Futuros líderes da energia limpa, será?

Há cerca de um mês atrás, salvo engano, li uma reportagem no caderno ambiente da Folha Online com o diretor do Centro de Leis e Políticas Ambientais da Universidade de Yale, Daniel Esty. O tema da reportagem era a possível liderança internacional do Brasil quando assuntos como geração de energia por fontes alternativas e mudanças climáticas globais estivessem em pauta. Segundo Esty, o Brasil apresenta-se fortemente inclinado a assumir tal posição. No entanto, ele chama a atenção para o fato de que o país deve, antes de tudo, resolver problemas internos que o colocam como o quarto maior emissor de gases do efeito estufa do mundo. Questões como o combate ao desmatamento e as queimadas, além de outras relacionadas à redução das emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis são fundamentais. Além disso, ele cobra um posicionamento do Brasil frente a uma nova conjuntura que se estabelecerá pós-Kyoto, cujo prazo de validade está se esgotando, expirando em 2012. Como já comentei em outros posts, o Brasil, assim como outros países em desenvolvimento grandes emissores de gases do efeito estufa, exemplificados aqui por China e Índia, não apresentam metas de redução de emissões, uma vez que, na época da elaboração do Protocolo de Kyoto, foram enquadrados como países do não Anexo I.
Na reportagem, Esty baseou seu prognóstico no fato do Brasil já ter um histórico positivo com relação ao uso do etanol. Além disso, o país apresenta um plano para uso desse e de outros biocombustíveis de segunda geração, além de ter uma matriz de geração de energia elétrica essencialmente limpa, hidrelétrica. Porém, algumas questões aqui podem e devem ser levantadas e discutidas. O fato de o Brasil ser líder em biocombustíveis e produzir energia elétrica essencialmente hidrelétrica já o torna aspirante a líder mundial do setor? Na minha opinião não. Antes de aspirar qualquer posição hierárquica mais alta o país tem que resolver problemas sócio-ambientais ligados à produção dessas “limpas” formas de energia. É só observar as condições de trabalho a que os cortadores de cana são submetidos ou observar como ganha força o movimento dos atingidos por barragens. Não obstante, é condenável um avanço das fronteiras agrícolas de cana-de-açúcar sem um planejamento adequado, levando-se em consideração aspectos importantes como a segurança alimentar ou mesmo planos de manejo e conservação ambiental. Também não é fora de mão discutir-se aspectos relacionados à geração de energia elétrica por fontes alternativas, como eólicas (a partir dos ventos) ou solares, cujo potencial de geração do país é grande, como pode ser visto aqui.
Se existe realmente a pretensão, por parte do governo brasileiro, de assumir tal posição, os números recentes não são nada animadores. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)  a taxa de desmatamento da Amazônia cresceu entre agosto de 2007 e julho de 2008, primeira alta anual desde 2004. Os números cresceram 3,8%, atingindo 11986 km2. Coincidência ou não, na segunda-feira dessa semana (08/12/2008), o presidente Lula em seu programa de rádio (Café com o Presidente), colocou o Brasil como postulante ao debate internacional, principalmente por meio do lançamento do Plano Nacional de Mudanças Climáticas. Uma das idéias bases é combater o desmatamento da Amazônia que hoje representa a principal fonte de gases do efeito estufa. As metas são ambiciosas, mas atingíveis. Elas visam reduzir à metade o desmatamento da floresta até 2017.
Enfim, é esperar pra ver. As cartas estão na mesa. O potencial existe, falta ser aproveitado. Para isso, nada como uma boa dose de vontade política para catalisar a reação. No entanto, uma coisa é certa. Não é com projetos que visam reduzir a necessidade de se preservar 80 % da floresta em propriedades particulares que isso será conseguido.
Carlos Pacheco

Discussão - 9 comentários

  1. manuel disse:

    Caros Geófagos
    Pondo de lado lideranças,como mero observador da saga “alterações climáticas-aquecimento global), tropeço, a cada passo, com uma série enorme de figurantes-o CO2,o CH4,a gasolina,o gasóleo,o etanol(da cana,do milho,da celulose),o biodiesel(das oleaginosas,da biotecnologia),as energias alternativas(eólica,solar,das ondas,hidráulica,da biomassa,geotérmica,ar comprimido),H2(da hidrólise da H20,da biotecnolgia),baterias.E o que me faltou e o mais que está para aparecer,que essas cabecinhas não param,graças a Deus,o Deus Único.
    E fico baralhado. Para onde um pobre se voltar? É que há os alimentos,é que há,segundo leio,à volta de mil milhões de famintos.
    Mas é melhor ficar por aqui,que já ocupei muito espaço,e ele vai escasseando.
    As minhas muitas desculpas por esta incursão em seara alheia,mas acreditem que não levo nada.
    Saúde

  2. Luiz Bento disse:

    Concordo com você Carlos.
    Além dos problemas da produção de etanol em larga escala que você citou, ainda existem outros muitos…perda de biodiversidade, emissão de N2O(um gás muito mais estufa e ainda reage com a camada de ozônio), eutrofização de corpos aquáticos com pelo abuso de fertilizantes, agrotóxicos. Vários problemas da monocultura em larga escala. Isso sem falar que cada vez mais essas monoculturas avançam para dentro do pantanal e amazônia. A cana é a nova soja.
    Estava discutindo com a Paula do rastro de carbono na semana passada. Os vegetarianos se vangloriam tanto de contribuir menos com o aquecimento global porque vacas emitem metano. Se formos colocar na ponta do lápis mesmo, tenho certeza que eles iriam perder este argumento.
    Voltando a cana. Um combustível só é considerado negativo em carbono quando a resultante de toda a cadeia produtiva é negativa, resultando em uma maior captação de carbono do que emissão. Quanto mais negativo é este resultado, “melhor” é o biocombustível. Mas as vezes o pessoal que faz essa conta esquece algumas parcelas importantes…
    Ainda faço um post sobre o mito dos biocombustíveis. Vivemos em um mundo onde tudo precisa ser verde para ser considerado bom. Mesmo sem uma análise mais profunda. Criamos monstros. Antigamente ninguém pensava em conservação Hoje em dia qualquer coisa considerada “verde” ganha um status. Acho que passamos do ponto.
    Abraços.

  3. Paula disse:

    Sensacional, Carlos!
    Pena que nem sempre os pesquisadores brasileiros veem isso com tãos bons olhos.
    Pena também que nosso governo tem fracassado na luta contra o desmatamento. Sinceramente acho essa meta uma vergonha, acho que com fiscalização e punição, o prazo poderia ser bem menor, bem antes de 2017…

  4. smx disse:

    No brasil , tem muito papo e pouca ação…
    temos tudo para liderar , mas vai acabar outro país tomando a nossa frente nas questões ambientais e vamos ficar a ver navios… again

  5. manuel disse:

    Caro Carlos Pacheco
    Quero,em primeiro lugar,pedir desculpa por não me ter dirigido,anteriormente, a si,o autor do post. E não o fiz pela simples razão de não ver lá o seu nome. Mais uma vez as minhas desculpss.
    Quero também felictá-lo por ter posto,novamente,o acento na preocupaçãoo sócio-económica,quando da produção de novas formas de energia. É claro que a proveniente do etanol não é”limpa”,não sei se mais “suja” do que a que vai substituir.
    E continuo a felicitá-lo pela sua preocupação com a segurança alimentar.
    Por último,um esclarecimento. Desmatar é fazer desaparecer mais um pedaço da floresta? Se é,lá se vai mais um pedaço do “sink” natural do CO2. Sabe melhor do que eu que querem enterrar CO2. O dinheirão que isso custará.
    E chega,ou melhor,fiquei esgotado,sem mais nada para dizer.
    Mais uma vez,as minhas desculpas e as minhas felicitações.

  6. geofagos disse:

    Olá Manuel,
    Na verdade eu havia esquecido de assinar o post. Corrigi o erro posteriormente. Eu lhe agradeço imensamente pelas felicitações. Acredito que seja função do Geófagos e outros sites políticos e científicos mostrar o outro lado da moeda. Lado esse que a grande mídia não mostra, diga-se de passagem. Desmatar é isso mesmo, desaparecer mais um pedaço da floresta. E é por isso que as notícias não são animadoras para um aspirante a líder do setor.
    Enfim, é isso.
    Desculpas não são necessárias, agradecimentos pela sua constante fidelidade ao geófagos sim.

  7. geofagos disse:

    Concordo com você Paula.
    Revendo o que escrevi, realmente é muito tempo para um resultado que já deveria estar sendo obtido.

  8. geofagos disse:

    É Luiz,
    Na verdade os impactos são inúmeros. Mais de um post seriam necessários para discutí-los. Caso queira fazer um post conjunto sobre o mito dos biocombustíveis, estamos aqui.
    Abraços.

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