve um ‘equilíbrio’ entre seqüestro e emissão de CO2, e vice-versa. Mas nos últimos 100 anos a coisa mudou bastante com a chegada do Homo sapiens petroliferus no pedaço, trazendo suas emissões descontroladas de CO2. E agora? Ao que tudo indica, teremos uma crise ambiental pela frente. Uma TPM planetária não é pouca coisa, além de imprevisível é sempre desastrosa, quando não catastrófica. Se alguém propor uma boa hipótese sobre o rumo que ela vai tomar, estará se revelando um bom especulador. E ainda, esta crise certamente não será a última. Pode apostar, você não estará aqui para receber a aposta, mas pode apostar. Uma coisa é certa, o único dentre os filhos de Gaya capaz de pensar e arquitetar uma solução para o problema é o Homo sapiens sapiens. Só não sabemos se vai dar certo.

Os ciclos de aquecimento, glaciações, extinções me fazem lembrar do saudoso Raul Seixas, que já dizia, com o seu impagável deboche e bom humor: “… o planeta é como um cachorro, eu vejo, se ele já não agüenta mais as pulgas, ‘se livra’ delas num sacolejo…” É isso aí! O planeta já fez isso mais de uma vez.

Para finalizar, há uma outra variável nessa equação planetária que ainda é negligenciada. O nosso sistema solar não é novo, poderíamos dizer que está velho, com manifestos traços de senilidade. O Sol já está começando a ratear feito um velho motor de Kombi à gasolina. É bom pensar nisso também…

Discussão - 14 comentários

  1. manuel disse:

    Caro Elton
    Li tudo. Uma lição. E sabe o que ela me fez lembrar? Pois foi,nada mais, nada menos,o épico da nossa língua comum,o grande Luís Vaz de Camões,mais particularmente,um dos seus sonetos:
    Mudam-se os tempos,mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser,muda-se a confiança;
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades…
    Um visionário,o épico Camões. Mas é melhor ficar por aqui hoje. Pode ser que ainda cá esteja num outro dia,antes da “próxima glaciação” ou outra coisa qualquer,que uma “nova qualidade” pode estar na forja.
    Muita saúde e muitas realizações.

  2. Prezado Manuel,
    Muito obrigado por sua presença aqui no Geófagos e por nos lembrar do Ilustre Camões, especialmente por encontrar um paralelo entre a poesia dele e o meu texto.
    Quando reflito sobre estas coisas, eu me lembro também de Heráclito (540-470 a.C.), que já dizia: “O universo é fogo que se acende e se apaga na mesma medida.”
    Muita saúde e muitas realizações pra você também!

  3. É realmente Raul Seixas tinha total razão…
    Quanto ao aquecimento global de fato eu acredito neste ciclo … claro … e também imagino que o ciclo caminha lentamente … e que até mesmo as catastrofes “SC” no qual estamos acompanhando , talvez fossem normais em alguns períodos aí das eras … mas não havia seres humanos para que estas ditas “catástrofes” recebessem este nome…. ou melhor … seres humanos iu “desabrigados, motos” o que seja ….
    No mais não dá para pensar NUNCA que não veremos coisas piores acontecerem.. as coisas* estão acontecendo tão rapídas que talvez não terá nem netos para que se preocupem com os desleixos dos homens de HOJE …
    Abraços

  4. Companheiro Elton,
    A maior parte dos dados realmente aponta para um aquecimento global. Aquecimento esse provocado pela liberação de CO2 anteriormente geologicamente aprisionado e liberado pelo “bicho homem”. No entanto, devemos lembrar que a homeostase é a base da “mãe terra”. Ela sempre tende a eliminar o que está errado a fim de erradicar o problema. E é bom lembrar que isso independe da raça. O fato é que se for preciso ela eliminará sim a espécie humana, assim como já aconteceu com outras. Ou seja, conosco ou sem nós, o equilíbrio será reestabelecido. A questão é definirmos se queremos mudar a situação com continuar com nossa prepotência, nos achando superior por sermos os “pupilos” do criador.
    Abração e excelente post.

  5. manuel disse:

    Caros Geófagos
    Uma reacção espontânea,nocturna, à réplica de Carlos Pacheco. O “sermos os “pupilos” do criador. Seremos? Casos não faltam para se duvidar.É que temos muitos companheiros de “route”,em particular as “irmãs” bactérias,como diria S.Francisco, e outros que tais,os muitos bichinhos,nos quais se inclue o “bichão” homem ou mulher,tanto faz.
    Na tal homeostase,quem resultará do equilíbrio que se venha a perfilar? Eu cá não sei. Talvez o ou um outro Big Bang, talvez o patriarca dos não crentes saibam,pode ser que estejam dispostos a esclarecer.
    Desculpem a reacção. Devo ter dormido mal,porventura seja o que aí fica restos de um pesadelo.
    Saúde e muito investigar,que há ainda muita coisa por descobrir,em física,em química,em biologia e em tudo o resto que por aí vai,alguma,até escondida,como os “black holes”.
    Mais uma vez,as minhas muitas desculpas,mas estão sempre a tempo de me fecharem a porta.

  6. geofagos disse:

    Caro Manuel,
    Acho que o meu comentário provocativo fez efeito. Mas a intenção era justamente essa. O “bicho homem” tem que entender que ele faz parte do sistema terra e não o sistema terra faz parte dele. Só quando ele deixar de acreditar que tem o domínio sobre tudo e que pode ser afetado pelas reações do sistema é que as coisas podem mudar. O se achar melhor que outras espécies podendo modificar indiscriminadamente o ambiente tem levado o sistema ao colapso e isso, na minha opinião, muito vem da espécie humana se achar intocável por serem a “pupila” do criador.
    Abraços,

  7. Luiz Bento disse:

    Um vídeo que ilustra bem a discussão deste post:
    http://www.youtube.com/watch?v=X_Di4Hh7rK0

  8. manuel disse:

    Caro Carlos Pacheco
    Já que os Geófagos não me fecharam a porta,vou aproveiar para dar conta duns restos do pesadelo. Oxalá não se venham a arrepender. E faço-o,pois posso já cá não estar amanhã,ou mesmo daqui a bocadinho(o que era uma pena,diriam alguns).
    Para começar,uma frase de Teilhard de Chardin – “Que Deus me conceda sempre a graça de ouvir e de fazer que os outros oiçam até à embriaguês a imensa música das coisas”.
    No pesadelo,fazia eu uma pobre tentativa de o imitar,não pela música,mas pela simples visão delas. E, para encurtar,ficava-me pela água,que, prodígio dos prodígios,tem três estados,sem deixar de ser ela,a taumaturga. Muito eu olhava para ela,lá no pesadelo,e fazia-lhe perguntas. Como consegues fazer tu isto? Ela respondia,mas ficava eu na mesma. Acabei por desistir das interrogções e fiz-lhe um veemente pedido. Que ela corresse sempre nos rios,que as fontes não secassem,que as nuvens sempre se encastelassem,que a neve sempre caísse.Ela ouviu muito atenta,com um ar muito pensativo. Sabe,as coisas estão complicadas. Não posso,agora,dar uma resposta. Vou fazer aí umas consultas,depois,lha darei. E cá estou à espera. Pode ser que a receba.
    E pronto,agora é que é. Porta fechada. Outra que esteja para o aturar.
    Saúde e que nunca água vos falte.

  9. geofagos disse:

    Caro Manuel,
    Não sei se me expressei bem, parece que não. Não quis e não quero parecer estar debochando de Deus, Alá, Buda, ou seja lá quem for que o leitor acredite. Na verdade, o que eu usei quando disse a expressão “pupilo do senhor” foi uma metáfora para exibir o meu pensamento sobre a condução das coisas terrestres pelo homem. Como disse no meu outro comentário, o se achar dessa forma levou e ainda tem levado o homem a agir como se fosse o dono de tudo, sem respeitar os limites de consumo, de geração de resíduos, de desmatamentos, enfim, os limites ambientais do planeta. O homem não pode ser egocêntrico a ponto de achar que tudo gira ao seu redor, que o planeta vai se adaptar à sua existência. Não, não vai. Se for preciso o planeta irá sim buscar um novo equilíbrio, irá buscar uma forma de manter o sistema em ordem, uma forma de transformar a alta entropia em baixa entropia. É o ciclo natural das coisas. O posicionamento da espécie humana é que tem que ser claro, não adotando medidas paleativas, mas sim medidas efetivas de mudança comportamental. A primeira delas é deixar de achar que é o centro do universo e que todo o ciclo biogeoquímico e comportamental do planeta a tem em seu centro. Não, mais uma vez repito, o homem faz parte do sistema e não o sistema faz parte do homem.
    Abraços e que fique bem claro que respeito sua posição, mas também tenho a minha.
    Boa sorte,

  10. manuel disse:

    Caro Carlos Pacheco
    Parece que houve entre nós um mal entendido reciproco. O culpado deve ter sido o expressar,que é um bocadinho diferente.
    De qualquer modo,vendo bem as coisas,a sua posição é a minha. Seja ou não diverso o entendimento que temos de um Criador,uma coisa é certa,ambos reconhecemos que o Homem,sendo, ou não sendo,o “pupilo do Senhor”,tem-se comportado muito mal. E não só no tratamento que tem dado à criação. Avulta,sobretudo,o seu comportamento face ao outro,qualquer que ele seja,mesmo perante o seu mais próximo. As lutas,as guerras,dentro e fora de portas,desde,talvez,o começo dos começos. Um horror,Carlos Pacheco,de arripiar.E sem fim à vista.
    E fico-me por aqui. Tenho pena que tenha achado a sua posição diferente da minha. Eu cá não acho. É que há diferenças muito grandes,Carlos. As nossas pequenas diferenças nada são perante essa outra dimensão de diferenças. Tínhamos de ter algumas,porque não somos duplcados. Ainda se está longe,ou não,da clonagem humana.
    Lá estava eu,o sem vergonha,a estender-me. E,de facto,o que eu me tenho estendido,agora e ontem. Mas não só eu,é o meu descanso. O que vai para aí de estendimentos.
    Que o Criador se compadeça de todos.
    Saúde e perdoe-me o eu ter-lhe dado “argumentos” para achar a minha posição diferente da sua.

  11. geofagos disse:

    Tudo bem Manuel,
    A discussão fundamentada é sempre bem vinda.
    Como já disse antes, a sua presença no Geófagos sempre eleva o tom dos debates e isso é muito bom para essa humilde página.
    Grande abraço,

  12. Goncalves disse:

    Gostei do saite e gostaria tambem de ter beneficios de informacoes sobre a geografia

  13. carlos disse:

    isso tudo é muito simples, superlotamos o mundo, estamos usando até o fim os recursos disponíveis, e vai chegar ao fim, e será o término da nossa existência, no universo, tudo se transforma, e não seremos nós que ficaremos prá contar história nenhuma, infelizmente somos conscientes da nossa própria sorte, é só isso, o resto, com tecnologia, ou sem ela, iria acabar de qualquer jeito, podemos ter acelerado o processo, más como parte da natureza, tinhamos que fazer nossa parte, e não estamos errados—-cristo teve que ter um judas, o mundo tem a nós como seu carrasco.
    bom fim de mundo a todos nós

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