Será mais um fiasco ambiental?

Ministros de estado de cerca de 150 países estiveram reunidos de 1 a 12 de dezembro em Poznan, na Polônia, para delinear um esboço de um novo plano mundial de combate ao aquecimento global, cuja reunião definitiva está agendada para o final de 2009, na Dinamarca. O foco da décima quarta Conferência das Partes (COP – 14) da Organização das Nações Unidas é o início de um novo acordo que substituirá o Protocolo de Kyoto, cujo prazo expira em 2012.
No entanto, ao que tudo indica, o fracasso mais uma vez tomará conta de uma reunião ambiental da ONU. E a vilã do momento é a atual crise econômica. Para se ter uma idéia do clima de pessimismo por lá, a representação americana do governo Bush parece ser tratada como coisa do passado e ao que tudo indica não mais tem “moral” para discutir questões tão importantes. Além disso, a União Européia andou esvaziando algumas reuniões, pois alegava que cumprir metas de redução em período de crise “braba” é colocar a corda no pescoço e pedir alguém para chutar o banquinho. Já os países em desenvolvimento continuam com o mesmo “papo furado”, alegando que não podem pagar a conta dos países desenvolvidos, reinvindicando o direito de se desenvolver. O Brasil, por exemplo, parece se negar a estabelecer metas contra o desmatamento, principal responsável pelas emissões do país. Para não ser injusto, um plano muito longe do ideal até foi apresentado e valeu até elogios do prêmio nobel da paz (parece até brincadeira) Al Gore.
Ora, ora, ao que tudo indica a lição passada pelo relatório de Brundtland ainda não foi aprendida. Em uma das conclusões da referida publicação (também denominada Nosso Futuro Comum), o alerta para um grande declínio econômico e industrial nos próximos cem anos (o relatório foi publicado em 1987) graças à insustentabilidade dos métodos desenvolvimentistas neoclássicos é bastante claro. Será que já não estamos vivendo o início dessa fase? É o velho paradigma da sustentabilidade fraca (economia ambiental neoclássica) contra a sustentabilidade forte (economia ecológica).
Pelo menos notícias boas também chegam. A própria União Européia assumiu hoje o compromisso de reduzir em 20% suas emissões até 2020, com base nos dados 1990. É verdade que muitas concessões foram feitas, mas mesmo assim já é um avanço. Já nos Estados Unidos, Obama não para de afirmar que lutará com unhas e dentes contra o aquecimento global, combatendo as emissões americanas. É esperar para ver.
Para finalizar esse, que pretendia ser mais um post informativo do que científico, gostaria de deixar um recado que ao meu ver se encaixa bem no atual momento mundial. É hora de rever-se conceitos, aproveitar a crise para quebrar paradigmas, mudar a forma de lidar com o ambiente, aumentando na medida do possível, a sustentabilidade dos meios de produção e também da cultura consumista ocidental. Não obstante, é preciso lembrar que a visão econômica ambiental neoclássica, de que todos os insumos necessários à produção são substituíveis, cada vez mais cai por água a baixo. Que tal então mudarmos um pouquinho o foco para a visão econômica ecológica, que ao meu ver, se enquandra bem melhor no padrão de sustentabilidade desejável?
Carlos Pacheco

Discussão - 6 comentários

  1. manuel disse:

    Boa noite Carlos Pacheco
    Cá estou eu,mais uma vez,um leigo na matéria. Desta,para fazer uma pergunta e três focagens no seu compreensivo texto.
    A pergunta-Então o desmatamento é o principal responsável aí das emissões? Face às resultantes da combustão dos biocombustíveis e dos clásicos combustíveis,gasolina e gasóleo? É de pasmar. Ai minha rica floresta Amazónica,captadora por excelência de Co2 e oxigenadora do ar respirado. Devo estar a sonhar.
    As focagens. Primeira:…tudo indica o fracasso…Mais um,para não variar. Se for,não será o último,se se estiver longe do fim.
    Segunda:…tudo indica…lição não aprendida…Ele há lá tempo para lições,depois,já se sabe tudo.Terceira-É hora de rever-se conceitos. Mais um é hora. Ainda há horas.
    Desculpe Carlos,chegou a hora de ir para a caminha. Pode ser que ainda haja um amanhã.
    Saúde

  2. geofagos disse:

    Caro Manuel,
    Sim, o desmatamento é a principal fonte de “emissões”. Na verdade, a retirada da mata e, consequentemente, a perda da capacidade de sequestrar o CO2. Além disso, tantas e tantas vezes a retirada da mata é proporcionada, ou seguida, por queimadas que disponibilizam grande quantidade desse gás. Enfim, não sei se fui claro em minha abordagem.
    As focagens feitas por você indicam a completa compreensão da idéia central do texto. Rever conceitos em épocas como essa, de intensa crise, é a saída mais inteligente para alcançarmos um patamar mais alto de desenvolvimento. Talvez não o desenvolvimento voltado apenas para o acúmulo de riquezas, mas também para que maior dignidade da pessoa humana, respeitando sempre seus direitos básicos, seja conseguido.

  3. manuel disse:

    Caro Carlos
    Obrigado pelo pronto esclarecimento. Mas se não se importa,punha à sua consideração dois posts que há tempos pus no blog alguresnestevale.
    MICORRIZAS
    A natureza é sábia,que é o mesmo que dizer que é sábio o seu Artífice.Uma prodigiosa amostra disso são as micorrizas,associações ideais de raízes e de fungos. Pelas raíses,os fungos recebem os sintetizados,como hidratos de carbono,aminoácidos,e demais família orgânica.Pelas hifas dos fungos,chegam às raízes o que se encontra dissolvido na água,aumentando-lhes ,assim,as suas próprias capacidades. Uma espécie de pagar a dívida. Genial.
    Está aqui,nesta simbiose feliz,o segredo da pujança da floresta Amazónica.
    A PROPÓSITO DA FLORESTA AMAZÓNICA
    Já aqui pobremente lembrada. Que massa,que força,que pujança. Não se diria que o solo onde ela se levanta fosse,no geral,tão pobre,quase só areia. Então como explicar este aparente milagre da natureza? É uma conjugação feliz de vários factores. Em pimeiro lugar,à cabeça,o sol e a água. A clorofila vem depois. E é um sintetizar permanente de material orgânico. A manta morta que por ali vai de toda aquela folhagem e companhia,só quem a vê acredita. Para os nutrientes que a água traz,há,claro,as raízes,mas,acima de tudo,as micorrizas,um entendimento mútuo de radículas e fungos,uns parasitas que retribuem bem a hospedagem,de cama e mesa.
    Decepada ela,a floresta,fica um solo que não se esperaria. E então há que o fabricar muito depressa. Porque com aquele sol e aquela água,a folhagem e companhia,e os seus restos, que por lá haja, desaparecerão enquanto o diabo esfrega um olho. E é o diabo. Lá se vai aquele natural captador do famigerado CO2,numa extensão única,exemplar.
    Desculpe a maçada que lhe estou a dar,se chegou aqui. Mas o que é que um velho há de fazer,para se entreter,para se sentir ainda vivo?
    Saúde

  4. geofagos disse:

    Manuel,
    Seus comentários sempre muito pertinentes. É uma honra ter a assiduidade de um leitor com tamanho conhecimento e capacidade de se expressar.
    Abraços e muita saúde pra você também.

  5. manuel disse:

    Caro Carlos
    Parece ter aqui cabimento o seguinte artigo da Science-
    Boom-and-Bust Development Patterns Across the Amazon Deforestation FrontierA. S. L. Rodrigues, R. M. Ewers, L. Parry, C. Souza, Jr., A. Veríssimo, and A. Balmford (12 June 2009)Science 324 (5933), 1435-1437. [DOI: 10.1126/science.1174002]
    Estarei equivocado?
    Muito boa saúde.

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